Dia 7: A Razão de Tudo
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren fecha a introdução do livro com a tese que resume tudo o que veio antes: o propósito último do universo, e de cada vida humana dentro dele, é demonstrar a glória de Deus. Ele define glória como a própria essência do caráter divino, “o peso de sua importância, o brilho de seu esplendor”, e a expressão de tudo o que Deus é. Essa glória, segundo o capítulo, manifesta-se em toda a criação, do organismo microscópico à Via Láctea. Também foi revelada na história em etapas sucessivas: no Éden, a Moisés, no Tabernáculo, no Templo e, de forma plena e definitiva, em Jesus Cristo. Hoje, essa revelação prossegue por meio da igreja.
Em todo o universo, observa Warren, apenas duas categorias das criaturas de Deus falham em glorificá-lo: anjos caídos e seres humanos. Ele define o pecado como amar qualquer coisa mais do que a Deus, a mesma recusa que, segundo o capítulo, motivou a queda de Satanás e a do ser humano. Cada criatura glorifica a Deus simplesmente ao cumprir o propósito para o qual foi feita, do voo dos pássaros à mais humilde formiga. Warren reforça a ideia com a máxima de Ireneu: “a glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida”. Daí ele antecipa os cinco propósitos que estruturarão o restante do livro (adoração, comunhão, semelhança a Cristo, serviço e evangelismo), apresentados como as cinco formas concretas de dar glória a Deus. Cada um recebe, a partir do Dia 8, um bloco próprio de capítulos, e o livro volta a reuni-los no Dia 39 como um plano de vida equilibrado.
O capítulo termina com um apelo direto à decisão. Usando como exemplo de entrega o clamor de Jesus diante da cruz já próxima (João 12:27,28), Warren convida o leitor a que “creia” e “receba” a Cristo por meio de uma oração específica, sugerida em suas próprias palavras. Promete ainda enviar material de acompanhamento a quem fizer essa oração pela primeira vez.
2. Pressupostos teológicos implícitos
Como síntese doxológica de tudo o que a introdução do livro já havia estabelecido, o capítulo parte da glória de Deus como fim último do universo. A ideia de que o propósito supremo de toda a existência é glorificar a Deus tem raízes na tradição reformada. Ela ecoa a primeira pergunta do Catecismo Menor de Westminster, segundo o qual o fim principal do homem é glorificar a Deus e desfrutar dele para sempre. Warren cita diretamente John Piper, expoente contemporâneo dessa tradição e do chamado “hedonismo cristão”. Para Piper, a satisfação humana em Deus e a glória que Deus recebe são a mesma realidade vista por dois lados.
O pecado aparece como recusa individual de glorificar a Deus, definido diretamente como amar qualquer coisa mais do que a Deus. Trata-se de uma síntese moral pessoal e atemporal, que retoma a antiga ideia agostiniana do pecado como amor desordenado e reflete a ênfase evangélica no pecado como falha individual de afeto e lealdade. Dentro da lógica do capítulo, o remédio correspondente é a reorientação desse afeto, e é o que o apelo final propõe ao perguntar ao leitor se viverá para si ou para Deus.
