Dia 22: Criado para se Tornar Semelhante a Cristo
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre o terceiro bloco do livro afirmando que o destino de todo crente é tornar-se semelhante a Cristo, o terceiro propósito da vida segundo o autor. Ele parte da criação do ser humano à imagem de Deus (Gênesis 1:26) e detalha alguns aspectos dessa imagem: como Deus, somos seres espirituais (com um espírito que, para ele, é imortal e sobrevive ao corpo), inteligentes, capazes de relacionamento e dotados de consciência moral. A imagem pertence a toda pessoa, e não apenas aos crentes, e é por isso que o assassinato e o aborto são errados. Ela está incompleta, danificada e distorcida pelo pecado, e só Jesus, expressão exata do ser de Deus, a restaura por completo.
O autor adverte contra confundir esse chamado com a antiga mentira de tornar-se um deus: o alvo é a santidade, semelhança em valores, atitudes e caráter, e não em essência ou posição. Tornar-se semelhante a Cristo também não apaga a personalidade, porque o cristianismo trata da transformação do caráter. Warren propõe como modelo as bem-aventuranças, o fruto do Espírito, o capítulo de Paulo sobre o amor e a lista de virtudes de Pedro. Deus está mais interessado em quem o crente é do que no que ele faz, e o caráter, ao contrário da carreira, acompanha a pessoa para a eternidade. Warren conclui que a vida deve ser difícil: a terra não é o céu, e Deus não é um gênio da lâmpada a serviço da realização pessoal.
A obra do Espírito Santo ocupa a segunda metade do capítulo. Ninguém reproduz o caráter de Cristo por decisões de Ano Novo, força de vontade ou boas intenções: só o Espírito tem esse poder, e as características de Cristo nascem de habitação, e não de imitação. Ele age, em geral, de modo tranquilo, e a cooperação humana está nas escolhas diárias de obediência, ilustradas pelos líderes que pisaram nas águas do Jordão antes de elas recuarem. Warren acrescenta que o esforço não tem relação com a salvação, mas com o crescimento espiritual, e que a Bíblia compara esse crescimento a uma semente, a uma edificação e a uma criança.
A partir de Efésios 4:22-24, o autor organiza três deveres: abandonar a antiga forma de viver, renovar a mente e adquirir o caráter de Cristo por meio de novos hábitos, uma vez que o caráter é basicamente a soma dos hábitos. Esses hábitos são moldados pela Palavra de Deus, por outras pessoas e pelas circunstâncias, três fatores indispensáveis. O crescimento é impossível em isolamento: a maturidade espiritual exige igreja e comunidade, porque consiste em aprender a amar como Jesus amou.
O processo é lento e dura a vida inteira, e só se completa depois desta vida, quando o crente for para o céu ou quando Jesus voltar. Para Warren, boa parte da confusão da vida cristã nasce de ignorar que Deus se interessa mais pelo caráter do que por qualquer outra coisa, o que explica seu silêncio diante de perguntas como a escolha da carreira. O autor critica os livros cristãos populares que trocam os grandes propósitos de Deus pela estabilidade emocional e pela realização pessoal, e chama isso de narcisismo: Jesus não morreu apenas para que levássemos vidas equilibradas e confortáveis.
2. Pressupostos teológicos implícitos
A santificação sinergística por escolhas cotidianas é o primeiro pressuposto do capítulo. Warren descreve a transformação de caráter como obra do Espírito Santo que se manifesta por meio de escolhas concretas de obediência, feitas uma a uma ao longo do dia: o crente não gera a mudança, mas a libera a cada decisão de fazer o que é certo. O autor resume essa lógica dizendo que as características de Cristo “não são produzidas por imitação, mas por habitação”, e a ilustra com a travessia do Jordão em Josué 3:13-17, em que “a obediência libera o poder de Deus”. O capítulo acrescenta que o esforço humano não se relaciona com a salvação, mas com o crescimento espiritual, e cita oito ordens do Novo Testamento para esforçar-se nesse crescimento (nota 17).
