(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 12

Dia 12: Desenvolvendo a Amizade com Deus

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren dá continuidade ao capítulo anterior, retomando os “seis segredos” da amizade com Deus e desenvolvendo agora os quatro últimos, depois de já ter apresentado a conversa constante e a meditação contínua no Dia 11. O tema que abre e fecha o capítulo é a ideia de que a proximidade com Deus é sempre uma escolha: “você está tão perto de Deus quanto escolher estar.”

O primeiro dos quatro segredos deste capítulo, como o próprio Warren o chama, é a sinceridade: Warren convida o leitor a compartilhar com Deus, sem filtro, tanto as falhas quanto os sentimentos mais ásperos, como fizeram Abraão ao questionar a destruição de Sodoma, Davi em suas queixas, Jeremias em seu desabafo e Jó em sua amargura durante a provação. Segundo o autor, Deus prefere a franqueza corajosa às “frases feitas, religiosas e previsíveis”. O segundo é a obediência pela fé: confiar na sabedoria de Deus e agir de acordo com ela mesmo sem compreender plenamente o motivo, motivado não pelo medo, mas pela gratidão e pelo amor. O terceiro é valorizar o que Deus valoriza, isto é, importar-se com as mesmas prioridades divinas, ilustrado por Paulo e por Davi, com destaque para a redenção das pessoas perdidas como o maior interesse do coração de Deus. O quarto e último é o desejo: mais do que qualquer outra coisa, o crente deve desejar ser amigo de Deus, como fizeram Davi, Jacó (na luta com o anjo) e Paulo. Warren associa esse desejo ao sofrimento, apresentado como combustível capaz de reacender uma paixão espiritual adormecida, citando C. S. Lewis, para quem a dor seria “o megafone de Deus”.

O capítulo termina reafirmando que não existe relacionamento mais importante do que a amizade com Deus, e que a proximidade com ele depende inteiramente da escolha de cada pessoa.

2. Pressupostos teológicos implícitos

A proximidade com Deus como função de escolha individual mensurável

Warren situa o grau de intimidade com Deus como resultado direto de uma decisão pessoal, tratando a proximidade quase como uma variável ajustável pelo esforço e pela vontade do crente, medida pela disposição de cultivá-la.

A obediência como evidência empírica de amizade genuína

O capítulo trata a prontidão em obedecer como o teste mais confiável da profundidade real de um relacionamento com Deus, um pressuposto já observado, sob outro ângulo, no Dia 9 desta série, a propósito da obediência imediata como critério central de devoção genuína.

O sofrimento como instrumento pedagógico para reacender o afeto por Deus

Warren interpreta episódios de sofrimento e crise espiritual como recursos que Deus emprega deliberadamente para restaurar uma paixão adormecida, um pressuposto que enquadra a providência divina primariamente em termos de eficácia relacional e afetiva.

Hierarquia implícita das prioridades do coração de Deus

Ao situar a redenção das pessoas perdidas como o maior interesse do coração de Deus, seguida pelo testemunho que os crentes dão dela, o capítulo estabelece uma ordem entre os interesses divinos sem desenvolver como essa hierarquia se relaciona às demais categorias do relacionamento com Deus já mencionadas em capítulos anteriores.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a uma ampla variedade de versões: NLT (notas 6, 10, 12), NVI (notas 7, 15), NCV (nota 9), Bíblia Viva (notas 13, 18), CEV (nota 14) e Amplified Bible (nota 16), além da paráfrase The Message, empregada quatro vezes (notas 2, 4, 11 e 17), um uso incomumente frequente para um único capítulo. Ela sustenta a resposta de Deus a Jó, o diálogo de Moisés no Êxodo, o zelo de Paulo pela igreja de Corinto e o convite de Jeremias aos cativos na Babilônia. Por se tratar de paráfrase, e não de tradução de equivalência formal, o texto de Eugene Peterson incorpora escolhas interpretativas próprias, o que recomenda cotejar essas passagens com traduções mais formais sempre que sustentarem um argumento mais específico.

O caso mais relevante para uma avaliação exegética está na nota 11. A citação de 2 Coríntios 11:2 via The Message, usada para ilustrar o zelo de Paulo pelas prioridades de Deus, generaliza um texto cujo sentido original é mais preciso: ali, Paulo descreve seu empenho em apresentar a igreja de Corinto como “virgem pura” a um único esposo, Cristo, uma imagem nupcial específica sobre a pureza doutrinária e moral da comunidade, não apenas um zelo genérico e emocional. A leitura de Warren não contradiz o texto, mas amplia seu escopo além do que o grego original sustenta com a mesma ênfase.

A nota 17 (Jeremias 29:13) segue padrão semelhante: a NVI traduz o texto como “vocês me buscarão e me acharão quando me buscarem de todo o coração”, ao passo que a versão de Peterson acrescenta a ideia de buscar a Deus “mais que a todas as coisas”, uma ênfase de exclusividade que reforça bem o argumento de Warren sobre o desejo supremo por Deus, mas que constitui, de fato, uma leve amplificação do texto hebraico original.

