(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 32

Dia 32: Usando o que Deus lhe Deu

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren afirma que Deus merece o melhor de cada crente, e que forçar-se a servir de modo contrário à própria natureza é como encaixar um pino quadrado num buraco redondo: frustrante e pouco produtivo. Depois de mapear os cinco fatores da FORMA nos dois capítulos anteriores, este capítulo detalha o processo prático de descobri-la, aceitá-la e desenvolvê-la.

Para descobrir a própria FORMA, Warren recomenda avaliar dons e habilidades com a ajuda de opiniões externas, já que dons espirituais e habilidades naturais são sempre confirmados pelos outros. Ele desconfia de testes padronizados e de listas de dons, alegando que a Bíblia não contém definições claras de dons espirituais e que qualquer lista reflete apenas tendência denominacional. Por isso, propõe que a descoberta aconteça pela prática: primeiro se serve, depois se descobre o dom, nunca o contrário. Sugere ainda examinar coração, personalidade e experiências passadas, inclusive por meio de um retiro de análise da vida.

Para aceitar a própria FORMA, Warren recorre à imagem do oleiro e do barro (Romanos 9:20,21): já que o formato de cada um foi determinado por Deus, cabe à pessoa reconhecer seus limites, concentrar-se no campo de serviço que lhe foi designado e nunca se comparar com outros, nem para se desanimar diante de quem parece fazer melhor, nem para ficar arrogante diante de quem parece fazer pior. Warren nomeia duas armadilhas específicas que roubariam a alegria do serviço nessa fase: comparar o próprio ministério com o de outros, e tentar adaptar o próprio ministério às expectativas alheias.

Para desenvolver a própria FORMA, Warren aplica a parábola dos talentos: dons não exercitados atrofiam como músculos ociosos, ao passo que dons postos em prática se ampliam. O capítulo termina exortando o leitor a aproveitar toda oportunidade de treinamento, comparando o serviço presente ao de um atleta que treina em vista de uma recompensa eterna.

2. Pressupostos teológicos implícitos

A descoberta da FORMA pela prática pressupõe que um dom espiritual se dá a conhecer pelo resultado que produz. Por isso, a ordem que o capítulo propõe (primeiro servir, depois descobrir) tem como critério a confirmação de outras pessoas, e não o exame padronizado nem a tentativa de identificar o dom antes de servir. O próprio Warren apresenta sua trajetória como exemplo: só teria percebido o dom do ensino depois de aceitar convites para falar em público e de ver os resultados confirmados por outros. Esta premissa vai além de uma sugestão de método, uma vez que ele considera invertido o caminho proposto por muitos livros, que mandam descobrir o dom para então escolher o ministério. Nesta lógica, o dom se reconhece pelo fruto visível que os outros conseguem atestar, e o que não deu certo deve ser chamado de “experiência”, e não de fracasso.

A aceitação da FORMA como plano definitivo aparece na imagem do oleiro que molda o barro sem prestar contas à própria peça. Tudo o que a pessoa recebeu, inclusive seus limites, é tratado como resultado direto e definitivo da vontade soberana de Deus, algo a ser aceito com gratidão. Warren declara que a FORMA de cada um foi “determinada soberanamente por Deus, para o propósito dele”, e por isso não deve ser rejeitada. A premissa alcança também as experiências passadas, inclusive a dor, o fracasso e a vergonha, cujo propósito só se compreenderia em retrospecto, como algo que Deus teria planejado para o bem. Trata-se da mesma extensão da soberania divina a toda a biografia pessoal que o livro afirmara no capítulo 30, ao dizer que Deus planejou cada dia da vida do leitor para favorecer sua formação. Os limites ganham, assim, função positiva: cada crente recebe um campo de serviço próprio, e a pressão de quem o ultrapassa indica que saiu da raia que lhe foi designada.

