(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 17

Dia 17: Um Lugar ao Qual Pertencer

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren abre este capítulo retomando a criação do ser humano no Éden: mesmo diante de um ambiente perfeito, Deus declarou que não era bom que o homem estivesse só. Disso extrai um princípio permanente, o de que fomos moldados para viver em comunidade, e não apenas para acreditar sozinhos. A partir da metáfora paulina do corpo, argumenta que a palavra “membro” perdeu, no uso comum da igreja, seu sentido bíblico original de órgão vivo e interconectado, reduzida hoje a um simples cadastro sem exigência real de compromisso. Um órgão desligado do corpo, escreve ele, murcha e morre; o mesmo aconteceria com o crente que se mantém à margem de uma congregação local.

Antes de listar as razões para o pertencimento, Warren insiste que a igreja merece ser amada, não apenas usada: chama-a de indestrutível, capaz de sobreviver ao próprio universo, e observa que Cristo morreu por ela e a ama como um esposo ama a esposa, de modo que desprezá-la ou depreciá-la equivaleria a rejeitar o próprio corpo de Cristo. A partir dessa premissa, Warren lista uma série de razões pelas quais a igreja local seria indispensável: ela identifica o crente como discípulo autêntico diante do mundo, o retira do isolamento egoísta, desenvolve nele os “músculos espirituais” que só a prática mútua constrói, oferece o espaço em que os dons pessoais encontram função concreta, o insere na missão de Cristo no mundo e o protege, por meio da vigilância fraterna e da liderança pastoral, contra o próprio declínio espiritual.

Warren ilustra a natureza desse vínculo com uma analogia familiar: assim como toda criança nasce automaticamente na família humana universal, mas também precisa de uma família específica que a acolha e a alimente, o novo nascimento insere o crente na família universal de Deus, mas não dispensa o compromisso com uma expressão local dessa família. Contra esse pano de fundo, o capítulo cunha a expressão “crente-coelho” para descrever quem salta de congregação em congregação sem filiação, responsabilidade ou compromisso algum, fruto, segundo Warren, do individualismo da cultura contemporânea. O capítulo se encerra contrastando visitante e membro: “Visitantes consomem; membros contribuem”. Tornar-se parte de uma congregação específica é apresentado como o passo natural e imediato que se segue à conversão, do mesmo modo que os primeiros cristãos, em Atos, se dedicavam concretamente aos apóstolos, à comunhão e às orações; Warren fecha o capítulo distinguindo as duas decisões: tornar-se cristão é comprometer-se com Cristo, tornar-se membro é comprometer-se com um grupo específico de crentes, a primeira decisão trazendo a salvação, a segunda, a comunhão.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Pertencimento local como extensão obrigatória da fé

O capítulo apresenta o compromisso formal com uma congregação específica como extensão praticamente obrigatória da fé já salva, distinta, na formulação do próprio Warren, da decisão que salva. A ausência desse vínculo, por sua vez, é tratada como sintoma direto de imaturidade ou de declínio espiritual em curso, nunca como uma escolha neutra ou uma preferência de temperamento.

A igreja descrita por seus benefícios pessoais

Ao justificar a necessidade da igreja local, Warren organiza o argumento em torno daquilo que ela supre no crente individual: identidade, pertencimento, propósito, proteção, função. A congregação aparece, sobretudo, como instrumento a serviço do desenvolvimento pessoal de cada membro, o critério pelo qual o capítulo mede, do início ao fim, o valor de pertencer a ela.

O corpo de Cristo como metáfora de interdependência orgânica

A partir de 1 Coríntios 12, Warren aplica o funcionamento de um organismo vivo à experiência congregacional: cada parte depende das demais para sobreviver e cumprir sua função, de modo que o isolamento voluntário se torna, dentro da própria metáfora escolhida, uma condição fisiologicamente insustentável.

Disciplina eclesiástica restrita à conduta moral pública

Ao identificar os únicos crentes sem vínculo a uma congregação local no Novo Testamento como sendo aqueles que foram removidos “por causa de pecados públicos flagrantes”, Warren pressupõe que a exclusão da comunhão responde exclusivamente a faltas de comportamento público.

