(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Apresentação

Apresentação e Metodologia

por: Levi de Paula Tavares

Apresentação

Este trabalho tem a proposta de apresentar uma análise teológica, capítulo a capítulo, do livro Uma Vida com Propósitos, de Rick Warren. O livro é uma das obras devocionais mais lidas do cristianismo evangélico contemporâneo: segundo os números divulgados pelo autor e por suas editoras, passa de 50 milhões de exemplares vendidos, em todos os formatos, e está traduzido para mais de 100 idiomas. Sua presença é constante em devocionais pessoais, reuniões de pequenos grupos de estudo e programas de discipulado em praticamente todas as denominações cristãs, inclusive em igrejas adventistas do sétimo dia, que têm promovido o estudo deste livro ou de materiais baseados em seus conceitos e em sua metodologia.

Essa presença em círculos adventistas é o que motiva o presente projeto, que tem caráter de orientação espiritual, e não de exercício acadêmico isolado. O objetivo é fornecer elementos para que os irmãos e irmãs que já leram, que estão lendo ou que pretendem ler esta obra o façam com discernimento, reconhecendo o que nela é genuinamente edificante e os pontos em que seus pressupostos teológicos se afastam da fé professada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Este trabalho é conduzido por Levi de Paula Tavares, que atua há várias décadas na área de música na igreja e, nesse período, dedicou-se à pesquisa dos conceitos bíblicos de adoração. Dessa pesquisa resultou o livro Adoração — O Presente do Homem para Deus, também usado como material de apoio nesta série (ver seção “Fontes utilizadas na análise”).

Pressupostos teológicos de Rick Warren

Rick Warren escreve a partir de uma tradição evangélica batista, marcada por pressupostos teológicos legítimos dentro de sua própria comunidade de fé, situada no contexto do Movimento de Reavivamento norte-americano — um arcabouço teológico em que a conversão é definida como uma decisão pessoal e pontual, tomada em um momento definido no tempo. Porém, de acordo com as palavras do próprio Rick Warren, é possível observar que há uma tensão não resolvida: essa ênfase de que a conversão seja alicerçada em uma decisão humana histórica e pontual convive com uma autodeclaração ocasional de que ele seria monergista, isto é, alinhado à ideia reformada de que a salvação depende inteiramente da iniciativa de Deus. Isso torna ambígua sua posição sobre livre-arbítrio e predestinação, mesmo entre seus próprios leitores. Warren também trata a glorificação de Deus como o fim último de toda a existência, na linha do que autores como John Piper chamam de “hedonismo cristão”, e apresenta o destino eterno como algo já garantido no momento em que a decisão de fé é tomada.

Por fim, sua metodologia pastoral é marcadamente pragmática. Isto significa que uma ideia é considerada válida somente se funcionar na prática e resolver os problemas reais. Este pragmatismo é herdeiro do Movimento de Crescimento de Igrejas, de Donald McGavran e da ênfase de Robert Schuller na autoestima e na comunicação positiva. Esta visão pragmática defende que o formato do culto e da linguagem utilizados devem ser adaptados de forma a atenderem àquilo que estiver mais ao agrado do público não cristão (não convertido). Essa lógica pragmática, voltada primeiramente à eficácia pastoral, ajuda a entender por que categorias doutrinárias mais específicas, ou seja, aquelas que historicamente distinguem uma tradição cristã de outra, raramente aparecem de forma explícita ao longo do livro.

Esses pressupostos nem sempre coincidem com o que o adventismo considera central para uma compreensão bíblica plena, tais como a doutrina do santuário, o estado dos mortos, o sábado como sinal da criação e da santificação, o grande conflito entre Cristo e Satanás, e a mensagem dos três anjos, entre outros. O leitor adventista desavisado tende a absorver, junto com verdades bíblicas genuínas e bem apresentadas, pressupostos de outra tradição teológica sem perceber a diferença. Isso pode acontecer não por falta de fé ou de inteligência, mas simplesmente porque ninguém lhe apontou onde estão as bifurcações teológicas. Este trabalho se propõe justamente a apontá-las.

O que este trabalho não é

Antes de descrever o método, cabe demarcar os limites do projeto com a mesma clareza com que se descrevem seus objetivos:

  • Não é um ataque pessoal a Rick Warren nem um julgamento de sua sinceridade, sua fé ou seu chamado pastoral. Ele escreve dentro de sua própria tradição, para seu próprio público, com uma coerência interna que esta análise respeita mesmo ao discordar de alguns de seus pressupostos.
  • Não nega o valor genuíno da obra. Muitos capítulos contêm ensino bíblico sólido, ilustrações úteis e um chamado legítimo à vida centrada em Deus, que esta série reconhece explicitamente sempre que se aplica. Daí a presença da seção “Pontos de convergência” em cada artigo.
  • Não é uma leitura infalível. Trata-se de um exercício teológico sujeito à revisão, ao diálogo e à correção, como convém a qualquer trabalho humano que lida com as Escrituras.
  • Não reproduz o texto protegido por direitos autorais do livro. Cada artigo resume e parafraseia fielmente os argumentos de Warren, citando apenas frases pontuais e curtas quando estritamente necessário para a análise, sempre com a devida atribuição.