O dom espiritual é tratado como habilidade treinável: o capítulo descreve o crescimento de um dom nos mesmos termos do desenvolvimento de uma habilidade natural, isto é, estudo, opiniões alheias e prática. Poucas páginas antes, no mesmo capítulo, Warren já tinha afirmado que a Bíblia não define os dons espirituais e que qualquer definição seria arbitrária. Partindo dessa afirmação, o dom só pode ser identificado pelo desempenho, como se identifica uma aptidão. A analogia dos músculos que atrofiam quando não são exercitados é aplicada, sem distinção, às “habilidades e capacidades” que Deus deu, e a parábola dos talentos serve para os dois casos. A premissa dá continuidade ao capítulo anterior, em que talentos naturais e dons espirituais já figuravam como recursos da mesma categoria, diferindo apenas quanto ao momento em que são recebidos.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a paráfrases, a traduções de equivalência dinâmica e a duas traduções de equivalência formal. As paráfrases são The Message (Msg: Romanos 12:5, versículo de abertura, sem nota; Gálatas 6:4b, nota 3; 2 Coríntios 10:12b, nota 16; 2 Timóteo 2:15, nota 22; 1 Coríntios 9:25, nota 23), a Bíblia Viva (BV: Efésios 5:17, nota 1; Efésios 4:7, nota 9; Hebreus 12:1, nota 12; 1 Timóteo 4:14,15, nota 21) e Cartas para Hoje (CH: Romanos 12:3b, nota 2). As traduções de equivalência dinâmica são a NVI (João 13:7, nota 6; 2 Coríntios 10:12, nota 15; Mateus 25:28, nota 20; 2 Timóteo 2:15, no versículo para memorizar, sem nota), a NLT (2 Coríntios 10:13, nota 11; Gálatas 6:4, nota 13; Filipenses 1:9, nota 18), a NTLH (Deuteronômio 11:2, nota 4), a NCV (Gálatas 3:4, nota 5) e a CEV (Gálatas 6:4, nota 14). As traduções de equivalência formal são a Bíblia de Jerusalém (BJ: Romanos 9:20,21, nota 8) e a NASB (2 Timóteo 1:6, nota 19). As notas 10 (Gálatas 2:7,8) e 17 (1 Coríntios 10:12-18) não indicam a versão, e a nota 7 remete a uma fonte não bíblica, o site do livro. A referência da nota 17 parece trocada: esse trecho de 1 Coríntios trata da tentação e da ceia, enquanto o conselho que Warren resume (evitar comparações e buscar só o elogio de Deus) está em 2 Coríntios 10:12-18, onde não é aprovado quem a si mesmo se louva, “e sim aquele a quem o Senhor louva” (versículo 18).

Romanos 12:3b (CH, nota 2) e Gálatas 6:4b (Msg, nota 3) sustentam a recomendação de avaliar as próprias capacidades e a própria personalidade. Na versão usada por Warren, Paulo aconselha os romanos a fazer “um juízo correto de suas capacidades”. A Almeida diz: “pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um”. O apóstolo pede uma avaliação humilde de si dentro do corpo, e os versículos seguintes enumeram os dons distribuídos segundo a graça (Romanos 12:4-8), justamente a lista que o capítulo considera inexistente (ver seção 5). O Dia 2 já registrou desvio semelhante na paráfrase The Message do mesmo versículo. Em Gálatas 6:4, onde a Almeida traz “prove cada um o seu labor”, a paráfrase acrescenta um exame cuidadoso “de quem você é”. Nos dois casos, uma exortação à humildade e à prestação de contas sobre o próprio trabalho passa a funcionar como instrução de autoconhecimento vocacional.

Romanos 9:20,21 (BJ, nota 8) sustenta a aceitação grata da própria FORMA. A Bíblia de Jerusalém acompanha o texto, que na Almeida pergunta: “Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” O problema está no assunto da passagem. Paulo trata da liberdade de Deus na condução da história da salvação: a escolha de Jacó antes do nascimento dos gêmeos, o endurecimento de Faraó e o chamado dos “vasos de misericórdia”, que são os crentes chamados “não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios” (Romanos 9:10-24). Warren aplica a imagem às aptidões, aos limites e ao temperamento de cada leitor, assunto de que o texto não trata.

