(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 23

Dia 23: Como Crescemos

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren dá continuidade ao terceiro bloco do livro, sobre tornar-se semelhante a Cristo, lamentando que milhões de cristãos envelheçam sem crescer, presos a uma infância espiritual porque nunca pretenderam amadurecer. O crescimento espiritual não é automático, afirma, e exige uma decisão voluntária, comparável à de Mateus, o publicano, que se levantou e seguiu Jesus (Mateus 9:9). Nada molda mais a vida de uma pessoa do que os compromissos que ela escolhe assumir. Nesse estágio, a maioria perde de vista o propósito de Deus para sua vida: por medo de se comprometer com qualquer coisa, por assumir compromissos superficiais e contraditórios, ou por dedicar-se inteiramente a objetivos seculares como riqueza ou fama, o que termina em frustração e amargura. Toda escolha carrega consequências eternas, e por isso Warren cita a advertência de Pedro sobre a urgência de viver com santidade diante da certeza de que tudo ao redor um dia se desfará (2 Pedro 3:11).

Com base em Filipenses 2:12,13 (na NVI), Warren distingue duas partes do crescimento espiritual, o dever do crente (“ponham em ação”) e o papel de Deus (“efetua em vocês”), e descreve o resultado como um esforço de cooperação entre o crente e o Espírito Santo. Esse texto, esclarece, trata do crescimento depois da conversão, e não da salvação em si, já garantida pela obra de Cristo. O núcleo do capítulo está na seção “Alterando seu piloto automático”. Na metáfora de uma lancha com o piloto automático ajustado para o rumo errado, corrigir a direção apenas pela força física do leme produz, no máximo, uma mudança temporária e uma resistência interna constante. O cansaço faz a pessoa soltar o leme, e a lancha retorna ao rumo programado, padrão que Warren reconhece também em dietas e resoluções sustentadas só pela força de vontade. A verdadeira mudança começa por alterar o próprio ajuste do piloto automático, isto é, a forma de pensar (Romanos 12:2; Provérbios 4:23). Warren identifica esse processo com o arrependimento bíblico, que define como “mudar de ideia” a respeito de si mesmo, do pecado, de Deus, dos outros e da vida em geral.

Warren divide essa mudança de mente em duas etapas: abandonar o pensamento imaturo e egocêntrico (1 Coríntios 14:20; Romanos 8:5) e desenvolver o pensamento maduro, voltado para os outros (1 Coríntios 13:11). Ele nota que muitos presumem que a maturidade espiritual se mede pela quantidade de conhecimento bíblico e doutrinário. Reconhece o conhecimento como uma das dimensões da maturidade, mas afirma que “isso não é toda a história”. A vida cristã, prossegue, é mais do que credos e convicções: exige também conduta e caráter coerentes com a fé professada, uma vez que o cristianismo não é religião nem filosofia, mas relacionamento e estilo de vida. O capítulo termina com a afirmação de que pensar nos outros, e não em si mesmo, é o núcleo de se tornar semelhante a Cristo e a melhor evidência de crescimento espiritual. Esse pensamento não é natural, e o Espírito Santo capacita o crente a tê-lo.

2. Pressupostos teológicos implícitos

No capítulo, o crescimento espiritual é concebido principalmente como correção de padrões de pensamento. Warren afirma que por trás de tudo o que se faz há um pensamento, que todo comportamento é motivado por uma crença e toda ação, estimulada por uma atitude, e estabelece a sequência de pensar, sentir e agir: a forma de pensar determina a de sentir, e o sentimento influencia a ação. A ilustração do piloto automático desenvolve essa premissa. A força de vontade produz mudanças de curto prazo, mas cria pressão interna constante, porque não trata a causa básica, a própria forma de pensar. Dentro dessa lógica, mudar de vida equivale a reprogramar o padrão de pensamento que dirige o comportamento. A mesma raiz aparece na explicação do pecado, pois Warren apresenta o pensamento egoísta como a fonte do comportamento pecaminoso (Romanos 8:5).

A decisão de crescer aparece como ato autônomo da vontade. O discipulado, diz Warren, “sempre começa com uma decisão”: Jesus chama, e o crente responde. O crente deve querer crescer, decidir crescer, esforçar-se para crescer e persistir em crescer. A convicção subjacente é que a vontade forma a pessoa, e o autor a resume assim: “Tornamo-nos aquilo com que estamos comprometidos.” O exemplo de Mateus reforça essa ênfase, pois tudo o que o publicano precisou fazer para se tornar discípulo foi decidir segui-lo. Nesse esquema, as escolhas do crente vêm primeiro, e o Espírito Santo atua para ajudá-lo a consumá-las.

