Dia 21: Protegendo a Igreja
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren argumenta que proteger a unidade da igreja é responsabilidade pessoal de cada crente, e não apenas dos líderes. Segundo ele, o Novo Testamento dá mais importância a esse tema do que ao céu ou ao inferno, e Cristo orou apaixonadamente pela unidade dos discípulos horas antes de ser preso, o que mostra o que mais pesava em sua mente antes da cruz. A unidade é a alma da comunhão: destruí-la equivale a rasgar o coração do corpo de Cristo. Nada na terra é mais valioso para Deus do que a igreja, pela qual pagou o preço mais alto e que deseja ver protegida das divisões, dos conflitos e das discordâncias.
O modelo supremo dessa unidade é a Trindade, em que Pai, Filho e Espírito Santo estão unidos em amor sacrificial e harmonia perfeita. Todo crente, por fazer parte da família de Deus, foi encarregado por Cristo de preservá-la, com base no apelo bíblico a conservar “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3). A partir daí, o capítulo oferece uma série de orientações práticas.
A primeira é concentrar-se no que os crentes têm em comum, e não nas diferenças. Warren lista o que já une todo crente (um só Senhor, um só corpo, um só propósito, uma só fé; Efésios 4:4-6) e observa que o conflito costuma surgir quando o foco se desloca desses elementos para “assuntos controvertidos” de personalidade, preferência ou método. Lembra ainda que “Deus quer unidade, não uniformidade”. A segunda é manter expectativas realistas quanto às imperfeições da igreja. Ele ilustra o ponto com uma placa fictícia na porta do templo, destinada a pecadores que precisam de graça, e recorre a Dietrich Bonhoeffer: a desilusão com a congregação real é saudável, porque destrói a ilusão de que a igreja precisa ser perfeita para merecer amor.
A terceira é preferir incentivar a criticar, porque julgar outro crente usurpa um papel que pertence só a Deus. A quarta é recusar-se a ouvir fofocas, definidas como a transmissão de informação por quem não é parte do problema nem da solução. Warren compara quem as ouve a quem recebe mercadoria roubada e propõe enfrentar com carinho quem fofoca. Sob o título “praticar os métodos de Deus para a solução de conflitos”, ele descreve o processo de três etapas que Cristo instituiu: conversa particular, depois com uma ou duas testemunhas e, por último, o caso levado à igreja. Se a pessoa continuar a recusar, deve ser tratada como incrédulo.
Por fim, Warren pede apoio aos pastores e líderes, tanto pela honra que lhes é devida quanto pela prestação de contas que também caberá a cada crente diante de Deus. Os pastores, por sua vez, devem advertir os polêmicos e, se dois avisos não bastarem, remover os divisores da igreja. O capítulo termina com um desafio à responsabilidade pessoal: proteger a unidade exige, por vezes, pôr o bem do corpo acima do próprio, e em comunidade se aprende a dizer “nós” em vez de “eu”. Warren acrescenta que Deus abençoa igrejas unidas e cita o pacto de unidade assinado pelos membros de Saddleback, igreja que, segundo ele, nunca teve um conflito que dividisse a congregação.
2. Pressupostos teológicos implícitos
A unidade da igreja modelada na unidade trinitária é o primeiro pressuposto do capítulo. Warren toma a unidade entre Pai, Filho e Espírito Santo como o modelo direto para a unidade que os crentes devem buscar entre si, aplicando à convivência entre os membros o mesmo padrão que descreve a relação entre as três pessoas da Divindade. A premissa aparece logo no início, quando o autor afirma que Deus é “o maior de todos os exemplos de amor sacrificial, altruísmo e harmonia perfeita”, e reaparece na lista do que os crentes partilham (“um Senhor, um corpo, um propósito, um Pai, um Espírito”), em que Senhor, Pai e Espírito figuram entre os motivos da unidade da igreja. A nota 4 do capítulo remete essa lista a Efésios 4:4, 1 Coríntios 8:6 e 12:13, entre outros textos. Trata-se de uma abordagem presente em parte da eclesiologia contemporânea, que vê na comunhão das três pessoas o arquétipo da comunhão dos crentes. No capítulo, o modelo convive com a afirmação de que Deus escolheu dar aos crentes diferentes personalidades, formações, raças e preferências.