Efésios 4:7 (BV, nota 9) e 1 Timóteo 4:14,15 (BV, nota 21) seguem um mesmo padrão: onde o texto fala de graça e de dom, a Bíblia Viva fala de “aptidões”. Em Efésios 4:7, Warren cita que Cristo “concedeu aptidões especiais a cada um de nós”, e a Almeida diz: “E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo.” Em 1 Timóteo 4:14, a paráfrase manda não deixar de usar “as aptidões que Deus lhe deu”, e a Almeida fala do “dom que há em ti”. A troca aproxima o dom espiritual de uma habilidade natural, e dessa aproximação depende a ideia de que ambos se desenvolvem pela mesma prática. O mesmo versículo nomeia o meio pelo qual o dom foi concedido, ponto retomado na seção 5. Em 2 Timóteo 1:6 (NASB, nota 19), a tradução é fiel, mas a citação para antes da cláusula que, na Almeida, diz como Timóteo recebeu o dom: “pela imposição das minhas mãos”.

Hebreus 12:1 (BV, nota 12) e 2 Coríntios 10:13 (NLT, nota 11) sustentam a imagem da raia própria de cada crente. Warren fala de “a carreira especial que Deus pôs diante de nós”, que cada um deve correr individualmente. Na Almeida, os destinatários correm juntos “a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hebreus 12:1,2), depois da lista de heróis da fé do capítulo anterior. Trata-se da perseverança comum a todos os crentes, e não de um campo de ministério individual. Em 2 Coríntios 10:13, o “limite da esfera de ação que Deus nos demarcou e que se estende até vós” é o campo apostólico de Paulo, que alcançava Corinto, defendido diante de quem invadia o trabalho alheio. Warren estende esse limite à especialidade de cada leitor. O texto admite a extensão como princípio geral; não a sustenta, contudo, como definição da FORMA.

No restante, o uso bíblico do capítulo não apresenta problema relevante: as demais passagens foram cotejadas sem achado que afete o argumento, vêm em tradução de equivalência dinâmica sem sustentar argumento central do capítulo ou foram apenas indicadas por referência.

4. Pontos de convergência

A exigência de confirmação externa dos dons é uma convergência parcial. Ao insistir que dons e habilidades sejam confirmados por outras pessoas, e não apenas presumidos pelo próprio crente, Warren se aproxima da exigência adventista de que a autenticidade de um dom venha do julgamento da igreja, não dos próprios sentimentos, um avanço real sobre o critério de entusiasmo e eficácia já criticado no Dia 30 desta série. A confirmação social que ele propõe ainda é mais informal do que o discernimento doutrinário que essa mesma exigência pressupõe.

Também a distinção entre chamado geral e chamado específico encontra eco no adventismo. Ao tratar a FORMA como aquilo que define uma especialidade e um campo de serviço próprios, o capítulo separa os dois níveis que o Dia 29 desta série já havia identificado na Escritura (1 Coríntios 12:11,28; Efésios 4:11) e preenche a lacuna que os capítulos anteriores haviam deixado.

A advertência bíblica que Warren cita contra comparar o próprio ministério com o de outros (Gálatas 6:4; 2 Coríntios 10:12), um apelo à humildade diante da comparação, converge com a rejeição adventista à inveja e ao prestígio de dons, problemas que o próprio Warren já nomeara no capítulo 30.

O cultivo e a multiplicação dos dons pela prática formam o último ponto comum. A exortação para não deixar o dom estagnado, sob pena de atrofiá-lo, converge com o ensino adventista sobre a mordomia dos talentos: “deveríamos procurar o constante cultivo dos dons que o Espírito Santo nos concedeu, de modo a multiplicá-los” (Nisto Cremos, cap. 21), sobre a mesma parábola que Warren cita (Mateus 25:14-30).

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

O apelo do capítulo, servir a Deus com o que ele concedeu e cultivar esses dons com dedicação, encontra pleno acolhimento na fé adventista. A doutrina adventista lê de outro modo três de suas afirmações: a tese de que a Bíblia não define os dons espirituais, com seu peso particular sobre o dom de profecia; a aceitação da própria FORMA estendida às limitações deixadas pelo pecado e ao temperamento ainda por refinar; e o desenvolvimento do dom espiritual descrito nos mesmos termos de uma habilidade natural.