No fim do capítulo, a conversão aparece selada por uma oração formulada. O capítulo culmina no que a tradição evangélica norte-americana chama de “oração do pecador”: um texto específico, sugerido pelo autor, cuja repetição sincera marca o momento exato em que uma pessoa “nasce de novo” e passa a integrar a família de Deus. O modelo de conversão pontual e datável já identificado no Dia 3 aparece aqui em sua forma mais concreta e ritualizada.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a paráfrases, a traduções de equivalência dinâmica e, em uma nota, a uma tradução de equivalência formal. As paráfrases são a Bíblia Viva (BV: Romanos 11:36, na abertura do capítulo; 2 Coríntios 4:6b, nota 5) e The Message (Msg: João 12:25, nota 21; 2 Pedro 1:3, nota 22; João 3:36, nota 24). Entre as traduções de equivalência dinâmica, a mais usada é a NLT (Provérbios 16:4, na abertura do capítulo; Apocalipse 4:11a, nota 8; João 17:4, nota 11; Romanos 6:13b, nota 12; Romanos 15:7, nota 14; 2 Coríntios 3:18, nota 16; Filipenses 1:11, nota 17; 1 Pedro 4:10,11, nota 18; 2 Coríntios 4:15, nota 19). Vem em seguida a NVI (Salmos 19:1, nota 1; Apocalipse 21:23, nota 4; Hebreus 1:3, nota 5; Romanos 3:23, nota 9; João 13:34,35, nota 15; João 1:12, nota 23). Completam o grupo a GWT (João 1:14, nota 6; João 15:8, nota 17), a NTLH (Isaías 43:7, nota 10), a CEV (1 João 3:14, nota 13) e a NCV (2 Coríntios 8:19b, nota 18). A tradução de equivalência formal é a NASB (João 12:27,28, nota 20). As notas 2, 3 e 7 não indicam a versão.
Romanos 3:23 (NVI, nota 9) sustenta a definição de pecado do capítulo: todos “estão destituídos da glória de Deus”. A NVI acompanha de perto a Almeida, que diz: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”. O contexto liga essa carência à lei. Três versículos antes, Paulo afirma que “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Romanos 3:20), de modo que o texto usado para definir o pecado como falta de glória pertence a um argumento em que a lei é o padrão pelo qual o pecado se revela (ver seção 5).
Na nota 11, Warren atribui a Jesus, falando ao Pai, a frase “O SENHOR criou todas as coisas para os seus próprios propósitos”, que pertence a Provérbios 16:4, um dos versículos que abrem o capítulo. A passagem indicada, João 17:4, traz na Almeida: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer”, texto que sustenta bem o argumento de que Jesus glorificou o Pai ao cumprir sua obra.
Romanos 6:13 (NLT, nota 12) apoia a ideia de que toda a vida pode ser adoração: “Usem o seu corpo inteiro como instrumento para fazer o que é justo, para a glória de Deus”. Na Almeida, Paulo escreve: “oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça”. A expressão “para a glória de Deus”, que liga o versículo ao tema do capítulo, é acréscimo da tradução. Warren cita só a parte final do versículo e deixa de fora a condição de quem se oferece, “como ressurretos dentre os mortos”, que retoma o batismo descrito poucos versículos antes (Romanos 6:3,4). Esses dois aspectos, o corpo e o batismo, são desenvolvidos na seção 5.
Em 2 Pedro 1:3 (Msg, nota 22), o leitor indeciso ouve que tudo o que é necessário para agradar a Deus já foi recebido, e Warren conclui que Deus o dará “se você apenas fizer a escolha”. Na Almeida, o versículo diz que Deus nos chamou “para a sua própria glória e virtude”, palavras que a paráfrase não conserva. Pedro tira desse chamado uma exigência: “reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude” (2 Pedro 1:5). A sequência termina com o apelo a “confirmar a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Isolado do contexto, o versículo 3 perde a diligência contínua que o próprio apóstolo pede de quem já recebeu os dons (ver seção 5).
O convite final se apoia em João 3:36 (Msg, nota 24), do qual Warren cita apenas a promessa de vida a quem “aceite o Filho e confie nele”. A metade omitida, que a Almeida registra, põe como oposto de crer aquele que “se mantém rebelde contra o Filho”, verbo que significa desobedecer (ver seção 5).
Nenhuma outra passagem do capítulo apresenta problema que altere o argumento, e as que não foram comentadas vêm apenas indicadas por referência ou em tradução que não sustenta, sozinha, nenhum passo da tese.
4. Pontos de convergência
A tese do capítulo, de que tudo existe para a glória de Deus, é plenamente compartilhada pela teologia adventista. O adventismo apenas a situa num contexto narrativo distinto, detalhado na seção 5.
