(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 1

Dia 1: Tudo Começa com Deus

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Logo na abertura do capítulo, Rick Warren cita o filósofo ateu Bertrand Russell, para quem a pergunta pelo propósito da vida só faz sentido se Deus existir. Em seguida, contrasta sua proposta com a de todo o gênero de autoajuda, inclusive o cristão: livros que ensinam a sonhar mais alto, definir metas e nunca desistir podem produzir sucesso, mas sucesso e propósito, insiste ele, são coisas completamente distintas. O núcleo do argumento cabe numa frase curta (“a questão não é você”): a busca pelo sentido da vida fracassa quando começa pela introspecção. Perguntas centradas no eu (o que ser, o que fazer da vida, quais sonhos e ambições perseguir) nunca revelarão o propósito da existência, argumenta Warren, porque a criatura não pode determinar sozinha a finalidade para a qual foi feita. Um objeto fabricado só revela sua utilidade por meio do fabricante, e o ser humano só descobre seu propósito voltando-se para o Criador.

Com apoio em Romanos 8:6 na paráfrase The Message (Msg), Warren acrescenta que usar Deus como meio de realização pessoal é contrário à natureza das coisas e está fadado ao fracasso, pois viver consiste em deixar que Deus use a pessoa para os propósitos dele, e não o contrário. A mesma paráfrase, em Mateus 16:25, fornece a Warren a fórmula que resume o argumento: “autoajuda não é em absoluto uma ajuda”.

Duas vias de conhecimento se opõem no capítulo: a especulação filosófica, que apenas produz palpites, e a revelação bíblica, único caminho seguro para conhecer o propósito divino. Como exemplo da primeira, Warren cita a pesquisa do professor Hugh Moorhead com 250 intelectuais: alguns ofereceram apenas palpites, outros admitiram ter inventado um propósito, outros disseram não ter ideia alguma, e vários chegaram a pedir ao pesquisador que respondesse, caso algum dia descobrisse o propósito da vida. A Bíblia, por sua vez, revelaria os cinco propósitos de Deus para a vida humana e é apresentada como o “manual do proprietário”, que explica por que estamos vivos, como a vida funciona, o que evitar e o que esperar do futuro, conhecimento que nenhum livro de autoajuda ou de filosofia poderia oferecer. Em seguida, com base em Efésios 1:11 (Msg), Warren extrai três descobertas: (1) identidade e propósito só se descobrem em relacionamento com Cristo; (2) esse propósito foi planejado por Deus muito antes da nossa existência, sem participação nossa na decisão; (3) o propósito individual está encaixado num propósito cósmico maior, que o restante do livro desenvolverá.

Como ilustração de fechamento, Warren narra a conversão do romancista russo Andrei Bitov: criado sob o ateísmo soviético, ele conta ter sido dominado, certo dia no metrô de Leningrado, por um desespero tão intenso que a vida pareceu parar, até que lhe ocorreu a frase “sem Deus a vida não faz sentido”. Para Warren, o episódio mostra que o vazio de sentido pode ser o início do caminho para Deus, e o capítulo termina parabenizando o leitor que se sente perdido quanto ao propósito da vida, pois estaria “prestes a caminhar para a luz”.

2. Pressupostos teológicos implícitos

O capítulo parte do pressuposto de que Deus é o Criador de todas as coisas e a fonte contínua da existência de cada pessoa, um conceito tomado como ponto de partida já aceito e sem argumentação própria. Warren afirma que cada pessoa só existe porque Deus deseja que ela exista e, com base em Jó 12:10, que é Deus quem mantém todas as pessoas com vida. A premissa reúne, assim, a criação e a conservação da vida, e dela deriva a regra que governa todo o argumento seguinte: a finalidade de uma criatura é definida por quem a fez. Somente em Deus, conclui Warren, se descobrem a origem, a identidade, o propósito e o destino de alguém.