Por trás da advertência contra criticar outros crentes, o capítulo pressupõe que a crítica fraterna usurpa o papel de Deus. Ao advertir contra julgar ou criticar, Warren apoia-se em Romanos 14 e na identificação bíblica de Satanás como “acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12:10), e trata a avaliação crítica da fé ou da conduta de outro crente como território reservado a Deus. Dessa premissa ele conclui que criticar os membros da família de Deus é trabalho do Diabo, e que quem o faz é ludibriado a servir aos propósitos de Satanás. O autor lista ainda quatro efeitos imediatos de julgar outro crente: a perda da comunhão com Deus, a exposição do próprio orgulho e insegurança, a sujeição ao julgamento divino e o dano à comunhão da igreja. Na mesma lógica, a fofoca é tratada como participação no mal: quem a ouve equivale ao receptador de mercadoria roubada.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a muitas versões: NCV (Efésios 4:3) e RV (Colossenses 3:14) nos versículos de abertura, NVI (notas 2, 6 e 23), NLT (notas 7 e 26), CEV (notas 10 e 15) e NRSV (nota 18), além de quatro paráfrases de autor único: The Message (Msg, notas 13, 16, 20, 22 e 25), Cartas para Hoje (CH, notas 3 e 11, além do versículo para memorizar), Bíblia Viva (BV, nota 19) e Amplified Bible (Amp, nota 17). As notas 1, 4, 5, 9, 12, 14, 21 e 24 não trazem versão marcada. Só a NRSV e a RV são de equivalência formal. Nas paráfrases, o versículo chega ao leitor já interpretado por quem o reescreveu, e por isso as passagens em que elas sustentam um argumento específico são lidas ao lado da Almeida.
Romanos 14:19 aparece na CH (nota 3): “concentremo-nos nas coisas que contribuem para a harmonia e no crescimento de nossa comunhão conjunta”. A Almeida diz que seguimos “as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros”. A paráfrase troca “paz” por “harmonia” e “edificação” por “crescimento da comunhão”, e acrescenta “que contribuem”, sem alterar o sentido. A versão é fiel, e o problema está no uso: Paulo escreve a frase no fim de uma exortação sobre alimentos e dias, e Warren a amplia para orientar toda a vida da igreja. A seção 5 retoma o ponto.
Para advertir contra a crítica, Warren cita Romanos 14:4 na CEV (nota 10), “Que direito você tem de criticar o servo de alguém?”, e Romanos 14:10 na CH (nota 11), “Por que, então, você critica as ações de seu irmão?”. A Almeida usa nos dois versículos o verbo julgar: “Quem és tu que julgas o servo alheio?” e “por que julgas teu irmão?”. Criticar é uma palavra mais ampla que julgar, e o capítulo passa de uma à outra sem aviso: dos dois versículos, o autor conclui que Deus “nos adverte repetidamente” contra criticar, comparar ou julgar. Como o próprio Warren usa os dois verbos em seus comentários, a ampliação não vem só da tradução. Paulo trata de quem condena o irmão por suas convicções pessoais, diante de Deus, e não proíbe toda avaliação crítica de uma conduta. O uso é extrapolado, como mostra a seção 5.
Mateus 18:15-17 chega na Msg (nota 20), mas a citação termina em “conte à igreja”. O desfecho vem nas palavras do próprio Warren, que manda tratar quem persiste em recusar como “incrédulo”, e a Almeida diz “considera-o como gentio e publicano”. A paráfrase reproduz com fidelidade as três etapas (conversa a sós, testemunhas, igreja), e o processo é reconhecido como convergência na seção 4. A nota 21 acrescenta a Mateus 18:17 o texto de 1 Coríntios 5:5, sobre a entrega do pecador a Satanás, e liga assim dois casos de gravidade bem diferente: a resistência num conflito pessoal e a tolerância a uma imoralidade grave (1 Coríntios 5:1-5).
