(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 10

Dia 10: A Essência da Adoração

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren abre e fecha o capítulo com o mesmo versículo, “entreguem-se completamente a Deus, para que ele use vocês a fim de fazerem o que é direito” (Romanos 6:13, NTLH), e dele extrai sua tese central: a essência da adoração é a rendição. O próprio autor reconhece que “rendição” é uma palavra malvista numa cultura competitiva, que ensina a vencer e nunca ceder, e que quase sempre a associa à derrota, à captura ou à capitulação diante de um adversário mais forte. Render-se a Deus, argumenta, não nasce de medo ou obrigação. Nasce de gratidão por um amor já recebido primeiro. A ideia se desenvolve em Romanos 12:1, onde Paulo, depois de onze capítulos expondo a graça de Deus, pede aos irmãos que se ofereçam completamente a Deus como sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a ele, pois essa é “a verdadeira adoração que vocês devem oferecer a Deus” (Romanos 12:1, NTLH). Warren observa que o verbo “oferecer” abre e fecha o mesmo versículo e conclui que a adoração consiste exatamente nesse gesto. Deus, escreve, anela a vida inteira do adorador; 95% de entrega não é suficiente.

O capítulo identifica três barreiras à rendição total. O medo leva a duvidar de que Deus seja confiável, o orgulho resiste a abrir mão do controle, e falta compreensão sobre o que rendição realmente significa. Contra o medo, Warren alista uma série de evidências do amor de Deus, culminando no sacrifício de Cristo na cruz. Contra o orgulho, aponta a antiga tentação de ser como Deus (Gênesis 3:5) como raiz do desejo humano de controle, compara a luta interior de cada pessoa contra a soberania divina à luta física de Jacó e cita A. W. Tozer, para quem muitos seguem angustiados porque “ainda não chegaram ao fim de si mesmos”. Quanto à falta de compreensão, esclarece que rendição não significa resignação passiva, fatalismo, desculpa para a preguiça nem anulação da personalidade. Invoca, para isso, C. S. Lewis: é justamente ao entregar-se a Cristo que uma pessoa passa a ter, pela primeira vez, uma personalidade real e própria.

Na vida concreta, a rendição se manifesta em obediência e confiança. Pedro obedece sem entender, lançando as redes outra vez depois de uma noite inteira sem pescar nada; Abraão, Ana e José confiam em Deus sem saber como ou quando as coisas se resolveriam. A mesma entrega aparece em não reagir a críticas nem insistir em ter razão. Warren aponta o dinheiro, especialmente os planos de aposentadoria, como a área mais difícil de entregar, uma vez que compete diretamente com Deus pelo centro das atenções de alguém. O modelo supremo dessa entrega é Jesus no Getsêmani, na noite anterior à crucificação, orando pela vontade do Pai, e não pela sua própria.

Três bênçãos acompanham a rendição: paz, liberdade e o poder de Deus. Duas figuras as ilustram. Josué se prostrou diante de Deus antes da batalha de Jericó e lhe entregou seus próprios planos; Maria foi escolhida para ser mãe de Jesus não por talento, riqueza ou beleza, mas por sua disposição de se render por completo. Todo ser humano, conclui Warren, acaba se rendendo a algo, a Deus ou a outra coisa (dinheiro, rancor, medo, orgulho). Cita, a esse respeito, E. Stanley Jones: “se você não se rende a Cristo, se rende ao caos”.

A rendição, adverte o capítulo, não se esgota num único momento. Trata-se de uma prática diária, a ser renovada repetidas vezes, porque o “sacrifício vivo” tende a escapulir do altar; segundo Warren, o crente talvez precise renovar sua entrega cinquenta vezes por dia. O testemunho do evangelista Bill Bright, fundador da Campus Crusade for Christ, ilustra o ponto: na juventude, Bright escreveu e assinou um “contrato” em que se declarava escravo de Jesus Cristo. O capítulo termina perguntando diretamente ao leitor se ele já firmou compromisso semelhante.