A santificação como propósito posterior à decisão inicial sustenta a arquitetura do capítulo. Warren situa a semelhança com Cristo como o terceiro de cinco propósitos sequenciais, depois da adoração e da comunhão. Essa estrutura retoma o desfecho do bloco introdutório do livro, no qual o autor convida o leitor a “crer” e “receber” a Cristo por meio de uma oração específica de entrega e apresenta os cinco propósitos, entre eles a semelhança com Cristo, como aquilo que o crente passa a fazer depois de ter feito essa oração. No próprio capítulo, a santificação é chamada de “terceiro propósito de sua vida sobre a terra”, e o tempo na terra é apresentado como o período em que se constrói e fortalece o caráter “para o céu”, como se o destino já estivesse definido.
O caráter como soma de hábitos formados por três fatores é o terceiro pressuposto. O capítulo trata o caráter como, em essência, o resultado dos hábitos de uma pessoa, definindo-o como “basicamente a soma dos hábitos”, isto é, o modo como ela habitualmente age. Esses hábitos seriam formados pela ação combinada da Palavra de Deus (que supre a verdade), de outras pessoas (que suprem o apoio) e das circunstâncias (que suprem o ambiente para pôr em prática as características de Cristo), todos igualmente indispensáveis. O autor observa que algumas questões da vida nunca serão transformadas somente por estudo bíblico e oração, e que a mudança recai sobre o caráter, e não sobre a personalidade.
Os dois desfechos equivalentes da transformação formam o quarto pressuposto. Warren situa o fim do processo em dois momentos apresentados como equivalentes: a chegada do crente ao céu, depois da morte, ou a volta de Jesus. A premissa antropológica que sustenta essa equivalência já aparece na descrição da imagem de Deus, em que o autor afirma que “nosso espírito é imortal e sobreviverá ao nosso corpo terreno”. Em ambos os momentos, o capítulo entende que a semelhança com Cristo alcança sua plenitude, e que a transformação iniciada na vida presente, lenta e contínua, encontra ali o seu término.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a muitas versões: The Message (Msg, Romanos 8:29 e Colossenses 1:15) nos versículos de abertura, NLT (notas 3, 12, 13, 15 e 23), NVI (notas 3, 14, 17 e 21), CEV (notas 19 e 22), NCV (notas 1 e 17), GWT (nota 4) e KJV (nota 5). A Msg volta nas notas 6, 18 e 25. As notas 2, 7 a 11, 16, 20 e 24 não trazem versão marcada. Como a Msg é uma reescrita livre de Eugene Peterson, e não uma tradução, cada passagem em que ela sustenta um argumento específico é lida ao lado da Almeida, para medir o quanto o versículo foi reinterpretado.
O primeiro versículo de abertura, Romanos 8:29, chega na Msg: “Deus já sabia o que ele faria desde o início. Ele decidiu desde o princípio moldar a vida daqueles que o amam com os mesmos parâmetros da vida de seu Filho”. A Almeida diz que Deus predestinou os que de antemão conheceu “para serem conformes à imagem de seu Filho”. A paráfrase preserva a semelhança com o Filho como alvo, mas troca o conhecimento prévio e a predestinação de Paulo por um plano geral “desde o princípio”. O versículo passa a soar como propósito de toda a criação, e não dos que Deus chamou, como o versículo seguinte esclarece (Romanos 8:30). O uso é extrapolado, e a seção 5 retoma a cadeia de Romanos 8:29,30.
Os “três deveres” de Efésios 4:22-24 vêm de três versões. Na Msg (notas 6 e 18), o primeiro dever diz: “Tudo […] referente àquela antiga forma de viver tem de ir embora. Está completamente corrompida. Livrem-se dela!”. A Almeida pede que os crentes se despojem “do velho homem”. A paráfrase troca uma identidade por um hábito de conduta, o velho homem pela antiga forma de viver, e essa troca sustenta a leitura do capítulo, para a qual despojar-se é abandonar comportamentos. Na CEV (nota 19), o segundo dever, Efésios 4:23, é “Deixe que o Espírito transforme sua maneira de pensar”, e a Almeida diz “vos renoveis no espírito do vosso entendimento”. O texto formal usa a palavra “espírito” sem esclarecer se se trata do espírito humano ou do Espírito de Deus, e a CEV decide pela segunda leitura. Ela é possível, mas é escolha do tradutor, e não afirmação do texto. O terceiro dever, Efésios 4:24, aparece duas vezes, na GWT (nota 4) e na NVI (nota 21), e a NVI acompanha a Almeida quanto ao sentido, com a diferença de trazer santidade onde a Almeida traz retidão: revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus.
