Dia 19: Cultivando a Comunidade
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre afirmando que só o Espírito Santo cria comunhão verdadeira entre crentes, mas que ele age por meio das escolhas e dos compromissos que cada pessoa assume; por isso, mesmo quem cresceu em famílias disfuncionais, sem as habilidades relacionais necessárias, pode aprender a cultivá-la. O capítulo então detalha cinco práticas exigidas de quem quer sair da “comunhão fajuta” rumo à comunidade real: sinceridade, humildade, cortesia, sigilo e constância.
Sinceridade significa falar a verdade com amor, mesmo quando é mais fácil calar; Warren cita a repreensão de Paulo à igreja de Corinto, que tolerava em silêncio um caso de imoralidade em seu meio, como exemplo do preço de evitar o confronto necessário. Humildade é pensar menos em si mesmo, não pensar mal de si mesmo, e Warren a descreve como a veste que abre espaço para a graça de Deus. Cortesia é a paciência com as pessoas “difíceis”, que ele batiza de NTE (“Necessária Tolerância Extra”), cuja aceitação não depende de talento, simpatia ou mérito, mas do simples fato de pertencerem à mesma família, um fundamento relacional, e não meritório, para a inclusão mútua. Sigilo significa que o que é dito no grupo fica no grupo, e Warren condena com dureza a fofoca disfarçada de pedido de oração, citando a orientação de Tito para afastar quem semeia discórdia. Constância, por fim, é o hábito de se reunir com regularidade, à imitação dos primeiros cristãos, que se encontravam diariamente. O capítulo termina propondo um pacto de nove características, as quatro já descritas no capítulo anterior somadas a estas cinco, como base para qualquer grupo pequeno ou classe que queira uma comunhão genuína.
2. Pressupostos teológicos implícitos
Este é um dos capítulos mais leves teologicamente da série até aqui: funciona, em boa parte, como um manual de habilidades relacionais para grupos pequenos, e por isso oferece menos material de fato doutrinário do que os capítulos anteriores. Ainda assim, dois pressupostos com peso teológico identificável merecem registro.
Comunidade como conjunto de práticas deliberadas
O capítulo trata a comunhão, em grande parte, como resultado de disciplinas comportamentais conscientemente adotadas, sinceridade, humildade, cortesia, sigilo, constância, mais do que como fruto espontâneo de um caráter já transformado pela permanência em Cristo. O pressuposto toca, ainda que sem nomear, a própria questão de como funciona a santificação: até que ponto essas qualidades se adquirem por esforço deliberado, e até que ponto dependem de uma obra do Espírito que o capítulo, neste ponto, não menciona. Esta questão é desenvolvida com mais profundidade na seção 6.
Confronto do pecado como responsabilidade informal do grupo
Ao escolher como modelo a repreensão de Paulo à igreja de Corinto, que tolerava em seu meio um caso grave de imoralidade sexual (1 Coríntios 5:1-5), Warren ancora seu apelo à sinceridade num dos textos mais duros do Novo Testamento sobre pecado tolerado: Paulo não sugere ali uma conversa cuidadosa, mas ordena que o ofensor seja entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor. Ainda que a âncora escolhida seja forte, Warren extrai dela apenas a exigência informal de que o grupo pequeno converse abertamente sobre o problema, sem indicar qualquer processo estruturado de disciplina eclesiástica ao qual esse confronto, se necessário, possa escalar.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a NCV (notas 1, 2, 5, 14), NTLH (notas 4, 8, 18, 20), NLT (notas 7, 13), GWT (notas 9, 17), NVI (notas 11, 12, 19), BV (notas 15, 21) e à paráfrase The Message (notas 6, 10, 16). Esta última sustenta o ponto mais delicado do capítulo, a repreensão de Paulo aos coríntios (1 Coríntios 5:3-12); por se tratar de paráfrase, vale a mesma cautela já registrada nos capítulos anteriores desta série diante de sua linguagem mais solta que literal. Vale notar, como já ocorreu no Dia 18 com Colossenses 3:13, que Efésios 4:3 é citado duas vezes seguidas (notas 1 e 6), em versões diferentes, reforçando o mesmo ponto sobre unidade e esforço.
