Dia 6: A Vida é uma Atribuição Temporária
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren desenvolve aqui a terceira metáfora bíblica para a vida, anunciada no capítulo anterior: a vida na terra é uma atribuição temporária, e não um destino permanente. Segundo o autor, duas verdades não podem ser esquecidas. Em comparação com a eternidade, a vida é extremamente breve, e a terra é apenas uma residência temporária. A Bíblia descreve nossos dias aqui com imagens de coisas passageiras (neblina, sopro, fumaça, sombra) e chama os fiéis de forasteiros, peregrinos e estrangeiros na terra, cuja cidadania real está no céu. Warren ilustra a ideia com os imigrantes que trabalham nos Estados Unidos com um “green card” sem nunca deixar de ser cidadãos de seu país de origem. O cristão, sugere ele, deveria carregar consigo, no sentido espiritual, um lembrete permanente do mesmo tipo.
A segunda figura é a do embaixador enviado a uma nação inimiga. Ele precisa aprender a língua e os costumes locais para cumprir sua missão, sem jamais se apaixonar pelo país a ponto de mudar sua lealdade e trair sua pátria e seu rei. O autor alerta que ceder a esse encantamento equivale ao que a Escritura chama de adultério espiritual: o crente passa a adotar como seus os valores e as prioridades do mundo ao seu redor. Deus, argumenta Warren, permite que sintamos uma insatisfação persistente com a vida terrena, anseios que nunca serão plenamente satisfeitos deste lado da eternidade, justamente para que não nos apeguemos demais a um lugar que não é nosso lar definitivo.
Perceber a vida como sendo uma atribuição temporária, afirma Warren, alteraria completamente os valores do crente, que passaria então a decidir pelo que é eterno, e não pelo que é temporário. O capítulo adverte ainda contra o erro de presumir que a meta de Deus para a vida do crente seja a prosperidade material ou o sucesso. Paulo foi fiel e acabou preso. João Batista foi fiel e foi decapitado. A fidelidade não garante conforto terreno, e os heróis da fé de Hebreus 11 confirmam isso: “morreram pela fé” sem receber o que lhes fora prometido, embora o tenham visto de longe. O fato de a terra não ser nosso lar definitivo explicaria também as aflições e rejeições do cristão neste mundo, e por que algumas promessas parecem não se cumprir e algumas orações, ficar sem resposta.
O capítulo termina com a história de um missionário aposentado que, depois de uma vida inteira dedicada à obra de Deus, desembarca ignorado do mesmo navio que trazia o presidente dos Estados Unidos, recebido com honras e festas. Ele se queixa a Deus por não ter sido recebido como herói, e Deus lhe responde que ele ainda não chegou a casa. Daí a frase que resume o argumento: na morte, você não abandona sua casa, você vai para casa.
2. Pressupostos teológicos implícitos
A frase final do capítulo (“você vai para casa” na morte) pressupõe uma transição imediata para o lar celestial: a consciência do crente seria recebida por Deus no instante da morte. O capítulo chega a imaginar o leitor, segundos depois de entrar no céu, lamentando o tempo gasto com coisas passageiras. Entre o último suspiro terreno e o primeiro momento na presença de Deus não haveria intervalo algum. O mesmo pressuposto, já examinado no Dia 4 desta série, reaparece aqui de forma ainda mais direta, como um apelo emocional na conclusão do capítulo.
O capítulo trata “o céu” como o lar eterno, destino final e permanente dos redimidos. O vocabulário se repete: uma “cidadania” no céu, uma “pátria” à qual se pertence, um “lar” que aguarda o crente ao final da vida. Essa linguagem permanece abstrata do começo ao fim, e o destino é descrito sobretudo pelo sentido emocional de pertencimento e de retorno. A escolha é compreensível, dado o público evangélico amplo e diversificado a que o livro se destina.
Warren apresenta a insatisfação humana persistente, os anseios que a vida terrena nunca chega a satisfazer por completo, como algo que Deus permite deliberadamente a fim de impedir que o crente se apegue demais a um lugar que não é seu lar definitivo. O sofrimento existencial recebe, assim, uma explicação funcional. Essa mesma leitura já foi identificada, sob outro ângulo, no Dia 2 desta série.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a paráfrases e, em maior número, a traduções de equivalência dinâmica.