3. Base bíblica usada por Warren

As notas deste capítulo transitam por diversas versões: NLT (notas 7, 13, 19, 20, 26), Msg (notas 5, 10, 14, 21, 24, 27), NVI (notas 3, 18, 23), NCV (notas 15, 16), GWT (nota 8), BV (nota 12) e NTLH (nota 28), além de diversas referências de apoio sem versão marcada. A paráfrase The Message aparece com frequência incomum neste capítulo, sustentando pontos centrais do argumento, como a imagem do “dedo amputado” que ilustra 1 Coríntios 12 e o apelo a amar “a família espiritual” (1 Pedro 2:17). Peterson, o tradutor da paráfrase, opta aqui por uma imagem cirúrgica dramática ausente do grego, que fala apenas da inutilidade de um membro separado do corpo, sem o detalhe específico do dedo amputado. A vivacidade da linguagem, nesse caso, amplifica o texto original sem, no entanto, distorcer o argumento que Warren extrai dele.

De resto, o uso bíblico do capítulo é fiel ao propósito de cada texto citado. A promessa de que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja (Mateus 16:18) e o apelo aos “uns aos outros” do Novo Testamento sustentam corretamente o argumento central sobre pertencimento e responsabilidade mútua.

4. Contraponto adventista

Este capítulo levanta, com maior peso doutrinário, a identidade profética do povo de Deus, o papel da igreja diante do universo, sua função preservadora sobre a sociedade humana e o alcance da disciplina eclesiástica, pontos que a teologia adventista situa nos termos resumidos a seguir.

O remanescente e sua identidade profética

Além de pertencer a uma congregação local, o adventismo entende que o povo de Deus nos últimos dias é identificável por características proféticas específicas, guardar os mandamentos de Deus e manter o testemunho de Jesus (Apocalipse 12:17; Apocalipse 14:12; Nisto Cremos, cap. 13).

A igreja com papel próprio diante do universo

A igreja, segundo o adventismo, não existe apenas para suprir as necessidades do crente individual, mas participa de um propósito que a excede: manifestar diante de todo o universo, inclusive às potestades espirituais, a multiforme sabedoria de Deus (Efésios 3:10; Apocalipse 12:17; Nisto Cremos, caps. 9 e 13).

A igreja como sal preservador da sociedade

A igreja, para o adventismo, cumpre também uma função preservadora sobre a própria sociedade humana: assim como o sal retarda a corrupção, a presença fiel do povo de Deus concorre para conter o avanço do mal no mundo à sua volta (Mateus 5:13; Nisto Cremos, cap. 12).

Disciplina como zelo pastoral e doutrinário

Para o adventismo, a disciplina fraterna que a igreja pratica entre seus membros cobre tanto a conduta moral quanto a fidelidade à verdade ensinada (Mateus 18:15-18; Apocalipse 2:14,15; Nisto Cremos, cap. 12).

5. Pontos de convergência

O pertencimento à igreja local como extensão da fé

A crítica de Warren ao “crente-coelho”, que salta de congregação em congregação sem vínculo real, converge plenamente com a convicção adventista de que a fé genuína se expressa em comunhão comprometida e visível, nunca apenas numa espiritualidade privada e itinerante (Hebreus 10:24,25).

O corpo de Cristo como interdependência mútua

A leitura que Warren faz de 1 Coríntios 12, cada parte dependente das demais para funcionar e crescer, converge de perto com o entendimento adventista da igreja como organismo vivo, no qual nenhum membro cumpre sozinho o propósito que Deus lhe confiou.

A igreja amada por Deus apesar da fragilidade

A afirmação de Warren de que a igreja é tão preciosa que Cristo morreu por ela, e que desprezá-la equivale a rejeitar o próprio corpo de Cristo, converge com o alto valor que a teologia adventista atribui à igreja visível, mesmo reconhecendo suas fraquezas: Paulo escreve que Cristo “amou a igreja, e a si mesmo Se entregou por ela” (Efésios 5:25-27). Ellen G. White reforça esse mesmo valor, ao escrever que “a igreja, débil e defeituosa, precisando ser repreendida, advertida e aconselhada, é o único objeto na Terra ao qual Cristo confere Sua suprema consideração” (Testemunhos Para Ministros, p. 49).

