(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 30

Dia 30: Moldado para Servir a Deus

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren compara Deus a um arquiteto: assim como um prédio é projetado a partir da função que vai exercer, Deus decidiu o papel de cada pessoa antes de criá-la, e a formou de acordo com essa tarefa (Efésios 2:10, “poema”). Davi ilustra essa atenção pessoal aos detalhes ao louvar a Deus por tê-lo formado com delicadeza no ventre materno, e por ter registrado de antemão, em seu livro, cada dia de sua vida (Salmos 139:13,14,16). Nada, segundo Warren, é desperdiçado por Deus: habilidades, interesses, talentos, dons, personalidade e até experiências de vida existem para servi-lo.

Para organizar esses fatores, Warren propõe o acróstico FORMA (Formação espiritual, Opções do coração, Recursos pessoais, Modo de ser, Áreas de experiência); este capítulo trata dos dois primeiros. A formação espiritual corresponde aos dons espirituais: capacidades que ninguém escolhe ou merece, distribuídas soberanamente pelo Espírito Santo, destinadas ao benefício da igreja, não ao benefício próprio. Nenhum dom é dado a todos, e nenhuma pessoa recebe todos os dons, o que gera dependência mútua.

As opções do coração correspondem às paixões: o conjunto de desejos e interesses que tornam cada pessoa única, e que funcionam, segundo Warren, como pista de onde cada um deveria servir. Deus quer ser servido apaixonadamente, não por obrigação, e os sinais de servir de coração seriam o entusiasmo e a eficiência. O capítulo termina advertindo contra desperdiçar a vida num emprego que não exprima o que está no coração.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Providência detalhada sobre a biografia inteira

Warren estende a Salmos 139:16 a ideia de que cada dia da vida, não só a concepção, já estava determinado, concluindo que nenhuma habilidade, interesse ou experiência é fruto do acaso: a mesma linguagem de providência detalhada já registrada nos Dias 2 e 29, aqui estendida à personalidade e à história pessoal inteiras.

Os dons espirituais como prerrogativa soberana do Espírito

Warren pressupõe que a distribuição dos dons espirituais pertence inteiramente ao Espírito Santo, sem qualquer participação da escolha, do mérito ou do esforço humano na definição de qual dom cada crente recebe.

O coração como fonte estável e confiável de autoconhecimento

O capítulo trata o conjunto de desejos e interesses de cada pessoa como um dado biográfico já dado, único e consistente, cuja simples identificação bastaria para revelar a direção do próprio ministério, sem qualificar em que medida esse mesmo coração também precisa ser examinado ou purificado.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre fortemente à paráfrase NLT, presente em seis das catorze notas (2, 3, 7, 9, 10, 11), a concentração mais alta de uma única versão observada até aqui nesta série num único capítulo.

A paráfrase The Message aparece uma única vez, na nota 14 (Provérbios 15:16): “uma vida simples no temor do Senhor é melhor que uma vida rica com uma tonelada de dores de cabeça”, comparado a “melhor é o pouco com o temor do Senhor do que um grande tesouro, e com ele a inquietação” na ARA. A ideia central permanece, ainda que em registro mais coloquial. Vale notar, por fim, que Warren cita Efésios 2:10 pela NVI neste capítulo, depois de já tê-lo citado pela NTLH no Dia 29, o mesmo padrão de reaproveitar um texto-chave em traduções diferentes conforme a ênfase de cada capítulo, já registrado antes nesta série.

4. Contraponto adventista

Este capítulo levanta três pontos que merecem o registro da posição adventista: a providência detalhada sobre toda a trajetória de vida, sem espaço para os efeitos do pecado, o próprio coração como instrumento de autoconhecimento espiritual, e o critério usado para confirmar a autenticidade de um dom.

Providência meticulosa e o espaço para os efeitos do pecado

Para o adventismo, a providência de Deus sobre a biografia de cada pessoa não elimina o espaço real para os efeitos do pecado, seja nas experiências de vida em geral, seja nas doenças e deformações congênitas com que alguém pode nascer (Nisto Cremos, cap. 7; João 9:3).

O coração como algo também sujeito ao efeito do pecado

O dom espiritual, para o adventismo, é distribuído objetivamente pelo Espírito e confirmado pelo fruto reconhecido pela igreja, enquanto o coração, sujeito ao mesmo efeito do pecado que torna qualquer desejo humano passível de engano (Jeremias 17:9; Mateus 15:19; Nisto Cremos, cap. 7), só confirma essa direção depois que o dom já foi identificado, sem autoridade para apontá-la por conta própria (Filipenses 2:13).

