Dia 19: Cultivando a Comunidade
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre o capítulo afirmando que somente o Espírito Santo cria comunhão verdadeira entre os crentes, mas que ele o faz por meio das escolhas e dos compromissos que cada pessoa assume. Com base em Efésios 4:3, conclui que a comunidade exige tanto o poder de Deus quanto o esforço humano. Quem cresceu em famílias de relacionamentos difíceis pode aprender essas habilidades, uma vez que o Novo Testamento traz instruções para viver na família de Deus, que é a igreja. O capítulo detalha então cinco práticas exigidas de quem deseja deixar a “comunhão fajuta”, superficial e sabotada pelo medo do conflito, e alcançar a comunidade real: sinceridade, humildade, cortesia, sigilo e constância.
Sinceridade significa falar a verdade com amor, ainda que seja mais fácil calar diante de alguém que se prejudica com uma prática pecaminosa. Como exemplo do preço desse silêncio, Warren cita a repreensão de Paulo à igreja de Corinto, que tolerava um caso de imoralidade em seu meio, e acrescenta a orientação de Gálatas 6:1 para restaurar com mansidão quem for surpreendido em pecado. Ressalva que a franqueza não autoriza a grosseria: há tempo e modo certos para falar, e os irmãos devem ser tratados como membros de uma mesma família (1 Timóteo 5:1,2). A humildade, na definição do autor, consiste em pensar menos em si mesmo, e não em pensar menos de si mesmo. Warren a apresenta como a veste própria da comunhão, uma vez que o orgulho obstrui a graça de Deus, e descreve os humildes como pessoas tão voltadas ao serviço que se esquecem de si.
Cortesia é a paciência com as pessoas “difíceis”, presentes em todo grupo e chamadas por ele de NTE (“Necessária Tolerância Extra”): carentes, inseguras, de maneirismos irritantes. Deus as colocaria na comunidade para o benefício delas e de quem convive com elas, como oportunidade de crescimento e teste da comunhão. A aceitação não depende de inteligência, beleza ou talento, mas do fato de todos pertencerem à mesma família. O segredo prático estaria em conhecer o histórico de cada pessoa e em não subestimar as dúvidas e os temores alheios.
Sigilo quer dizer que o que se fala no grupo fica no grupo, sem que isso autorize calar diante do pecado de um irmão. Warren condena com dureza a fofoca disfarçada de “pedido de oração”, lembra que quem fala mal dos outros separa até os melhores amigos (Provérbios 16:28) e afirma que Deus manda advertir quem provoca dissensão (Tito 3:10). Constância é o hábito de se reunir com regularidade, a exemplo dos primeiros cristãos, que frequentavam o templo todos os dias e se reuniam nas casas (Atos 2:46). A comunidade, insiste ele, não se forma por conveniência, mas pela convicção de que o convívio é necessário à saúde espiritual, mesmo quando falta vontade. O capítulo termina propondo um pacto de nove características para grupos pequenos e classes de escola dominical: as quatro descritas no capítulo anterior (autenticidade, reciprocidade, compaixão e misericórdia) somadas às cinco deste.
2. Pressupostos teológicos implícitos
A comunhão é tratada, no capítulo, como resultado de práticas deliberadas, num texto que funciona em boa parte como manual de habilidades relacionais para grupos pequenos. A premissa é a de que o Espírito produz a comunidade por meio da disciplina do crente: sinceridade, humildade, cortesia, sigilo e constância aparecem como hábitos que se aprendem e se assumem por escolha, e a formação da comunidade depende, segundo Warren, de escolhas difíceis e de riscos assumidos. Em termos doutrinários, trata-se de uma visão da santificação em que a obra divina opera pelo esforço humano. O pacto final confirma essa lógica: cada característica da comunhão vem redigida como promessa em primeira pessoa do plural, como em “faremos do grupo uma prioridade”.