As paráfrases são:
- A Bíblia Viva (BV)
- Salmos 39:4, nota 2.
- The Message (Msg)
- Tiago 4:4, nota 6;
- 1 Pedro 2:11, nota 8;
- 2 Coríntios 4:18b, nota 10.
As traduções de equivalência dinâmica são:
- New Living Translation (NLT)
- Salmos 39:4, na abertura do capítulo;
- Jó 8:9, nota 1;
- Filipenses 3:19,20, nota 5;
- 2 Coríntios 5:20, nota 7;
- 1 Coríntios 7:31, nota 9.
- Today’s English Version (TEV)
- Salmos 119:19, na abertura do capítulo.
- Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH)
- Salmos 119:19, nota 3.
- God’s Word Translation (GWT)
- 1 Pedro 1:17, nota 4;
- 1 Pedro 2:11, nota 13.
- Nova Versão Internacional (NVI)
- 2 Coríntios 4:18, nota 12 e versículo para memorizar.
- New Century Version (NCV)
- Hebreus 11:13,16, nota 14.
A nota 11 (João 16:33; 16:20; 15:18,19) não indica a versão, e a nota 13 atribui a 1 Pedro 2:11 a frase sobre não buscar “coroas temporárias”, que o versículo nesta versão não contém, provável erro de referência.
Ao recorrer a Filipenses 3:19,20 (NLT), Warren cita o versículo 19, sobre os que só pensam na vida terrena, e retoma o versículo 20 com palavras próprias para concluir que a pátria do crente é o céu. A NLT reproduz o texto com fidelidade, e a Almeida confirma: “Pois a nossa pátria está nos céus”. O problema está no corte da frase de Paulo: ela prossegue no versículo 21, que o capítulo deixa de lado e que liga a esperança de uma pátria celestial à volta de Cristo e à transformação do corpo, temas desenvolvidos na seção 5.
A frase que resume o capítulo, “este mundo não é o seu lar, então não fiquem à vontade”, vem da paráfrase de 1 Pedro 2:11 (Msg). A Almeida diz: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma”. Pedro usa a condição de peregrino como motivo para uma exortação moral concreta, a de fugir das paixões carnais. A paráfrase transforma essa condição numa declaração sobre o próprio mundo, que deixa de ser lar, e reduz a exortação a um genérico “não satisfaçam o ego”. Esse deslocamento reforça a imagem da terra como simples lugar de passagem, discutida na seção 5.
Pouco adiante, 1 Coríntios 7:31 (NLT) sustenta o conselho de não criar apego ao que está ao redor, “pois este mundo e tudo o que está nele passarão”. Na edição brasileira, a frase vai além da própria NLT, que fala do mundo “tal como o conhecemos”, e a Almeida é mais precisa: “porque a aparência deste mundo passa”. Paulo anuncia o fim da forma presente do mundo, e não da terra criada por Deus, distinção retomada na seção 5.
No caso de Hebreus 11:13,16 (NCV), a versão acompanha de perto a Almeida, e Warren usa corretamente a passagem como exemplo de fidelidade sem recompensa terrena. Convém notar que o mesmo capítulo de Hebreus fecha a galeria dos heróis da fé dizendo que eles ainda não obtiveram “a concretização da promessa”, porque Deus os quis aperfeiçoar junto com os demais fiéis: “para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:39,40). O texto situa a recompensa num momento comum a todos os salvos, o que não combina com a ideia de que cada crente “vai para casa” na hora da morte (ver seção 5).
No restante, o uso bíblico não apresenta problema relevante: as demais passagens das paráfrases conservam o sentido do texto, as que vêm apenas indicadas por referência dispensam cotejo, e as outras citações em traduções de equivalência dinâmica não sustentam argumento central do capítulo.
4. Pontos de convergência
A advertência de que a fidelidade a Deus não garante prosperidade material nem sucesso na carreira é plenamente compartilhada pela teologia adventista, que também rejeita qualquer versão do evangelho da prosperidade. Essa rejeição se apoia na lógica da mordomia, já discutida no Dia 5: uma vez que tudo o que se possui pertence a Deus e é apenas confiado ao crente, a prosperidade não pode funcionar como selo pessoal do favor divino. Quando vem, é um recurso maior a administrar, com responsabilidade também maior. Os heróis da fé que “morreram na fé, sem ter obtido as promessas” (Hebreus 11:13) ilustram bem essa fidelidade que não depende de recompensa terrena.
