(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 40

Dia 40: Vivendo com Propósitos

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

No capítulo final do livro, Warren afirma que a maioria das pessoas luta com três questões básicas: identidade, importância e impacto, e que as três encontram resposta nos cinco propósitos apresentados ao longo da obra. Lembrando que Jesus, ao lavar os pés dos discípulos, declarou bem-aventurados os que praticam o que aprendem, Warren convida o leitor, ao fim da jornada de quarenta dias, a redigir uma “Declaração de Propósitos”: não uma lista de metas temporárias, mas uma afirmação pessoal e por escrito do compromisso com os cinco propósitos, capaz de apontar direção, definir o que é sucesso segundo Deus, esclarecer funções e expressar a própria FORMA. Warren apoia essa distinção entre metas e propósitos em Salmos 33:11, “o que o SENHOR planeja dura para sempre” (NTLH): ao contrário de uma lista de objetivos, sempre temporária, a declaração de propósitos registraria algo que, por vir de Deus, permanece.

Para orientar essa declaração, Warren propõe cinco perguntas, uma para cada propósito, cada qual desenvolvida com algum detalhe ao longo do capítulo. A primeira, sobre o centro da vida (adoração), pergunta em torno de que o leitor construirá sua existência, descartando carreira, família, esporte ou dinheiro como candidatos legítimos a esse lugar central. A segunda, sobre o caráter (discipulado), recomenda cuidado constante consigo mesmo, sem se deixar distrair. A terceira, sobre a contribuição (ministério), remete à FORMA (formação espiritual, opções do coração, recursos pessoais, modo de ser, áreas de experiência) já explorada em capítulos anteriores, perguntando que papel o leitor pode exercer na família de Deus. A quarta, sobre a mensagem (missão), cobra um compromisso de testemunho aos incrédulos e, no caso de pais, a educação dos filhos na fé, citando como inspiração a declaração de Josué, “eu e a minha família serviremos ao Senhor”. A quinta, sobre a comunidade (comunhão), pergunta como o leitor demonstrará seu vínculo com uma igreja local, lembrando que “Cristo amou a igreja e deu a sua vida por ela”.

Ele rejeita explicitamente a sugestão de basear essa declaração no elogio que se gostaria de ouvir no próprio funeral, “porque só importará o que Deus disser a seu respeito”, e descreve o juízo final de Deus como uma avaliação organizada exatamente por essas mesmas cinco perguntas. Para facilitar a memorização de tudo isso, o capítulo ainda sugere que a declaração completa seja resumida num lema curto, oferecendo como exemplo diversas frases breves construídas em torno de adorar, servir, crescer em caráter e testemunhar de Cristo por meio da igreja.

Warren encerra recordando o impacto pessoal que Atos 13:36 teve em sua vida, “Davi serviu aos propósitos de Deus em sua geração” (NASB), frase que chega a chamar do maior epitáfio possível para uma vida, e convida o leitor a se ver, como Ester, criado para um momento como este, já que Deus continua procurando pessoas que possa usar. Cita o exemplo de Paulo, que corria “direto para o alvo” e considerava lucro tanto viver quanto morrer por Cristo, e fecha o livro com uma nota de recompensa eterna e uma doxologia inspirada em Apocalipse 4:11.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Por se tratar do capítulo de encerramento da jornada de 40 dias, predominantemente prático e recapitulativo, este capítulo sustenta uma base teológica mais restrita que a média da série. Boa parte de suas recomendações práticas, como redigir uma declaração de propósitos e examiná-la regularmente, prolonga disciplinas espirituais já examinadas no Dia 39 (autoavaliação periódica, diário espiritual), sem introduzir pressupostos doutrinários novos. Os três pressupostos a seguir são os que apresentam peso doutrinário genuíno.

Vontade de Deus ampla nas decisões pessoais

Warren pressupõe que a vontade de Deus para a vida do crente se define pelos cinco propósitos, e que decisões como emprego, casamento, local de moradia e escola são secundárias, admitindo “inúmeras possibilidades” compatíveis com essa vontade, desde que respaldem os propósitos.