Quanto ao restante do capítulo, o uso bíblico é predominantemente fiel ao propósito original. João 15:14 (NVI), base do segredo da obediência, é citado com precisão, e 1 Samuel 15:22 (NCV), sobre a obediência valer mais que o sacrifício, mantém o sentido do texto hebraico sem extrapolação.

4. Contraponto adventista

As posições adventistas sobre a obediência, o sofrimento e a comunidade cristã, temas centrais deste capítulo, encontram-se resumidas a seguir:

Obediência, amor e a obra regeneradora do Espírito

A obediência nasce do amor, mas apenas a ação regeneradora do Espírito Santo capacita o coração a de fato querer e cumprir a vontade de Deus (Ezequiel 36:26,27; Filipenses 2:12,13; Crença Fundamental nº 11, Crescer em Cristo).

O sofrimento como pedagogia divina, à luz do grande conflito

Deus de fato usa o sofrimento para o bem de quem O ama, mas não é sua origem: ele o permite, dentro dos limites de um universo em conflito, e depois o redireciona para propósitos pedagógicos, e a Escritura situa essa origem última no conflito cósmico entre Cristo e Satanás, não na vontade direta de um Deus que provoca a dor para reacender afetos adormecidos (Tiago 1:13; Jó 1:6-12; 2:1-7; Crença Fundamental nº 8, O Grande Conflito).

Amizade com Deus como experiência vivida também em comunidade

A Escritura descreve a amizade pessoal com Deus como algo nutrido e expresso dentro do corpo de Cristo, e não apenas como itinerário exclusivamente individual (Efésios 4:15,16; Crença Fundamental nº 12, A Igreja).

5. Pontos de convergência

A sinceridade e o lamento diante de Deus

O convite de Warren à franqueza radical, mesmo em meio a queixas e dúvidas, converge com a tradição bíblica do lamento, presente de forma abundante nos Salmos e no próprio livro de Jó, na qual a honestidade diante de Deus é tratada como expressão legítima de fé, não como sua ausência.

A obediência como fruto do amor, não do medo

Ao situar a obediência do crente na gratidão e no amor, e não na obrigação ou no medo, Warren converge plenamente com o ensino de que os mandamentos de Deus, para quem o ama, “não são penosos” (1 João 5:3), princípio também expresso na Crença Fundamental nº 11 (Crescer em Cristo).

O desejo ardente por Deus e a prioridade da missão

O anseio apaixonado por Deus, exemplificado em Davi, Jacó e Paulo, converge com a espiritualidade bíblica de quem busca a Deus com toda a alma (Salmos 63:1). A ênfase de Warren na redenção dos perdidos como a maior prioridade do coração de Deus converge, também, com o chamado adventista à missão do remanescente nestes últimos dias (Mateus 28:19,20; Crença Fundamental nº 13, Remanescente e sua Missão).

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Obediência, amor e a obra regeneradora do Espírito

Warren acerta ao ancorar a obediência no amor e na gratidão, e não no medo: é um refinamento genuíno em relação a capítulos anteriores desta série, nos quais o risco de tratar a vida espiritual como pura disciplina de vontade própria já foi identificado nos Dias 8, 9 e 10. Aqui, ao contrário, o capítulo situa corretamente o motivo da obediência na resposta afetiva a um Deus que amou primeiro.

Falta, porém, nomear o agente que torna essa obediência amorosa efetivamente possível. O capítulo descreve a obediência inteiramente como decisão pessoal, sem referência à obra do Espírito Santo que transforma o próprio querer do crente. A Escritura descreve essa transformação com precisão: Deus promete remover o coração de pedra e substituí-lo por um coração de carne, “porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos” (Ezequiel 36:26,27). Paulo descreve a mesma dinâmica em termos ainda mais diretos: é Deus quem “efetua em vós tanto o querer como o realizar” (Filipenses 2:13), já citado nesta série a propósito da rendição no Dia 10.

Presumir que a motivação amorosa, por si só, já basta para sustentar a obediência tende a produzir, com o tempo, o mesmo cansaço que qualquer esforço puramente humano produz diante da primeira dificuldade real. Essa lacuna repete, ainda que de forma mais discreta, por vir acompanhada de um correto apelo ao amor, a mesma ausência já observada nos Dias 8 a 10 desta série: falta nomear a cooperação entre a vontade humana e a graça capacitadora do Espírito, que é o que de fato sustenta a obediência ao longo do tempo, já que, nas palavras de Jesus, “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).

O sofrimento como pedagogia divina, à luz do grande conflito

Warren tem razão ao afirmar que Deus usa a dor para reacender o afeto adormecido do crente: a Escritura de fato descreve o sofrimento como instrumento formador de caráter (Romanos 5:3-5; Tiago 1:2-4). A imagem que o capítulo toma de C. S. Lewis, o sofrimento como “megafone” que desperta uma alma sonolenta, capta bem essa dimensão pedagógica da providência divina.