A definição de pecado deste capítulo, amar qualquer coisa mais do que a Deus e recusar-se a dar-lhe a glória devida, converge em parte com a linguagem que a síntese doutrinária adventista usa para descrever a origem do pecado: o ato de um ser criado que, “por exaltação própria”, tornou-se o adversário de Deus (Nisto Cremos, cap. 8). A motivação é a mesma nos dois casos: amar a si mesmo mais do que a Deus e tomar para si a glória que só a Ele pertence. À convergência faltam o pano de fundo do grande conflito, já discutido no Dia 1, e a dimensão legal do pecado como transgressão da lei, que a seção 5 desenvolve.
Ambas as tradições concordam que o evangelho exige uma resposta pessoal de fé, uma decisão consciente, mais do que um assentimento intelectual distante. Divergem quanto ao caminho ritual dessa resposta, como a seção 5 discute.
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A teologia adventista compartilha a tese do capítulo, de que tudo existe para a glória de Deus. Situa de outra forma alguns pontos que o capítulo levanta e outros que deixa de levantar: o apelo a dar glória a Deus como parte da mensagem dos três anjos, a definição de pecado como transgressão da lei e sua origem no grande conflito, as formas de glorificar a Deus ausentes da lista dos cinco propósitos, e o batismo e a santidade de caráter como resposta necessária ao convite de Cristo.
A mensagem dos três anjos sem o contexto profético
O refrão que percorre todo o capítulo, “para a glória de Deus”, ecoa o apelo do primeiro anjo de Apocalipse 14:7: “temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. Warren trata a glória de Deus como tema devocional atemporal, válido para qualquer época da história cristã. A Escritura liga esse mesmo apelo a um momento profético específico e urgente, situado no tempo do fim. A ausência dessa urgência temporal já foi discutida nesta série a propósito do Dia 1.
Para o adventismo, essa mensagem é uma proclamação pública e global que precede a volta de Cristo, na qual o primeiro anjo convoca as nações a dar glória ao Criador (Apocalipse 14:6,7; Nisto Cremos, cap. 13). Mais do que um chamado individual à devoção pessoal, seu alvo é reconduzir a humanidade à adoração do Criador, num momento em que essa mesma adoração será diretamente contestada (Apocalipse 13:4,8). Quem se forma apenas pela leitura devocional de Warren aprende a valorizar a glória de Deus como tema de reflexão pessoal. O que não aprende é por que o adventismo entende essa mesma busca como parte de uma proclamação profética dirigida a “cada nação, e tribo, e língua, e povo” (Apocalipse 14:6), num momento determinado da história que já começou.
A dimensão legal do pecado
A convergência quanto à motivação, já registrada na seção 4, não esgota a definição adventista de pecado. Esta inclui a “transgressão da lei” (1 João 3:4) e tudo o que “não provém de fé” (Romanos 14:23), ligando o pecado também à conformidade objetiva da conduta com a lei de Deus, e não somente à disposição interior de amar ou não amar (Nisto Cremos, cap. 7). Warren não menciona essa dimensão legal. A omissão não contradiz sua definição, porque amor mal direcionado e transgressão da lei não são explicações concorrentes: a Escritura trata a transgressão como fruto do amor mal direcionado. Isto deixa a definição de Warren incompleta diante do alcance que a doutrina adventista dá ao tema.
Falta ainda o pano de fundo do grande conflito, já discutido em profundidade no Dia 1. O próprio capítulo trata anjos caídos e seres humanos como “duas categorias” que falham separadamente em glorificar a Deus. A cosmovisão do grande conflito une as duas numa só narrativa. A queda humana dá continuidade à rebelião original de Satanás, que “introduziu o espírito de rebelião neste mundo, ao induzir Adão e Eva ao pecado” (Nisto Cremos, cap. 8). O apelo usado no Éden, “como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3:5), repete a mesma autoexaltação que já havia causado a queda do próprio rebelde (Isaías 14:12-14). Quando o afeto do crente se volta para si mesmo, reaparece ali a autocentração do rebelde original, e não a falha independente de uma segunda categoria de criaturas.
