Dia 11: Tornando-se Amigo de Deus
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre este capítulo revelando a amizade como a faceta mais surpreendente do relacionamento humano com Deus, ao lado de outras categorias já reconhecidas, como Autor, Criador, Juiz, Redentor e Pai. Descreve o Éden como o modelo original dessa amizade: um convívio simples e carinhoso, livre de culpa, medo, rituais ou cerimônias, em que Adão e Eva desfrutavam de Deus, e Deus desfrutava deles.
Após a queda, esse relacionamento ideal teria sido perdido, restando apenas alguns poucos amigos íntimos de Deus no Antigo Testamento (Abraão, Moisés, Davi, Jó, Enoque, Noé), exceções num período em que, segundo o capítulo, o temor prevalecia sobre a intimidade entre Deus e a generalidade do povo. Warren situa a morte de Cristo como o ponto de virada: o rasgar do véu do templo teria eliminado a necessidade da longa preparação sacerdotal, abrindo acesso irrestrito e imediato a Deus. Estende ainda esse convite às três pessoas da Trindade, e recorre ao sentido grego da palavra “amigo” em João 15:15 para argumentar que Cristo oferece aos discípulos não uma relação superficial, mas o círculo de confiança mais próximo de um soberano.
A partir daí, o capítulo descreve os dois primeiros de seis “segredos” para cultivar essa amizade, os outros quatro ficam para o capítulo seguinte. O primeiro é a conversa constante: cita o exemplo do irmão Lourenço e sua obra A Prática da Presença de Deus, propondo que qualquer atividade cotidiana, mesmo lavar louça, se torne comunhão quando acompanhada de breves orações repetidas ao longo do dia. O segundo é a meditação contínua, definida como a mesma capacidade mental usada na preocupação, redirecionada para as palavras de Deus. Warren conclui contrastando as duas práticas: a oração permite falar com Deus, e a meditação permite que Deus fale de volta.
2. Pressupostos teológicos implícitos
Ao listar diversas categorias bíblicas que descrevem a relação entre Deus e o ser humano (Autor, Criador, Senhor, Mestre, Juiz, Redentor, Pai, Salvador), Warren isola a amizade como “a mais espantosa verdade” entre todas elas, tratando-a como o ponto culminante desse conjunto de categorias. O próprio capítulo reconhece a dificuldade da ideia: para Warren, é mais fácil compreender um relacionamento de Mestre para servo, de Criador para criatura ou de Pai para filho do que o convite de um Deus perfeito, invisível e onipotente à amizade de um ser humano limitado, o que reforça, a seus olhos, o caráter singular dessa categoria.
O capítulo descreve, ainda, o Éden como um convívio livre de “rituais, cerimônias ou religião”, e trata o acesso sacerdotal do Antigo Testamento como um obstáculo superado pela cruz, presumindo uma oposição entre forma litúrgica e intimidade autêntica. A mesma oposição reaparece na descrição dos sacerdotes que precisavam de horas de preparação ritual para se aproximar de Deus, cenário que o capítulo evoca para contrastá-lo com o acesso hoje disponível a qualquer momento.
Warren apresenta o rasgar do véu como o que restabelece, de uma vez por todas, o acesso direto a Deus “a qualquer instante”. Trata esse acesso como algo já plenamente consumado desde a cruz, ao afirmar que já podemos “exultar” nesse “novo relacionamento” com Deus como um fato presente e conquistado (Romanos 5:11, NLT).
Inspirado na tradição do irmão Lourenço, o capítulo trata, por fim, a consciência constante de Deus como uma competência a ser adquirida por meio de lembretes externos e frases curtas, repetidas com a maior frequência possível. Warren reforça essa lógica de treino comparando a prática à disciplina de um músico que repete escalas diariamente até tocar com facilidade, o que situa a intimidade com Deus no mesmo registro de uma habilidade condicionada por repetição.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a uma ampla variedade de versões: NVI (notas 8, 20, 21), NTLH (notas 4, 12), NCV (nota 15), Bíblia Viva (nota 24) e NLT (verso de abertura do capítulo, Romanos 5:10; notas 2, 3, 10, 22), além de diversos textos sem versão marcada. A paráfrase The Message (Msg) aparece duas vezes (notas 11 e 17; ver nota metodológica da Apresentação desta série), e o peso que a NLT e a Msg carregam nessas notas convida à conferência com uma tradução mais formal.