Julgamento pelas cinco perguntas

O capítulo apresenta a avaliação final de Deus sobre a vida do crente organizada pelas mesmas cinco perguntas que estruturam o restante do livro: centro, caráter, contribuição, mensagem e comunidade.

A vocação de Ester generalizada

Com a frase “tal qual Ester, Deus o criou para um momento como este”, o capítulo pressupõe que o texto de Ester 4:14 pode ser generalizado a qualquer leitor, aplicando para todos a providência divina que o texto originalmente dirige a ela.

3. Base bíblica usada por Warren

Chama a atenção que este é o terceiro capítulo consecutivo (Dias 38, 39 e 40) com frequência elevada da paráfrase The Message, presente aqui em cinco notas (6, 8, 11, 12 e 29), sustentando pontos como centrar a vida em Deus, o cuidado com o caráter e a doxologia final, nenhuma delas como base exclusiva de um argumento mais específico, mas o padrão recorrente no bloco final do livro merece registro. A afirmação de abertura do capítulo, de que “a maioria das pessoas luta com as três questões básicas da vida”, não recebe, no texto, nenhuma citação que a sustente, bíblica ou de qualquer outra natureza, repetindo o mesmo padrão já observado no Dia 38 a propósito da afirmação “as únicas pessoas totalmente vivas neste planeta”.

Quanto ao uso de Ester 4:14 para sustentar que “tal qual Ester, Deus o criou para um momento como este”, a leitura estende um chamado histórico único, dirigido a uma rainha específica numa crise que ameaçava exterminar o povo judeu, à afirmação de que todo leitor teria um “momento” comparável; essa extrapolação merece exame mais detido, realizado na seção 6.

Duas traduções de equivalência dinâmica também sustentam pontos mais específicos desenvolvidos adiante no artigo. A abertura do capítulo, Provérbios 19:21 (NVI), “muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor”, base do ponto de convergência da seção 5, não diverge de modo relevante da ARA, “muitos propósitos há no coração do homem, mas o desígnio do Senhor permanecerá”: a mesma ideia central, sem perda de sentido. Já Josué 24:15 (NLT), citado por Warren como modelo para a declaração do leitor, “Eu e a minha família serviremos ao Senhor”, diverge da ARA num ponto que a seção 6 explora: onde a NLT fala em “família”, a ARA fala em “casa”, um escopo mais amplo que inclui todo o lar de Josué, não apenas seus parentes mais próximos.

O fechamento do parágrafo sobre o juízo final é sustentado pela versão Bíblia Viva, que se trata de uma paráfrase: ao encerrar a lista de perguntas que Deus fará, Warren resume o alvo do crente citando Paulo, “nosso objetivo é estar à altura do plano de Deus para nós” (2 Coríntios 10:13; BV). Cotejada com uma tradução de equivalência formal, porém, a passagem trata de algo bem mais restrito: o próprio Paulo recusando-se a se gloriar além da medida que Deus lhe designara para seu ministério específico entre os coríntios, não uma sentença genérica sobre viver à altura de um plano divino qualquer, por mais recomendável que isto seja. A escolha interpretativa da paráfrase amplia o alcance original do texto exatamente na direção que o argumento do capítulo precisa, sem que o texto original de Paulo chegue a este ponto.

4. Contraponto adventista

Três pontos deste capítulo pedem avaliação à luz da teologia adventista: o padrão pelo qual Deus avalia a vida do crente, o alcance do chamado que a Escritura atribuiu a Ester, e a natureza da aliança que a declaração de propósitos evoca:

O padrão do juízo

A avaliação final, segundo o adventismo, mede o caráter do crente pela lei de Deus e pela fé em Cristo, um padrão moral objetivo, apresentado nas Escrituras, independente de qualquer outro livro, não pelas categorias que, de forma útil mas provisória, resumem os temas desta obra (Eclesiastes 12:14; Nisto Cremos, cap. 19).

Vocação específica, não modelo genérico

O chamado de Ester foi, para o adventismo, um episódio providencial único dentro da história da salvação, não um modelo generalizável para toda vocação individual (Ester 4:14-16).

