Dia 8: Planejado para Agradar a Deus
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre o primeiro dos cinco blocos do livro (Propósito 1: adoração) com a afirmação de que o ser humano foi planejado para agradar a Deus. Segundo o capítulo, Deus não precisava criar ninguém, mas escolheu fazê-lo para sua própria satisfação; ser motivo de prazer para Deus é o que garante o valor de cada pessoa: ninguém que Deus deseja manter consigo por toda a eternidade pode ser insignificante. Deus deu à humanidade a capacidade de sentir prazer, incluindo os cinco sentidos e as emoções, uma vez que a fez à sua imagem, e o próprio Deus, segundo Warren, sente emoções intensas e genuínas: alegria, tristeza, ciúme, compaixão, ira, riso.
O capítulo define agradar a Deus como o sentido da palavra “adorar”, e dedica boa parte do texto a corrigir concepções populares equivocadas sobre adoração: ela não é sinônimo de música (Adão adorou no Éden antes de existir qualquer instrumento musical na Bíblia); não depende de estilo, ritmo ou volume; e, principalmente, não existe para benefício de quem adora, mas exclusivamente para agradar a Deus. Warren cita a repreensão de Isaías contra a adoração de lábios sem coração e conclui que a adoração abrange a vida inteira, não somente uma parte dela separada das demais: qualquer atividade, inclusive comer, beber ou trabalhar, se torna adoração quando feita conscientemente para Deus. O capítulo termina com uma ilustração pessoal de Warren sobre pensar constantemente na esposa quando namoravam, como metáfora do que significa “permanecer no amor” de Jesus.
2. Pressupostos teológicos implícitos
A satisfação de Deus como motivo da criação
O capítulo afirma que Deus não precisava criar ninguém, mas “escolheu fazê-lo para sua própria satisfação”: a criação existe, segundo essa formulação, para que Deus obtenha prazer dela.
O prazer de Deus como prova do valor pessoal
O capítulo ancora o valor de cada pessoa no fato de agradar a Deus e de Deus anelar mantê-la consigo para sempre: é essa realidade, segundo Warren, que impede alguém de se sentir insignificante. Trata-se de um argumento pastoral compreensível, mas que localiza o valor humano inteiramente na disposição afetiva de Deus em relação à pessoa, sem tocar em nenhuma outra base para esse mesmo valor.
As emoções de Deus em paralelo direto às emoções humanas
É provável que Warren não tenha pretendido propor, com isso, uma doutrina sistemática sobre a natureza das emoções divinas. Ainda assim, ao reunir uma longa lista de textos do Antigo Testamento (nota 2) sem distinguir entre linguagem figurada e literal, ele trata as emoções divinas (ciúme, ira, tristeza, riso) como equivalentes diretos e abrangentes da experiência emocional humana ao descrever o caráter de Deus.
Adoração redefinida como estilo de vida contínuo, não como evento
O capítulo amplia deliberadamente o sentido comum de “adoração”, tirando-a do contexto exclusivo do culto de igreja e da música, e a estende a qualquer atividade cotidiana feita conscientemente para Deus.
Neutralidade espiritual do estilo musical
Ao afirmar que “não existe um estilo bíblico” e que “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas”, o capítulo trata a forma musical como uma categoria inteiramente neutra do ponto de vista espiritual, reduzida a uma questão de formação cultural e personalidade, sem qualquer critério capaz de distinguir um estilo apropriado de outro.
Adoração definida pelo prazer que causa a Deus, sem o componente de resposta consciente
Warren identifica adorar com agradar a Deus, tratando essa disposição, sobretudo, como uma decisão e um estado de ânimo que o próprio adorador produz diante de Deus, insistindo ainda que esse prazer não deve trazer nenhum benefício a quem adora.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo usa uma boa variedade de versões: NTLH (notas 1, 6), CEV (nota 3), NVI (notas 5, 10, 11), BV (nota 7) e GWT (nota 9), além de vários textos sem versão marcada, o que indica a tradução de referência padrão do livro. A paráfrase The Message aparece uma vez (nota 12, Romanos 12:1; ver nota metodológica da Apresentação). A nota 2, usada para sustentar que “Deus também tem emoções”, reúne mais de dez referências de livros diferentes do Antigo Testamento (Gênesis, Êxodo, Deuteronômio, Juízes, Reis, Crônicas, Salmos, Ezequiel, 1 João) em bloco único, sem desenvolver individualmente nenhuma delas, um uso mais próximo de lista de apoio geral do que de exegese pontual, ainda que os textos, tomados em conjunto, sustentem razoavelmente o ponto geral do capítulo. No restante, o uso das passagens sobre adoração é fiel ao propósito do texto, sem extrapolação relevante.
