Dia 8: Planejado para Agradar a Deus
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre o primeiro dos cinco blocos do livro (Propósito 1: adoração) com a afirmação de que o ser humano foi planejado para agradar a Deus, ilustrando a ideia com a imagem de Deus como testemunha invisível e sorridente no instante do nascimento de cada pessoa. Segundo o capítulo, Deus não precisava criar ninguém, mas escolheu fazê-lo para sua própria satisfação, “pois este era o seu prazer e a sua vontade” (Efésios 1:5, NTLH). Ser motivo de prazer para Deus é o que garante o valor de cada pessoa: ninguém que Deus deseja manter consigo por toda a eternidade pode ser insignificante. Deus deu à humanidade a capacidade de sentir prazer, incluindo os cinco sentidos e as emoções, uma vez que a fez à sua imagem. O próprio Deus, segundo Warren, sente emoções intensas e genuínas: alegria, tristeza, ciúme, compaixão, ira, riso.
O capítulo define agradar a Deus como o sentido da palavra “adorar”, comparando-a a um diamante de várias facetas, cujo estudo completo exigiria vários livros. Boa parte do texto se dedica a corrigir concepções populares sobre o tema. A adoração não é sinônimo de música (Adão adorou no Éden antes de a Bíblia mencionar qualquer instrumento musical) e não depende de estilo, andamento ou volume; é a letra, e não a melodia, que torna uma canção sagrada. Principalmente, a adoração não existe para benefício de quem adora: ainda que traga benefícios, seu objetivo é agradar a Deus. Segundo Warren, antropólogos já observaram que adorar é um impulso universal, posto por Deus na própria estrutura do ser humano, tão natural quanto comer ou respirar, de modo que, na ausência de um objeto legítimo, a pessoa sempre acaba encontrando algum substituto, ainda que seja ela mesma.
Warren cita a repreensão de Isaías contra a adoração de lábios sem coração e conclui que a adoração abrange a vida inteira, e não uma parte dela separada das demais. Qualquer atividade, inclusive comer, beber ou trabalhar, se torna adoração quando feita conscientemente para Deus, como se fosse para o próprio Jesus. O capítulo termina com uma lembrança pessoal de Warren: no início do namoro, pensava na esposa o tempo todo, e é essa lembrança constante que ele propõe como imagem da verdadeira adoração, descrita como apaixonar-se por Jesus.
2. Pressupostos teológicos implícitos
O capítulo pressupõe que o motivo da criação seja o prazer que Deus obtém dela: a criatura existe para produzir uma satisfação divina. Warren enuncia a premissa ao dizer que Deus “escolheu criá-lo para a satisfação dele” e faz dela o primeiro propósito da vida humana. Dela depende todo o bloco sobre adoração que o capítulo inaugura, uma vez que adorar será definido como dar prazer a Deus.
Nesse mesmo raciocínio, o valor de cada pessoa tem como fundamento a disposição afetiva de Deus em relação a ela. Quem compreende isso, promete Warren, “jamais voltará a se sentir insignificante, pois isso prova o valor que você tem”, e o leitor, como filho de Deus, dá prazer ao coração dele como nenhuma outra coisa que ele tenha criado.
Warren descreve as emoções de Deus nos mesmos termos das emoções humanas, como experiências que Deus vive do mesmo modo que a criatura feita à sua imagem. Não parece pretender uma doutrina sistemática sobre o tema, e o apoio que oferece é um bloco de referências reunidas na nota 2. Esse paralelo sustenta o encadeamento do capítulo: é ele que liga a capacidade humana de sentir prazer ao prazer que a adoração deve produzir em Deus.
Por trás da ampliação do sentido comum de “adoração” está a premissa de que ela se define pela disposição consciente de quem age, e não pelo lugar, pelo momento ou pela forma. Por isso, no próprio culto, tudo seria adoração, da oração e da oferta ao cumprimento entre os irmãos. Fora dele, basta manter com Jesus uma conversa contínua durante a atividade, e até ordenhar vacas, na frase de Lutero citada pelo capítulo, pode glorificar a Deus.