A maturidade, por sua vez, é medida pelo grau de pensamento voltado para os outros. Warren a define como a capacidade de pensar nos outros em vez de em si mesmo. Essa definição pressupõe que a imaturidade consiste em egocentrismo de pensamento: os bebês, exemplifica, são por natureza completamente egoístas, e muitos adultos nunca crescem além desse tipo de pensamento. O conhecimento bíblico e doutrinário entra como uma das dimensões da maturidade, ao lado da conduta e do caráter. O critério é apresentado como “contra-cultural, raro e árduo”, e por isso dependente da ajuda do Espírito.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a muitas versões. As paráfrases de autor único The Message (Msg, Efésios 4:15) e Cartas para Hoje (CH, Efésios 4:14) abrem o capítulo, e as notas trazem NLT (1, 2, 5 e 6), NVI (3, 8 e 10), CEV (7, 11 e 12), NTLH (4) e NCV (9). Os versículos que sustentam os argumentos mais específicos pedem cotejo com a Almeida Revista e Atualizada. A nota 1 traz a referência Mateus 5:9, mas o texto citado, o chamado do publicano, pertence a Mateus 9:9, o que indica erro na numeração da nota.

O texto de maior peso para o argumento é Provérbios 4:23 (nota 4), citado na NTLH: “Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos.” A Almeida diz: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.” O texto bíblico fala em guardar o coração, e não em cuidar dos pensamentos. A NTLH conserva a ideia de cuidado e de origem da vida, mas restringe o objeto à esfera mental, e é essa restrição que sustenta a ilustração do piloto automático. O uso é extrapolado, ponto retomado na seção 5.

No chamado de Mateus (nota 1, NLT), Jesus diz “Venha, seja meu discípulo”, e o publicano se levanta e o segue. A Almeida registra: “Segue-me! Ele se levantou e o seguiu.” A versão é fiel, e o problema está no uso. O relato apresenta o chamado de Jesus e a resposta de Mateus, sem descrever uma decisão tomada por conta própria, e daí Warren conclui que decidir é “tudo de que você precisa” para começar. A conclusão é extrapolada, e a seção 5 a examina.

Em Filipenses 2:12,13 (NVI, nota 3), lê-se: “Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” A Almeida traz: “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” A tradução é fiel, e a divisão que Warren faz entre o dever do crente e a obra de Deus está no texto. A afirmação de que o versículo trata do crescimento, e não da salvação, é interpretação do autor, já que o texto fala em “vossa salvação”, e a seção 4 examina o alcance dessa separação.

Duas divergências menores não mudam o sentido dos textos. Romanos 12:2b (NLT, nota 5) e Efésios 4:23 (NLT, nota 6) já haviam aparecido no Dia 22, em outras versões, e a NLT acrescenta “atitudes” ao “entendimento” que a Almeida traz em Efésios 4:23. Em Filipenses 2:5 (CEV, nota 7) e Romanos 15:2,3 (CEV, nota 11), a versão fala em “modo de pensar” e em “pensar no bem deles” onde a Almeida diz “sentimento” e “agrade ao próximo”. A diferença reforça a ênfase do capítulo no pensamento. No restante, o uso bíblico é fiel: 2 Pedro 3:11 (NLT, nota 2), 1 Coríntios 14:20 e 13:11 (NVI, notas 8 e 10), Romanos 8:5 (NCV, nota 9) e 1 Coríntios 2:12 (CEV, nota 12).

4. Pontos de convergência

O crescimento como obra cooperativa entre a vontade e o Espírito converge com a posição adventista. Warren distingue, a partir de Filipenses 2:12,13, entre “ponham em ação”, que é o dever do crente, e “efetua em vocês”, que é o papel de Deus. Isto repete o princípio já observado nesta série nos Dias 9, 10 e 22: o crescimento espiritual depende da cooperação entre a vontade humana capacitada e o poder do Espírito Santo, e não do esforço isolado nem da influência do Espírito sem a resposta humana (Nisto Cremos, cap. 11).