Logo depois de descrever o acesso a Deus como algo disponível “a qualquer instante”, o capítulo cita, na nota 3: “Podemos agora exultar em nosso maravilhoso novo relacionamento com Deus […] tudo por causa do que nosso Senhor Jesus Cristo fez por nós, tornando-nos amigos de Deus” (Romanos 5:11, NLT). A Almeida traz: “e não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação” (Romanos 5:11). Onde o texto formal fala em reconciliação, a NLT introduz a própria palavra “amigos” que sustenta a tese central do capítulo, ausente do grego. O uso é extrapolado: parte da base textual da premissa de um acesso já plenamente consumado vem dessa ampliação da tradução, não do texto original.
O uso mais sólido do capítulo está em João 15:15 (NVI): Warren identifica corretamente que o termo grego para “amigo” ali empregado designa, no uso da época, o padrinho de um noivo ou o círculo de confiança mais próximo de um soberano, e não uma relação superficial, uma observação exegeticamente precisa e, de fato, sem extrapolação a corrigir. A nota 2, usada para listar os “amigos de Deus” do Antigo Testamento, retoma Gênesis 6:8 (NLT) a respeito de Noé, já examinado no Dia 9 desta série quanto ao sentido de “achar graça diante do Senhor”.
Na nota 11, Atos 17:26,27 é citado via Msg para sustentar que Deus criou a humanidade a fim de que pudéssemos buscar a Deus e realmente o encontrar. A Almeida traz: “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar” (Atos 17:26,27). O uso é fiel ao que o texto afirma, mas incompleto: a paráfrase preserva bem a ênfase existencial da busca humana e deixa de lado a outra metade do mesmo versículo, que a Almeida traz com mais clareza: a soberania de Deus sobre a história, que determina os tempos e os limites de cada nação. Chama atenção, ainda, que 1 Tessalonicenses 5:17 seja citado duas vezes, primeiro sem versão marcada (nota 14) e depois via Msg (nota 17), um padrão de reforço já observado a propósito de Romanos 12:1 no Dia 10 desta série.
4. Pontos de convergência
Romanos 5:10 (NLT), citado como verso de abertura do capítulo, descreve a restauração da amizade com Deus por meio da morte de Cristo enquanto ainda éramos inimigos, uma afirmação plenamente compatível com a centralidade do grande conflito entre Cristo e Satanás já estabelecida no Dia 1 desta série, em que a cruz responde publicamente à acusação de que o governo de Deus seria opressor.
Ao convidar o leitor à amizade com “nosso Pai, o Filho e o Espírito Santo” (2 Coríntios 13:13), o capítulo converge, ainda, integralmente com a compreensão adventista do Deus triúno (Nisto Cremos, cap. 2), sem qualquer redução binitária ou modalista da divindade.
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A posição adventista concorda com o capítulo neste ponto central: a morte de Cristo restaura o acesso do ser humano a Deus. A divergência aparece em três pontos: sobre a continuidade dessa amizade através do santuário celestial depois do véu rasgado; sobre o lugar das orações breves e repetidas, entre a recomendação bíblica da oração incessante e o risco de uma técnica contemplativa alheia à Escritura; e sobre os “amigos de Deus” do Antigo Testamento, sempre vinculados, na Escritura, a uma aliança com todo um povo.
O véu rasgado e a intercessão contínua de Cristo
Warren tem razão: a morte de Cristo rasgou o véu do templo. Isso restabeleceu o acesso a Deus antes reservado aos sacerdotes. A leitura do capítulo, porém, converte esse evento histórico numa espécie de ponto final: a partir da cruz, o acesso estaria simplesmente disponível “a qualquer instante”, sem menção a alguma atividade de Cristo que continue sustentando essa proximidade no presente. Essa leitura não é exclusiva de Warren, mas reflete a posição predominante no campo evangélico em geral, pouco afeito à ideia de um santuário celestial estruturado em fases distintas de ministério sacerdotal.