O adventismo aceita e prega a imagem bíblica do crente como peregrino e estrangeiro na terra (Hebreus 11; 1 Pedro 2:11). Também ensina que a existência presente é passageira diante da eternidade.
O alerta contra adotar como próprios os valores e as prioridades do mundo, que o capítulo associa à figura do embaixador, corresponde ao ensino adventista sobre a conduta cristã. O crente vive no mundo sem pertencer a ele, conforme a oração de Cristo: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou” (João 17:15,16; Nisto Cremos, cap. 22).
Perceber a brevidade da vida deveria reordenar prioridades e valores, dando ao que é eterno precedência sobre o que é passageiro. A pregação adventista converge inteiramente com essa convicção.
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
Warren acerta ao tratar da brevidade da vida e da condição de peregrino do crente. Três temas do capítulo, porém, recebem da teologia adventista outro tratamento: o estado dos mortos, implícito na afirmação de que o crente “vai para casa” no momento da morte; a Nova Terra, e não um céu abstrato, como lar eterno dos redimidos; e a origem do descontentamento humano, entendida como saudade do Éden perdido.
Estado dos mortos: “ir para casa” na morte
A frase que fecha o capítulo, de que na morte “você vai para casa”, supõe que o crente desperte na presença de Deus no próprio instante da morte, o mesmo pressuposto já analisado no Dia 4. A Escritura descreve outra coisa. Os mortos dormem um sono sem sonhos até a ressurreição (Eclesiastes 9:5-6; 1 Tessalonicenses 4:13-17; Nisto Cremos, cap. 26), e só então o reencontro com Deus e com os entes queridos de fato acontece.
Há também uma contradição interna na retórica de Warren entre este capítulo e o Dia 4. Lá, ele rejeitou explicitamente a imagem de um céu de nuvens e harpas e descreveu uma eternidade ativa, cheia de relacionamentos, propósito e crescimento contínuo. Aqui, a linguagem muda de registro: a morte aparece como partida imediata para um “lar” celestial, e a cidadania, como algo incorpóreo que se recebe de uma vez, sem menção a corpo algum. A continuidade do texto em que o próprio Warren apoia essa cidadania, porém, a liga a um corpo e a um momento específico: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Filipenses 3:20,21). A pátria está nos céus, e é de lá que vem o Salvador aguardado: o movimento descrito pelo apóstolo é no sentido do céu para a terra. Paulo espera a vinda de Cristo, e não a própria partida na hora da morte, e é nessa vinda que a cidadania celestial se completa, num corpo físico transformado à semelhança do corpo glorioso de Cristo.
Ora, a eternidade ativa e cheia de relacionamentos que Warren descreveu no Dia 4 pressupõe alguma forma de existência corporal. Nisto Cremos trata expressamente das “atividades físicas” dos redimidos, como construir e plantar (cap. 28), e a imagem de uma alma que simplesmente “vai para casa” no instante da morte não fornece essa corporeidade. Warren parece descrever, sem perceber, duas realidades diferentes com a mesma palavra “céu”: uma consciência incorpórea logo após a morte e, depois, um corpo ressuscitado e ativo. A teologia adventista, ao negar a primeira etapa, evita essa costura mal resolvida. O sono sem consciência termina exatamente quando a existência ativa e corporal começa: na ressurreição e na transformação do corpo, momento em que o crente herda enfim a pátria celestial.
A consequência pastoral aparece justamente diante do luto. Quem se forma só por essa linguagem imagina com facilidade que um crente falecido já está “em casa” agora mesmo. O próprio capítulo, aliás, admite anseios “que jamais serão satisfeitos deste lado da eternidade”, e entre eles está o de quem perdeu um ente querido. A esse anseio a Escritura responde com o reencontro na volta de Cristo, quando os mortos em Cristo ressuscitarão e os vivos serão arrebatados com eles. Paulo escreveu essas palavras justamente para os que choravam seus mortos, a fim de que não se entristecessem “como os demais, que não têm esperança”, e concluiu: “Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras” (1 Tessalonicenses 4:13-18).