4. Contraponto adventista
Este capítulo levanta múltiplos pontos que a posição adventista situa de forma distinta: a satisfação de Deus como fruto do amor e não como motivo da criação, o valor humano ancorado no grande conflito, a natureza consciente da adoração — incluindo os limites da diversidade musical —, a âncora sabática da adoração contínua, e a mordomia da saúde a partir de 1 Coríntios 10:31, resumidos nos tópicos a seguir.
A satisfação de Deus como fruto do amor, não como motivo da criação
Para o adventismo, Deus criou por um amor que já era pleno em si mesmo, não por precisar de um objeto que lhe desse prazer; a satisfação divina na criação é consequência desse amor, não sua causa (Atos 17:25; Salmos 50:9-12; João 17:24).
O valor humano ancorado no grande conflito
Para o adventismo, o valor de cada pessoa não repousa apenas no prazer que ela dá a Deus, mas no preço concreto pago pela sua redenção dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás (1 Pedro 1:18,19; João 3:16; Nisto Cremos, cap. 8).
Adoração como resposta consciente à revelação, não emoção induzida
Para a teologia adventista, adorar é a resposta consciente e submissa de quem conhece a Deus por revelação, habilitada pelo Espírito Santo, um “culto racional” (Romanos 12:1) distinto de qualquer estado emocional induzido por música, ambiente ou dinâmica de grupo (João 4:24; Nisto Cremos, cap. 11).
Diversidade musical dentro de limites discerníveis, não neutralidade absoluta
A Escritura recomenda ampla diversidade de instrumentos e formas de louvor (Salmos 150), mas também registra ocasiões em que um culto musicalmente irrepreensível foi rejeitado por Deus porque o coração dos adoradores estava distante dele (Amós 5:21-23; Isaías 1:11-14), o que indica que a forma musical carrega consequência espiritual, e não é inteiramente neutra.
A âncora sabática da adoração contínua
A adoração como estilo de vida diário encontra, na teologia adventista, um ponto de ancoragem semanal concreto, o sábado, que treina e protege essa mesma continuidade (Êxodo 20:8-11; Nisto Cremos, cap. 20).
1 Coríntios 10:31 e a mordomia da saúde
O mesmo texto que Warren cita para dizer que comer e beber podem ser adoração é, para o adventismo, a base da mordomia da saúde física, já discutida no Dia 7 desta série (1 Coríntios 6:19,20; Nisto Cremos, cap. 22).
5. Pontos de convergência
Adoração como estilo de vida, não como evento isolado
A afirmação central do capítulo, de que a adoração não se limita à música ou ao culto de igreja e pode se estender a qualquer atividade cotidiana, converge de forma ampla com a prática adventista. É o mesmo princípio que aparece quando Deus rejeita cultos musicalmente impecáveis de Israel porque o coração dos adoradores estava longe dele (Amós 5:21-23): a música é fruto da adoração, não sua origem. O mesmo vale para comer e beber, atividades que Warren cita (1 Coríntios 10:31) e que o adventismo também trata como formas concretas de glorificar a Deus no dia a dia.
Rejeição do formalismo vazio
A crítica de Warren, apoiada em Isaías 29:13, contra uma adoração de lábios sem coração, converge inteiramente com a ênfase adventista na religião do coração, e não apenas da forma externa.
A universalidade do impulso de adorar
A observação de que adorar é um impulso natural, posto por Deus na própria estrutura do ser humano, e que, na ausência de um objeto legítimo, sempre encontra algum substituto, converge com a leitura bíblica da idolatria como adoração desviada, não abolida.
Deus como ser que sente
A afirmação de que Deus é um ser pessoal que tem emoções genuínas, e não é uma força impessoal e indiferente, converge com a centralidade do caráter emocionalmente investido de Deus dentro do grande conflito, já discutido no Dia 1 desta série.