O confronto do pecado é tratado como responsabilidade informal do grupo. Ao tomar como modelo a repreensão de Paulo à igreja de Corinto, que tolerava um caso grave de imoralidade sexual (1 Coríntios 5:1-5), Warren resolve o problema no nível da conversa franca dentro do pequeno grupo: a exigência que ele extrai do texto é que alguém tenha coragem de trazer o assunto à tona e falar a verdade com amor. O mesmo raciocínio aparece em Gálatas 6:1, citado como orientação dirigida a todos “que são espirituais”, e na pergunta com que ele encerra a citação de Corinto, sobre a responsabilidade da comunidade por “aqueles de dentro”. O obstáculo identificado é o medo de falar, e o remédio proposto é a coragem individual de quem convive com o membro que peca. A premissa é eclesiológica: a correção do pecado pertence, antes de tudo, à relação entre os irmãos que convivem no grupo.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a cinco traduções de equivalência dinâmica, NCV (notas 1, 2, 5 e 14), NTLH (notas 4, 8, 18 e 20), NLT (notas 7 e 13), GWT (notas 9 e 17) e NVI (notas 11, 12 e 19), e a duas paráfrases de autor único: The Message (notas 6, 10 e 16) e a Bíblia Viva (notas 15 e 21). A nota 3 não indica a versão. As duas paráfrases sustentam os pontos de maior peso: a Message, a longa citação de 1 Coríntios 5, e a Bíblia Viva, o texto sobre a cortesia e o retrato dos primeiros cristãos. Como cada uma traz as escolhas de interpretação de quem a redigiu, esses trechos precisam ser lidos ao lado de uma versão formal, aqui a Almeida Revista e Atualizada.
A nota 3 remete a Efésios 4:15 sem indicar a versão, e dele Warren tira o mandamento de “falar a verdade em amor”. A Almeida diz: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”. O verbo do original admite as duas leituras, a de falar, que Warren adota, e a de viver segundo a verdade, que é a da Almeida. O uso é fiel a uma das leituras possíveis, mas deixa de fora o alvo do versículo, Cristo, tratado na seção 5.
A citação de 1 Coríntios 5:3-12 na Message (nota 10) sustenta o apelo para que o grupo enfrente o pecado de um membro. No fecho, Paulo pergunta se a comunidade não teria “alguma responsabilidade por aqueles de dentro”. Na Almeida, o versículo 12 fala em julgar: “Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro?”. A paráfrase troca o julgamento por responsabilidade, um termo mais genérico, que tira do texto o peso de decisão e favorece a leitura de um confronto informal entre amigos. A citação termina no versículo 12 e deixa de fora o 13, em que Paulo ordena: “Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor”. O uso é descontextualizado em parte: o trecho serve ao apelo por franqueza, mas fica sem o desfecho que o próprio texto prevê.
Romanos 15:2, na Bíblia Viva (nota 15), apoia a cortesia: é preciso carregar “o fardo” de considerar “as dúvidas e temores de outras pessoas”. A Almeida diz: “Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação”. A paráfrase detalha as debilidades dos fracos como dúvidas e temores de consciência, sem alterar o sentido, e o uso é fiel. O versículo seguinte, que apoia esse pedido no exemplo de Cristo, fica fora da citação e é tratado na seção 5.
Atos 2:46, na Bíblia Viva (nota 21), descreve os primeiros cristãos que “adoravam juntos no templo todos os dias” e se reuniam “em grupos pequenos nas casas para a Comunhão”. A Almeida diz: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração”. As expressões “grupos pequenos” e “Comunhão”, esta com maiúscula, pertencem à paráfrase, pois a Almeida fala em partir pão de casa em casa. O modelo de grupos pequenos que Warren propõe ao leitor chega, assim, pela via da versão, e não do versículo. O uso é extrapolado: o texto sustenta a reunião frequente dos primeiros cristãos, e não uma estrutura de grupos.
O capítulo não transcreve Tito 3:10 (NVI, nota 19). Resume-o ao dizer que Deus orienta a advertir os que causam dissensão entre cristãos. Na Almeida, o versículo diz: “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez”. A advertência é só o primeiro passo, e o versículo manda, depois de repetida, evitar o faccioso. O resumo é fiel à primeira parte e omite a segunda, o passo que vai além da conversa entre irmãos.