Uma premissa problemática sobre os dons

Warren afirma que “não existem definições de dons espirituais na Bíblia” e que qualquer lista de dons é arbitrária, refletindo apenas tendência denominacional. O capítulo funde aqui duas afirmações distintas. A primeira é a desconfiança de testes padronizados, questionários e inventários que prometem apontar uma vocação em poucas perguntas, cautela razoável que o próprio adventismo compartilharia: esses instrumentos não têm garantia bíblica de precisão, e nenhuma doutrina se perde em deixá-los de lado. A segunda vai bem mais longe. Ela nega a própria base textual que tornaria qualquer teste, bom ou mau, possível de avaliar, uma vez que, se a Bíblia não definisse os dons, não haveria padrão contra o qual medir a precisão de um teste. Esta afirmação não se sustenta. Paulo enumera dons concretos em pelo menos três listas parcialmente distintas (Romanos 12:6-8; 1 Coríntios 12:8-10,28; Efésios 4:11), e o dom de profecia aparece nas três. Dificilmente Warren ignora essas passagens por desconhecimento. Neste mesmo capítulo, ele cita Romanos 12:3 e Efésios 4:7, versículos vizinhos das listas de Romanos 12:6-8 e Efésios 4:11, e já tinha citado 1 Coríntios 12:11 no capítulo 30. Os versículos em que os dons são nomeados um a um, porém, nunca aparecem.

A lacuna produz uma inconsistência dentro do próprio capítulo. No mesmo trecho em que nega qualquer definição bíblica, Warren propõe um teste prático para saber se alguém tem “o dom de liderança” e conta como descobriu que tinha “o dom do ensino”. Essas categorias só são reconhecíveis e testáveis porque Paulo as nomeou e definiu num texto específico. Se a Bíblia de fato não os definisse, perguntar se alguém tem o dom de liderança seria tão vago quanto perguntar se alguém tem o dom de ser importante. Warren usa o mapa que, no mesmo parágrafo, diz não existir.

O peso maior dessa ideia recai sobre o dom de profecia. Ora, é a objetividade do texto bíblico que permite à igreja testar uma manifestação espiritual, em vez de apenas sentir ou presumir sua origem: “não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:20,21). Tratar a lista de Paulo como convenção denominacional arbitrária retira justamente o critério pelo qual ele manda submeter toda manifestação espiritual a julgamento (1 Coríntios 14:29; 1 João 4:1). Este mesmo critério sustenta, para o adventismo, o reconhecimento do dom de profecia como dom que permanece ativo na igreja até o retorno de Cristo, e não como variação arbitrária de tendência denominacional. O dom se manifestou de forma sustentada no ministério de Ellen G. White, cujos escritos se submetem, como qualquer outro dom, ao teste da Escritura, e não à impressão pessoal de quem o exerce (Nisto Cremos, cap. 18).

A omissão fica mais visível em 1 Timóteo 4:14, que Warren cita poucas páginas depois, na Bíblia Viva, para exortar o leitor a não negligenciar suas aptidões. Na Almeida, o versículo nomeia o meio pelo qual o dom de Timóteo foi concedido: “não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério”. O capítulo cita o texto sem tocar no que ele nomeia, o mesmo silêncio já registrado nos Dias 1 e 24 desta série.

Um leitor que absorva essa premissa por inteiro perde o próprio critério que deveria usar para avaliar qualquer afirmação sobre dons: sem uma lista bíblica de referência, tanto a alegação de possuir um dom quanto a rejeição de um dom manifestado por outra pessoa passam a depender só da opinião de quem julga, inclusive quanto ao dom de profecia, justamente onde a Escritura oferece o padrão mais objetivo para testar.