A convergência é apenas parcial no esforço de crescer sem mérito. Warren esclarece que Filipenses 2:12,13 “não é sobre como ser salvo, mas sobre como crescer”, e assim evita confundir o esforço de amadurecer com qualquer tentativa de merecer a salvação. Nisso ele converge com a teologia adventista, que também rejeita a salvação por mérito (Efésios 2:8,9).

A ressalva está na forma como separa salvação e crescimento: o status da salvação, distinto do crescimento que o capítulo descreve, fica como evento do passado, selado num momento anterior do livro (já discutido no Dia 7 desta série, a propósito da oração do pecador). Para o adventismo, a experiência da salvação é vista sob três perspectivas: já recebida no passado, em realização no presente e por se completar no futuro (Nisto Cremos, cap. 10). Isto significa que “estar salvo” abrange também a vida presente e o que ainda está por vir. Warren trata essa segurança como resolvida de uma vez no passado, questão já examinada no Dia 3, a propósito da segurança eterna.

Pensar nos outros como sinal de maturidade também encontra respaldo adventista. A conclusão do capítulo, de que pensar nos outros e não em si mesmo é a melhor evidência de crescimento espiritual, converge com o exemplo de Cristo, que não se agradou a si mesmo (Romanos 15:3; Filipenses 2:5-8), e com o amor ao próximo como resumo da Lei, já observado no Dia 16.

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

No essencial, o capítulo caminha junto com a doutrina adventista. Ela pede formulação própria em duas questões: o que o arrependimento bíblico inclui, além de mudar de ideia, e a origem da disposição de buscar a Deus, que é fruto da graça e não de uma decisão autônoma da vontade.

Mudar de ideia não esgota o arrependimento bíblico

Warren identifica o arrependimento bíblico com a mudança de mente que descreve na ilustração do piloto automático. O Novo Testamento, afirma, chama esse desvio mental de arrependimento, que “em grego quer dizer literalmente ‘mudar de ideia'”. A observação etimológica está correta, pois metanoeo significa, ao pé da letra, mudar o modo de pensar. O Antigo Testamento, no entanto, expressa o mesmo conceito por meio de dois termos hebraicos complementares, nenhum deles restrito ao pensamento. O primeiro é shub, “voltar-se” ou “retornar”, termo frequente no chamado dos profetas ao arrependimento, com ênfase na mudança concreta de rumo e de conduta (Ezequiel 18:30; Joel 2:12,13). O segundo é nacham, “sentir-se triste”, ligado ao pesar genuíno diante do próprio erro (Jó 42:6).

A experiência bíblica do arrependimento reúne, portanto, pensamento, sentimento e conduta. Há um novo modo de pensar sobre Deus e o pecado, mas há também tristeza e culpa genuínas diante da gravidade do pecado (nacham; 2 Coríntios 7:10), confissão de pecados específicos e renúncia deliberada ao comportamento pecaminoso (shub) (Salmos 51:1,3,10; Provérbios 28:13; Nisto Cremos, cap. 10). O arrependimento que Cristo concede vem junto com a remissão dos pecados (Atos 5:31). Reduzir esse processo a uma simples reformulação de ideias, por mais precisa que seja a tradução da palavra grega, deixa de fora a dimensão que Davi expressa ao clamar por um “coração puro” diante de Deus, e não por pensamentos corrigidos. No livro Adoração — O Presente do Homem Para Deus, o autor desta série mostra que o sacrifício aceitável a Deus no Antigo Testamento era o “espírito quebrantado”, “teologicamente chamado de ‘arrependimento'” (capítulo “Adoração como sacrifício”).

A mesma estreiteza aparece na base bíblica da ilustração do piloto automático, examinada na seção 3. O coração que Provérbios 4:23 manda guardar é a sede da vontade, da emoção e do intelecto reunidos. O hebraico usa para ele o termo lev, o mesmo que aparece em Provérbios 16:9, onde “traça o seu caminho” nas decisões da vontade, e em Deuteronômio 6:5, no chamado de Moisés a amar a Deus “de todo o teu coração”. Trata-se de um único termo que a mentalidade ocidental tende a repartir entre razão, sentimento e escolha. Esse coração indivisível, e não um compartimento isolado de pensamentos, é a fonte de onde brota toda a vida. A doutrina adventista da natureza humana o entende assim, como já se discutiu no Dia 22 a propósito da unidade indivisível de corpo, mente e espírito. Ellen White confirma essa leitura de Provérbios 4:23: “O coração é a cidadela do homem. Dele procedem as saídas da vida ou morte. Até que o coração esteja purificado, a pessoa está inapta para ter qualquer parte na comunhão dos santos” (Testemunhos para a Igreja, v. 5, pp. 536,537).