A salvação centrada na decisão individual é outro pressuposto do capítulo. Warren situa o início da vida espiritual num momento localizável: uma virada súbita, provocada por uma percepção decisiva, em que a pessoa entra em relacionamento com Cristo. A conversão de Andrei Bitov, que fecha o capítulo, seria um exemplo desse padrão. O mesmo esquema aparece na primeira das três descobertas extraídas de Efésios 1:11 (relacionamento), e Warren promete explicar mais adiante como iniciar esse relacionamento. Trata-se de um modelo característico da tradição avivalista do evangelicalismo norte-americano, em que o apelo à decisão ocupa o centro da pregação e a ênfase recai sobre a experiência pessoal desse momento.

A linguagem de eleição e predestinação sustenta mais um pressuposto teológico: o propósito de cada vida é fixado por uma decisão divina anterior à própria existência da pessoa. A partir de Efésios 1:11 (Msg), Warren afirma que “Deus já pensava a seu respeito muito antes de você pensar a respeito dele” e que o propósito de cada vida foi determinado antes da concepção. A pessoa escolhe a carreira, o cônjuge e os passatempos, mas o propósito lhe é dado. O vocabulário se aproxima da tradição reformada sobre os decretos divinos, presente em parte da herança batista. Dentro da lógica de Warren, esse pressuposto explica por que o livro inteiro se apresenta como um roteiro de descoberta: como o propósito já está fixado, só nos resta encontrá-lo.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo se apoia quase inteiramente na paráfrase The Message (Msg), de Eugene Peterson. Dela vêm o versículo de abertura (Colossenses 1:16) e quatro das cinco notas bíblicas: Romanos 8:6 (nota 2), Mateus 16:25 (nota 3), 1 Coríntios 2:7 (nota 5) e Efésios 1:11 (nota 6). A única exceção é Jó 12:10, citado na NTLH (nota 1), e as notas 4 e 7 remetem a fontes não bíblicas, a pesquisa de Hugh Moorhead e o livro de David Friend. Uma paráfrase de autor único traz embutidas as escolhas interpretativas de quem a escreveu, e o peso que ela tem neste capítulo convida a conferir cada versículo numa tradução mais formal, como a Almeida Revista e Atualizada.

Na Msg, Colossenses 1:16 diz que “todas as coisas começaram nele e nele encontram seu propósito”. A Almeida registra: “Tudo foi criado por meio dele e para ele”. As duas versões afirmam que tudo tem origem em Cristo e existe em função dele, mas a palavra “propósito” não consta do texto formal: ela interpreta o “para ele” com o vocabulário que dá título à obra. O uso é extrapolado, uma vez que o versículo trata da criação inteira em relação a Cristo, e não do sentido da vida de cada pessoa.

Em Romanos 8:6, “a obsessão consigo mesmo” leva, na Msg, a uma situação sem solução, enquanto “a atenção para com Deus nos leva a uma vida livre e abundante”. A Almeida afirma: “o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz”. Paulo contrapõe a natureza pecaminosa à ação do Espírito Santo, e a paráfrase transforma esse contraste numa questão de para onde a pessoa dirige a atenção. O uso é extrapolado: o Espírito desaparece do versículo, e com ele a ideia de que a mudança de vida é obra de Deus.

Mateus 16:25 aparece na paráfrase como “Sacrificar-se é a forma, a minha forma, de você achar a si mesmo”. Na Almeida, Jesus declara: “quem perder a vida por minha causa achá-la-á”. Os dois textos contrapõem guardar a vida e perdê-la, mas o centro muda de lugar. No versículo, a razão da renúncia é o próprio Cristo; na paráfrase, Cristo passa a ser o caminho para um objetivo que continua sendo encontrar a si mesmo. Também aqui o uso é extrapolado, e Warren recorre justamente a essa formulação, próxima da linguagem da autoajuda, para rejeitar a autoajuda.

Logo depois de afirmar que a Bíblia revela os cinco propósitos de Deus para a vida humana, Warren cita 1 Coríntios 2:7. Na Msg, a sabedoria de Deus trata “profundamente de seus propósitos” e é apresentada como a forma de “aflorar o melhor de si em nós”. Na Almeida, Paulo escreve: “falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória”. O texto formal fala de uma sabedoria antes escondida e agora revelada, que conduz os crentes à glória futura. O uso é extrapolado: a paráfrase troca essa glória por um crescimento pessoal no presente e introduz a palavra “propósitos”, que o versículo não contém.