Quanto à música, a premissa é de que o som, por si mesmo, não carrega significado espiritual, de modo que a forma musical, sozinha, nunca aproximaria alguém de Deus nem o afastaria dele. Daí a afirmação de que “não existe um estilo bíblico” e a observação de que o som de um grupo étnico pode soar como barulho para outro, diversidade que Deus apreciaria. As disputas entre cristãos sobre estilo se reduzem, assim, a preferências defendidas como se fossem bíblicas.
A equivalência entre adorar e agradar a Deus pressupõe que a adoração seja, antes de tudo, algo que o próprio adorador decide oferecer. A iniciativa fica do lado humano, e o critério para avaliá-la passa a ser a intenção de quem adora. Os bilhetes que Warren recebe como pastor elogiando “a adoração de hoje” servem-lhe de exemplo de um mal-entendido: medir o culto pelo bem que ele fez a quem participou.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre sobretudo a traduções de equivalência dinâmica: NTLH (notas 1 e 6), CEV (nota 3), NVI (notas 5, 10 e 11), GWT (nota 9) e, nos dois versículos que o abrem, NLT e NTLH (Apocalipse 4:11; Salmos 149:4). Há ainda referências sem versão marcada (notas 2, 4 e 8) e duas paráfrases de autor único, a Bíblia Viva (BV, nota 7) e The Message (Msg, nota 12). Essas versões fazem escolhas de sentido que o leitor não percebe, e por isso os versículos que sustentam os passos principais do argumento pedem conferência numa tradução formal, a Almeida Revista e Atualizada.
Na NLT, Apocalipse 4:11, um dos versículos que abrem o capítulo, diz que as coisas foram criadas “para o teu agrado”. A Almeida traz: “por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas”. A palavra usada no original designa a vontade soberana do Criador, e não o prazer que ele obtém da obra. O uso é extrapolado: o versículo não diz que Deus criou para obter prazer, tese com que o capítulo se abre.
Em Efésios 1:5 (nota 1), a NTLH coordena “prazer” e “vontade”, onde a Almeida traz uma só expressão, “segundo o beneplácito de sua vontade”. O versículo trata da adoção de filhos, e não do ato de criar, e também aqui o uso é extrapolado.
Na nota 3, a CEV faz Salmos 147:11 dizer que o SENHOR se agrada “somente daqueles que o adoram e confiam em seu amor”. A Almeida traz: “Agrada-se o Senhor dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia”. A versão troca o temor por “adorar” e acrescenta um “somente” ausente do hebraico. O uso é extrapolado: a versão aproxima o versículo da definição de Warren mais do que o original permite, e no salmo o prazer divino é resposta à reverência confiante de quem busca a Deus.
Em Romanos 12:1 (nota 12), The Message convida a pôr diante de Deus a “vida diária e comum”, onde a Almeida fala em apresentar o corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. O uso é extrapolado, e a extrapolação vem da paráfrase: a aplicação ao cotidiano já chega pronta e ocupa o lugar do “culto racional”, que a seção 5 retoma.
No restante, o uso bíblico do capítulo é fiel: nas quinze referências reunidas na nota 2 (de Gênesis a Ezequiel, com 1 João 4:16 ao final), que sustentam em conjunto o ponto amplo de que Deus é um ser pessoal que sente, na adoração que o Pai procura (João 4:23), na crítica ao culto de lábios (Isaías 29:13), no louvor contínuo (Salmos 34:1; Salmos 105:4) e no trabalho feito como para o Senhor (Colossenses 3:23).
4. Pontos de convergência
Estender a adoração a toda a vida, para além da música e do culto de igreja, aproxima o capítulo do ensino adventista sobre conduta cristã, segundo o qual “todo cristão verdadeiro coloca a Deus em primeiro lugar naquilo que faz, em todos os seus pensamentos, e em todos os seus desejos” (Nisto Cremos, cap. 22). Esse ensino se apoia no mesmo texto usado por Warren: “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31). Ao incluir o trabalho nessa lista, o capítulo também fecha, sem se dar conta, a lacuna do trabalho cotidiano como forma de adoração já apontada no Dia 7 desta série.