6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A satisfação de Deus como fruto do amor, não como motivo da criação
O capítulo afirma que Deus “não precisava criar ninguém, mas escolheu fazê-lo para sua própria satisfação”. A primeira metade da frase é bíblica e precisa: Deus é autossuficiente, e Paulo afirma que ele “nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de alguma coisa” (Atos 17:25). O próprio Deus faz uma afirmação semelhante pela boca do salmista: mesmo que tivesse fome, não pediria nada à sua criação, uma vez que tudo já lhe pertence (Salmos 50:9-12).
A segunda metade da frase, porém, introduz uma imprecisão sutil. Ao dizer que Deus criou “para sua própria satisfação”, o texto trata essa satisfação como o motivo da criação, ou seja, aquilo que ela existe para produzir. O mesmo padrão aparece em diversos mitos antigos do Oriente Próximo, como o babilônico Enuma Elish, em que os deuses criam os seres humanos justamente para suprir uma carência própria: comida, trabalho, alívio. A diferença entre “Deus tem prazer na criação” e “Deus criou para ter prazer” parece pequena, mas separa duas ideias bem diferentes de Deus: a primeira descreve um transbordamento de um amor já completo; a segunda descreve uma necessidade, mesmo que disfarçada de escolha livre.
A Escritura sustenta fartamente a primeira ideia, não a segunda. Sofonias promete que o Senhor “se regozijará por ti com alegria” (Sofonias 3:17), e Jesus, orando ao Pai, lembra que já era amado “antes da fundação do mundo” (João 17:24): o amor de Deus não esperou a criação para existir, ele já era pleno na relação entre o Pai e o Filho. A criação não supre uma falta nesse amor; ela transborda dele. Warren teria dito algo mais preciso, e igualmente pastoral, se tivesse descrito a satisfação de Deus como consequência do seu amor, não como o motivo da criação.
Essa imprecisão carrega uma consequência pastoral concreta. Absorver a criação como algo motivado pela busca de satisfação de Deus, ainda que eletiva e não obrigatória, pode levar à mesma lógica invertida sobre a própria vida espiritual: buscar em Deus uma fonte de prazer que sacie uma necessidade própria, em vez de responder, com gratidão, a um amor que já estava completo antes de qualquer criatura existir.
O efeito contrário é igualmente possível, e talvez mais comum na prática: a mesma imprecisão pode levar alguém a sentir-se pesado pela tarefa de produzir, sozinho, a satisfação de um Deus perfeito e santo, como se a aceitação dependesse do sucesso constante em agradá-lo. Jesus responde a esse mesmo cansaço, não a uma plateia preocupada com prazer próprio, mas a pessoas exaustas de tentar dar conta de exigências religiosas: “vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei […] porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Essa mesma resposta, sob outro ângulo, é o que o ponto seguinte deste artigo desenvolve: a adoração não nasce do esforço isolado de quem adora, mas é habilitada pelo Espírito Santo, o mesmo princípio de cooperação, não desempenho solitário, já discutido a propósito do crescimento do caráter no Dia 5 desta série (Filipenses 2:12,13).
O valor humano ancorado no grande conflito
Essa mesma frase de abertura sustenta ainda outro argumento do capítulo. Warren ancora o valor de cada pessoa no fato de que Deus a planejou para sua própria satisfação e deseja mantê-la para sempre, um argumento pastoral bem-intencionado, pensado para combater o sentimento de insignificância, mas que descreve o valor humano quase como consequência de uma preferência afetiva de Deus, sem tocar no que a Escritura oferece como prova mais concreta desse mesmo valor: o preço pago por ele. Pedro escreve que os crentes foram resgatados, “não com coisas corruptíveis, como prata ou ouro […] mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula” (1 Pedro 1:18,19).
Essa base é significativamente mais sólida, e pastoralmente mais estável, do que apenas afirmar que Deus sente prazer com a própria existência de alguém. Ainda que o caráter de Deus não mude (Malaquias 3:6), um sentimento, por sua própria natureza, tende a ser associado ao momento presente, às circunstâncias, ao desempenho recente de quem é amado, convidando à pergunta ansiosa de todo coração inseguro: “será que Deus ainda sente prazer em mim, agora?” O sacrifício histórico e concreto do Calvário, já pago e irrevogável, não deixa espaço para essa mesma dúvida. O valor humano, para a teologia adventista, está ligado ao próprio custo da redenção dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás, já discutido no Dia 1 desta série: o valor da alma humana se mede pelo preço que Deus considerou justo pagar por ela, não apenas pelo prazer momentâneo que ela lhe proporciona.