Efésios 1:11 é o versículo de maior peso no capítulo, pois dele Warren extrai as três descobertas sobre o propósito. Na formulação de Peterson, “é em Cristo que descobrimos quem somos e o propósito de nossa vida”, e Deus já havia planejado para nós “uma vida gloriosa”. A Almeida diz que os que estão em Cristo foram “predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas”, e o versículo seguinte indica a finalidade: “para louvor da sua glória” (Efésios 1:11,12). Paulo fala de um “nós”, os crentes como grupo, e do propósito de Deus, e a paráfrase transfere para o leitor a glória que o versículo reserva a Deus. O uso é extrapolado, e vai além até da própria paráfrase em dois pontos: nem ela nem a Almeida dizem que o propósito de cada pessoa é anterior à sua concepção, nem que ela não pode escolhê-lo.

O único versículo fora da paráfrase, Jó 12:10 (NTLH), é citado com fidelidade.

4. Pontos de convergência

A crítica ao individualismo espiritual é o ponto de convergência mais amplo do capítulo. A recusa de Warren à autoajuda, inclusive à de vertente cristã, e à busca do propósito da vida na introspecção concorda plenamente com o ensino de Jesus sobre negar a si mesmo (Mateus 16:24,25; Gálatas 2:20). Para o adventismo, a morte do eu é condição do discipulado (Nisto Cremos, cap. 11).

A primazia da revelação bíblica sobre a especulação filosófica constitui uma convergência parcial. A oposição entre a especulação, que produz apenas palpites, e a revelação divina corresponde ao princípio adventista de sola Scriptura: a sabedoria humana não alcança por investigação as coisas profundas de Deus (Jó 11:7; Nisto Cremos, cap. 2), e só a revelação pelo Espírito as torna conhecidas (1 Coríntios 2:7,10). A ressalva está em que a suficiência das Escrituras convive, no adventismo, com a continuidade do dom de profecia, ponto desenvolvido na seção 5.

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

A teologia adventista concorda inteiramente com a tese do capítulo: a vida só faz sentido a partir de Deus, e não da autorreferência. Nenhuma afirmação do capítulo contradiz frontalmente a doutrina adventista, o que facilita sua leitura por um membro da igreja. Seis áreas, contudo, pedem um acréscimo específico do adventismo: o sábado como memorial da criação, a origem do mal no grande conflito entre Cristo e Satanás, o chamado dirigido a um povo, a urgência do juízo diante do propósito cósmico, o dom de profecia ao lado da suficiência das Escrituras e o lugar da escolha humana no cumprimento do propósito divino.

Criação sem ancoragem histórica e sabática

O capítulo apresenta Deus como a fonte da vida de cada pessoa. Esta afirmação não vem ligada a um evento histórico concreto (a semana da criação) nem à prática que a perpetua na experiência semanal do crente (o sábado). Para o adventismo, essa ligação é direta, porque o sábado é o memorial semanal da relação entre o Criador e a criatura. O quarto mandamento chama a humanidade a lembrar do Criador a cada sábado (Êxodo 20:8-11), e o evangelho eterno de Apocalipse 14:6,7 convoca as nações, no contexto do juízo final, a adorar “aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. Ellen White descreve o sábado, instituído no Éden como memorial da criação, como um ato de reconhecimento de que Deus é o Criador e de que os seres humanos são obra de suas mãos (Patriarcas e Profetas, p. 22; Nisto Cremos, caps. 6 e 20). Warren chega perto dessa compreensão ao afirmar que a criatura só se compreende voltando-se ao Criador, mas o capítulo não a desenvolve, ainda que um texto intitulado “Tudo Começa com Deus” seja o lugar natural para ligar a criação ao mandamento que a comemora. Essa ausência se explica, em parte, pelo público evangélico geral a que o livro se dirige.

Qualquer leitor, criacionista ou evolucionista teísta, subscreveria a afirmação de Warren sem atrito algum, uma vez que ela não diz nada sobre como ou quando Deus criou, apenas que criou. Se essa forma de falar sobre a criação se tornar hábito, o risco é formar cristãos capazes de afirmar de boa consciência “tudo começa com Deus” e tratar o sábado como uma cerimônia cultural substituível, porque nunca lhes foi mostrado o elo entre a doutrina que professam e o quarto mandamento (Êxodo 20:11).