A FORMA e o efeito do pecado

A imagem do oleiro (Romanos 9:20,21; BJ), cujo contexto a seção 3 já examinou, sustenta a aceitação grata da própria FORMA. A extensão da providência divina a toda a biografia pessoal, inclusive a doenças e limitações congênitas, já foi examinada no Dia 30, e o argumento não precisa ser repetido. Ela reaparece aqui como justificativa explícita para nunca resistir ao que, segundo Warren, Deus planejou para cada um. Aceitar com gratidão o que se recebeu não obriga a tratar cada limitação como obra direta de Deus. A Escritura reserva parte dessas condições ao efeito do pecado sobre a criação e sobre a natureza humana, e não à vontade original de Deus (João 9:3; Nisto Cremos, cap. 7).

A mesma exortação se estende, neste capítulo, ao caráter e à personalidade. Em vez de se remodelar para ser outra pessoa, o leitor deve, segundo Warren, “comemorar a FORMA que Deus deu somente a você”. O Dia 31 já mostrou, a propósito do temperamento, que aceitar a própria FORMA não dispensa o caráter e o temperamento do processo contínuo de refinamento pelo fruto do Espírito que toda área da vida cristã exige (Gálatas 5:22,23; Nisto Cremos, cap. 11). O texto tampouco distingue o temperamento em si, moralmente neutro, dos traços de caráter que crescem ao seu redor e que a Escritura chama a corrigir. Se essa distinção não é feita, comemorar a FORMA acaba por blindar da correção justamente aquilo que mais precisa dela.

O efeito se percebe no cuidado pastoral. Quem ouve apenas o convite a comemorar a própria FORMA tende a reclassificar impaciência, aspereza no falar ou centralização em si mesmo como parte imutável de quem é, em vez de reconhecê-las como fruto ainda por amadurecer. A frase que deveria libertar de comparações inúteis passa a servir de desculpa contra a convicção do Espírito. Celebrar o próprio jeito de ser e submetê-lo à obra santificadora do Espírito são atitudes compatíveis, e o capítulo trata só da primeira.

Prática que iguala dom e habilidade

Warren descreve o crescimento de qualquer dom pela mesma via da prática que transformaria “um bom professor” em “mestre do ensino”. O desenvolvimento de um dom espiritual e o de uma habilidade natural passam a ser um único processo de treino. Nisto Cremos registra a diferença que falta a essa descrição: o Espírito costuma conceder os dons em harmonia com as habilidades naturais que a pessoa já tem, embora as habilidades naturais não sejam, “por si mesmas”, dons espirituais (Nisto Cremos, cap. 17). A prática aperfeiçoa tanto um quanto outro, mas só o dom depende do novo nascimento para existir e da permanência em submissão e comunhão com Deus para continuar ativo (João 3:3-8; 15:4,5). Sua concessão segue a vontade soberana do Espírito, que o distribui “como lhe apraz” (1 Coríntios 12:11), ao passo que a habilidade natural chega com o nascimento, sem depender de nada disso. Ellen White marca a mesma distinção: “estes dons já são nossos em Cristo, mas a posse real depende de nossa recepção do Espírito de Deus” (Parábolas de Jesus, p. 173). Em outra obra, ela contrasta o que a erudição ou o talento produzem por si sós com o que o mesmo dom realiza quando ligado a Cristo: “pode haver erudição, talento, eloquência, ou qualquer dom natural ou adquirido; mas, sem a presença do Espírito de Deus, nenhum coração será tocado, pecador algum ganho para Cristo” (Testemunhos para a Igreja, vol. 8, pp. 21, 22). Ligado a Cristo, até o mais pobre e ignorante dos discípulos exerce um poder capaz de influenciar corações. Tratar os dois, portanto, como o mesmo tipo de crescimento, diferindo só em grau de treino, repete no eixo do desenvolvimento a equivalência incompleta que o Dia 31 encontrou no eixo da origem.

Absorvida sem crítica, esta confusão empurra o crente para dois desvios. Um é investir só em treino e repetição, como se a dedicação bastasse para produzir o resultado de um dom concedido pelo Espírito. O outro é desanimar quem, sem talento natural aparente, recebeu um dom real, mas não reconhece nele o padrão de aperfeiçoamento gradual que identificaria numa habilidade.


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