Metodologia

Cada um dos 40 capítulos (“Dias”) do livro recebe um artigo próprio, estruturado nas seguintes cinco seções fixas:

  1. Resumo do argumento do capítulo: uma síntese fiel, em palavras próprias e com eventuais citações curtas, do que Warren efetivamente escreve, sem distorcer nem exagerar suas posições.
  2. Pressupostos teológicos implícitos: a identificação dos conceitos teológicos e das categorias doutrinárias que moldam ou estão subjacentes ao argumento, mesmo quando não plenamente explicitadas pelo autor.
  3. Base bíblica usada por Warren: os textos que ele cita, a versão ou paráfrase utilizada e uma avaliação exegética de seu uso: fiel, extrapolado, descontextualizado ou legítimo.
  4. Pontos de convergência: o reconhecimento explícito e honesto daquilo em que Warren e a teologia adventista concordam, para que a análise não se torne uma lista unilateral de objeções.
  5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia adventista: o núcleo crítico de cada artigo e o lugar em que a posição adventista é apresentada. A seção abre reconhecendo o que o capítulo tem de compatível com a doutrina adventista e nomeando os pontos que pedem um acréscimo ou uma correção. Cada ponto examina o que o capítulo diz ou deixa de dizer e expõe o que a teologia adventista, ancorada nas Escrituras, nos escritos de Ellen G. White e nas 28 Crenças Fundamentais (conforme descritas no livro Nisto Cremos), tem a acrescentar, esclarecer ou corrigir. Em seguida, mostra as consequências teológicas ou pastorais concretas de assimilar essa lacuna, imprecisão ou pressuposto sem qualificação. Isso dá à seção um caráter aplicado, e não apenas descritivo.

Um cuidado específico da terceira seção merece registro à parte. Warren recorre com frequência a paráfrases bíblicas, em sua maioria de autor único, como The Message, de Eugene Peterson, a Bíblia Viva, Cartas para Hoje, de J. B. Phillips, e a Amplified Bible, para sustentar seus argumentos. Por se tratar de paráfrases, e não de traduções de equivalência formal, esses textos já incorporam escolhas interpretativas de seus autores ou tradutores, que nem sempre correspondem efetivamente ao que o texto grego ou hebraico sustenta com a mesma ênfase. Sempre que uma dessas paráfrases aparecer como base textual principal de um argumento mais específico do capítulo, esta série coteja a leitura com uma tradução mais formal, como a Almeida, a NASB, a NRSV ou a Bíblia de Jerusalém, registrando a observação de forma breve.

O mesmo cuidado, com critério mais seletivo, se aplica às traduções de equivalência dinâmica que Warren usa com frequência, como NTLH, NLT, CEV, NCV, GWT e a própria NVI. Quando uma delas sustenta sozinha um argumento mais específico do capítulo, o cotejo com uma tradução de equivalência formal também é feito. Eventuais divergências exegéticas relevantes, que mudem o sentido do texto e não apenas seu estilo, são registradas.

Fontes utilizadas na análise

  • A Bíblia: as citações do texto bíblico usam sempre a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), a menos que explicitamente descrito de outra forma. A exceção a esta regra está na seção 3 de cada artigo, que documenta as versões que o próprio Warren utiliza.
  • Os escritos de Ellen G. White, consultados conforme a pertinência de cada capítulo: obras como O Desejado de Todas as Nações, Patriarcas e Profetas, Mente, Caráter e Personalidade, O Grande Conflito e A Ciência do Bom Viver aparecem com frequência, entre outras, à medida que os temas de cada dia as tornam relevantes. Seu papel é sempre contextualizado: luz menor que aponta para a luz maior das Escrituras, jamais em pé de igualdade com o cânon bíblico.
  • As 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, como referência doutrinária oficial, consultadas diretamente na obra Nisto Cremos (Casa Publicadora Brasileira), que desenvolve cada uma delas capítulo a capítulo.
  • Obras de referência adventistas, como o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, consultadas para aprofundar questões exegéticas específicas. Seu uso é sobretudo interno: informa a análise mesmo quando não citada diretamente no texto do artigo.
  • Material de apoio adicional do autor desta série (ver nota biográfica na Apresentação): o livro Adoração — O Presente do Homem para Deus, consultado sobretudo nos artigos do bloco “Propósito 1”; e artigos publicados no site Música Sacra e Adoração, usados pontualmente para aprofundar questões específicas de música sacra. Este material de apoio nunca é citado em pé de igualdade com a Bíblia ou com os escritos de Ellen G. White, apenas para enriquecer a argumentação já ancorada nessas fontes primárias.