2. Pressupostos teológicos implícitos

A premissa que sustenta todo o capítulo situa o núcleo da adoração numa disposição interior de entrega total da vontade a Deus, e não num ato litúrgico. Warren trata “rendição” como sinônimo funcional de consagração, senhorio de Cristo, carregar a cruz, morte para si mesmo e submissão ao Espírito Santo. Pouco importa, diz ele, o nome que se dá ao ato, desde que seja realizado. Os diferentes termos com que a tradição cristã descreve a vida consagrada passam, assim, a designar um único gesto da vontade, e é esse gesto que o capítulo identifica com a adoração.

Warren estrutura o argumento numa sequência de eventos dependentes entre si, na qual a confiança funciona como pré-condição psicológica da rendição: primeiro é preciso crer que Deus é digno de confiança, e só então a rendição se torna possível. A confiança, por sua vez, depende de perceber sinais concretos do amor de Deus. Esse percurso vai da experiência afetiva do crente à decisão da vontade. O capítulo o formula de modo explícito: ninguém se rende a quem não conhece bem, e quanto mais alguém se dá conta do amor divino, mais fácil se torna a entrega. As evidências desse amor que Warren enumera servem, dentro dessa lógica, para remover o medo que impede a rendição.

O desejo de controle aparece no capítulo como a raiz do pecado humano. O orgulho, entendido como recusa em abrir mão do controle da própria vida, é a segunda grande barreira à rendição, e Warren remete à tentação original de ser como Deus como padrão que se repete em cada resistência humana à soberania divina. Ele a chama de a mais antiga das tentações e aproxima de Satanás quem tenta ocupar o lugar de Deus, porque o próprio Satanás desejou a mesma coisa. Os efeitos desse desejo aparecem descritos sobretudo na vida emocional: o estresse, a irritação e o ressentimento diante das próprias limitações, a inveja e a autopiedade diante do que Deus deu aos outros.

A rendição é tratada como processo contínuo, e não como evento único. Warren afirma explicitamente que o crente provavelmente precisará renová-la cinquenta vezes por dia, e cita a afirmação de Paulo de que morre diariamente. Distingue o momento da rendição, que no caso de Paulo ocorreu na estrada de Damasco, da prática da rendição, que se estende por toda a vida. Avisa, ainda, que a decisão de entregar-se será posta à prova em situações custosas ou inconvenientes. Este pressuposto convive, sem tensão explícita no capítulo, com a ilustração de um “contrato” assinado uma única vez com Deus.

Toda pessoa, pressupõe ainda o capítulo, acaba mais cedo ou mais tarde se rendendo a algo ou a alguém. Tratada assim, a rendição funciona como categoria antropológica universal, e não como opção exclusivamente religiosa: quem não se entrega a Deus se entrega, ainda que sem perceber, a outras forças (dinheiro, rancor, medo, orgulho, opiniões alheias). Warren liga essa premissa à adoração, uma vez que quem deixa de adorar a Deus acaba criando ídolos aos quais entrega a vida. A liberdade humana, nesse raciocínio, está na escolha do objeto da rendição, e ninguém escapa das consequências dessa escolha.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a muitas versões: NTLH (no versículo de abertura e na nota 2), KJV (nota 22), CEV (nota 23), NLT (notas 16, 17 e 20), NVI (notas 12 e 24), NCV (notas 21 e 27), GWT (nota 13) e NRSV (nota 10), além de duas paráfrases de autor único, The Message (Msg, nota 18) e a Amplified Bible (Amp, nota 25). Boa parte delas reformula o texto para facilitar a leitura, e por isso os versículos em que o argumento se apoia mais diretamente pedem conferência com a Almeida.

O versículo que abre e fecha o capítulo aparece só pela metade: “entreguem-se completamente a Deus, para que ele use vocês a fim de fazerem o que é direito” (Romanos 6:13, NTLH). Lida por inteiro, a própria NTLH antepõe a essa frase a condição de quem se entrega, “como pessoas que foram trazidas da morte para a vida”, e a Almeida diz o mesmo: “oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos”. A versão é fiel, mas o recorte separa o apelo da morte e ressurreição com Cristo descritas nos versículos anteriores, contexto batismal retomado na seção 5.

Romanos 12:1, texto-chave do capítulo, é citado três vezes. Na NTLH (nota 2), o versículo pede que os crentes “se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo” e termina dizendo que essa é a adoração que devem “oferecer a Deus”. A Almeida pede “que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. A observação de Warren de que o versículo começa e termina com “oferecer” depende da redação da versão que ele usa. O uso é fiel à ideia principal, a entrega da vida como adoração. Falta ao capítulo o versículo seguinte, examinado na seção 5.