O teste doutrinário da autenticidade de um dom

Nem o entusiasmo nem a eficácia percebida são, para o adventismo, o critério de autenticidade de uma manifestação espiritual: a confirmação vem de fora, do julgamento do corpo de Cristo e da concordância com a Escritura, não dos próprios sentimentos de quem exerce o dom (Nisto Cremos, cap. 17), uma vez que também há quem produza obras aparentemente poderosas sem que Cristo os reconheça (Mateus 7:22,23; 1 João 4:1; 1 Coríntios 14:29).

5. Pontos de convergência

Dons distribuídos pela graça, não pela escolha ou pelo mérito

A afirmação de que ninguém escolhe, adquire ou merece seu próprio dom espiritual, sendo o Espírito Santo quem sozinho o determina, converge plenamente com a doutrina adventista dos dons espirituais como manifestação da graça de Deus, não conquista humana (1 Coríntios 12:11; Nisto Cremos, cap. 17).

O Espírito Santo nomeado como agente que distribui os dons

Diferente do padrão que esta série vinha registrando desde o Dia 8, fechado pelo Dia 28 sem nomear o Espírito Santo, este capítulo o nomeia corretamente como o agente pessoal que decide qual dom cada crente recebe (1 Coríntios 12:11). Ellen White descreve essa mesma dádiva atribuída ao Espírito em tom semelhante ao que este capítulo tenta transmitir: “que bênção representa para nós o utilizarmos em seu serviço o dom especial que Cristo nos concedeu por intermédio do Espírito Santo!” (Atos dos Apóstolos, p. 50).

Interdependência pela distribuição desigual dos dons

Essa distribuição desigual dos dons, descrita na seção 1, converge com o entendimento adventista do corpo de Cristo como organismo de dependência mútua real, já registrado no Dia 29 a propósito da mesma passagem paulina (1 Coríntios 12:11-26; Nisto Cremos, cap. 17).

Dons concedidos para o benefício da igreja, não do indivíduo

A insistência de que os dons espirituais existem para ajudar “a igreja inteira”, não para benefício próprio de quem os recebe, converge com a compreensão adventista do sacerdócio de todos os crentes como serviço mútuo, nunca posse privada (1 Coríntios 12:7; Nisto Cremos, cap. 17).

Nenhuma vida é acidental

A ideia de que cada pessoa foi formada por Deus com atenção pessoal, e não por acaso, converge com a teologia adventista da dignidade humana como criação intencional (Salmos 139; já registrado no Dia 2 desta série). A convergência, porém, é parcial: estender essa mesma providência a cada detalhe determinado da biografia, incluindo doenças e experiências difíceis, é tratado como ponto de tensão na seção 6, não como convergência.

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Toda a trajetória da pessoa planejada desde o ventre materno

Ao afirmar que Deus “jamais desperdiça coisa alguma” e que não daria a ninguém “habilidades, interesses, talentos, dons, personalidade e experiências de vida” sem intenção de usá-las para sua glória, Warren estende ao capítulo inteiro a mesma providência meticulosa que o Dia 2 já examinou a propósito da mesma passagem (Salmos 139), ali aplicada ao “momento exato” da morte de cada pessoa, com o mesmo risco de alimentar passividade diante do cuidado com a saúde. Basta notar que a lacuna reaparece agora estendida da biografia física ao conjunto completo de talentos, personalidade e experiências.

O caso mais difícil dessa extensão é quem nasce com doença, deficiência ou deformação congênita. Se Deus “cuidadosamente misturou o coquetel de DNA” de cada pessoa e planejou cada detalhe do corpo antes do nascimento, como já nota o Dia 2, a limitação com que alguém nasce parece deixar de ser efeito da queda e passar a ser traço desenhado por Deus naquele indivíduo, quando na verdade resulta de um genoma danificado pelos efeitos acumulados do pecado sobre a hereditariedade (Nisto Cremos, cap. 7). A Escritura já enfrentou essa pergunta: diante de um cego de nascença, os discípulos perguntaram a Jesus se a causa era o pecado dele ou dos pais, e ele rejeitou as duas alternativas: “nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (João 9:3). A cegueira não é um desenho positivo de Deus para aquele homem, mas efeito de um mundo caído através do qual Deus ainda tinha propósito redentor a cumprir. Ellen White trata o próprio corpo humano com esse mesmo cuidado: mesmo fragilizado por gerações de transgressão, ele continua sendo “o único meio pelo qual a mente e a alma se desenvolvem para a formação do caráter” (A Ciência do Bom Viver, cap. 1), não um projeto originalmente defeituoso.