Na rejeição do formalismo vazio, a convergência é completa: a crítica de Warren, apoiada em Isaías 29:13, a uma adoração de lábios sem coração coincide com a ênfase adventista na religião do coração, e não apenas da forma externa.
Também o impulso universal de adorar tem respaldo bíblico. A observação de que esse impulso foi posto por Deus na própria estrutura do ser humano e, na ausência de um objeto legítimo, sempre encontra algum substituto corresponde à leitura bíblica da idolatria como adoração desviada, não abolida.
Quanto ao caráter divino, Warren apresenta Deus como um ser pessoal que tem emoções genuínas, e não como uma força impessoal e indiferente. Essa imagem converge com a leitura adventista do grande conflito, já apresentada no Dia 1, que tem no centro o caráter amoroso de Deus.
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A posição adventista acompanha o eixo do capítulo, que estende a adoração a toda a vida, e se distingue dele em seis pontos: a satisfação de Deus como fruto do amor, e não como motivo da criação; o valor humano ancorado no preço da redenção, dentro do grande conflito; a adoração como resposta consciente à revelação; a forma musical como algo que carrega consequência espiritual; o sábado como âncora semanal da adoração contínua; e a mordomia da saúde contida em 1 Coríntios 10:31.
Prazer divino como consequência do amor, não sua causa
O capítulo afirma que Deus “não precisava criar você, mas escolheu criá-lo para a satisfação dele”. A primeira metade da frase é bíblica e precisa. Deus é autossuficiente, e Paulo afirma que ele “nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse” (Atos 17:25). Pela boca do salmista, o próprio Deus declara que, mesmo se tivesse fome, nada pediria à sua criação, uma vez que tudo já lhe pertence (Salmos 50:9-12).
A segunda metade introduz uma imprecisão sutil. Ao dizer que Deus criou “para a satisfação dele”, o texto faz dessa satisfação o motivo da criação, aquilo que ela existe para produzir. O mesmo padrão aparece em mitos antigos do Oriente Próximo, como o babilônico Enuma Elish, em que os deuses criam os seres humanos para suprir uma carência própria: comida, trabalho, alívio. A distância entre “Deus tem prazer na criação” e “Deus criou para ter prazer” parece pequena, mas separa duas ideias bem diferentes de Deus. A primeira descreve o transbordamento de um amor já completo; a segunda, uma necessidade, ainda que disfarçada de escolha livre.
A Escritura sustenta a primeira ideia. Sofonias promete: “ele se deleitará em ti com alegria” (Sofonias 3:17). Jesus, orando ao Pai, lembra que já era amado “antes da fundação do mundo” (João 17:24). O amor de Deus não esperou a criação para existir: já era pleno na relação entre o Pai e o Filho, e a criação transborda dele em vez de suprir uma falta. A doutrina adventista da criação afirma exatamente isso. Uma vez que Deus é amor (1 João 4:8), “o amor é o móvel propulsor de tudo aquilo que Deus faz”, e ele criou o ser humano “não apenas para que pudéssemos amá-lo, mas também para que Ele nos pudesse amar” (Nisto Cremos, cap. 6).
O versículo escolhido por Warren para abrir o capítulo aponta na mesma direção quando lido numa tradução formal. Na visão de João, os anciãos declaram Deus digno de receber a glória “porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Apocalipse 4:11). A existência das criaturas decorre da vontade soberana do Criador, e o cântico faz disso um motivo de adoração, e não a prova de que Deus criou para obter prazer (ver seção 3). Warren teria dito algo mais preciso, e igualmente pastoral, se tivesse descrito a satisfação de Deus como consequência do seu amor.
Essa imprecisão carrega uma consequência pastoral concreta. Quem absorve a ideia de uma criação motivada pela busca de satisfação divina pode aplicar a mesma lógica invertida à própria vida espiritual, buscando em Deus uma fonte de prazer que sacie uma necessidade própria, em vez de responder com gratidão a um amor que já estava completo antes de qualquer criatura existir.