Warren afirma que a Bíblia é “clara como cristal” sobre as bênçãos da rendição e apoia a primeira delas, a paz, em Jó 22:21 (NLT, nota 17): “Pare de disputar com Deus! Concordando com ele, você ao menos terá paz”. A Almeida traz a mesma ideia: “Reconcilia-te, pois, com ele e tem paz”. Quem a pronuncia é Elifaz, amigo de Jó a quem Deus repreende ao final do livro: “não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7). O Dia 20 desta série já observou o mesmo problema com outra fala de Elifaz. Apresentar esse conselho como ensino claro da Escritura, sem considerar quem fala, é um uso descontextualizado.

A segunda bênção, a liberdade, vem de The Message (nota 18): “Ofereça-se aos caminhos de Deus, e a liberdade jamais o abandonará” (Romanos 6:17,18). Escrita por Eugene Peterson como releitura pessoal do texto, essa paráfrase já chega ao leitor com as ênfases do próprio Peterson. A Almeida diz outra coisa: “uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça”. Para Paulo, quem é libertado do pecado passa a servir, e a paráfrase apaga justamente essa imagem, no capítulo que afirma que render-se traz liberdade, e não servidão. O uso é extrapolado.

A Amplified Bible aparece em Filipenses 4:13 (nota 25), que o leitor encontra ampliado com o comentário do tradutor: “Eu estou pronto para tudo e a altura de qualquer desafio”. A Almeida diz apenas: “tudo posso naquele que me fortalece”. No contexto, Paulo acaba de dizer que aprendeu a viver contente na fartura e na escassez (Filipenses 4:11,12). Warren conclui que o crente controlado por Cristo pode dar conta de qualquer coisa; o texto fala da força para atravessar qualquer circunstância, e o uso é levemente extrapolado.

A renovação diária da rendição se apoia em 1 Coríntios 15:31 (nota 26), “Morro todos os dias”. Paulo fala ali do perigo de morte física que enfrentava a toda hora por causa do evangelho (1 Coríntios 15:30-32), e não da morte para o próprio eu. O uso é descontextualizado, embora a ideia de renúncia diária tenha apoio direto em Lucas 9:23, que Warren cita logo adiante (nota 27).

Algumas divergências menores não alteram o argumento: a GWT põe “entregue-se” onde a Almeida traz “Descansa no Senhor” (Salmos 37:7, nota 13); Josué 5:13-15 mostra Josué prostrado e à disposição do príncipe do exército do Senhor, mas não fala em entrega de planos; e o anjo atribui a escolha de Maria à graça de Deus (Lucas 1:30), e não à sua disposição de se render. No restante, o uso bíblico é fiel: nos indícios do amor de Deus (1 João 4:9,10,19; Salmos 145:8,9; Salmos 139:3; Mateus 10:30; 1 Timóteo 6:17; Jeremias 29:11; Salmos 86:5), na cruz (Romanos 5:8), na tentação original (Gênesis 3:5), na obediência de Pedro (Lucas 5:5), no dinheiro como rival de Deus (Mateus 6:21,24), no Getsêmani (Marcos 14:36), na resposta de Maria (Lucas 1:38), na submissão a Deus (Tiago 4:7) e no propósito de agradar a Deus (2 Coríntios 5:9).

4. Pontos de convergência

A insistência do capítulo em que a entrega a Deus nasce de gratidão, “porque ele nos amou primeiro”, e não de medo ou obrigação, converge plenamente com o entendimento adventista da santificação como fruto da graça já recebida, jamais como seu preço de admissão (Nisto Cremos, cap. 10).

Warren descreve Deus como quem não viola a vontade humana, mas atrai delicadamente à rendição voluntária, recusando a imagem de um “cruel feitor de escravos” ou de um “ditador”. Poucos pontos do capítulo estão tão próximos do eixo da cosmovisão adventista do grande conflito: o governo de Deus se sustenta no amor e na liberdade, nunca na coerção, e é exatamente isso que está em disputa desde a acusação original de Satanás contra o caráter divino (O Grande Conflito, cap. 29; Apocalipse 12:7-9).