Warren observa que a palavra grega traduzida por “transformados” em Romanos 12:2 e 2 Coríntios 3:18 (nota 12) dá origem a “metamorfose”, termo usado hoje para a mudança da lagarta em borboleta. A observação é correta e a ilustração é legítima. Romanos 12:2 aparece duas vezes, sem versão marcada (nota 20) e na Msg (nota 25), esta última no ponto da pressão da cultura: “Não se tornem tão bem ajustados à sua cultura”. A Almeida pede “não vos conformeis com este século”, e a paráfrase troca “século” por “cultura” sem alterar o sentido. O uso é fiel.
A afirmação de que o Novo Testamento ordena o esforço “em oito ocasiões” apoia-se na nota 17, que reúne Lucas 13:24, Romanos 14:19, Efésios 4:3, 2 Timóteo 2:15, Hebreus 4:11 e 12:14, 2 Pedro 1:5 e 3:14. Entre esses textos está Hebreus 12:14, que a Almeida formula como a busca da santificação “sem a qual ninguém verá o Senhor”. Warren o usa para falar de crescimento e, na mesma passagem, diz que o esforço não tem relação com a salvação. O próprio versículo liga a santificação ao ver o Senhor, ponto examinado na seção 5. O uso é fiel ao verbo, mas omite o que o versículo acrescenta.
Para a conclusão do processo, Warren cita 1 João 3:2 na NLT (nota 23): “quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como realmente é”. A Almeida traz o mesmo sentido: seremos semelhantes a Cristo quando ele se manifestar. A versão é fiel, e o problema está no que o texto sustenta. Ele liga a semelhança final à aparição de Cristo, e não à ida ao céu que Warren coloca ao lado da volta, ponto examinado na seção 5. Em Efésios 4:13 (CEV, nota 22), a promessa vem individualizada e ganha o “seremos iguais a ele”, expressão ausente da Almeida, que fala do corpo de Cristo alcançando “a medida da estatura da plenitude de Cristo”.
Uma divergência menor não altera o argumento: em Josué 3:13-17 (nota 16), Warren fala em líderes que pisaram na água, e o relato bíblico atribui o gesto aos sacerdotes que levavam a arca. No restante, o uso bíblico é fiel: Gênesis 1:26 (NCV, nota 1), Gênesis 3:5 (KJV, nota 5) e Filipenses 2:13 (NLT, nota 13).
4. Pontos de convergência
A imagem de Deus, presente em toda pessoa desde a criação, danificada pelo pecado e restaurada plenamente em Jesus, é a primeira convergência com Warren. Ela coincide com a síntese oficial adventista sobre a natureza humana: a imagem de Deus nos primeiros pais “foi desfigurada” pela desobediência, e Deus, em Cristo, “restaura nos mortais penitentes a imagem de seu Criador” (Nisto Cremos, cap. 7).
A santificação pelo Espírito Santo, e não pela força de vontade, é a segunda. A insistência de Warren em que somente o Espírito tem o poder de produzir o caráter de Cristo, citando Filipenses 2:13, texto já aplicado à obediência no Dia 9 e à rendição no Dia 10 desta série, converge plenamente com o entendimento adventista de que a santificação é fruto da graça que capacita a vontade humana, nunca do esforço pessoal isolado dela (Nisto Cremos, cap. 11).
Ao identificar em Gênesis 3:5 a origem da mentira de que o ser humano pode se tornar um deus, Warren rejeita a divinização humana e converge com a distinção permanente entre Criador e criatura que sustenta toda a teologia adventista. O mesmo texto já foi observado nesta série, no Dia 10, a propósito do desejo de controle.
O crescimento espiritual impossível em isolamento é a quarta convergência. A afirmação de que a maturidade espiritual não é uma busca individual e solitária converge com a eclesiologia desenvolvida nos Dias 17, 18 e 19: o crente amadurece em comunhão com o corpo de Cristo, e nunca à parte dele, “considerando-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hebreus 10:24,25), num crescimento que a Escritura atribui ao corpo inteiro “bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas” (Efésios 4:15,16).