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

A igreja sem o pano de fundo do remanescente profético

Warren tem razão ao insistir que pertencer a uma congregação local, e não apenas à “família universal de Deus”, é parte inegociável da vida cristã. O capítulo, porém, trata qualquer congregação como suficiente para suprir essa necessidade de pertencimento, bastando que o crente se comprometa pessoalmente com ela, sem oferecer ao leitor nenhum critério além dessa disposição pessoal. Essa lacuna já foi observada, de forma breve, a propósito da ausência do dom de profecia e do chamado a um remanescente no Dia 1 desta série, e voltou a aparecer no Dia 12 a propósito da dimensão comunitária da amizade com Deus. Aqui ela toca diretamente o próprio tema do capítulo: o livro do Apocalipse identifica o remanescente pela fidelidade aos mandamentos de Deus e pela fé em Jesus (Apocalipse 14:12), características que emergem precisamente depois de um período de grande perseguição (Apocalipse 12:17). Tratar o pertencimento à igreja apenas como decisão de compromisso pessoal, sem esse critério profético que permita reconhecer, entre as muitas igrejas visíveis, aquela que corresponde ao povo que a profecia descreve para os últimos dias, esvazia parte do que torna a busca por uma igreja bíblica, e não simplesmente amigável ou bem organizada, uma questão relevante.

Essa lacuna vai além de uma lista de características a conferir. O adventismo não apenas identifica o remanescente por marcas distintivas, mas se compreende como um movimento profético levantado num momento específico da história, comissionado a retomar uma reforma estagnada e a completar, por meio da proclamação mundial das três mensagens angélicas, o testemunho do evangelho eterno antes do retorno de Cristo (Apocalipse 14:6-12; Mateus 24:14). A igreja, nessa leitura, não é apenas um lugar identificável e aprazível ao qual aderir, mas um povo em marcha rumo a um alvo histórico concreto, algo bem diferente da instituição estática que Warren tem em mente ao descrever a igreja local.

Falta ainda uma terceira dimensão, tão bíblica quanto as duas anteriores: a fidelidade doutrinária da própria congregação escolhida. Chama atenção que o capítulo abra citando, logo no início, que a família de Deus é “a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade” (1 Timóteo 3:15), sem que essa mesma ênfase volte a aparecer no corpo do texto. Paulo trata a fidelidade doutrinária como condição, não como detalhe secundário, do pertencimento cristão: chegou a pronunciar anátema sobre quem pregasse “outro evangelho” às igrejas da Galácia, ainda que fosse um anjo do céu quem o fizesse (Gálatas 1:6-9). Pertencer a uma igreja bíblica, portanto, não depende apenas de reconhecer nela as marcas proféticas do remanescente, mas também de que ela, de fato, ensine a verdade que professa guardar.

Sem esses critérios, o compromisso que Warren pede com razão perde parte do seu conteúdo mais específico: o leitor aprende a valorizar a comunhão comprometida, mas segue sem instrumento algum para distinguir, entre as congregações que conhece, qual delas carrega a identidade profética, o senso de missão histórica e a fidelidade doutrinária que o próprio Novo Testamento atribui à igreja verdadeira.

A igreja com função pessoal, sem o grande conflito cósmico

As razões que Warren oferece para a importância da igreja local (identidade, pertencimento, desenvolvimento pessoal, proteção contra a tentação) giram quase inteiramente em torno do que a congregação supre no próprio crente. Fica de fora uma dimensão que a Escritura também atribui à igreja: a de ser, ela mesma, palco de uma demonstração diante de testemunhas maiores que qualquer indivíduo. Paulo escreve que o propósito da igreja inclui a manifestação da multiforme sabedoria de Deus “aos principados e potestades nos lugares celestiais” (Efésios 3:10), o mesmo pano de fundo do grande conflito entre Cristo e Satanás já estabelecido nos Dias 1, 2, 5, 12 e 14 desta série.

Warren chega perto dessa ideia sem a nomear: observa, no encerramento do capítulo, que Satanás tem predileção por crentes afastados e desligados da vida em comum, justamente por saber que eles são “indefesos e impotentes” contra suas estratégias, estando fora do corpo de Cristo, a comunidade eclesiástica que os protegeria. A observação é correta e valiosa, mas permanece restrita à vulnerabilidade individual. A visão adventista amplia essa mesma percepção para o nível corporativo: a fidelidade coletiva de um povo que “guarda os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12) funciona como resposta pública às acusações que Satanás levanta contra o caráter e o governo de Deus, algo que nenhum crente isolado, por mais fiel que seja, pode oferecer sozinho.