A lacuna tem efeito pastoral direto. Um crente pode sentir, num dado momento (talvez durante um apelo emotivo), o afeto correto por Deus e concluir que está bem resolvido diante dele. A Escritura requer também um exame sobre se a própria vida está de acordo com a lei divina, e não apenas sobre o estado do coração naquele instante. A distância entre sentimento e prática tem permitido a muitos crentes sinceros separar a experiência de conversão da guarda dos mandamentos que Deus revelou. O próprio Jesus liga as duas coisas sem deixar espaço para separá-las: “se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14:15-23).
Lacunas na lista dos cinco propósitos
Entre suas provas bíblicas, o próprio Warren cita Romanos 6:13, na versão da NLT, que fala em oferecer o corpo como “instrumento” a serviço da justiça. O texto mais direto da Escritura sobre esse tema nunca aparece no capítulo: “não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo? […] agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (1 Coríntios 6:19,20). Warren lê o corpo apenas como instrumento ético, usado para praticar boas ações. Fica de fora a dimensão literal e física que o mesmo apóstolo desenvolve: o cuidado concreto com o que se come, com o que se bebe e com a saúde.
A teologia adventista entende esse cuidado como parte integrante das formas de glorificar a Deus (Nisto Cremos, cap. 22). Ellen White chega a ligar a reforma de saúde diretamente à proclamação profética discutida no tópico anterior: “a reforma de saúde é um ramo da grande obra que deve preparar um povo para a vinda do Senhor. Ela se acha tão ligada à terceira mensagem angélica, como as mãos o estão ao corpo” (Conselhos para a Igreja, p. 218). Anunciar a glória de Deus ao mundo e cuidar do próprio corpo como templo do Espírito Santo pertencem, assim, ao mesmo chamado.
O ensino adventista sobre mordomia vai além da saúde e inclui, ao lado do corpo, o tempo e “as bênçãos da Terra e seus recursos” (Nisto Cremos, cap. 21). Antes mesmo da entrada do pecado, o ser humano já recebera o mandato de cultivar e guardar o jardim (Gênesis 2:15), um cuidado com a criação que reflete o próprio caráter do Criador. Nenhuma das cinco categorias do capítulo comporta claramente essa dimensão. O “serviço”, tal como Warren o define, é o uso de dons espirituais em benefício de outras pessoas, e não a administração do tempo ou do ambiente físico que Deus colocou sob cuidado humano.
Mais cotidiana é a ausência do trabalho do dia a dia como forma de adoração. Paulo generaliza o princípio a ponto de incluir o ato de comer e beber, “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31). Estende a mesma lógica a “tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação” (Colossenses 3:17) e a aplica ao trabalho comum: “tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Colossenses 3:23). Essa categoria não cabe na “adoração”, que Warren descreve como algo essencialmente devocional, nem no “serviço”, que ele liga a dons espirituais e à atuação dentro da igreja. Ela designa o valor que a rotina de trabalho, estudo ou tarefas domésticas adquire quando vivida com esse espírito, ainda que sem qualquer tarefa formal associada.
Essas ausências pedem uma ressalva. As cinco categorias de Warren cobrem bem a dimensão pessoal e comunitária de glorificar a Deus (a relação pessoal com ele, a vida em comunidade, o caráter, os dons, a missão). A limitação a essas cinco parece ser uma escolha estrutural, e não teológica: adoração, comunhão, semelhança a Cristo, serviço e evangelismo são também os títulos dos cinco blocos que organizam o restante do livro. Não há no capítulo uma tentativa deliberada de esgotar o assunto. Para a teologia adventista, as lacunas pesam mais do que pesariam para outras tradições confessionais, porque a mordomia do corpo, do tempo e da criação, e o valor devocional do trabalho comum, ocupam lugar concreto e cotidiano na vida adventista, fora dos momentos estritamente religiosos.