O preço da redenção como base do valor humano
O parágrafo de abertura do capítulo sustenta ainda outro argumento. Warren ancora o valor de cada pessoa no fato de que Deus a quis para a própria satisfação e deseja mantê-la consigo para sempre. O argumento é bem-intencionado, pensado para combater o sentimento de insignificância. Descreve, contudo, o valor humano quase como efeito de uma preferência afetiva de Deus e deixa de lado a prova mais concreta que a Escritura oferece desse valor: o preço pago por ele. Pedro lembra aos crentes que o resgate deles “não foi mediante coisas corruptíveis […] mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1 Pedro 1:18,19).
Essa base é bem mais sólida, e pastoralmente mais estável, do que o prazer divino tomado isoladamente. O caráter de Deus não muda (Malaquias 3:6), mas um sentimento costuma ser associado ao momento presente, às circunstâncias e ao desempenho recente de quem é amado. Daí nasce a pergunta ansiosa de todo coração inseguro: “será que Deus ainda sente prazer em mim, agora?” O sacrifício do Calvário, histórico, concreto e irrevogável, não deixa espaço para essa dúvida. Para a teologia adventista, o valor humano está ligado ao custo da redenção dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás (Nisto Cremos, cap. 8), já discutido no Dia 1, um custo que o próprio Deus assumiu por ter amado o mundo (João 3:16). A alma humana vale o preço que Deus considerou justo pagar por ela, muito além do prazer que lhe proporciona num dado momento.
A mesma vulnerabilidade tem outra face, bastante comum no cuidado pastoral: o peso de quem se sente encarregado de produzir, sozinho, a satisfação de um Deus perfeito e santo, como se a aceitação dependesse do sucesso constante em agradá-lo. Jesus responde a esse cansaço, e o faz diante de pessoas exaustas de tentar cumprir exigências religiosas: “vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei […] porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). O ponto seguinte retoma essa resposta por outro ângulo. A adoração não nasce do esforço isolado de quem adora; é habilitada pelo Espírito Santo, segundo o princípio de cooperação já discutido no Dia 5 a propósito do crescimento do caráter (Filipenses 2:12,13).
Culto racional, não emoção induzida
Warren define adorar essencialmente como agradar a Deus, uma síntese pastoral compreensível, mas incompleta. A Bíblia descreve a adoração, antes de tudo, como resposta: a palavra mais usada no Novo Testamento para “adorar” descreve literalmente alguém que se curva e se prostra diante de um superior. Nesse gesto, o que conta é o reconhecimento de quem Deus é e de quem o adorador é diante dele, bem mais que uma decisão isolada de “dar prazer” a Deus. Ellen White descreve esse processo: “para O servirmos devidamente, é mister nascermos do divino Espírito […] esse é o verdadeiro culto. É o fruto da operação do Espírito Santo” (O Desejado de Todas as Nações, p. 123). A adoração nasce, assim, da resposta que o Espírito desperta no coração de quem conhece a Deus por revelação, a adoração “em espírito e em verdade” que o próprio Jesus descreve (João 4:24), e não somente do esforço ou da boa intenção do adorador.
Essa distinção também ajuda a resolver uma tensão que o próprio Warren cria ao dizer que “a adoração não é para nosso benefício”. No capítulo do Dia 7, ele havia citado John Piper para afirmar que a satisfação humana em Deus e a glória que Deus recebe são a mesma moeda vista por dois lados, o núcleo do que Piper chama de “hedonismo cristão”. Aqui, Warren admite que a adoração traz benefícios, mas classifica como mal-entendido o bilhete de quem diz ter amado o culto porque lhe fez bem, e afirma que quem sai dizendo não ter aproveitado nada adorou “pelos motivos errados”. A satisfação que o Dia 7 identificava com a própria glória de Deus passa a ser tratada como algo que o adorador não deveria buscar.