A carta aos Hebreus (Hebreus 10:19,20) apresenta, ao contrário, o rasgar do véu como a abertura do ministério sacerdotal de Cristo, não sua conclusão, ligando o próprio véu à carne de Cristo: “pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hebreus 10:20), a fim de que pudéssemos ter “intrepidez para entrar no Santo dos Santos […] em plena certeza de fé” (Hebreus 10:19,22). Esse mesmo sacerdócio, exercido por quem está “vivendo sempre para interceder” pelos que a ele se chegam (Hebreus 7:25), permanece em curso desde a ascensão até o presente, quando Cristo, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus (Hebreus 4:14-16), entrou “no mesmo céu, para agora comparecer diante de Deus por nós” (Hebreus 9:24). A própria obra de referência da Igreja Adventista descreve esse acesso como “imediato e contínuo […] por intermédio do ministério sacerdotal de Cristo como nosso intercessor e mediador” (Nisto Cremos, cap. 24; Efésios 2:18). Ellen White resume essa continuidade com precisão: “a intercessão de Cristo no santuário celestial, em prol do homem, é tão essencial ao plano da redenção, como o foi Sua morte sobre a cruz” (O Grande Conflito, p. 488).
Isto tem uma implicação direta sobre a leitura que o capítulo faz do próprio Antigo Testamento. Warren caracteriza o período anterior à cruz como dominado pelo “medo de Deus”, com a amizade restrita a “poucas pessoas”. A Escritura não atribui aos patriarcas apenas temor. Eles já usufruíam de genuína comunhão com o Salvador por meio dos tipos do santuário que lhes fora revelado, a mesma fé que Hebreus 11 destaca em cada um deles. O próprio conceito de “temor” que o capítulo relega a essa fase superada merece exame mais cuidadoso. No uso bíblico, o termo carrega o sentido básico de medo, mas também um sentido reverencial de quem se maravilha diante da grandeza de Deus, um temor que, ao invés de afastar, atrai e aproxima. Trata-se, portanto, de uma disposição que continua acompanhando a proximidade genuína com Deus, inclusive no Novo Testamento (Filipenses 2:12), não de uma fase superada pela amizade. Ellen White relata essa mesma realidade: “esses santos homens da antiguidade entretinham comunhão com o Salvador que viria ao nosso mundo em carne humana; e alguns falaram com Cristo e os anjos celestiais, face a face” (Patriarcas e Profetas, cap. 27).
A diferença entre o Antigo e o Novo Testamento, para o adventismo, está em substituir efetivamente a sombra pela realidade à qual ela sempre apontou, não em substituir o temor pela amizade (Colossenses 2:17; Hebreus 9:9). Reduzir o Antigo Testamento a um período de distanciamento, e o santuário terreno a um mero incômodo superado pela cruz, deixa de lado o próprio ensino de que aquele sistema já era, à sua maneira, o próprio evangelho revelado em símbolos. Esse mesmo evangelho, segundo o juízo investigativo já discutido no Dia 9 desta série, é o que Cristo continua a aplicar hoje no santuário celestial.
Entre a súplica genuína e a técnica contemplativa
A Escritura, de fato, recomenda a oração incessante (1 Tessalonicenses 5:17), na mesma linha da conversa constante que Warren propõe neste capítulo. O próprio autor já acena, aliás, para um risco ao recomendar essas orações breves e repetidas: ele adverte o leitor para que sua motivação seja “honrar a Deus, e não controlá-lo”. Esse cuidado é bem-vindo. Mas talvez não seja suficiente diante do que Jesus ensina, na abertura do mesmo discurso em que apresenta o Pai-Nosso: “orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos” (Mateus 6:7). O termo grego ali empregado descreve uma ladainha mecânica, repetida na expectativa de que o acúmulo de palavras, por si só, produza efeito sobre a divindade, precisamente o tipo de religiosidade que os profetas de Baal praticavam ao clamarem pelo mesmo nome desde a manhã até ao meio-dia (1 Reis 18:26).