Também converge a afirmação, apoiada em C. S. Lewis, de que render-se a Deus fortalece a pessoa em vez de anulá-la: a rendição não suprime a personalidade, mas a revela e aperfeiçoa, o que corresponde à compreensão adventista de que a ação do Espírito Santo coopera com a vontade humana sem anulá-la (Filipenses 2:13).

O capítulo reconhece explicitamente que a rendição “nunca é um acontecimento isolado” e liga essa renovação ao chamado de Jesus para que o discípulo negue a si mesmo a cada dia (Lucas 9:23). A ênfase adventista na santificação como processo contínuo encontra aqui um eco notável. Esta série já a reclamou a propósito do modelo de conversão pontual e privado do Dia 7; desta vez, ao contrário daquele apelo final baseado numa única oração, Warren descreve corretamente a vida cristã como algo a ser renovado repetidas vezes, e não esgotado num único momento de decisão.

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Este é um dos capítulos mais densos da série em pontos doutrinários. A posição adventista acolhe a entrega da vida inteira a Deus como resposta de adoração. Situa de forma distinta, porém, vários aspectos dessa entrega: o culto racional como processo contínuo de renovação da mente; o Espírito Santo como quem torna efetiva a decisão humana de se render; o batismo como selo público da rendição; a confiança ancorada no preço da cruz e o desejo de controle, ambos à luz do grande conflito; o dízimo como expressão concreta da entrega financeira; a igreja reunida como sustentação da rendição ao longo do tempo; e a relação entre a instabilidade da entrega diária e a segurança da salvação.

Culto racional sem a renovação da mente pelo Espírito

O capítulo constrói toda a argumentação sobre Romanos 12:1, citado três vezes em versões diferentes, mas nunca avança ao versículo 2 da mesma frase paulina: “não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. No grego, ambos os verbos, “não vos conformeis” e “transformai-vos”, estão no imperativo presente passivo: uma ação contínua, e não instantânea, cujo agente último é o Espírito Santo, que a realiza no crente à medida que este coopera com Ele. Para o adventismo, esse processo é a própria santificação, pela qual o Espírito conforma o crente à imagem de Cristo (Romanos 8:29,30; Nisto Cremos, cap. 10). Sem essa segunda metade, o “culto racional” fica reduzido à entrega inicial do corpo como sacrifício, e a rendição descrita pelo capítulo perde o mecanismo que a sustenta ao longo do tempo.

O próprio desfecho do capítulo mostra o efeito prático dessa lacuna. Warren reconhece, com acerto, que a rendição precisa ser renovada muitas vezes ao dia, mas não diz por que meio isso acontece, além da repetição do próprio ato de vontade. A resposta está justamente na parte do texto paulino que o capítulo deixa de citar: a rendição diária se sustenta pela cooperação contínua entre a decisão humana e a obra do Espírito Santo, que renova a mente do crente segundo o padrão de Deus (e não do “século presente”). Sem essa peça, um leitor pode terminar o capítulo determinado a “tentar se render outra vez amanhã”, sem perceber que a Escritura descreve, no mesmo fôlego, um recurso divino disponível para sustentar essa mesma tentativa.

A mesma lacuna desalinha o caminho que Warren propõe para chegar à rendição e o alvo que o texto paulino declara para ela. Todo o percurso do capítulo passa por sentir-se amado: a confiança nasce de reconhecer o amor de Deus por meio de Seu cuidado, e é essa confiança que, segundo Warren, torna a rendição possível. Paulo, em Romanos 12:2, liga a renovação da mente a outro resultado: a capacidade de “experimentar” (no sentido de provar e comprovar) qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Essa capacidade difere bastante da confiança sentida emocionalmente. Quem segue apenas este capítulo aprende a confiar em Deus por sentir-se amado por ele, mas pode nunca desenvolver a capacidade de examinar e comprovar, com a mente renovada pelo Espírito, a vontade de Deus diante de cada decisão concreta da vida. A lacuna é sutil, porque não contradiz nada do que o capítulo afirma. Apenas deixa de completar, com a metade paulina que falta, o objetivo que o texto original tinha em vista.