O crescimento espiritual como recepção, e não apenas como conquista, aparece na comparação que Warren faz com o desenvolvimento de uma semente, de uma edificação e de uma criança. Ela converge com a parábola de Jesus sobre a semente que cresce sem que o semeador saiba como, “a terra por si mesma frutifica” (Marcos 4:26-28), e com a ilustração de Ellen White: “a planta e a criança crescem recebendo do seu ambiente aquilo que lhes serve à vida” (O Caminho a Cristo, cap. 8, “Crescimento em Cristo”). O crescimento espiritual também depende de receber, e não somente de se esforçar.
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A semelhança com Cristo como obra do Espírito é o eixo do capítulo, e a posição adventista o subscreve. Ela se distingue em três pontos: a santidade de caráter como parte necessária da própria salvação, o momento único em que a glorificação se completa e o fundamento batismal do despojar-se do velho homem.
Não há salvação sem santidade de caráter
Warren situa a semelhança com Cristo como o terceiro de cinco propósitos que se seguem a uma salvação já resolvida por uma oração, descrita no início do livro. O crescimento seria desejável, mas a estrutura da obra não o apresenta como parte constitutiva da salvação, apenas como consequência dela, e o capítulo confirma essa ordem ao dizer que “esforço não tenha nada que ver com salvação”. Esse padrão, uma decisão inicial que assegura a salvação de uma vez por todas, seguida de propósitos que a acompanham sem condicioná-la, já foi observado nos Dias 3 e 7, a propósito do modelo revivalista de conversão e da “oração do pecador”.
A santidade de caráter, na teologia adventista, não é um propósito de crescimento que se segue a uma salvação já assegurada, mas parte da própria experiência da salvação. A sequência com que Paulo descreve a obra salvadora de Deus não separa uma da outra: “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29,30). Nessa cadeia não existe um estágio de crescimento opcional entre a justificação e a glorificação. O alvo da predestinação, segundo esse texto, é que os crentes sejam “conformes à imagem de seu Filho”, a mesma santidade de caráter que o capítulo descreve. Tratar essa conformidade como um propósito à parte, e não como o conteúdo do chamado que também leva à justificação e à glorificação, arrisca separar o que Paulo apresenta como uma só obra contínua.
A síntese doutrinária adventista recusa essa separação: os crentes “necessitam mais que apenas uma justificação ou santificação legal”, precisam de “santidade de caráter… como evidência de que a salvação aconteceu” (Nisto Cremos, cap. 10). Isso não torna a santidade de caráter meritória. O adventismo compartilha inteiramente com Warren a convicção de que a salvação vem somente pela graça, e reconhece que a transformação gradual do caráter, sustentada dia a dia, é a evidência de que a salvação professada de fato se efetivou; sua ausência voluntária e persistente indicaria o oposto (Hebreus 12:14; Mateus 7:21-23). O próprio Warren cita Hebreus 12:14 na nota 17, entre os textos que ordenam esforço, sem mencionar que o versículo liga a santificação ao ver o Senhor.
Warren nunca afirma o contrário: o capítulo inteiro insiste que é o Espírito Santo quem realiza a transformação, e não o esforço humano. A lacuna está na arquitetura do livro, e não neste capítulo isoladamente. Ao tratar a salvação como resolvida num momento anterior e a semelhança com Cristo como um propósito entre outros cinco, torna-se fácil concluir que a salvação está garantida independentemente de qualquer fruto visível de caráter, conclusão que este capítulo desmente, mas que a estrutura do livro deixa em aberto.
A glorificação como evento único
A sequência de justificação, santificação e glorificação, tratada no ponto anterior, tem um último passo que pede exame próprio: quantas vezes, e quando, a glorificação acontece. Ao afirmar que a transformação “só estará terminada quando você for para o céu ou quando Jesus voltar”, Warren deixa entrever, sem desenvolver, uma ideia comum na tradição evangélica: a de que a pessoa é formada por duas partes separáveis, alma e corpo, e por isso a glorificação pode ocorrer em duas etapas, a do espírito, logo na morte, e a do corpo, na volta de Cristo. Essa separação permite ao capítulo tratar as duas ocasiões como caminhos igualmente válidos para o mesmo destino. Ela repousa na suposição já identificada no Dia 4, a de que o crente tem uma estrutura dupla: além do corpo mortal, uma entidade que permanece consciente depois da morte.