Essa distinção não esvazia o que Warren quer dizer, apenas o corrige: Deus pode ter propósito real para quem nasce com uma limitação, incluindo-a no próprio ministério da pessoa, sem que a limitação precise ter sido planejada no “molde” original. O próprio Warren já reconheceu esse padrão sem notar a tensão: ao listar personagens usados por Deus apesar de suas fraquezas, incluiu Moisés, que gaguejava. Deus o usou com a gagueira não porque a tivesse desenhado como parte de um plano de comunicação, mas porque a graça opera através de limitações que a queda, não a criação original, introduziu.

O coração como bússola confiável para o ministério

Warren define coração como “o lote de desejos, esperanças, interesses, ambições, sonhos e afeições” de cada pessoa, e propõe que sua simples identificação revele “pistas de onde deveríamos estar servindo”. O capítulo apresenta dom espiritual e coração como dois fatores de peso semelhante dentro do mesmo acróstico, ambos a serem apenas “identificados” pelo crente, sem qualquer hierarquia entre eles.

O próprio Warren já advertira o leitor sobre o coração, no Dia 27, ao tratar da tentação: citando Jeremias, disse que “o coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável”, concluindo que “somos bons em enganar a nós mesmos” e que “qualquer um de nós é capaz de qualquer pecado”. Essa advertência desaparece quando o assunto passa a ser a descoberta do ministério: o coração que enganava no Dia 27 torna-se guia confiável no Dia 30, sem que nada explique a mudança.

A Escritura, porém, não trata dom e coração como chaves paralelas. O dom é distribuído objetivamente pelo Espírito, “como quer” (1 Coríntios 12:11), e sua autenticidade se confirma de fora para dentro, pelo fruto que a igreja reconhece, não pela impressão íntima de quem o exerce. O “querer” servir, quando genuíno, também não brota de um coração autônomo, mas do próprio Espírito: “Deus é que opera em vós tanto o querer como o efetuar” (Filipenses 2:13). Um desejo ainda não purificado por essa obra continua sendo, em algum grau, o coração enganoso de Jeremias 17:9; tratá-lo como bússola independente é presumir o que ainda precisa ser examinado.

O coração, assim, funciona melhor como confirmação motivacional de um dom já identificado do que como ponto de partida autossuficiente. Onde Warren coloca dom e coração lado a lado, como dois fatores do mesmo acróstico, a Escritura sugere uma hierarquia: o dom como base objetiva, o coração como eco subjetivo que confirma essa direção, não como autoridade para decidi-la.

Entusiasmo e eficácia como prova de autenticidade

Warren propõe dois sinais de que alguém serve a Deus de coração: o entusiasmo (“você o faz pelo mero prazer”) e a eficiência (“a paixão leva à perfeição”). Nenhum dos dois, porém, discerne a origem espiritual do que é exercido: alguém pode se entusiasmar e ser genuinamente eficiente numa atividade que é apenas talento natural bem treinado, sem que isso confirme, nem desminta, uma origem espiritual.

A própria Escritura descreve situações em que entusiasmo e resultado visível não garantem aprovação divina: “muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos prodígios? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci” (Mateus 7:22,23). Por isso o apóstolo João manda “provar os espíritos” (1 João 4:1), e Paulo recomenda que outros “julguem” o que é dito nos dons da igreja de Corinto, submetendo a manifestação ao crivo doutrinário (1 Coríntios 14:29). Nisto Cremos é explícito quanto à direção desse teste: a confirmação de um dom deveria vir “a partir do julgamento do corpo de Cristo, e não a partir de nossos próprios sentimentos”. Entusiasmo e eficácia pertencem justamente a esses “próprios sentimentos” que o teste deveria substituir, não complementar.

Ellen White chega a distinguir os dois tipos de entusiasmo que este capítulo trata como um só: “importa não considerar nossa obra criar excitação. Unicamente o Espírito de Deus pode criar um entusiasmo são” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 16,17). O sinal que Warren propõe pressupõe, sem o dizer, que se trata desse segundo tipo, o entusiasmo são que o Espírito produz, e não do primeiro, a excitação que qualquer pessoa pode fabricar em si mesma independentemente de qualquer dom.


Dia 29 — Aceitando sua Missão

Índice dos Capítulos Dia 31 — Entendendo sua “Forma”

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