Adoração como resposta consciente à revelação, não emoção induzida
Warren define adorar essencialmente como agradar a Deus, uma síntese pastoral compreensível, mas incompleta. A Bíblia descreve a adoração, antes de tudo, como uma resposta: a palavra mais usada no Novo Testamento para “adorar” descreve literalmente alguém se curvando, prostrando-se diante de um superior. Não se trata de uma decisão isolada de “dar prazer” a Deus, mas do que acontece naturalmente quando alguém reconhece quem Deus é, e quem ele mesmo é diante de Deus. Ellen White descreve esse mesmo processo: “para O servirmos devidamente, é mister nascermos do divino Espírito […] esse é o verdadeiro culto. É o fruto da operação do Espírito Santo” (O Desejado de Todas as Nações, p. 123). A adoração, portanto, não nasce apenas do esforço ou da boa intenção do adorador; ela é a resposta que o Espírito Santo desperta no coração de quem conhece a Deus.
Essa distinção ajuda a resolver, com mais precisão, uma tensão que o próprio Warren cria ao dizer que “a adoração não é para nosso benefício”. No Dia 7 desta série, ele havia citado John Piper para afirmar o contrário: que a satisfação humana em Deus e a glória que Deus recebe são a mesma moeda vista por dois lados, o núcleo do que Piper chama de “hedonismo cristão”. Aqui, sem perceber, ele parece corrigir a si mesmo: chega a classificar como equivocada a pessoa que sai de um culto dizendo tê-lo apreciado, como se sentir prazer na adoração fosse, só por isso, sinal de motivação errada.
Warren tem razão em desconfiar de uma adoração medida pelo quanto ela emociona o adorador, mas erra ao concluir daí que ela não deveria trazer benefício algum a quem adora. Paulo chama a verdadeira adoração de “culto racional” (Romanos 12:1), um culto que envolve a mente e a vontade, não apenas o sentimento do momento, e é essa categoria que separa com precisão as duas coisas que o capítulo confunde: buscar a adoração pela emoção que ela produz é, de fato, um desvio; buscar a Deus na adoração e receber, como fruto natural dela, uma alegria genuína, não é. O alvo da adoração continua sendo Deus, não o adorador, mas a alegria segue sendo efetivamente sua consequência esperada, não sua ameaça. Ellen White reforça essa mesma ordem de prioridades: “no serviço de Deus […] há satisfação e alegria” (Caminho a Cristo, p. 124,125), a satisfação aparecendo como resultado do serviço prestado, não como seu objetivo. Essa alegria, exatamente por nascer como fruto e não como meta, não precisa ser vigiada com desconfiança quando aparece.
A consequência prática de perder essa distinção é dupla. Sem o papel do Espírito Santo, a adoração pode virar apenas mais uma disciplina de vontade própria, algo que a pessoa decide fazer para agradar a Deus, sem a transformação interior que só o Espírito produz.
A segunda metade do problema é uma inversão de valores espirituais que a própria Escritura já preveniu. Quando Elias esperava o Senhor no monte Horebe, o texto é explícito: Deus não estava no vento forte que despedaçava rochas, nem no terremoto, nem no fogo, mas numa “voz mansa e delicada” que veio depois de tudo isso (1 Reis 19:11-13). A intensidade do fenômeno sensorial, no relato bíblico, é justamente onde Deus escolhe não estar. Sem essa mesma discrição, o critério se inverte: qualquer experiência que produza forte comoção, gerada por música, luzes ou pela dinâmica de um grupo, passa a ser aceita como prova de verdadeira adoração, enquanto a alegria genuína que nasce de um encontro real com Deus, fruto do Espírito segundo a própria Escritura (Gálatas 5:22), e por isso digna de confiança, passa a ser vista com desconfiança, só por não vir acompanhada do mesmo estrondo.