No adventismo, a doutrina da criação sustenta o sábado, a base do casamento (Gênesis 2:24) e a dignidade humana, que decorre da imagem divina (Gênesis 1:26-27). Uma geração que conheça o relato da criação sem ancorá-lo num evento histórico concreto tende a relativizar as três ao mesmo tempo.

Ausência do grande conflito como categoria interpretativa

O capítulo trata a autocentração como um problema psicológico-espiritual isolado, sem o contexto que a teologia adventista considera indispensável: o grande conflito entre Cristo e Satanás. Sob essa perspectiva, a tese do capítulo descreve com precisão a própria origem do pecado no universo. Na leitura adventista de Isaías 14:12-14 e Ezequiel 28:12-17, a queda de Lúcifer começou com um deslocamento interno de centro, e o texto de Isaías registra cinco afirmações em primeira pessoa, entre elas “eu subirei”, “exaltarei o meu trono” e “serei semelhante ao Altíssimo”. Um ser criado decide fazer de si mesmo o ponto de referência do universo: é a autocentração em sua forma mais radical, a criatura tentando ocupar o lugar do Criador.

O Novo Testamento apresenta o caráter de Cristo como o oposto exato dessa atitude. Em Filipenses 2:5-8, aquele que já era igual a Deus “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” e levou essa entrega até a morte de cruz.

Para Ellen White, o centro do grande conflito é o contraste entre a busca dos próprios interesses e da exaltação própria, que originou o pecado, e o amor que renuncia a si mesmo e se dá (O Grande Conflito, pp. 493, 494; O Desejado de Todas as Nações, pp. 9, 10). Esse conflito assume a forma de um debate público sobre o caráter de Deus, travado diante de todo o universo, que o observa como testemunha (1 Coríntios 4:9). A provação de Jó (Jó 1-2) acontece nesse mesmo pano de fundo, invisível aos personagens humanos da história (Nisto Cremos, cap. 8).

A conclusão prática de Warren é semelhante: a vida deve ser vivida para Deus, e não para si mesmo. Sem o pano de fundo do conflito, essa conclusão permanece no nível da sabedoria espiritual. Isto significa que ela não mostra que cada escolha humana entre autocentração e entrega toma parte, quer a pessoa perceba ou não, numa disputa sobre o princípio que rege o universo: a exaltação de si mesmo ou a entrega por amor. Essa disputa já dura milênios, e seu desfecho tem ligação direta com a segunda vinda de Cristo.

Chamado individual sem comunidade escatológica

Warren descreve a Bíblia como uma espécie de manual do proprietário, que cada leitor consulta pessoalmente para descobrir seu propósito. A imagem deixa de lado o modo como a própria Escritura mostra Deus agindo. Deus revela e cumpre seus propósitos, em regra, por meio de comunidades de aliança: chama Abraão para formar um povo, tira Israel do Egito como nação e edifica a igreja como “corpo” (1 Coríntios 12:27) e “sacerdócio real, nação santa” (1 Pedro 2:9). Essa linguagem descrevia originalmente Israel no Sinai (Êxodo 19:6), e o Novo Testamento a aplica à igreja reunida, e não à soma de devoções privadas.

Esse mesmo manual, em seus capítulos finais, identifica ainda um povo específico, chamado a guardar os mandamentos de Deus e a fé de Jesus num momento determinado da história (Apocalipse 12:17; 14:12; Nisto Cremos, caps. 12 e 13). Cada crente é chamado como membro desse corpo, com uma missão coletiva a cumprir. Restringir a leitura ao enfoque individual do capítulo faz da igreja um recurso opcional para o crescimento pessoal, quando ela integra o próprio propósito para o qual a pessoa foi chamada.

Propósito cósmico sem urgência temporal

Warren fala de um propósito cósmico, muito maior do que o indivíduo, planejado por Deus para a eternidade. A afirmação é correta, mas atemporal, e serviria igualmente bem a um crente do século II ou do século XXI. Nela não aparece o elemento que dá urgência à busca adventista pelo propósito: o anúncio do primeiro anjo de que “é chegada a hora do seu juízo” (Apocalipse 14:7), que o adventismo lê, à luz da profecia de Daniel 8:14, como um marco histórico específico, iniciado em 1844 (Apocalipse 14:6,7; Nisto Cremos, cap. 24).