Pode-se terminar a leitura sinceramente comprometido a glorificar a Deus pela adoração, pelo serviço e pelo testemunho sem nunca considerar que hábitos alimentares, uso do tempo, cuidado com a criação ou rotina de trabalho também integram esse chamado. Nada disso foi apresentado como parte da lista. Separar essas áreas daquilo que glorifica a Deus tende a reforçar, com o tempo, o dualismo entre corpo e espírito já identificado nesta série (Dia 4). O corpo passa a ser tratado como algo à parte do espírito, e não como o “santuário do Espírito Santo” que também presta culto (1 Coríntios 6:19,20). O trabalho e o cuidado com a criação ficam relegados a assuntos seculares, sem peso devocional próprio, como se só o culto, a oração e o hino pudessem, de fato, honrar o Criador.
A oração do pecador sem batismo nem santidade de caráter
O apelo final do capítulo, para que o crente “creia” e “receba” a Cristo por meio de uma oração específica sugerida por Warren, é a versão mais explícita, até agora nesta série, do modelo revivalista de conversão já identificado no Dia 3: um evento pontual, verbal e privado, concluído no momento em que a oração termina. O batismo não é mencionado uma única vez. Do dia de Pentecostes em diante, a resposta ao evangelho aparece na Escritura sempre acompanhada dele: “arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado” (Atos 2:38); “quem crer e for batizado será salvo” (Marcos 16:16). Para Paulo, o batismo é a própria linguagem corporal do evangelho, muito além de um rito opcional posterior: ser sepultado com Cristo e ressuscitar para andar em novidade de vida (Romanos 6:3,4), o que o batismo por imersão expressa de forma visível (Nisto Cremos, cap. 15).
Para que este ponto não soe como defesa do ritual pelo ritual, a própria Ellen White adverte que “separado de Cristo, o batismo, como qualquer outro serviço, é uma forma sem valor” (O Desejado de Todas as Nações, p. 118). A salvação está na união viva com Cristo que o batismo simboliza. A oração de entrega proposta por Warren não está errada. A divergência está em apresentá-la como conclusão suficiente e completa da conversão, sem qualquer menção ao passo público que a Escritura consistentemente associa a essa mesma decisão. Falta também a continuidade que a teologia adventista espera dessa decisão. A conversão inaugura um processo contínuo de crescimento e transformação de caráter em Cristo, já discutido no Dia 5 desta série, que não se esgota num único momento, seja a oração, seja o próprio batismo (Filipenses 2:12,13).
O mesmo capítulo antecipa os cinco propósitos que vão estruturar o restante do livro (adoração, comunhão, semelhança a Cristo, serviço e evangelismo). Eles aparecem como aquilo que o crente passa a fazer depois de responder a essa oração, fora daquilo que constitui sua salvação. Essa arquitetura reflete uma leitura popular, difundida na tradição evangélica, da doutrina reformada da justificação: a justificação como transação completa e selada num instante, seguida pelo restante da vida cristã (santificação, comunhão, serviço) como fruto desejável, mas dispensável para a própria salvação. A sequência com que Paulo descreve a obra de Deus não deixa esse vão: “aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29,30). Trata-se de uma cadeia contínua, em que o crescimento intermediário faz parte do mesmo processo que liga o chamado à glorificação final. O próprio versículo que ampara o convite final do capítulo aponta nessa direção: na metade de João 3:36 que Warren deixa de citar, o oposto de crer no Filho é manter-se “rebelde contra o Filho”. Para o adventismo, a santidade de caráter que os cinco propósitos seguintes vão descrever pertence à própria experiência da salvação, e não a uma salvação já selada nesta oração (Hebreus 12:14; Nisto Cremos, cap. 10).
Um leitor que siga literalmente as instruções finais do capítulo pode considerar sua jornada espiritual encerrada ao fechar o livro, sem jamais buscar o batismo, o vínculo formal com uma comunidade de fé ou o processo contínuo de crescimento em Cristo. Repete-se aqui o padrão de espiritualidade privatizada já identificado no Dia 1, a propósito do chamado individual sem comunidade escatológica. Lá a lacuna era estrutural e implícita. Aqui, no momento de maior apelo à decisão de todo o livro, ela se torna concreta: o leitor é convidado a crer e receber, mas nunca a seguir para as águas e a continuar crescendo depois delas, os passos que a Escritura, do batismo de Jesus em diante, sempre associa a esse mesmo convite.
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