Resta uma divergência pequena, sem efeito sobre o argumento: a nota 6 remete a Efésios 4:3, mas o texto citado (“Chega de mentiras, chega de fingimento”) corresponde a Efésios 4:25, que a Almeida formula assim: “Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros”. O restante do uso bíblico é fiel, entre outros em Efésios 4:3 (nota 1), Gálatas 6:1,2 (nota 5), Filipenses 2:3,4 (nota 14), Provérbios 16:28 (nota 18), Tito 3:2 (nota 16) e Hebreus 10:25 (nota 20).
4. Pontos de convergência
A comunhão como obra do Espírito, preservada pelo esforço humano, é uma convergência parcial. Ao contrário do que esta série observou em outros capítulos, como os Dias 8 e 12, Warren credita aqui ao Espírito Santo a criação da comunhão genuína e atribui ao esforço humano a tarefa de preservá-la (Efésios 4:3), formulação que se aproxima da síntese adventista entre graça e cooperação humana. A convergência é parcial porque o Espírito deixa de aparecer quando o capítulo detalha as cinco práticas, ponto examinado na seção 5.
A aceitação mútua fundada na família, e não na compatibilidade, converge com o ensino bíblico. Warren recusa condicionar a aceitação das pessoas “difíceis” à compatibilidade pessoal, e nisto coincide com a ideia de que a igreja reúne pessoas de toda origem como uma só família, unidas pelo relacionamento com Deus e não pela afinidade natural (Gálatas 3:28; Romanos 15:7).
Warren condena a fofoca disfarçada de “pedido de oração”, e a Bíblia confirma a gravidade do gesto: quem espalha rumores separa até os melhores amigos (Provérbios 16:28), e a língua mal guiada é capaz de incendiar toda uma comunidade (Tiago 3:5,6).
5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
A posição adventista acompanha a proposta do capítulo para a vida em comunidade e responde de modo próprio a duas questões: até onde vai a correção fraterna diante do pecado e da divisão, que no adventismo conta com um processo formal, e sobre o que se apoiam as cinco práticas da comunhão, a saber, o exemplo de Cristo e a obra do Espírito.
Confronto do pecado e da divisão sem o processo formal
Warren acerta ao insistir que o silêncio diante do pecado destrói comunidades, e escolhe bem o caso de Corinto: Paulo repreendeu uma igreja que preferia conviver com a imoralidade a enfrentá-la. O texto, contudo, vai além do confronto pessoal que ele recomenda. Paulo prescreve uma decisão pública, “Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor” (1 Coríntios 5:13), a exclusão formal do membro impenitente, e não apenas uma conversa carinhosa dentro do pequeno grupo.
O mesmo recorte ocorre com Tito 3:10. Warren o resume como orientação para advertir quem causa dissensão, mas o versículo tem duas partes: depois de admoestar o faccioso por duas vezes, Paulo manda evitá-lo. O capítulo guarda a advertência e prevê, no máximo, que a pessoa confrontada se irrite e deixe o grupo. O contexto da carta mostra ainda que o faccioso vai além de alguém de convivência difícil, pois o versículo anterior trata de “contendas e debates sobre a lei” (Tito 3:9), e Nisto Cremos (cap. 12) descreve o membro que causa divisões e resiste aos conselhos bíblicos como alguém que, recusando a segunda admoestação da igreja, deve ser rejeitado. Reduzir os dois textos ao atrito social do grupo pequeno deixa de lado o que têm em comum: a proteção da igreja contra o mal tolerado, seja moral, seja doutrinário.