A história adventista já enfrentou de perto essa mesma inversão. No início do século 20, um movimento conhecido como “carne santa” surgiu em Indiana confundindo gritos, tambores e forte agitação emocional com a descida do Espírito Santo. Ellen White, ao escrever sobre esse episódio, corrigiu o engano sem meias palavras: “mero ruído e gritos não são sinal de santificação, ou da descida do Espírito Santo”, acrescentando que “o Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal confusão e ruído” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pp. 35,36). O alerta permanece válido fora daquele episódio específico: barulho, luzes e emoção intensa podem acompanhar uma experiência genuína com Deus, mas nunca são, por si mesmos, a prova dela.
Diversidade musical dentro de limites discerníveis, não neutralidade absoluta
Warren tem razão ao negar que exista um “estilo bíblico” único e obrigatório: a Bíblia não registra partituras, e boa parte dos instrumentos mencionados nela já não existe em forma reconhecível hoje. Dessa observação correta, porém, o capítulo avança para uma afirmação bem mais ampla, ao declarar que “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas” e que o estilo preferido de cada um “diz mais sobre você […] do que sobre Deus”. Nessa segunda etapa do argumento, a ausência de um estilo obrigatório é tratada como se equivalesse à neutralidade espiritual de qualquer estilo, o que é uma inferência mais ampla do que a primeira observação, por si só, sustenta.
A Escritura não trata a forma musical como espiritualmente indiferente. Deus rejeitou, por meio do profeta Amós, um culto israelita ritualisticamente correto, música incluída, precisamente porque o coração dos adoradores estava distante dele: “afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras” (Amós 5:23). O texto não acusa a música de estar mal executada; acusa o coração de estar ausente, mas expressa essa ausência através do próprio julgamento sobre o som que dali se erguia. Ellen White, comentando o propósito original da música no culto de Israel, descreve seu papel de “erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante”, e adverte, no mesmo fôlego, que a música mal empregada “torna-se um dos mais bem-sucedidos fatores pelos quais Satanás distrai a mente, do dever e da contemplação das coisas eternas” (Patriarcas e Profetas, p. 594).
A compilação Música — Sua Influência na Vida do Cristão, preparada pelo Ellen G. White Estate a pedido da Associação Geral justamente para oferecer à igreja uma postura equilibrada sobre o tema, reúne o tipo de critério que falta ao capítulo de Warren. Ela descreve a dupla possibilidade que qualquer forma musical carrega: “quando empregada para fins bons, a música é uma bênção; mas é muitas vezes usada como um dos mais atrativos instrumentos de Satanás para enredar almas” (Mensagem aos Jovens, pp. 295,296). Um dos riscos que a compilação destaca não depende do gênero musical, mas de onde a atenção da congregação se volta durante a execução: “o talento musical não raro incentiva o orgulho e o desejo de exibição, e os cantores não dedicam senão pouca atenção para o culto a Deus. A música, em vez de levá-los a lembrar-se de Deus, leva-os com frequência a esquecê-Lo” (Música — Sua Influência na Vida do Cristão, p. 60). Esse alerta específico, sobre o talento humano competir com Deus pela atenção da assembleia, aplica-se igualmente a um órgão de tubos executado com virtuosismo e a uma banda contemporânea afinada com precisão, sempre que o brilho de quem toca ou canta se torna o que a congregação de fato contempla. A Escritura já havia antecipado o remédio para esse mesmo risco, devolvendo ao Doador o crédito que o talento humano tende a reter para si: “que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7), pergunta que Paulo dirige a quem se orgulha de um dom concedido, e “não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória” (Salmos 115:1), a recusa do próprio salmista em aceitar para si a glória que pertence exclusivamente a Deus.
A neutralidade que o capítulo atribui ao estilo musical se aproxima, ainda, de um argumento que a própria tradição cristã já empregou de modo equivocado para justificar a mesma conclusão: a ideia de que a sinceridade de quem adora santifica aquilo que ele escolhe oferecer a Deus, apoiada numa leitura solta de Tito 1:15, “todas as coisas são puras para os puros”. O contexto imediato do texto, porém, trata da polêmica de Paulo contra mestres judaizantes em Creta (Tito 1:10-14), não de elementos de adoração, e a Escritura em nenhum lugar atribui ao adorador a autoridade de tornar santo aquilo que decide trazer a Deus: Nadabe e Abiú morreram por oferecerem “fogo estranho”, semelhante ao prescrito, mas não idêntico a ele (Levítico 10:1-2), e a oferta de Caim foi rejeitada sem que o texto a acuse de insinceridade (Gênesis 4:3-5). Quem santifica um elemento de adoração é Deus, não a boa intenção de quem o escolhe; do contrário, seria o próprio adorador, e não o Criador, quem decidiria o que Lhe é aceitável.