Hebreus 13:17 aparece duas vezes seguidas, na Msg (nota 22) e na NVI (nota 23), repetição que a série já registrou nos Dias 18 e 20. A Msg pede que os crentes sejam “sensíveis” a seus líderes pastorais e ouçam seus conselhos, enquanto a Almeida diz “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles”. A paráfrase troca o verbo de obediência por escuta atenta. A NVI preserva a ideia de que os pastores cuidam dos crentes “como quem deve prestar contas”, que também está na Almeida. O uso é fiel ao propósito do texto, que é honrar os líderes e lembrar a prestação de contas, apenas com um tom mais brando na Msg.
Algumas divergências menores não alteram o argumento. A Amp, usada antes no Dia 10 (Filipenses 4:13), reaparece em Gálatas 5:15 (nota 17), texto que Warren resume no aviso de Paulo contra os cristãos “canibais” que devoram uns aos outros. Em Judas 19 (nota 16), a Msg diz que os criadores de divisão pensam “apenas em si mesmos”, e a Almeida acrescenta que são pessoas “que não têm o Espírito”. No versículo de abertura de Colossenses 3:14 (RV), o amor dirige a vida e mantém a igreja em harmonia, enquanto a Almeida o chama de “vínculo da perfeição”. No restante, o uso bíblico é fiel: Efésios 4:3 (abertura e nota 2), 1 Coríntios 1:10 (nota 6), Efésios 4:2 (nota 7), Provérbios 17:4, 20:19 e 26:20 sobre a fofoca (notas 15, 18 e 19), 1 Tessalonicenses 5:12,13 (nota 25) e 1 Coríntios 10:24 (nota 26).
4. Pontos de convergência
O processo de disciplina de Mateus 18 é a convergência mais forte do capítulo. Esta série observou, nos Dias 19 e 20, a ausência de um processo formal e gradual de disciplina fraterna nos capítulos sobre comunhão, e este capítulo preenche exatamente essa lacuna, citando o próprio texto de Mateus 18:15-17 quase por extenso. Trata-se de um ponto de convergência forte e bem-vindo com o processo que a teologia adventista também reconhece como modelo bíblico de correção fraterna (Nisto Cremos, cap. 12).
Warren ancora “unidade, não uniformidade” numa lista concreta do que de fato une os crentes, um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Efésios 4:4-6), reservando a tolerância mútua para o campo das “personalidades, preferências, interpretações, estilos ou métodos”. Diferente do uso mais genérico da mesma expressão no Dia 20, aqui a fórmula tem limites nomeados. Essa distinção converge de perto com o limite que esta série apontou como ausente no capítulo anterior, e mostra que o livro, lido como um todo, já contém os elementos para a mesma ressalva.
A unidade como dom e petição de Cristo sustenta toda a exortação prática do capítulo, que se apoia na oração que Jesus fez pelos discípulos horas antes da cruz (João 17:20-23). Com isso Warren evita a armadilha, já observada no Dia 19 desta série, de apresentar virtudes relacionais como mero conjunto de técnicas: a unidade é primeiro dom e petição de Cristo, e só depois tarefa do crente.
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A posição adventista subscreve a ênfase do capítulo na unidade da igreja como responsabilidade de cada crente e ajusta a leitura de Warren em dois pontos: o sentido em que a Trindade serve de modelo para a unidade da igreja, e o critério que separa o discernimento legítimo do pecado do julgamento que a Escritura condena.
Trindade como modelo de unidade, não de fusão
Warren afirma que “o Pai, o Filho e o Espírito Santo são totalmente unidos em um” como “modelo supremo” para a unidade da igreja, mas não esclarece em que sentido essa unidade funciona como modelo. Tomada sem qualificação, a analogia pode sugerir uma fusão de identidades, como se a igreja devesse aspirar a uma mente coletiva, na qual as diferenças de personalidade, opinião e temperamento fossem obstáculos a superar, e não traços distintos a conviver em paz e amor. Para o adventismo, o fato de Deus ser um só não anula as personalidades distintas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A doutrina da Trindade afirma um só Deus que existe eternamente como três pessoas distintas, sem que essa unidade apague as personalidades de cada uma, nem a distinção entre elas negue que exista um só Deus (Nisto Cremos, cap. 2).