Aliança comunitária centrada na graça

Na leitura adventista, a aliança bíblica nasce da iniciativa de Deus, que perdoa um povo e escreve sua própria lei no coração de cada um, não de um documento que o indivíduo redige e revisa por conta própria (Jeremias 31:33; Josué 24:1-15; Nisto Cremos, cap. 7).

5. Pontos de convergência

A aprovação de Deus, não das pessoas

A rejeição de Warren à ideia de basear a declaração de propósitos no elogio do próprio funeral, “porque só importará o que Deus disser a seu respeito”, converge com a prioridade bíblica da aprovação divina sobre a humana (Gálatas 1:10; 1 Coríntios 4:3-5).

A soberania do propósito divino

O texto que abre o capítulo, “muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor” (Provérbios 19:21; NVI), converge plenamente com a soberania de Deus sobre a história, que, segundo Paulo, fixou para toda a raça humana “os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação” (Atos 17:26), já estabelecida nesta série a propósito do Dia 11.

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

A lei, não uma síntese didática

Warren descreve o momento em que “Deus irá analisar nossas respostas” à vida usando como critério exatamente as cinco perguntas que ele mesmo formulou para estruturar o livro: centro, caráter, contribuição, mensagem e comunidade. Essa síntese é útil como ferramenta pedagógica, mas o padrão desse julgamento não nasce de nenhuma grade didática: a régua bíblica é a lei de Deus, o padrão-ouro do juízo, aplicado sempre à fé de cada um em Cristo, tema já examinado nesta série a propósito do juízo investigativo (Dia 3). A própria Escritura descreve esse juízo como um exame que considera “todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Eclesiastes 12:14). O autoexame do crente, por sua vez, segue um critério mais amplo: toda a Escritura como regra de fé e prática (2 Timóteo 3:16-17), e não um conjunto de perguntas, como esta série já mostrou a propósito do Dia 39. O próprio versículo com que Warren fecha esse raciocínio (ver seção 3) ilustra o problema: uma paráfrase transforma a defesa que Paulo faz dos limites de seu ministério pessoal numa sentença genérica sobre “estar à altura do plano de Deus”, emprestando ao texto uma amplitude que ele não tem no original para, assim, arrematar as cinco perguntas como se fossem o próprio critério bíblico do juízo.

Para entendermos a importância desta distinção, precisamos compreender que um conjunto de cinco perguntas, por mais abrangente que pareça, permanece uma síntese pedagógica pensada para um grupo ou um propósito específico; a lei de Deus, gravada nas duas tábuas de pedra (Êxodo 31:18) e, mais tarde, gravada no coração dos fiéis (Jeremias 31:33), é o padrão moral que a própria Escritura reserva para esse julgamento. Ellen White descreve essa mesma lei nesses termos: “A lei de Deus é tão sagrada como Ele próprio. É uma revelação de Sua vontade, uma transcrição de Seu caráter, expressão do amor e sabedoria divinos” (Patriarcas e Profetas, p. 26). Essa mesma lei é, segundo a própria definição do adventismo, “reflexo do caráter de Deus”: seus princípios não são temporários ou situacionais, mas absolutos, imutáveis e permanentemente válidos para a humanidade, o que torna a lei válida independentemente de qualquer livro, terrestre ou humano, que venha a resumi-la (Nisto Cremos, cap. 19). Confundir os dois, mesmo sem intenção, corre o risco de fazer o crente prestar contas a uma síntese, e não à própria Palavra de Deus, e de chegar despreparado ao exame que Deus de fato realiza, por ter confiado num critério que não é, na verdade, o critério dele.

Um chamado que não se repete

O texto de Ester 4:14 registra a resposta de Mordecai à hesitação da rainha diante do decreto de extermínio contra os judeus: caso ela permanecesse calada, de outra parte se levantaria socorro e livramento para os judeus, “e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?”. O chamado ali descrito é datado, histórico e ligado à sobrevivência de um povo inteiro dentro do plano da salvação, não uma afirmação genérica sobre o potencial de qualquer pessoa em qualquer época. Aplicar essa mesma frase a cada leitor, como o capítulo faz, transforma um episódio único e providencial da história de Israel num princípio motivacional válido para toda circunstância.