Apresentada como um percurso pessoal a ser feito aos poucos, a busca pelo sentido da vida torna o propósito adiável. Enfraquece-se, assim, o impulso de vigilância que caracteriza a espiritualidade adventista desde sua origem no movimento millerita: a disposição de quem espera a volta de Cristo, como o Noivo, a qualquer momento (Mateus 25:1-13), e não a de quem organiza a vida devagar, como se dispusesse de todo o tempo do mundo. Nesse enfoque atemporal, a pessoa pode aceitar sinceramente que deve viver para Deus e adiar indefinidamente decisões de entrega, arrependimento ou envolvimento missionário.

Suficiência das Escrituras sem o dom de profecia em operação

O capítulo apresenta a Bíblia como fonte exclusiva de revelação, o que está correto e é também a posição oficial adventista: a Escritura constitui “o padrão de caráter, a prova da experiência, o revelador definitivo de doutrinas” (Nisto Cremos, cap. 1). Fica de fora a segunda metade dessa posição: o reconhecimento de que o dom de profecia permanece ativo como sinal identificador do povo remanescente (Apocalipse 12:17), uma vez que “o testemunho de Jesus é o espírito da profecia” (Apocalipse 19:10), sem jamais acrescentar-se ao cânon. Sua função, nas palavras de Ellen White, é ser “uma luz menor para conduzir homens e mulheres à luz maior”, isto é, à Bíblia (O Colportor-Evangelista, p. 125). Todo dom profético, por isso, passa pelos testes bíblicos que o distinguem das reivindicações falsas, entre eles a coerência com a Escritura e os frutos na vida do profeta (Isaías 8:20; Mateus 7:15-20; 1 Tessalonicenses 5:19-21).

Sem essa segunda metade, o leitor que vem de uma tradição evangélica que considera os dons proféticos encerrados desde os apóstolos tende a ler os escritos de Ellen White já predisposto a vê-los como ameaça à suficiência das Escrituras. O adventismo os compreende de outro modo, como instrumento subordinado de orientação pastoral (Nisto Cremos, cap. 18).

Ambiguidade sobre a liberdade humana

Ao dizer que a pessoa “não pode escolher o seu propósito”, Warren quer afirmar, presumivelmente, que o conteúdo do propósito vem de Deus e não de nós. A teologia adventista concorda plenamente: ninguém inventa para si mesmo a razão de existir. Lida isoladamente, porém, a frase sugere que a realização do propósito também independe da vontade humana, como se bastasse a Deus tê-lo decretado para que se cumprisse necessariamente. Essa afirmação, aliás, não consta do versículo em que Warren a apoia, como o cotejo da seção 3 já mostrou, e o contexto imediato descreve a escolha divina “nele” com vistas à santidade e à adoção (Efésios 1:4,5).

O propósito que Deus estabelece para cada vida (fixo, dado, não negociável) precisa ser distinguido da resposta de cada pessoa a ele. A Bíblia trata essa resposta, reiteradamente, como escolha real e diária de quem foi criado com liberdade: “escolhei, hoje, a quem sirvais” (Josué 24:15); “quem quiser receba de graça a água da vida” (Apocalipse 22:17). Quando as duas coisas se confundem, surgem dois desvios pastorais. Um é a presunção (“já que Deus planejou, vai acontecer de qualquer forma”), que produz passividade espiritual e negligência do crescimento no caráter, algo decisivo para o modo como o adventismo entende a preparação do povo de Deus para os últimos dias. O outro é o desânimo (“se não encontro meu propósito, talvez Deus simplesmente não tenha planejado bem para mim”), que confunde a dificuldade humana de discernimento com uma suposta falha no plano divino.

A teologia adventista evita os dois desvios ao afirmar que Deus governa pela lealdade voluntária de pessoas livres para escolher, e não pela força. Ellen White observa que o exercício da força é contrário aos princípios do governo de Deus, pois o amor não se pode impor (O Grande Conflito, p. 493; O Desejado de Todas as Nações, p. 11; Nisto Cremos, cap. 7).


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