O próprio texto que Warren cita para sustentar a mudança de mente atribui a transformação a Deus: “deixem que Deus os transforme em nova pessoa, mudando a maneira de vocês pensarem” (Romanos 12:2, NLT). A ilustração do piloto automático descreve o processo em termos ativos, quase técnicos (“altere o ajuste do piloto automático”), como se bastasse ao crente decidir mudar de ideia por conta própria. O crente coopera, mas não é o autor da transformação (Filipenses 2:13, já citado no Dia 22 a propósito do mesmo princípio; Nisto Cremos, cap. 11).

Na prática, quem entende o arrependimento apenas como reprogramação do pensamento pode passar a tratar o pecado como um erro de raciocínio, sem a tristeza segundo Deus e a confissão que a Escritura associa a ele.

A disposição para buscar a Deus como fruto da graça

O capítulo abre afirmando que o crescimento espiritual exige um compromisso voluntário: o crente precisa querer, decidir e perseverar por conta própria. O discipulado, diz Warren, começa com uma decisão. Jesus chama, e o crente responde. Ao ilustrar essa decisão com o chamado de Mateus, o publicano, o autor conclui: “Isso é tudo de que você precisa para começar: decidir tornar-se um discípulo.” O chamado de Jesus é reconhecido, mas o que se exige do crente para começar é apenas decidir. O Espírito Santo só entra na seção seguinte (“A parte de Deus e a sua parte”), para ajudar o crente a consumar as escolhas que ele já fez.

Essa ênfase na decisão do crente como ponto de partida lembra o modelo de conversão pontual já observado nos Dias 3 e 7, a propósito da segurança da salvação e da oração do pecador. Para o adventismo, mesmo o primeiro impulso de buscar a Deus já é fruto da graça. O pecador não pode operar por si o arrependimento, que é dom de Deus (Atos 5:31; Nisto Cremos, cap. 10), e Jesus afirma que “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (João 6:44). A vida cristã, ensina a igreja, sequer se inicia sem a obra regeneradora do Espírito Santo (Nisto Cremos, cap. 11). Ellen White expressa o mesmo princípio: “Assim como não podemos alcançar perdão sem Cristo, também não podemos arrepender-nos sem que o Espírito de Cristo nos desperte a consciência” (Caminho a Cristo, cap. 3, p. 26). O texto que Warren cita logo em seguida vai na mesma direção: Deus “efetua em vós tanto o querer como o realizar” (Filipenses 2:13). O querer, e não apenas o realizar, vem dele.

A própria lista de Warren ilustra o ponto. Entre os objetos da “mudança de ideia” que ele enumera (si mesmo, o pecado, Deus, as outras pessoas, a vida, o futuro e tudo mais), um merece atenção à parte: Deus. Paulo não trata essa mudança como um item que o crente decide revisar sozinho. Ele a apresenta como resposta a algo que vem primeiro: “ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Romanos 2:4; Nisto Cremos, cap. 10). O arrependimento nasce de enxergar com mais clareza quem Deus de fato é, sua bondade e não apenas sua exigência de mudança. Tratar esse item como mais um entre sete a serem ajustados pelo próprio pensamento inverte a ordem bíblica: o texto liga o arrependimento à bondade de Deus percebida com clareza, embora essa percepção não garanta, por si só, que a pessoa se arrependa.

A adoração, escreve o autor desta série em Adoração — O Presente do Homem Para Deus, é “uma consequência de compreendermos quem Deus é” (capítulo “Passos para a adoração”). O mesmo princípio vale para o arrependimento: enxergar a Deus com clareza está na raiz de toda resposta genuína a ele.

O equilíbrio vem na seção seguinte, com Filipenses 2:12,13, mas isso não elimina o risco. A frase “decidir tornar-se um discípulo”, como “tudo de que você precisa”, pode ser citada isolada, num sermão, numa lista de compromissos ou num convite, sem o parágrafo posterior que a equilibra.

Quem repete só essa primeira metade do capítulo aprende que o crescimento espiritual começa com um ato de vontade próprio, quando a Escritura descreve até o primeiro passo como resposta a algo que Deus já fez primeiro.


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