Dia 20: Restaurando a Comunhão Quebrada
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre o capítulo afirmando que restaurar relacionamentos rompidos sempre vale a pena, ainda que o caminho mais fácil seja descartá-los diante de um desentendimento. Deus, segundo ele, confiou aos crentes o mesmo “ministério da restauração de relacionamentos” que exerceu ao reconciliar a humanidade consigo por meio de Cristo, e por isso promover a paz é uma das habilidades mais importantes para quem foi moldado para viver em comunidade. Cita o escândalo da igreja de Corinto, dividida a ponto de levar disputas internas ao tribunal secular, como advertência daquilo que a comunhão perdida comunica a quem não crê. O autor distingue cuidadosamente pacificar de simplesmente evitar conflitos ou de ceder sempre: o verdadeiro pacificador enfrenta o problema em vez de fugir dele, e às vezes até precisa provocar um confronto necessário, como o próprio Jesus fez.
A partir daí, o capítulo detalha sete passos bíblicos para restaurar a comunhão quebrada: orar antes de conversar com a outra pessoa; tomar sempre a iniciativa, não importa quem ofendeu quem; ouvir com compaixão os sentimentos envolvidos antes de buscar soluções; confessar a própria parcela de culpa no conflito; atacar o problema, não a pessoa, escolhendo as palavras com cuidado; cooperar tanto quanto possível; e, por fim, dar ênfase à reconciliação do relacionamento, não necessariamente à solução completa do problema, já que cristãos sinceros podem discordar sem deixar de caminhar juntos.
2. Pressupostos teológicos implícitos
Extensão horizontal do “ministério da reconciliação”
Warren toma a expressão de 2 Coríntios 5:18, o “ministério da reconciliação” que Deus confiou aos crentes ao reconciliar a humanidade consigo por meio de Cristo, e a aplica diretamente à restauração de relacionamentos entre pessoas, como se o mesmo termo descrevesse, sem mediação adicional, um ministério idêntico de pacificação interpessoal. O texto passa a funcionar, ao longo do capítulo, mais como fundamento textual da estrutura dos sete passos do que como pano de fundo teológico que os sustenta.
Conflito como sintoma de necessidades buscadas na pessoa errada
Ao justificar por que orar antes de conversar já resolve boa parte dos conflitos, Warren pressupõe que boa parte das desavenças nasce de se esperar de outra pessoa, um cônjuge, um amigo, um chefe, uma satisfação que só Deus pode conceder; quando essa expectativa não é atendida, o resultado é amargura e decepção. O diagnóstico do conflito é, portanto, primariamente vertical antes de ser horizontal: a pessoa com quem se está em desacordo não é, em si, a causa última do problema, mas o sintoma de uma necessidade mal direcionada, que só se resolve devolvendo a Deus o lugar que uma expectativa humana não deveria ter ocupado.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a uma variedade ampla de versões, com destaque para The Message, usada sete vezes (notas 2, 3, 6, 8, 10, 20, 25), a maior concentração dessa paráfrase em qualquer capítulo desta série até agora; a NTLH aparece o mesmo número de vezes (notas 5, 12, 13, 14, 21, 22, 23), ao lado de NLT, NVI, BV, BJ e GWT em menor proporção. Por se tratar de paráfrase, e não de tradução de equivalência formal, vale a mesma cautela já registrada nesta série ao cotejar a linguagem mais solta de The Message com versões de maior formalidade, sobretudo porque ela sustenta aqui o texto mais determinante do capítulo: 2 Coríntios 5:18, citado duas vezes seguidas, primeiro na GWT (na citação que abre o capítulo) e depois na Msg (nota 8, ao introduzir os sete passos), um recurso de repetição para reforçar o ponto, já observado nos Dias 18 e 19 desta série.