De resto, o uso bíblico é predominantemente fiel ao propósito de cada texto. Duas exceções merecem nota e são desenvolvidas na seção 6: o alcance de 1 Coríntios 5 e de Tito 3:10 é reduzido ao convívio social do pequeno grupo, sem o processo ou o conteúdo doutrinário que os textos originais também carregam.
4. Contraponto adventista
O alcance da correção fraterna diante do pecado e da divisão, e a base das cinco práticas que sustentam a comunhão, tanto o exemplo de Cristo quanto a obra do Espírito, encontram na teologia adventista as posições resumidas a seguir.
Disciplina fraterna com processo formal
Para o adventismo, a correção do pecado começa, como Warren descreve, no relacionamento pessoal, mas dispõe de um processo formal e gradual, caso a correção informal não seja suficiente, culminando, se necessário, na ação da igreja organizada (Mateus 18:15-17; Crença Fundamental nº 12, A Igreja). Na prática, o Manual da Igreja prevê dois níveis dessa disciplina, censura, por período determinado, e remoção da condição de membro, ambos decididos não por um único líder, mas por voto da igreja reunida em assembleia administrativa.
As cinco práticas fundadas no exemplo de Cristo e sustentadas pelo Espírito
Para o adventismo, as cinco práticas que Warren descreve, sinceridade, humildade, cortesia, sigilo e constância, repousam sobre uma dupla base que o capítulo deixa de explorar: o padrão é o próprio Cristo, “que esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser feito semelhante aos homens” (Filipenses 2:5-8) e “não se agradou a si mesmo” (Romanos 15:3), e a capacidade de vivê-las é fruto que o Espírito Santo produz em quem permanece nele, não conquista de esforço isolado (Gálatas 5:22,23; João 15:4,5; Nisto Cremos, cap. 4 e 11).
5. Pontos de convergência
Comunhão que exige tanto o Espírito quanto o esforço humano
Ao contrário do que esta série observou em outros capítulos, como os Dias 8 e 12, aqui Warren credita explicitamente ao Espírito Santo a criação da comunhão genuína (Efésios 4:3), reservando ao esforço humano apenas o papel de resposta a essa obra, uma formulação que converge bem com a síntese adventista entre graça e cooperação humana.
Aceitação mútua fundada na família, não na compatibilidade
A recusa de Warren em condicionar a aceitação das pessoas “difíceis” à compatibilidade pessoal converge com o ensino bíblico de que a igreja reúne pessoas de toda origem como uma só família, unidas pelo relacionamento com Deus, e não pela afinidade natural entre si (Gálatas 3:28; Romanos 15:7).
A condenação da fofoca disfarçada de espiritualidade
O alerta de Warren contra a fofoca revestida de “pedido de oração” converge com a advertência bíblica de que quem espalha rumores separa até os melhores amigos (Provérbios 16:28) e com a insistência do Novo Testamento em que a língua, mal guiada, é capaz de incendiar toda uma comunidade (Tiago 3:5,6).
6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
Confronto do pecado e da divisão sem o processo formal e sem a dimensão doutrinária
Warren tem razão ao insistir que o silêncio diante do pecado destrói comunidades, e cita bem o caso de Corinto: Paulo repreendeu ali uma igreja que preferia conviver com a imoralidade a enfrentá-la. O texto original, porém, vai além do confronto pessoal que Warren recomenda; Paulo prescreve um processo concreto e público, “tirai o iníquo do meio de vós” (1 Coríntios 5:13), a exclusão formal do membro impenitente da comunhão da igreja, não apenas uma conversa carinhosa dentro do pequeno grupo.
O mesmo estreitamento ocorre com Tito 3:10, usado por Warren para justificar o afastamento de quem “semeia discórdia” no grupo. No contexto da carta, porém, o “faccioso” que Paulo manda evitar depois de duas advertências não é primariamente alguém socialmente difícil, mas alguém que promove “contendas e disputas sobre a lei” (Tito 3:9), um problema de ensino desviado, não de temperamento. Reduzir os dois textos ao atrito social do grupo pequeno esvazia parte de sua força original: ambos tratam, em graus diferentes, da proteção da igreja contra o erro tolerado, seja moral, seja doutrinário, e não apenas da convivência agradável entre seus membros.