A analogia funciona justamente por não ser uma fusão. A Divindade oferece o único exemplo concreto de personalidades plenamente distintas, com papéis diferentes dentro da mesma obra, unidas por compartilharem, de modo perfeito e voluntário, um mesmo propósito, mente e caráter: Deus é um em propósito, mente e caráter, e não uma pessoa só. Esse é o tipo de unidade que a igreja é chamada a buscar, uma harmonia de propósito e caráter que Cristo molda em cada crente, entre membros que continuam distintos em personalidade, preferência e temperamento. O propósito é a missão que ele confiou à sua igreja (Mateus 28:19,20); o caráter é a sua própria imagem formada em cada um (Romanos 8:29; Gálatas 4:19). Deixar essa distinção implícita reduz o “modelo supremo” a um lema inspirador, quando ele poderia servir de base teológica para a própria conclusão que Warren defende no restante do capítulo.
O limite entre julgar o coração e discernir o pecado
Ao advertir contra julgar e criticar outros crentes, Warren apoia-se quase inteiramente em Romanos 14, capítulo que trata de “assuntos controvertidos” de consciência pessoal, como dias e alimentos, e não de pecado ou erro doutrinário. O uso desse texto é correto dentro do seu alcance. O problema está na falta de um sinal que mostre ao leitor onde esse alcance termina, sobretudo porque o mesmo capítulo, poucos parágrafos depois, recomenda o processo de disciplina de Mateus 18 diante de pecado real. Lida isoladamente, a advertência anterior poderia levar a evitar essa correção por escrúpulo. A dificuldade cresce porque as versões que Warren usa trocam o verbo “julgar” de Romanos 14 por “criticar”, como registra a seção 3.
A distinção bíblica mais precisa separa o motivo oculto da conduta declarada, e não apenas a “convicção pessoal” do “pecado”. A razão íntima pela qual alguém prefere um culto mais silencioso, ou guarda uma restrição alimentar específica, pertence ao coração, e só Deus a conhece por inteiro. Um adultério mantido sem arrependimento, ou o ensino aberto de uma doutrina contrária à fé da igreja, são condutas declaradas, visíveis a todos, que não exigem adivinhar motivo algum para serem reconhecidas como erradas. Ellen White comenta a parábola do joio nesses termos: “Cristo ensinou claramente que aqueles que perseveram em pecado declarado devem ser desligados da igreja; mas não nos confiou a tarefa de ajuizar sobre caracteres e motivos” (Parábolas de Jesus, pp. 71,72).
Julgar o coração e as intenções de alguém é prerrogativa exclusiva de Deus, e a advertência bíblica contra julgar reserva a ele o exame dos motivos ocultos de cada pessoa. A Bíblia associa esse julgamento ao “acusador de nossos irmãos” que o próprio capítulo cita (Apocalipse 12:10). Discernir e tratar o pecado declarado e persistente é, ao contrário, responsabilidade que Cristo confiou à igreja (Mateus 18:15-17; 1 Coríntios 5:11-13; Nisto Cremos, cap. 12), e não usurpação dela.
A Escritura sustenta as duas coisas sem contradição. O mesmo Paulo que, em Romanos, pede tolerância quanto a dias e alimentos instrui a igreja de Corinto a julgar e disciplinar um caso de imoralidade grave em seu meio: “Não julgais vós os de dentro?” (1 Coríntios 5:12,13). O critério bíblico está no objeto do julgamento. Convicção de consciência e motivação íntima pedem tolerância e humildade; pecado declarado ou erro doutrinário pedem discernimento e, se necessário, correção fraterna pelo processo que o próprio Cristo instituiu.
Um grupo de crentes instruído sem essa distinção poderia absorver a advertência contra julgar como princípio geral e hesitar diante de situações que pedem discernimento corajoso, como a igreja de Corinto hesitou, para sua própria vergonha, ao tolerar o que deveria ter confrontado.
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