Warren acerta ao desconfiar de uma adoração medida pelo quanto emociona o adorador, mas erra ao tratar o proveito espiritual do culto como um alvo ilegítimo, como se desejar ser edificado por Deus já fosse, por si só, um motivo impróprio. Paulo chama a verdadeira adoração de “culto racional” em Romanos 12:1, a passagem que o capítulo cita pela paráfrase The Message, onde a expressão dá lugar a um apelo mais genérico a oferecer a “vida diária e comum” a Deus (ver seção 3). Lido numa versão fiel ao original, o versículo descreve um culto que envolve a mente e a vontade, além do sentimento do momento. Essa categoria separa com precisão as duas coisas que o capítulo confunde. Buscar a adoração pela emoção que ela produz é, de fato, um desvio; buscar a Deus na adoração e receber dela, como fruto, uma alegria genuína, não é. O alvo continua sendo Deus, e a alegria é sua consequência natural e esperada, e não um risco a ser evitado. Ellen White reforça essa ordem de prioridades ao afirmar que “no serviço de Deus […] há satisfação e alegria” (Caminho a Cristo, pp. 124,125), apresentando a satisfação como resultado do serviço prestado, e não como seu objetivo.
Perder essa distinção tem duas consequências. Sem o papel do Espírito Santo, a adoração pode se reduzir a mais uma disciplina de vontade própria, algo que a pessoa decide fazer para agradar a Deus, sem a transformação interior que só o Espírito produz.
A segunda é uma inversão de valores que a Escritura já previne. Quando Elias esperava o Senhor no monte Horebe, Deus não estava no vento forte que despedaçava as rochas, nem no terremoto, nem no fogo, mas num “cicio tranquilo e suave” que veio depois de tudo isso (1 Reis 19:11-13). No relato bíblico, a intensidade do fenômeno sensorial é justamente onde Deus escolhe não estar. Sem essa discrição, o critério se inverte. Qualquer experiência que produza forte comoção, gerada por música, luzes ou pela dinâmica de um grupo, passa a valer como prova de verdadeira adoração, enquanto a alegria que nasce de um encontro real com Deus, fruto do Espírito segundo a Escritura (Gálatas 5:22), passa a ser vista com desconfiança por não vir acompanhada do mesmo estrondo. Isaías e Amós registram o critério divino pela via oposta: Deus rejeitou cultos israelitas ritualisticamente corretos (Isaías 1:11-14), música incluída no caso de Amós (Amós 5:21-23), porque o coração dos adoradores estava distante dele: “afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras” (Amós 5:23). O profeta não acusa a música de estar mal executada. Acusa a ausência do coração, e é essa condição, e não a intensidade do fenômeno externo, que Deus examina em ambos os casos.
A história adventista já enfrentou essa inversão de perto. No início do século 20, um movimento conhecido como “carne santa” surgiu em Indiana confundindo gritos, tambores e forte agitação emocional com a descida do Espírito Santo. Ellen White corrigiu o engano sem meias palavras: “mero ruído e gritos não são sinal de santificação, ou da descida do Espírito Santo”, acrescentando que “o Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal balbúrdia de ruído” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pp. 35,36). O alerta vale além daquele episódio. Barulho, luzes e emoção intensa podem acompanhar uma experiência genuína com Deus, mas nunca são, por si mesmos, prova dela, nem o meio de produzi-la.
Música com consequência espiritual, não neutra
A negação de um “estilo bíblico” único e obrigatório é correta: a Bíblia não registra partituras, e boa parte dos instrumentos mencionados nela já não existe em forma reconhecível. Dessa observação, o capítulo avança para uma afirmação bem mais ampla, ao declarar que “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas” e que o estilo preferido de cada um “diz mais sobre você […] do que sobre Deus”. O passo seguinte vai ainda mais longe. Para Warren, não existe música cristã, apenas letra cristã: é a letra, e não a melodia, que torna uma canção sagrada, e “não existem melodias espirituais”. Nessa segunda etapa, a ausência de um estilo obrigatório passa a equivaler à neutralidade espiritual de qualquer som, inferência que a primeira observação, sozinha, não sustenta. A raiz do problema está em presumir que a música, por si mesma, pode gerar adoração. O autor desta série, em Adoração — O Presente do Homem Para Deus, formula o princípio inverso: “a música não é a origem da adoração. Ela é um dos veículos da adoração. Música não é o princípio da adoração, mas sim, o seu resultado”.