Esta série já examinou, no Dia 17, a mesma exigência de um processo estruturado de disciplina eclesiástica; aqui ela reaparece porque o próprio texto que Warren cita para justificar a sinceridade é, na origem, um caso de disciplina formal, não de simples franqueza interpessoal. O próprio Cristo já havia estabelecido esse processo gradual: conversa particular primeiro, depois na presença de duas ou três testemunhas, e só então, se necessário, diante de toda a igreja, tratando quem ainda assim resistisse como alguém de fora da comunhão (Mateus 18:15-17). A sinceridade que Warren descreve corresponde, na melhor das hipóteses, ao primeiro desses passos, não ao processo inteiro que Cristo instituiu.
As cinco práticas sem seu fundamento em Cristo e sem o fruto do Espírito
Warren credita ao Espírito Santo, na abertura do capítulo, a criação da comunhão genuína (Efésios 4:3), mas o abandona por completo ao detalhar as cinco práticas que a sustentam: sinceridade, humildade, cortesia, sigilo e constância aparecem, dali em diante, como habilidades a desenvolver por esforço e disposição a correr riscos, não como algo que o Espírito produz em quem permanece em Cristo.
Essa ausência tem uma contrapartida cristológica ainda mais concreta, presente nos próprios textos que Warren escolhe. Ao fundar a humildade em Filipenses 2:3,4, ele para exatamente um versículo antes do hino que a sustenta: “esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser feito semelhante aos homens” (Filipenses 2:5-8). O mesmo ocorre com a cortesia, apoiada em Romanos 15:2, quando o versículo seguinte diz que “também Cristo não se agradou a si mesmo” (Romanos 15:3); e com a constância, apoiada em Hebreus 10:25, cuja exortação a não abandonar a congregação repousa, poucos versículos antes, na “ousadia… pelo sangue de Jesus” (Hebreus 10:19). Em três das cinco práticas, portanto, o exemplo concreto de Cristo está a um passo do texto citado, e Warren não o dá; a sinceridade escapa parcialmente a esse padrão, já que o próprio versículo usado (Efésios 4:15) já nomeia Cristo como o alvo do crescimento.
O resultado é que as cinco práticas ficam apoiadas apenas na exortação ética, sem o padrão que as define, o próprio Cristo, e sem a fonte que as produz, o Espírito que habita em quem permanece nele. É significativo que essas mesmas qualidades ecoem de perto o fruto do Espírito que Paulo descreve aos gálatas: cortesia lembra longanimidade e benignidade, humildade lembra mansidão, constância lembra fidelidade (Gálatas 5:22,23). Mais revelador do que essa semelhança, porém, é o que fica de fora: a lista de Warren não inclui os três primeiros frutos que Paulo nomeia, amor, alegria e paz, justamente os mais internos e menos comportamentais dos nove. Paulo os chama de fruto, no singular, não frutos, no plural, indicando tratar-se de uma só realidade com múltiplas faces, brotando de uma raiz comum. Essa raiz é o amor, que o próprio Warren, no capítulo examinado no Dia 16 desta série, já apontara como o critério final pelo qual Cristo avalia a autenticidade da fé professada (Mateus 25:31-46). Sem esse amor como origem, sinceridade, cortesia e as demais práticas correm o risco de virar competências relacionais tecnicamente corretas, mas ocas por dentro. O resultado seria um grupo pequeno bem-comportado por fora, sem a alegria e a paz que também deveriam brotar do mesmo Espírito, não apenas o comportamento correto. A diferença entre as duas listas não é apenas de conteúdo, mas, essencialmente, de origem: fruto é o que a videira produz em quem permanece nela, “separados de mim nada podeis fazer” (João 15:4,5), enquanto prática é o que se adquire por disciplina própria.
Sem o exemplo de Cristo e sem o fruto do Espírito, as cinco práticas correm o risco de soar como um conjunto de competências sociais eficientes, a serem adquiridas pelo mesmo tipo de esforço que produziria qualquer outra habilidade interpessoal, mais do que como o caráter de Cristo sendo formado, pelo Espírito, em quem já não vive mais para si mesmo.
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