O Dia 17 desta série tratou do alcance da disciplina eclesiástica, que inclui a fidelidade doutrinária além da conduta moral. Aqui o ponto é o caminho que essa disciplina percorre. O próprio Cristo o estabeleceu: conversa particular primeiro, depois na presença de duas ou três testemunhas e, se necessário, diante de toda a igreja, tratando quem ainda assim resistisse como alguém de fora da comunhão (Mateus 18:15-17; Nisto Cremos, cap. 12). Na prática, o Manual da Igreja prevê dois níveis dessa disciplina, a censura por período determinado e a remoção da condição de membro, ambos decididos não por um único líder, mas por voto da igreja reunida em assembleia administrativa. A sinceridade que Warren descreve corresponde ao primeiro desses passos. Uma comunidade que parasse nele ficaria sem caminho estruturado para os casos em que a conversa franca, sozinha, não resolve. O processo formal garante que a igreja como um todo, e não apenas a coragem de cada um, disponha de uma rota clara.
Cinco práticas sem fundamento em Cristo nem fruto do Espírito
Warren credita ao Espírito Santo, na abertura do capítulo, a criação da comunhão genuína (Efésios 4:3), mas não volta a mencioná-lo ao detalhar as cinco práticas que a sustentam. Sinceridade, humildade, cortesia, sigilo e constância aparecem, dali em diante, como habilidades a desenvolver por esforço e disposição a correr riscos, e não como algo que o Espírito produz em quem permanece em Cristo.
Essa ausência tem uma contrapartida cristológica nos próprios textos que Warren escolhe. Ao fundar a humildade em Filipenses 2:3,4, ele para um versículo antes do hino que a sustenta: Cristo, que “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens” (Filipenses 2:5-8). Na cortesia, apoiada em Romanos 15:2, o versículo seguinte diz que Cristo “não se agradou a si mesmo” (Romanos 15:3). Na constância, apoiada em Hebreus 10:25, a exortação a não abandonar a congregação repousa, poucos versículos antes, na “intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus” (Hebreus 10:19). A sinceridade segue o mesmo padrão: o alvo do crescimento em Efésios 4:15 é o próprio Cristo, “cabeça” do corpo, mas Warren retém só a expressão “falar a verdade em amor” e deixa de fora o nome, ainda que nem precisasse avançar ao texto seguinte, como nos outros três casos. Em quatro das cinco práticas, uma referência concreta a Cristo está ao alcance da própria citação, e Warren não a inclui.
O resultado é que as cinco práticas ficam apoiadas só na exortação ética, sem o padrão que as define, o próprio Cristo, e sem a fonte que as produz, o Espírito que habita em quem permanece nele. Para o adventismo, o padrão é o Cristo que se esvaziou e não se agradou a si mesmo (Filipenses 2:5-8; Romanos 15:3), lembrado em cada celebração do lava-pés como memorial de sua condescendência (Nisto Cremos, cap. 16), e a capacidade de viver as práticas é fruto que o Espírito Santo produz em quem permanece nele, e não conquista de esforço isolado (Gálatas 5:22,23; João 15:4,5; Nisto Cremos, cap. 4 e 11).
Chama atenção o quanto essas qualidades ecoam o fruto do Espírito que Paulo descreve aos gálatas: cortesia lembra longanimidade e benignidade, humildade lembra mansidão, constância lembra fidelidade (Gálatas 5:22,23). A lista de Warren, porém, não inclui os três primeiros frutos, amor, alegria e paz, justamente os mais internos e menos comportamentais dos nove. Paulo escreve fruto, no singular, o que indica uma só realidade com várias faces, brotando de uma raiz comum. Essa raiz é o amor, que o próprio Warren, no capítulo examinado no Dia 16, apresentara como o maior testemunho diante do mundo (João 13:35).
Sem o amor como origem, sinceridade, cortesia e as demais práticas correm o risco de virar competências relacionais tecnicamente corretas, mas ocas por dentro: um grupo pequeno bem-comportado por fora, sem a alegria e a paz que brotam do mesmo Espírito. A diferença entre as duas listas é de origem. Fruto é o que a videira produz em quem permanece nela, pois “sem mim nada podeis fazer” (João 15:4,5), e prática é o que se adquire por disciplina própria. Sem o exemplo de Cristo e o fruto do Espírito, as cinco práticas continuam sendo bom conselho, mas não o caráter de Cristo sendo formado, pelo Espírito, em quem já não vive para si mesmo.
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