A Escritura recomenda ampla diversidade de instrumentos e formas de louvor (Salmos 150), mas estabelece um critério para tudo aquilo que ocupa a mente do crente: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Filipenses 4:8). A declaração oficial da Igreja Adventista sobre música toma esse texto, ao lado de 1 Coríntios 10:31, como um dos dois fundamentos de toda escolha musical, sacra ou secular, e afirma sem rodeios que “a música não é moral nem espiritualmente neutra”, podendo “nos levar a alcançar a mais exaltada experiência humana” ou ser “usada pelo príncipe do mal para degenerar e degradar” (Uma Filosofia Adventista do Sétimo Dia com Relação à Música, Associação Geral, 2004). Ellen White, ao comentar o propósito original da música no culto de Israel, descreve seu papel de “erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante” e adverte, no mesmo fôlego, que a música mal empregada “torna-se um dos mais bem-sucedidos fatores pelos quais Satanás distrai a mente, do dever e da contemplação das coisas eternas” (Patriarcas e Profetas, p. 594).
A mesma declaração responde diretamente à tese de que só a letra santifica uma canção. Entre os princípios que devem orientar a escolha musical, o documento estabelece que “os elementos musicais e literários operam juntos e em harmonia para influenciar o pensamento e o comportamento”, e que a música sacra “não deve evocar associações seculares”. O som também comunica, portanto, e pode contradizer aquilo que as palavras afirmam. O episódio de Indiana, em 1900, mencionado no ponto anterior, mostra isso de modo concreto. Segundo o relato de uma testemunha ocular, o pastor S. N. Haskell, o grupo tocava “músicas dançantes com letra sagrada” (carta de S. N. Haskell a Sara McEnterfer, 12 de setembro de 1900). A letra era religiosa, e Ellen White, ainda assim, condenou aquela música sem ressalvas: “Satanás opera entre a algazarra e a confusão de tal música, a qual, devidamente dirigida, seria um louvor e glória para Deus”, e “fará da música um laço pela maneira por que é dirigida” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pp. 37,38). O laço que ela aponta está na maneira de fazer a música, e não no conteúdo das palavras.
Ellen White adverte também que “Satanás não faz objeções à música, uma vez que a possa tornar um canal de acesso à mente dos jovens” (Testemunhos para a Igreja, vol. 1, p. 506), e descreve a dupla possibilidade que qualquer forma musical carrega: “quando usada para fins adequados, a música é uma bênção, mas é muitas vezes usada como um dos mais atrativos meios de Satanás para enganar pessoas” (Mensagens aos Jovens, p. 295).
Outro risco apontado por Ellen White independe do gênero musical e diz respeito ao lugar para onde a atenção da congregação se volta durante a execução: “o talento musical não raro incentiva o orgulho e o desejo de exibição […]. A música, em vez de levá-los a lembrar-se de Deus, leva-os com frequência a esquecê-Lo” (A Fé Pela Qual Eu Vivo, p. 242). O alerta aplica-se igualmente a um órgão de tubos executado com virtuosismo e a uma banda contemporânea afinada com precisão, sempre que o brilho de quem toca ou canta se torna o que a congregação de fato contempla. A Escritura já havia antecipado o remédio, devolvendo ao Doador o crédito que o talento humano tende a reter para si. Paulo pergunta a quem se orgulha de um dom recebido: “que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7). O salmista recusa a glória que pertence somente a Deus: “não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória” (Salmos 115:1).
A neutralidade atribuída ao estilo musical se aproxima, ainda, de um argumento que a tradição cristã já empregou de modo equivocado: a ideia de que a sinceridade de quem adora santifica aquilo que ele escolhe oferecer a Deus, apoiada numa leitura solta de Tito 1:15, “todas as coisas são puras para os puros”. O contexto imediato trata da polêmica de Paulo contra mestres judaizantes em Creta (Tito 1:10-14), e não de elementos de adoração. Em nenhum lugar a Escritura atribui ao adorador autoridade para tornar santo o que ele decide trazer a Deus. Nadabe e Abiú morreram por oferecerem “fogo estranho”, semelhante ao prescrito, mas não idêntico a ele (Levítico 10:1,2), e a oferta de Caim foi rejeitada sem que o texto a acuse de insinceridade (Gênesis 4:3-5). Quem santifica um elemento de adoração é Deus; do contrário, seria o adorador, e não o Criador, quem decidiria o que Lhe é aceitável.