A distinção que falta ao capítulo está entre a repetição que nasce de uma súplica genuína e a fórmula usada como técnica espiritual, não sendo simplesmente uma questão de repetir ou não repetir: o próprio Jesus, no Getsêmani, “orou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras” (Mateus 26:44). A prática das “orações de um fôlego” que o capítulo recomenda, herdada do irmão Lourenço, pertence a uma linhagem contemplativa mais ampla, cuja marca é justamente esvaziar a mente por meio de uma palavra ou frase repetida até que, segundo essa tradição, a consciência de Deus “se instalaria” por si mesma. Em Adoração — O Presente do Homem Para Deus, o autor desta série já examina essa mesma linhagem de práticas contemplativas: classifica práticas como a “oração centrante” e a lectio divina como formas de contemplação de origem no catolicismo medieval ou no orientalismo, sem fundamentação bíblica, distintas da contemplação bíblica ativa, que é aquela que pode encher a mente com os atributos de Deus a partir da revelação, e não do silêncio ou da repetição em si mesma. Não por acaso, o mesmo capítulo de Ellen White que descreve a oração como “o abrir do coração a Deus como a um amigo” (Caminho a Cristo, p. 93) também recomenda uma oração “fervente e constante”: ali, a constância nasce da intimidade do relacionamento, e não é ensinada como uma técnica a ser adquirida por repetição, como este capítulo de Warren propõe. Praticar a conversa constante apenas pela repetição de frases, sem essa distinção, pode facilmente confundir hábito com intimidade. Para a Escritura, o valor de uma oração breve provavelmente está no que ela expressa, não na frequência com que os lábios a repetem.
A amizade bíblica sempre vinculada à aliança
Falar de Deus como amigo pressupõe responder a uma pergunta mais profunda: como o Deus transcendente se aproxima de suas criaturas sem deixar de ser quem é? Transcendência é a grandeza de Deus que o coloca acima e além de toda a criação, distinto dela em poder, santidade e eternidade; o oposto, a imanência, é sua proximidade real, a presença efetiva de Deus dentro dessa mesma criação, ao alcance de suas criaturas. O profeta Isaías expressa esse mesmo paradoxo com precisão: “assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15). A transcendência de Deus, “o Alto e Sublime que habita a eternidade”, convive ali mesmo com sua imanência, “habito […] com o contrito e abatido de espírito”. As duas coexistem na mesma frase, sem que uma dissolva a outra. Elevar a amizade à posição de “a mais espantosa verdade” acima de todas as demais categorias listadas no capítulo (Autor, Criador, Juiz, Redentor) corre o risco de enfatizar demasiada e indevidamente a imanência e, com isso, obscurecer a transcendência divina, ainda que a Escritura preserve essa dualidade como plenamente compatível.
Não por acaso: quando esse Deus transcendente efetivamente se aproxima na história bíblica, ele o faz por meio da aliança. Nunca por meio de uma amizade isolada de qualquer estrutura maior. A lista de “amigos de Deus” que o próprio capítulo evoca (Abraão, Moisés, Davi) funciona, na argumentação de Warren, como prova de que a amizade com Deus é possível independentemente de um contexto maior, cultivada por conversas constantes e meditação individual. A Escritura, contudo, jamais separa esses nomes do povo da aliança que os cercava. A amizade de Abraão nasce dentro de um chamado que já contempla fazer dele uma grande nação e uma bênção para todas as famílias da terra (Gênesis 12:1-3); a de Moisés se desenrola enquanto lidera o povo que Deus resgatou para si (Êxodo 19:5,6); a de Davi está amarrada à aliança que Deus firma não apenas com ele, mas com sua casa e seu trono para sempre (2 Samuel 7:8-16). Nenhum desses três homens cultiva amizade com Deus isolado do povo através do qual essa mesma amizade se cumpre e se estende, e é precisamente a aliança que permite ao Deus “Alto e Sublime” habitar com um povo humilde sem que sua santidade transcendente se dilua em mera proximidade emocional.
Esse padrão de leitura já apareceu nos Dias 1, 9 e 10 desta série, a propósito da ausência de uma dimensão corporativa nos exemplos escolhidos por Warren. Aqui, no entanto, a lacuna aparece de um ângulo particular: os próprios exemplos bíblicos que o capítulo escolhe para ilustrar a amizade com Deus pertencem, eles mesmos, à história de uma aliança, um problema mais profundo do que apenas a ausência da igreja reunida sustentando a experiência pessoal do crente (Hebreus 10:24,25, já citado no Dia 9). Formar a espiritualidade apenas pelos dois segredos deste capítulo (conversa constante e meditação solitária) sem perceber essa mesma marca nos exemplos que a fundamentam, corre o risco de transformar em modelo de devoção privada aquilo que, na Escritura, nunca deixou de ser também vocação comunitária, estruturada pela própria aliança que sustenta a proximidade que o capítulo celebra.
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