Rendição como decisão da vontade, sem o Espírito

A tensão anterior reaparece, noutro ângulo, no próprio vocabulário do capítulo. As três barreiras à rendição (medo, orgulho e falta de compreensão) e as soluções propostas para cada uma (mais evidências do amor de Deus, reconhecimento das próprias limitações, esclarecimento do que rendição significa) são tratadas como um problema e uma resposta da mente e da vontade, resolvidos pela decisão pessoal de quem se entrega. O mesmo risco foi apontado no Dia 8, a propósito da adoração, e no Dia 9, a propósito da obediência: o de tratar a vida espiritual como disciplina de vontade própria, deixando o Espírito Santo em segundo plano. Paulo descreve essa entrega como cooperação: o crente desenvolve a própria salvação “com temor e tremor”, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:12,13). Ellen White formula o mesmo equilíbrio: “não podemos mudar o coração […] mas podemos escolher servi-Lo, podemos entregar-Lhe nossa vontade; então, Ele operará em nós o querer e o efetuar” (A Ciência do Bom Viver, p. 176). A rendição começa como decisão humana, mas depende do Espírito para se tornar efetiva. O capítulo descreve bem o primeiro passo e deixa o segundo apenas implícito.

A rendição sem o selo público do batismo

O versículo com que Warren abre e fecha o capítulo, “entreguem-se completamente a Deus” (Romanos 6:13), pertence a uma passagem que, poucos versículos antes, já havia ligado essa mesma entrega à linguagem do batismo: “fomos sepultados com ele […] para que também andemos em novidade de vida” (Romanos 6:3,4). Paulo não separa a rendição interior do gesto público que a expressa, e o adventismo entende o batismo exatamente nesses termos, como sinal público da entrega a Cristo, sepultamento com Ele e ressurreição para uma vida nova (Nisto Cremos, cap. 15). No capítulo de onde Warren tira sua citação, é o batismo que fornece o vocabulário de morte e ressurreição espiritual em que se apoia toda a ideia de “render-se”. Warren descreve, em vez disso, o ato decisivo de entrega como um compromisso pessoal redigido e assinado em particular. Reaparece aqui o padrão de espiritualidade privatizada já identificado no Dia 1, agravado pela ausência do batismo como resposta bíblica à conversão, já apontada no Dia 7. Isto significa que alguém pode viver com sinceridade o momento interior de entrega descrito neste capítulo sem nunca associar essa experiência ao passo público e comunitário que a própria passagem escolhida por Warren já continha.

O grande conflito ausente da confiança e do controle

A lista de indícios do amor de Deus com que Warren procura sustentar a confiança (ele diz que ama, cuida de cada detalhe, deu capacidade de desfrutar prazeres, tem bons planos, perdoa, é paciente) é majoritariamente relacional e afetiva, e só ao final chega à cruz. Para o adventismo, a confiança encontra base mais estável no preço concreto e irrevogável pago pela redenção humana no Calvário do que na soma de evidências do cuidado divino, como já discutido no Dia 8 desta série a partir de 1 Pedro 1:18,19. O capítulo chega a mencionar o sacrifício de Cristo como “a maior expressão desse amor” e a descrever Deus recusando-se a “violar a nossa vontade”, o mesmo traço já apontado na seção 4 como ponto de convergência com o grande conflito entre Cristo e Satanás. Falta estender essa cosmovisão à confiança propriamente dita. Na leitura adventista, a cruz é também a resposta pública e cósmica à acusação de que o governo de Deus é opressor, como já discutido no Dia 1 desta série. Sem esse pano de fundo, a confiança que Warren pede ao leitor fica assentada apenas na soma de gestos de cuidado pessoal, sem o fundamento mais abrangente que a própria cosmovisão adventista, tocada por Warren sem ser desenvolvida, poderia lhe dar.