Essa afirmação, porém, caso seja lida sem qualificação, corre um risco sutil de dar a entender que o próprio Deus provoca diretamente o sofrimento para obter esse efeito. A Escritura mantém uma distinção cuidadosa entre origem e permissão: “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tiago 1:13). Deus não é o autor da dor; ele a permite, dentro dos limites de um universo em conflito, e depois a redireciona para o bem daquilo que nasceu do pecado e da ação do adversário, “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).

O capítulo, porém, deixa de lado o pano de fundo que explica, para início de conversa, por que o sofrimento existe. O próprio Jó, citado neste capítulo como modelo de sinceridade diante de Deus, é o texto bíblico que mais explicitamente localiza a origem do sofrimento humano num conflito que transcende o indivíduo: antes de qualquer dor abater sua família ou seu corpo, a Escritura relata um confronto entre Deus e Satanás diante do concílio celestial, no qual a integridade de Jó é posta à prova por acusação do adversário, e é este, não Deus, quem desfere os golpes (Jó 1:6-12; 2:1-7). Ellen White resume esse mesmo pano de fundo cósmico logo na abertura de Patriarcas e Profetas: toda a história do conflito entre o bem e o mal, da rebelião no Céu até a extirpação final do pecado, é também “uma demonstração do imutável amor de Deus” (Patriarcas e Profetas, p. 33).

Ler apenas os capítulos finais de Jó, os do lamento sincero que Warren explora, sem os capítulos iniciais que revelam essa disputa cósmica, corre o risco de reduzir o sofrimento de Jó a um episódio isolado entre ele e Deus, quando a própria Escritura o situa como parte de uma controvérsia mais ampla, já discutida nesta série a propósito da criação (Dia 1) e da Nova Terra (Dia 6). Tratar o sofrimento apenas como pedagogia relacional, um recurso que Deus usa para reaproximar quem se afastou, deixa de lado essa dimensão mais abrangente: o sofrimento humano é, antes de tudo, parte de um universo em conflito, no qual o caráter de Deus está sendo publicamente vindicado diante de testemunhas visíveis e invisíveis (1 Coríntios 4:9). Isto não invalida a leitura pedagógica que Warren propõe, mas a completa: o mesmo episódio que serve de exemplo de honestidade diante de Deus poderia, se lido de forma mais integral, também ancorar a paixão renovada do crente numa cosmovisão bem mais ampla do que a simples reconquista de um sentimento perdido.

Amizade com Deus como experiência vivida também em comunidade

Os quatro segredos deste capítulo (a sinceridade, a obediência, valorizar as prioridades de Deus, o desejo ardente) permanecem, mais uma vez, no registro exclusivamente pessoal, um padrão já apontado nos Dias 1, 9, 10 e 11 desta série a propósito da ausência de uma dimensão corporativa nos exemplos e recomendações de Warren. Chama atenção, neste capítulo, que até o terceiro segredo, valorizar o que Deus valoriza, descrito como importar-se com a redenção das pessoas perdidas, permanece formulado como zelo evangelístico individual (o exemplo de Paulo, o exemplo de Davi), sem qualquer menção à igreja reunida como o corpo através do qual essa mesma redenção normalmente se cumpre.

A Escritura, contudo, não separa o crescimento da amizade pessoal com Deus da vida compartilhada do corpo de Cristo. Paulo descreve o próprio corpo, “bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta”, crescendo para sua edificação em amor à medida que cada parte exerce sua função (Efésios 4:15,16). A redenção dos perdidos que Warren aponta como a maior prioridade do coração de Deus é, de fato, missão confiada não a indivíduos isolados, mas à igreja remanescente reunida para essa tarefa nos últimos dias (Apocalipse 14:6-12; Nisto Cremos, cap. 13). Vale notar, ainda, que essa mesma redenção, apresentada aqui como o valor mais alto do coração de Deus, é, para a teologia adventista, a expressão concreta de um propósito ainda mais amplo, a vindicação do caráter e do governo de Deus perante o universo, já discutida nesta série a propósito do Dia 7.

Quem seguir à risca apenas os quatro segredos deste capítulo pode, com sinceridade genuína, aprofundar uma amizade pessoal rica com Deus, e ainda assim jamais experimentar o fortalecimento que vem de ver essa mesma amizade sustentada, corrigida e ampliada por uma comunidade de fé. A opção de Warren por exemplos sempre individuais, já reconhecida nesta série como parte importante de seu apelo devocional direto ao leitor, tende a deixar essa outra metade da vida cristã como uma extensão implícita, nunca como parte central do próprio itinerário da amizade com Deus.


Dia 11 — Tornando-se Amigo de Deus Índice dos Capítulos Dia 13 — A Adoração que Agrada a Deus

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