Merece registro, ainda, que o próprio Paulo, ao instruir aos efésios e colossenses sobre o cântico na igreja, não abençoa indiscriminadamente qualquer forma musical de seu tempo: especifica “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5:19; Colossenses 3:16), uma categoria que, por definição, já deixa de fora parte da produção musical secular contemporânea a ele. Isto não equivale a reconstruir hoje, texto a texto, qual gênero antigo corresponderia a cada categoria paulina, tarefa que ultrapassa o escopo deste capítulo; equivale, porém, a reconhecer que a afirmação “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas” carece do mesmo cuidado que o apóstolo teve ao especificar, e não generalizar, o que cabe no cântico da igreja.
Isto não devolve ao debate cristão sobre música um “estilo bíblico” que Warren corretamente descartou, nem estabelece aqui uma lista do que é ou não apropriado, questão que ultrapassa o escopo deste capítulo. Estabelece, porém, algo mais modesto e igualmente ausente do texto de Warren: que a pergunta legítima diante de qualquer forma musical não é apenas “isto reflete genuinamente minha personalidade?”, mas também “isto eleva o pensamento a Deus, ou o distrai dele, seja pela excitação sensorial, seja pela admiração ao próprio talento?” Reduzir toda a questão à primeira pergunta, como faz o capítulo, deixa sem resposta exatamente o tipo de discernimento que quem lidera música na igreja precisa exercer todas as semanas, e que a própria tradição adventista, ao tratar a música como dom que tanto pode edificar quanto distrair, nunca considerou uma questão de gosto pessoal indiferente a Deus.
A âncora sabática da adoração contínua
Warren tem razão ao rejeitar a ideia de que adoração se resume à música de domingo de manhã, e ao afirmar que ela deveria permear toda a vida, do trabalho ao lazer. O capítulo, porém, não menciona uma única vez o sábado, já apresentado nesta série (Dia 1) como o memorial semanal da criação. Aqui a lacuna aparece sob um ângulo diferente: não se trata apenas de ancorar a doutrina da criação no calendário, mas de sustentar, na prática, a própria ideia de que toda a vida deveria ser adoração.
Para o adventismo, o sábado (Êxodo 20:8-11) não compete com essa ideia; ele é o que a treina e a protege. Um dia inteiro, a cada sete, reservado sem concorrência de outras tarefas, funciona como o momento em que a pessoa pratica, de forma concentrada, aquilo que os outros seis dias deveriam refletir de forma diluída. Sem esse ponto de ancoragem semanal, concreto, marcado no calendário e guardado em comunidade, a ideia de “adoração como estilo de vida” corre o risco de permanecer bonita no papel e ausente na prática, exatamente o tipo de intenção sincera que a correria do cotidiano tende a engolir sem nenhum lembrete regular a fim de resistir a ela.
1 Coríntios 10:31 e a mordomia da saúde
Convém notar que o próprio Warren cite o texto mais usado pela teologia adventista a fim de justificar a mordomia da saúde, “quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31), mas o aplique de forma inteiramente diferente: como prova de que qualquer atividade, feita com a atitude certa, vira adoração, presumindo que a atitude interior baste por si só, sem qualquer atenção ao conteúdo do que se come ou bebe.
Já vimos, no Dia 7 desta série, que a lista dos cinco propósitos do livro deixa de fora a mordomia do corpo. Aqui a lacuna se repete de forma ainda mais concreta, uma vez que desta vez o próprio texto que fundamenta essa mordomia já está citado no capítulo, apenas lido em outra chave. Para o adventismo, dedicar a Deus o ato de comer e beber não é somente uma questão de atitude interior enquanto se come qualquer coisa, mas também uma questão do que, de fato, se põe à mesa (1 Coríntios 6:19,20). Um leitor pode aprender corretamente, com este capítulo, a orar antes das refeições e a comer com gratidão consciente, e ainda assim nunca considerar que o próprio cardápio também está incluído nesse mesmo chamado.
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