De resto, o uso bíblico é predominantemente fiel ao propósito de cada texto. Três observações pontuais merecem registro. A nota 11 combina 1 Pedro 3:7, sobre o relacionamento do marido com a esposa, e Provérbios 28:9, sobre a obediência à lei, num único argumento genérico a respeito de como o pecado bloqueia as orações; a combinação sustenta razoavelmente o ponto geral, embora misture dois contextos bem distintos entre si. Mais delicada é a nota 12, que apoia a advertência contra o rancor nas palavras de dois amigos de Jó, Elifaz e Bildade (Jó 5:2 e 18:4) — os mesmos que Deus repreende ao final do livro por não terem falado dele o que era reto (Jó 42:7); o problema desse uso é desenvolvido com mais profundidade na seção 6. Já a observação de Warren sobre a palavra grega skopos, em Filipenses 2:4, raiz de “telescópio” e “microscópio”, é uma observação correta sobre a palavra grega original, que reforça bem seu apelo à escuta atenta e compassiva. Mais substancial é a extensão do “ministério da reconciliação” de 2 Coríntios 5:18 para a esfera puramente interpessoal, ponto de maior peso teológico do capítulo, que ganha o tratamento que merece adiante, na seção 6.
4. Contraponto adventista
Este capítulo levanta quatro pontos que a posição adventista situa de forma distinta da apresentada por Warren: o alcance original do ministério da reconciliação que Cristo confiou aos crentes, o encaminhamento da comunhão quando os sete passos pessoais não bastam, a autoridade das falas atribuídas a personagens bíblicos, e os limites da unidade sem uniformidade.
O ministério da reconciliação ancorado na cruz
Para o adventismo, o “ministério da reconciliação” de 2 Coríntios 5:18-20 designa, em primeiro lugar, o chamado a proclamar e viver a reconciliação entre Deus e o pecador, obtida pelo sacrifício de Cristo; toda reconciliação humana que dele deriva encontra nesse mesmo sacrifício seu padrão e sua motivação mais profunda (Efésios 4:32).
A disciplina eclesiástica formal quando a reconciliação pessoal não é aceita
Para o adventismo, os passos pessoais de reconciliação são o primeiro estágio de um processo mais amplo que o próprio Cristo instituiu, com testemunhas adicionais e, se necessário, a igreja reunida, para os casos em que a outra parte permanece irredutível (Mateus 18:15-17; Crença Fundamental nº 12, A Igreja).
A autoridade bíblica e o contexto narrativo de cada fala
Para o adventismo, a inspiração das Escrituras garante o registro fiel do que cada personagem disse, não a correção doutrinária de tudo o que foi dito por eles; o livro de Jó ilustra esse princípio com clareza, já que o próprio Deus reprova o conselho dos três amigos ao final da narrativa (Jó 42:7,8).
Unidade doutrinária além da tolerância relacional
Para o adventismo, a unidade que o Novo Testamento pede da igreja vai além de conviver bem apesar das diferenças: em matérias de fé, pede que os crentes “falem a mesma coisa” e estejam “unidos no mesmo sentimento e no mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10; Crença Fundamental nº 14, Unidade no Corpo de Cristo).
5. Pontos de convergência
A prioridade da reconciliação sobre o culto formal
A insistência de Warren em que Jesus concede à reconciliação precedência até mesmo sobre a oferta no altar (Mateus 5:23,24) converge com a tradição profética que recusa um culto ritualmente correto, mas moralmente vazio (Isaías 1:11-17; Miqueias 6:6-8), já observada nesta série a propósito da neutralidade musical (Dia 8) e das características da adoração que agrada a Deus (Dia 13).
A iniciativa incondicional do pacificador
A exigência de Warren de que o crente tome a iniciativa da reconciliação independentemente de quem ofendeu quem converge com o ensino bíblico de que o amor cristão não espera ser correspondido para agir (Mateus 5:44-46; Romanos 5:8), sendo antes resposta à própria iniciativa de Deus em Cristo, já observada no Dia 11 desta série a propósito da amizade com Deus.