A mesma cosmovisão fica de fora na segunda barreira apontada pelo capítulo, o orgulho. Warren identifica na tentação de ser como Deus (Gênesis 3:5) a raiz do desejo humano de controle, e chega a observar que Satanás quis a mesma coisa, mas trata esse desejo sobretudo como causa de estresse e de frustração emocional. Para o adventismo, essa tentação ecoa uma rebelião cósmica específica, à qual toda a história da salvação responde (Nisto Cremos, cap. 8): a de quem disse no coração “subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:12-14), já discutida no Dia 1 desta série. Lida nesse contexto, a resistência de cada pessoa à soberania divina ganha um alcance que o capítulo não lhe dá: além de desgastar a vida emocional, ela toma posição na disputa sobre o caráter e o governo de Deus. Entregar-lhe o controle significa, então, reconhecer também que esse governo é justo, o mesmo testemunho que a cruz ofereceu diante do universo.

O dízimo ausente do exemplo do dinheiro

Warren aponta o dinheiro, especificamente os planos de aposentadoria, como uma das áreas mais difíceis de entregar a Deus. Repete-se aqui uma lacuna já identificada no Dia 5 desta série a propósito da mordomia: o capítulo descreve a atitude correta diante do dinheiro sem chegar à prática concreta que a Bíblia associa a ela. A ausência pesa mais neste capítulo, porque o tema já não é a mordomia em termos gerais, e sim a própria rendição. A Escritura oferece, na prática do dízimo (Malaquias 3:8-10; Nisto Cremos, cap. 21), exatamente o gesto periódico e mensurável pelo qual a convicção de que tudo pertence a Deus (Salmos 24:1) se torna hábito reconhecível. Sem ele, a entrega financeira permanece uma atitude interior a ser renovada indefinidamente, sem nunca se traduzir num passo concreto e verificável.

Rendição individual, sem sustentação da igreja reunida

Assim como nos Dias 1 e 9 desta série, os exemplos e a linguagem do capítulo permanecem no registro exclusivamente pessoal. A rendição aparece como assunto entre o indivíduo e Deus, ilustrada pelo testemunho isolado de um único crente que assina, sozinho, um contrato de entrega. A Escritura não nega o caráter pessoal e intransferível dessa decisão, mas a situa também no contexto da igreja reunida, que sustenta, corrige e fortalece a rendição de cada membro ao longo do tempo (Hebreus 10:24,25). Lido isoladamente, o capítulo pode ensinar a repetir a própria rendição diante de Deus, sozinho, sem considerar que a mesma Escritura que pede essa entrega também previu, para sustentá-la, o corpo de Cristo reunido em torno de cada um de seus membros (1 Coríntios 12:25-27).

A entrega instável e a segurança da salvação

Este ponto não é levantado explicitamente pelo capítulo. A tensão aparece quando ele é posto ao lado do que o próprio Warren escreveu poucos capítulos antes, e o que a abre é a mesma continuidade da entrega já reconhecida na seção 4 como convergência com a santificação contínua. O capítulo descreve a rendição como um sacrifício vivo propenso a escapulir do altar, que precisa ser recolocado ali, segundo Warren, talvez cinquenta vezes por dia. A entrega, nessa descrição, é genuinamente instável, exposta continuamente ao risco de escorregar. No Dia 7 desta série, Warren descreve a salvação de outro modo: como uma transação verbal concluída no instante em que uma determinada oração termina, sem qualquer exigência semelhante de vigilância sobre a permanência do crente em Cristo. Se a rendição, componente inseparável da vida cristã, precisa ser sustentada tantas vezes ao dia para não se perder, resta saber se a salvação fundada sobre essa mesma entrega poderia ter sido assegurada de uma vez por todas por um único ato passado. Esta série já identificou essa tensão, sob outro ângulo, no Dia 3: para o adventismo, a salvação é uma relação de fé viva que precisa ser mantida ao longo do tempo, e não uma transação encerrada no passado. Um ramo genuinamente ligado à videira pode secar se não permanecer nela (João 15:2,6; Mateus 24:13; Nisto Cremos, cap. 11).

Um crente que tenha internalizado a certeza de que a salvação foi selada de uma vez por todas por aquela oração tende a ler esta insistência em renovar a entrega cinquenta vezes ao dia como um chamado à piedade admirável, mas opcional. Não percebe que a Escritura liga precisamente essa permanência renovada à própria garantia da salvação que ele supõe ter conquistado de forma irrevogável (2 Pedro 1:10).


Dia 9 — O que Faz Deus Sorrir? Índice dos Capítulos Dia 11 — Tornando-se Amigo de Deus
Apresentação Índice Remissivo

Tags: ,