Entender a igreja apenas como fornecedora de benefícios pessoais, por mais reais que sejam, tende a produzir um vínculo condicionado à satisfação que ela proporciona: o crente permanece enquanto a congregação atende suas necessidades pessoais, e sente-se livre para buscar outra quando essa percepção muda. Essa mesma lógica, mantida até as últimas consequências, corre o risco de alimentar exatamente o comportamento que o próprio Warren condena neste capítulo, o do “crente-coelho”: uma igreja apresentada como fornecedora de benefícios convida, cedo ou tarde, à comparação de ofertas, e a comparação de ofertas transforma silenciosamente a igreja num mercado da fé, onde permanece quem oferece mais. A convicção de que a própria fidelidade coletiva da igreja participa de algo que ultrapassa infinitamente o bem-estar de cada membro tende a sustentar o compromisso além dessa lógica de mercado, e além do desgaste natural de qualquer comunidade humana e imperfeita.

A igreja sem sua função preservadora sobre a sociedade

Ao lado do papel da igreja diante do universo, a Escritura atribui a ela uma segunda função corporativa, esta voltada para a própria terra: a de conter, pela simples presença fiel de seu povo, o avanço da corrupção moral ao seu redor. Jesus chama seus discípulos de “sal da terra” (Mateus 5:13), uma metáfora que descreve não apenas influência pessoal, mas efeito preservador sobre o meio em que esse sal está espalhado. O princípio já aparece antes mesmo da igreja cristã, na intercessão de Abraão por Sodoma: Deus concorda em poupar toda a cidade caso nela se encontrem ao menos dez justos (Gênesis 18:22-32), ligando diretamente a presença de um pequeno número de fiéis à sobrevivência, ainda que temporária, de uma sociedade inteira.

Warren não toca nessa dimensão em nenhum momento do capítulo: toda a sua argumentação permanece dentro dos limites da vida interna da congregação, sem alcançar o efeito que essa mesma congregação, coletivamente, exerce sobre o mundo à sua volta. Comentando exatamente esse texto de Mateus 5:13, Ellen G. White escreve que “os cristãos que são purificados por meio da verdade possuirão qualidades salvadoras, que preservarão o mundo da inteira corrupção moral” (O Maior Discurso de Cristo, p. 36).

Reduzir a igreja a um espaço de crescimento pessoal, sem essa função preservadora voltada para fora, deixa sem explicação por que a presença ou a ausência do povo de Deus teria alguma relevância além do círculo de seus membros, quando a Escritura liga essa presença à própria sobrevivência das sociedades em que a igreja está inserida.

Disciplina eclesiástica: pecado moral, mas também fidelidade doutrinária

Ao citar como única exceção à participação numa igreja local os casos de “pecados públicos flagrantes”, Warren descreve com precisão parte do padrão bíblico de disciplina, mas deixa de fora sua outra metade. As cartas às sete igrejas em Apocalipse elogiam a comunidade de Éfeso justamente por não suportar “homens maus” (Apocalipse 2:2), mas repreendem as de Pérgamo e Tiatira por tolerar, em seu meio, quem ensinava doutrina desviada (Apocalipse 2:14,15,20). Para a teologia bíblica, o zelo comunitário que protege a igreja da imoralidade é o mesmo zelo que deveria protegê-la do erro doutrinário tolerado em silêncio.

Esta mesma tensão entre amor fraterno e fidelidade doutrinária já foi examinada com mais profundidade no Dia 16 desta série, a propósito da suficiência do testemunho do amor mútuo. Cabe aqui apenas assinalar sua face específica na vida da igreja: restringir a correção mútua da congregação à conduta visível, sem estendê-la à doutrina ensinada e recebida, deixa a comunidade local vulnerável exatamente ao tipo de erro que Pérgamo e Tiatira toleraram, um erro que raramente perturba a convivência social do grupo antes de comprometer sua fidelidade à verdade.


Dia 16 — O que Realmente Importa

Índice dos Capítulos Dia 18 — Tendo uma Vida em Comum

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