Paulo, ao instruir efésios e colossenses sobre o cântico na igreja, tampouco abençoa indiscriminadamente qualquer forma musical de seu tempo. Ele especifica “salmos […] hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5:19; Colossenses 3:16), categorias que já deixam de fora parte da produção musical secular contemporânea a ele. Reconstruir hoje, texto a texto, qual gênero antigo corresponderia a cada categoria paulina é tarefa que foge a esta análise. Basta reconhecer que a afirmação de que Deus ama todos os tipos de música carece do cuidado que o apóstolo teve ao especificar, e não generalizar, o que cabe no cântico da igreja.
Nada disso restaura o “estilo bíblico” que Warren corretamente descartou, nem produz uma lista do que é ou não apropriado. Estabelece algo mais modesto, igualmente ausente do capítulo: diante de qualquer forma musical, além da pergunta “isto reflete genuinamente minha personalidade?”, cabe também esta outra: “isto eleva o pensamento a Deus, ou o distrai dele, seja pela excitação sensorial, seja pela admiração ao próprio talento?” Reduzir a questão à primeira pergunta, como faz o capítulo, deixa sem resposta o discernimento que quem lidera música na igreja precisa exercer todas as semanas. A tradição adventista, ao tratar a música como dom que tanto pode edificar quanto distrair, nunca a considerou questão de gosto pessoal, indiferente a Deus.
O sábado como treino da adoração contínua
O capítulo rejeita, com acerto, a ideia de que a adoração se resume à música dos cultos na igreja e afirma que ela deveria permear toda a vida, do trabalho ao lazer. Não menciona uma única vez, porém, o sábado, já apresentado nesta série (Dia 1) como memorial semanal da criação. A lacuna aparece aqui sob outro ângulo: além de ancorar a doutrina da criação no calendário, o sábado sustenta, na rotina, a própria ideia de que toda a vida deveria ser adoração.
Para o adventismo, o mandamento “lembra-te do dia de sábado, para o santificar” (Êxodo 20:8-11; Nisto Cremos, cap. 20) não compete com essa ideia. Dá-lhe ritmo e sustentação concretos, treinando e protegendo essa continuidade. Um dia inteiro, a cada sete, reservado sem a concorrência de outras tarefas, é o momento em que a pessoa pratica de forma concentrada o que os outros seis dias deveriam refletir de forma diluída. Sem esse ponto de ancoragem semanal, marcado no calendário e guardado em comunidade, a “adoração como estilo de vida” corre o risco de permanecer bonita no papel e ausente do dia a dia: uma intenção sincera que a correria do cotidiano tende a engolir quando não há lembrete regular que a sustente.
O cardápio também incluído em 1 Coríntios 10:31
O próprio Warren cita o texto mais usado pela teologia adventista para fundamentar a mordomia da saúde, “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31), mas o aplica de outra forma: como prova de que qualquer atividade, feita com a atitude certa, se torna adoração. A leitura presume que a atitude interior baste por si só, sem atenção ao conteúdo do que se come ou se bebe.
O Dia 7 desta série mostrou que a lista dos cinco propósitos do livro deixa de fora a mordomia do corpo. Aqui a lacuna reaparece de forma mais concreta, uma vez que o texto que fundamenta essa mordomia está citado no próprio capítulo, lido em outra chave. Para o adventismo, dedicar a Deus o ato de comer e beber envolve a atitude de quem se senta à mesa e também o que, de fato, se põe sobre ela (1 Coríntios 6:19,20; Nisto Cremos, cap. 22). Um leitor pode aprender corretamente com este capítulo a orar antes das refeições e a comer com gratidão consciente, e nunca considerar que o próprio cardápio faz parte desse chamado.
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