Pacificador ativo, não pacifismo passivo
A distinção que Warren traça entre promover a paz ativamente e apenas evitar o conflito converge com o próprio exemplo de Cristo, que confrontou abertamente o que precisava ser confrontado sem nunca abrir mão da paz como objetivo (Mateus 5:9; João 2:13-17).
Unidade sem uniformidade
A distinção que Warren traça entre reconciliação, voltada ao relacionamento, e solução, voltada ao problema, junto à sua afirmação de que “Deus espera unidade, não uniformidade”, converge com o testemunho paulino de que cristãos sinceros podem divergir em convicções pessoais sem romper a comunhão entre si (Romanos 14:1-5). Trata-se, porém, de uma convergência válida para as questões de opinião e preferência; seus limites diante da fé essencial são tratados na seção 6.
6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
O ministério da reconciliação ancorado na cruz
O texto de 2 Coríntios 5:18-20, de onde Warren extrai a expressão que dá título ao capítulo, trata do próprio chamado apostólico: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo […] e nos confiou a palavra da reconciliação”. O assunto imediato é a pregação do evangelho que reconcilia pecadores com Deus, não uma técnica geral de mediação de conflitos entre pessoas. Estender esse termo à restauração de relacionamentos humanos é um passo legítimo, o próprio Paulo funda a exortação a perdoar uns aos outros no fato de que Deus, em Cristo, perdoou primeiro (Efésios 4:32), mas o capítulo raramente volta a esse fundamento depois da citação que o abre. Dos sete passos, apenas um, o de suportar pacientemente a raiva alheia, é explicitamente ligado ao exemplo de Cristo (“foi isso que Jesus fez por você”); os demais, sobretudo o de tomar sempre a iniciativa, seguem como orientação prática, sem menção ao fato de que o próprio Cristo tomou a iniciativa de nos reconciliar “quando ainda éramos inimigos” (Romanos 5:10), como esta série já registrou no Dia 11 a propósito da amizade com Deus.
Ellen White comenta esse mesmo texto de Mateus 5:23,24 ao tratar do Sermão do Monte, observando que professar fé no amor perdoador de Deus enquanto se mantém “um espírito de desamor” para com o próximo seria simplesmente uma farsa (O Maior Discurso de Cristo, p. 58). Vale entender por que a teologia adventista insiste em ancorar toda reconciliação humana nesse fundamento: sem ele, os sete passos de Warren continuam sendo bons conselhos práticos, mas perdem a motivação mais profunda que os sustenta, a de que reconciliar o próximo é, antes de tudo, deixar transbordar para ele a mesma reconciliação já recebida de Deus. Reconhecer esse contexto original não invalida a extensão que Warren faz do texto para as relações humanas; ao contrário, devolve à expressão o fundamento de onde ela de fato nasce, pois é esse, afinal, o sentido correto do próprio versículo que ele cita.
A disciplina eclesiástica formal quando a reconciliação pessoal não é aceita
Os sete passos de Warren pressupõem, do início ao fim, que o esforço sincero e unilateral do pacificador é suficiente para restaurar a comunhão, desde que executado com humildade e paciência. O capítulo não chega a considerar o que fazer quando, apesar de todo esse esforço, a outra parte permanece irredutível. É significativo que o próprio texto usado para encerrar o capítulo, “façam todo o possível para viver em paz com todas as pessoas” (Romanos 12:18, NTLH), tenha, em traduções mais literais, uma condição que a NTLH dilui: a ARA verte o mesmo versículo como “se for possível, quanto estiver da vossa parte, tende paz com todos os homens”, reconhecendo, no próprio texto, que a paz nem sempre depende só de quem a busca.
O Dia 19 desta série já examinou o processo formal e gradual que Cristo instituiu para quando a conversa particular não resolve uma questão entre irmãos: testemunhas adicionais e, por fim, a igreja reunida (Mateus 18:15-17). Os sete passos deste capítulo correspondem, na prática, apenas ao primeiro desses estágios, a conversa reservada entre as duas partes; Warren não indica ao leitor que esse é apenas o começo de um processo maior, previsto pelo próprio Cristo para os casos em que a boa vontade pessoal, por si só, não é suficiente.