Isso não quer dizer que a história de Ester não tenha lições legítimas para qualquer leitor, como a coragem de agir mesmo sob risco pessoal, a disposição de arriscar-se pelo bem de outros e a confiança de que Deus dirige os acontecimentos mesmo quando parece ausente. A ressalva está em transformar a frase específica dirigida a ela, “para conjuntura como esta”, num princípio motivacional genérico, como se cada decisão pessoal equivalesse à intervenção histórica e providencial concedida à rainha.

A consequência prática de absorver este pressuposto sem filtros é que tratar toda situação pessoal como equivalente ao momento de Ester pode inflar decisões comuns com uma urgência que a Escritura reservou a um momento muito específico da história da salvação, ao mesmo tempo que esvazia o que haveria de realmente único naquele episódio. Deus continua, sim, providencialmente ativo na vida de cada crente, mas a Escritura descreve essa atividade em termos mais discretos e constantes (Provérbios 3:5,6; Romanos 8:28) do que na intervenção pontual e extraordinária concedida a Ester.

Um documento pessoal, uma aliança de um povo

A declaração de propósitos que Warren propõe é um compromisso pessoal e por escrito, redigido, revisado e ajustado pelo próprio leitor, que chega a citar, como inspiração, a declaração de Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15). Mas essa mesma declaração foi proferida diante de todo o povo de Israel reunido, numa cerimônia de renovação de aliança que envolvia a nação inteira, “os anciãos de Israel, os seus cabeças, os seus juízes e os seus oficiais” (Josué 24:1), o mesmo padrão de assembleia coletiva de Deuteronômio 29:10-13. Esta série já observou, a propósito da amizade de Moisés e Davi com Deus, que a Escritura situa parte desses chamados dentro de uma aliança com todo o povo, não como vínculo privado entre o indivíduo e Deus (Êxodo 19:5,6; 2 Samuel 7:8-16; Dia 11).

A Escritura oferece exemplos de aliança tanto pessoal quanto coletiva, e em nenhum dos dois os termos partem do ser humano. Com Abraão, uma aliança pessoal, foi Deus quem determinou as condições, “anda na minha presença, e sê perfeito” (Gênesis 17:1), com a circuncisão como sinal que o próprio Deus instituiu (Gênesis 17:9-14); Abraão aceita e obedece, mas não redige os termos de seu próprio compromisso. No Sinai, uma aliança coletiva com todo o povo de Israel, o mesmo padrão se repete em escala nacional: Deus dita os dez mandamentos e as leis do concerto, e o povo apenas responde, “Tudo o que o Senhor falou faremos” (Êxodo 19:8). Pessoal ou coletiva, a aliança bíblica nunca inverte essa direção: os termos são sempre de Deus; o ser humano os aceita, nunca os impõe.

A promessa do novo concerto reforça essa mesma direção, agora no próprio ato de escrever: no lugar do leitor que redige e revisa seu documento por conta própria, é o Espírito quem promete escrever a lei no coração do crente (Jeremias 31:33), promessa que o Novo Testamento retoma nos mesmos termos: “na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Hebreus 8:10). Para Ellen White, é a mesma lei desde o princípio: “a grande lei de amor revelada no Éden, proclamada no Sinai, e, no novo concerto, escrita no coração, é o que liga o obreiro humano à vontade de Deus” (O Desejado de Todas as Nações, p. 228). A aliança bíblica é presente e ação de Deus sobre um povo; a declaração de propósitos é uma redação do próprio leitor sobre si mesmo (Nisto Cremos, cap. 7). Um leitor que trata essa declaração como um contrato inteiramente seu, sem esse pano de fundo comunitário, tende a esvaziar precisamente o que a Escritura liga ao compromisso com Deus: a vida da igreja deixa de ser parte do próprio concerto e passa a ser apenas mais um item na lista pessoal de metas.


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