A Nova Terra como lar eterno, não o “céu” abstrato
Ao longo de todo o capítulo, “o céu” aparece como o destino final e permanente dos redimidos: a “cidadania” do crente está lá, seu “lar” definitivo é lá, é para lá que ele “vai” na morte. A leitura é comum na tradição evangélica, mas é interrompida antes da última etapa da esperança bíblica, que não termina no céu.
Os redimidos passam, de fato, um período no céu. No encontro com Cristo “nos ares” (1 Tessalonicenses 4:17), são recebidos nas “muitas moradas” que Jesus prometeu preparar (João 14:2-3), para reinar com Ele durante o milênio (Apocalipse 20:4-6; Nisto Cremos, cap. 27). A promessa final é a descida da Nova Jerusalém, ao fim dos mil anos, a uma terra renovada (Apocalipse 21:1-3), onde Deus voltará a habitar pessoalmente com o Seu povo: “eis o tabernáculo de Deus com os homens” (Apocalipse 21:3). Serão “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2 Pedro 3:13; Nisto Cremos, cap. 28), e não a evacuação permanente da humanidade para um reino puramente espiritual. Ali, segundo a imagem já citada no Dia 4 desta série, os redimidos edificarão casas e plantarão vinhas (Isaías 65:17,21-22). A existência será concreta e física. Ellen White retrata esse desfecho com riqueza de detalhes no capítulo final de O Grande Conflito, como a restauração completa da terra ao propósito para o qual foi originalmente criada.
A imagem do “green card” e do embaixador em terra estrangeira sugere que a terra em si é descartável, um lugar de passagem sem valor permanente. A teologia adventista põe a ênfase em outro lugar: descartável é o pecado que corrompeu a criação, e o que passa, segundo Paulo, é “a aparência deste mundo” (1 Coríntios 7:31). A terra fazia parte de tudo o que Deus viu ser “muito bom” (Gênesis 1:31) e será restaurada, e os mansos, segundo a promessa de Jesus, “herdarão a terra” (Mateus 5:5) em vez de abandoná-la para sempre. Um leitor que absorva apenas a ideia de fuga da terra pode desenvolver um desinteresse sutil pelo cuidado com a criação e pelo engajamento no presente. Isto contraria diretamente a mordomia responsável já estabelecida no Dia 5 desta série.
Descontentamento como saudade do Éden, não desapego induzido
Para Warren, os anseios que a vida terrena não satisfaz são uma salvaguarda posta por Deus contra o apego do crente à terra. Nessa leitura, o descontentamento funciona como ferramenta pedagógica, na mesma chave já identificada e questionada no Dia 2 desta série a propósito do sofrimento em geral.
A teologia adventista oferece outra explicação, ancorada no grande conflito (Nisto Cremos, cap. 8). O ser humano foi criado para comunhão plena com Deus e para uma vida sem ruptura no Éden (Gênesis 1-2). O pecado rompeu esse plano (Nisto Cremos, cap. 7). O anseio por “algo mais”, que a terra não satisfaz, é o eco de um mundo bom que se perdeu, e não um mecanismo de desapego instalado por Deus com essa finalidade. Eclesiastes 3:11 situa a origem desse anseio no próprio ato criador, ao dizer que Deus “também pôs a eternidade no coração do homem”: o anseio pertence ao plano original da criação, e o pecado o converteu em saudade. O anseio tampouco se limita ao ser humano, pois “a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19-22): a criação inteira geme por uma restauração que já está a caminho (Nisto Cremos, cap. 28). Ellen White, ao falar da restauração final, situa esse anseio na própria expulsão do Éden (Gênesis 3:24): “é o tempo para o qual homens santos de Deus olharam com expectação desde que a flamejante espada barrou ao primeiro par a entrada no Éden” (O Lar Adventista, p. 540). E acrescenta que “tudo que foi perdido pelo primeiro Adão será restaurado pelo segundo” (p. 540).
Sem essa contextualização bíblica, a insatisfação passa a ser algo a suportar até a hora de “ir para casa”. Deixa de ser reconhecida como evidência de que o mundo, hoje, ainda não é como Deus o quer, e como convite a viver desde já segundo os valores do mundo restaurado que Deus prometeu, em vez de apenas aguardá-lo.
| Dia 5 — Enxergando a Vida do Ponto de Vista de Deus | Índice dos Capítulos | Dia 7 — A Razão de Tudo |
| Apresentação | Índice Remissivo |