Presumir que a reconciliação sempre depende só do esforço e da atitude correta de quem a busca pode levar um crente sincero, que fez tudo o que este capítulo recomenda e ainda assim não obteve resposta, a concluir que o fracasso foi necessariamente seu, quando a própria Escritura já prevê, com realismo, que isso pode simplesmente não estar ao seu alcance.
A autoridade bíblica e o contexto narrativo de cada fala
Ao listar orientações bíblicas contra a raiva e o rancor, Warren cita duas falas do livro de Jó como se fossem conselho direto da Escritura: que ficar “desgostoso e amargurado” é loucura que leva à morte (Jó 5:2), e que a raiva só fere quem a alimenta (Jó 18:4). O conteúdo dessas frases, isoladamente, até soa sensato; o problema está na origem: a primeira vem do primeiro discurso de Elifaz, a segunda do segundo discurso de Bildade, dois dos três amigos que passam o livro inteiro insistindo que o sofrimento de Jó só poderia ser castigo por pecado oculto.
O próprio livro julga essas falas ao final. Deus se dirige a Elifaz e diz, sobre ele e seus dois companheiros: “a minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque vós não falastes de mim o que é reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7,8). Citar as palavras desses personagens como sabedoria bíblica genérica, sem esse contexto, inverte o julgamento que o próprio livro faz sobre elas: transforma em conselho aprovado exatamente o tipo de fala que Deus classifica como errada a seu respeito.
Isso não invalida o ponto pastoral que Warren quer fazer: a raiva não resolvida de fato prejudica quem a guarda, verdade que a Escritura ensina em outros lugares de forma inequívoca (Efésios 4:26,27; Provérbios 14:29). A fragilidade está no método, ler o livro de Jó como uma coleção de máximas avulsas, sem atenção à estrutura narrativa que separa o que os personagens dizem do que o livro, como um todo, ensina; quem aprende a citar a Bíblia dessa forma corre o risco de repetir, em outros contextos, o mesmo passo em falso, tomando a fala de qualquer personagem como voz de Deus, independentemente do julgamento que o próprio texto faz sobre ela.
Unidade doutrinária além da tolerância relacional
A advertência de Warren contra exigir uniformidade é sábia para a maioria das diferenças que dividem cristãos, mas o capítulo a formula de modo genérico demais, sem reconhecer que ela tem um limite. O próprio Warren cita, mais cedo no capítulo, a repreensão de Paulo aos coríntios por suas divisões: “Digo isto com toda a veemência que posso: Vocês devem estar de acordo uns com os outros” (1 Coríntios 1:10). Essa mesma passagem pede mais do que boa convivência apesar da discordância: pede que os crentes “falem a mesma coisa” e estejam “unidos no mesmo sentimento e no mesmo parecer”, diante de uma igreja dividida em torno de diferentes líderes, “eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo” (1 Coríntios 1:11,12). Paulo trata essa mesma rivalidade, poucos versículos depois, como sinal de imaturidade espiritual, não como diversidade legítima a ser apenas tolerada (1 Coríntios 3:3,4).
Esta mesma tensão entre amor fraterno e fidelidade doutrinária já apareceu, sob outros ângulos, nos Dias 16 e 17 desta série; aqui ela reaparece na própria definição de unidade que fecha o capítulo. Aplicar “unidade sem uniformidade” sem essa distinção esvazia parte do que Paulo realmente pediu aos coríntios: não apenas que convivessem bem apesar de discordarem, mas que buscassem, quanto ao essencial, o mesmo entendimento.
Uma igreja ou um pequeno grupo que absorvesse o princípio de Warren sem essa ressalva poderia estender a mesma tolerância também a divergências doutrinárias sérias, tratando-as como diversidade de opinião a ser suportada com paciência, quando o próprio texto que Warren cita para sustentar sua posição pede precisamente o contrário quanto a essas questões.
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