Um princípio orientador: o método bereano

O espírito que guia esta série inteira está resumido em Atos 17:11, a respeito dos cristãos de Beréia, que “receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”. A esse princípio se soma a admoestação de Paulo aos tessalonicenses: “julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:21). Esse espírito se traduz num hábito de leitura disciplinado: acolher o que edifica, testar tudo à luz da Palavra e discernir com clareza onde os caminhos se separam. Isso não implica desconfiança generalizada em relação ao que vem de fora da tradição adventista.

Como usar este material

Cada artigo pode ser lido de forma independente, acompanhando a leitura diária do próprio livro, ou consultado posteriormente como material de referência para estudo em grupo, aconselhamento pastoral ou formação doutrinária. Recomenda-se, sempre que possível, ter o capítulo correspondente do livro em mãos, a fim de que o leitor confira por si mesmo o argumento original antes de avaliar a análise aqui apresentada. O mesmo princípio bereano que este trabalho procura exercitar é oferecido também ao leitor.

Índice remissivo

Complementando os 40 artigos, um índice remissivo alfabético reúne os principais assuntos tratados ao longo da série. Ele traz ainda um índice cruzado por capítulo de Nisto Cremos, a bibliografia de Ellen G. White citada nos artigos, os personagens e as parábolas bíblicas usados como argumento e as versões bíblicas usadas por Warren. Serve para localizar rapidamente onde um tema específico, um livro de Ellen White ou um capítulo das 28 Crenças Fundamentais foi abordado, sem precisar reler cada artigo por inteiro.

Estrutura da obra analisada

Para efeito de referência, o livro de Rick Warren se organiza em uma introdução de sete dias, seguida por cinco blocos de “propósitos”, com sete dias cada (exceto o último, que tem cinco). Esta série segue rigorosamente essa mesma ordem, um artigo por dia:

Introdução — Dias 1 a 7

  • Dia 1 — Tudo Começa com Deus
  • Dia 2 — Você não é um Acidente
  • Dia 3 — O que Dirige sua Vida?
  • Dia 4 — Criado para ser Eterno
  • Dia 5 — Enxergando a Vida do Ponto de Vista de Deus
  • Dia 6 — A Vida é uma Atribuição Temporária
  • Dia 7 — A Razão de Tudo

Propósito 1 — Você foi Planejado para Agradar a Deus (Adoração) — Dias 8 a 14

  • Dia 8 — Planejado para Agradar a Deus
  • Dia 9 — O que Faz Deus Sorrir?
  • Dia 10 — A Essência da Adoração
  • Dia 11 — Tornando-se Amigo de Deus
  • Dia 12 — Desenvolvendo a Amizade com Deus
  • Dia 13 — A Adoração que Agrada a Deus
  • Dia 14 — Quando Deus Parece Distante

Propósito 2 — Você foi Formado para Fazer Parte da Família de Deus (Comunhão) — Dias 15 a 21

  • Dia 15 — Moldado para Fazer Parte da Família de Deus
  • Dia 16 — O que Realmente Importa
  • Dia 17 — Um Lugar ao Qual Pertencer
  • Dia 18 — Tendo uma Vida em Comum
  • Dia 19 — Cultivando a Comunidade
  • Dia 20 — Restaurando a Comunhão Quebrada
  • Dia 21 — Protegendo a Igreja

Propósito 3 — Você foi Criado para se Tornar Semelhante a Cristo (Discipulado) — Dias 22 a 28

  • Dia 22 — Criado para se Tornar Semelhante a Cristo
  • Dia 23 — Como Crescemos
  • Dia 24 — Transformado pela Verdade
  • Dia 25 — Transformado pela Provação
  • Dia 26 — Crescendo por Meio da Tentação
  • Dia 27 — Derrotando a Tentação
  • Dia 28 — Isso Leva Tempo!

Propósito 4 — Você foi Moldado para Servir a Deus (Ministério) — Dias 29 a 35

  • Dia 29 — Aceitando sua Missão
  • Dia 30 — Moldado para Servir a Deus
  • Dia 31 — Entendendo sua “Forma”
  • Dia 32 — Usando o que Deus lhe Deu
  • Dia 33 — Como os Verdadeiros Servos Agem
  • Dia 34 — Pensando como Servo
  • Dia 35 — O Poder de Deus na Fraqueza

Propósito 5 — Você foi Feito para uma Missão (Evangelismo) — Dias 36 a 40

  • Dia 36 — Feito para uma Missão
  • Dia 37 — Partilhando sua Mensagem de Vida
  • Dia 38 — Tornando-se um Cristão de Primeira Classe
  • Dia 39 — Equilibrando sua Vida
  • Dia 40 — Vivendo com Propósitos

Índice Remissivo Dia 1 – Tudo Começa Com Deus
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