Para o adventismo, essa separação não é possível, porque a Escritura não a sustenta: o ser humano não é um corpo mais uma alma separável, mas uma unidade indivisível de corpo, mente e espírito (Gênesis 2:7; Nisto Cremos, cap. 7). Se nenhuma parte da pessoa pode ser glorificada isoladamente enquanto a outra espera no túmulo, a glorificação é um só evento: o caráter e o corpo transformados juntos, “num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta” (1 Coríntios 15:51,52), na volta de Cristo (1 Tessalonicenses 4:16,17). Essa glorificação é reservada para a ressurreição dos mortos ou a trasladação dos vivos (1 Coríntios 15:51-54), e nunca ocorre num estado intermediário logo após a morte. A salvação, ensina a igreja, “será final e plenamente operada quando formos glorificados na ressurreição ou quando formos transformados vivos”, no momento em que Cristo aparecer “segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hebreus 9:28; Nisto Cremos, cap. 10).
Para Paulo, a ressurreição do corpo é parte da salvação, tão essencial que ele a transforma no teste da fé cristã: “Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé […] somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15:16-19). Ao explicar como os salvos serão transformados, Paulo também não descreve uma alma que se solta do corpo, mas um “corpo espiritual” que vem depois do corpo natural: o mesmo ser humano transformado, e não trocado por algo puramente espiritual, sem corpo (1 Coríntios 15:42-44). Corpo e caráter são glorificados no mesmo instante, juntos, como uma coisa só. Uma glorificação apenas “espiritual”, que deixe o corpo de fora, não existe para a Escritura.
Essa diferença na compreensão do ser humano, mais do que um deslize de linguagem, explica por que a mesma sequência termina de formas tão distintas nos dois esquemas. No evangélico, ela se divide em duas glorificações, uma para cada parte da pessoa. No adventista, permanece uma só, reservada a todos os salvos ao mesmo tempo, os que já morreram e os que ainda estiverem vivos (1 Tessalonicenses 4:15-17).
Imaginar um ente querido falecido já glorificado e consciente junto a Deus, antes da ressurreição, oferece um consolo imediato que a Escritura, lida com atenção, não sustenta. O consolo que ela oferece é outro, e não menos real: o reencontro certo, do corpo inteiro e do caráter já formado, no dia em que Cristo voltar (1 Tessalonicenses 4:13,18).
O fundamento batismal da transformação
Warren usa Efésios 4:22-24, abandonar a velha forma de viver, renovar a mente e revestir-se do novo homem, como estrutura dos “três deveres” para a transformação de caráter, uma leitura correta do texto tomado isoladamente. O capítulo nunca menciona que essa linguagem de despojar-se e revestir-se tem, no uso paulino, um marco concreto de início. O próprio Paulo, poucos versículos antes, no mesmo capítulo, funda a exortação à unidade da igreja em “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:5), texto já citado no Dia 21 a propósito da unidade eclesial. Na carta aos Colossenses, escrita no mesmo período e com conteúdo muito próximo ao de Efésios, a mesma imagem aparece ancorada no batismo: “sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:12), seguido, poucos versículos depois, de “vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento” (Colossenses 3:9,10).
Para o adventismo, o despojar-se do velho homem e o revestir-se do novo encontram seu marco público e seu fundamento na sepultura e ressurreição simbólicas do batismo por imersão (Romanos 6:3,4; Nisto Cremos, cap. 15), tema já discutido no Dia 15 a propósito do batismo como identificação pública. Tratar o despir-se do velho homem apenas como um comportamento que se aprende e se repete, sem esse fundamento, arrisca transformar o texto de Paulo numa lista de resoluções renovadas a cada manhã, como se a identidade cristã partisse do zero em cada nova escolha. O batismo não substitui essa prática diária nem a torna dispensável: dá-lhe um ponto de partida concreto e público, a morte e a ressurreição com Cristo, representadas uma vez, nas águas, e vividas depois, dia após dia. A transformação diária continua genuína e necessária, e se sustenta melhor quando lembrada como continuidade de uma identidade iniciada no batismo, e não como sequência de escolhas soltas, sem raiz alguma.
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