(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 18

Dia 18: Tendo uma Vida em Comum

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren observa que a palavra “comunhão” perdeu seu conteúdo bíblico no uso comum. Hoje ela remete a uma conversa casual ou ao lanche depois do culto, quando a Escritura a descreve como vida genuinamente partilhada. Daí ele conclui que a comunhão verdadeira exige grupos pequenos. Acima de dez pessoas, argumenta, os mais quietos deixam de participar e poucos passam a dominar a conversa. Jesus mesmo, por essa razão, escolheu ministrar cercado de doze discípulos. Segundo o autor, é possível adorar em meio a uma multidão, mas não ter comunhão com ela, e por isso todo cristão deveria integrar algum grupo pequeno dentro da igreja, seja de estudo bíblico, seja de comunhão nos lares. Duas imagens reforçam a tese. O corpo humano é, na verdade, um conjunto de pequenas células que sustentam a vida do organismo inteiro, e o corpo de Cristo também vive dentro de suas células menores. Se a igreja for imaginada como um navio, os grupos pequenos seriam os botes salva-vidas presos a ela.

O capítulo distingue comunhão verdadeira de comunhão superficial por quatro marcas. A primeira é a autenticidade, oposta à conversa fingida e às máscaras sociais, e expressa em confessar fraquezas e pecados uns aos outros. Vem depois a reciprocidade, a interdependência mútua que a metáfora do corpo já sugere: ninguém é responsável por todos, mas todos são responsáveis uns para com os outros. A compaixão, que Warren distingue de aconselhar rapidamente, consiste em entrar na dor do outro, e não apenas em resolvê-la. Completa a lista a misericórdia, a graça que perdoa em vez de cobrar. Para Warren, é ela quem “triunfa sobre a justiça” na comunhão genuína. O autor separa com cuidado o perdão, que deve ser imediato e independe de pedido, da confiança, que só se reconstrói com o tempo. Diante de uma mágoa, escreve ele, resta ao crente escolher entre buscar vingança ou buscar solução, nunca as duas coisas ao mesmo tempo.

O capítulo fecha com quatro níveis crescentes de comunhão: a de colaboração, a de estudo conjunto da Palavra, a de serviço mútuo e, no nível mais intenso, a de sofrimento compartilhado. Para este último, Warren recorre ao lamento de Jó, que reivindicava a compaixão dos amigos em meio ao próprio sofrimento. A conclusão vem em uma frase: “você foi criado para viver em comunidade”.

2. Pressupostos teológicos implícitos

No capítulo, a comunhão só se realiza plenamente na intimidade de grupos pequenos. O tamanho do grupo passa a ser, nessa leitura, fator quase essencial da experiência espiritual: reuniões maiores, mesmo do povo de Deus reunido, seriam lugar de adoração, e não de comunhão propriamente dita. O capítulo respalda a premissa com a promessa de Cristo sobre “dois ou três” reunidos em seu nome (Mateus 18:20), aplicada especificamente aos grupos pequenos, e com a afirmação de que os cristãos buscam comunhão assim há mais de dois mil anos.

A autenticidade aparece como confissão horizontal regular. Expor fraquezas, dúvidas e pecados a outros crentes seria condição necessária do crescimento espiritual e da saúde emocional (Tiago 5:16). Warren associa essa abertura ao ato de andar na luz (1 João 1:7), em contraste com as trevas em que se escondem erros e fracassos.

O perdão incondicional convive, para Warren, com uma confiança que se reconstrói aos poucos. Perdoar é obrigação imediata e unilateral, devida independentemente de arrependimento ou pedido por parte de quem ofende, ao passo que a confiança só se reconquista com o tempo e mediante comportamento consistente. O parâmetro da obrigação de perdoar é o perdão que o próprio crente já recebeu de Deus (Colossenses 3:13). O ambiente indicado para reconstruir a confiança é o grupo pequeno, com sua prestação de contas mútua.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo se apoia em versões muito variadas: NCV (notas 2 e 5), NVI (notas 7 e 11), GWT (nota 8), NLT (notas 10 e 14), CEV (nota 12 e o primeiro versículo de abertura, Colossenses 3:15), NTLH (o segundo versículo de abertura, Salmos 133:1), NASB (nota 1) e NRSV (nota 6), além de duas paráfrases de autor único, The Message (notas 3 e 4) e a Bíblia Viva (nota 13). A nota 9 (Filipenses 3:10; Hebreus 10:33,34) não traz versão marcada. Só a NASB e a NRSV são de equivalência formal. Por isso, os versículos que sustentam os pontos mais específicos do argumento pedem conferência com a Almeida Revista e Atualizada.

Na nota 1, a NASB fundamenta a promessa que Warren aplica aos grupos pequenos: onde “dois ou três” se reúnem em nome de Cristo, ali ele está no meio deles. A Almeida traz: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18:20). A versão é fiel, e o problema está no uso. O contexto (Mateus 18:15-19) trata de disciplina fraterna e de oração em comum acordo, e o versículo garante a presença de Cristo até na menor reunião em seu nome. Ele não afirma que reuniões maiores fiquem sem essa presença, nem que lhes falte comunhão. O uso é extrapolado.

Na nota 2, a NCV traz 1 João 1:7,8 com reticências no meio do versículo 7: o leitor encontra “temos comunhão uns com os outros” e passa direto ao versículo 8. A Almeida mostra o que ficou de fora: “e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1:7). A NCV reproduz o texto com fidelidade, e é o recorte que o descontextualiza: a comunhão aparece sem a purificação que a acompanha no mesmo versículo. A seção 5 retoma o ponto.

Em 1 Coríntios 12:25 (nota 4), The Message apresenta o corpo humano como modelo para compreender a igreja: “todas as partes são interdependentes”. A Almeida traz: “para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros”. O texto formal exorta, com dois alvos concretos (evitar a divisão e cuidar uns dos outros), enquanto a paráfrase descreve uma estrutura. Por ser uma reescrita livre de Eugene Peterson, ela entrega ao leitor a leitura do autor, e não a formulação de Paulo. O uso é fiel à ideia de interdependência, mas o alerta contra a divisão se perde.

Colossenses 3:13 aparece duas vezes seguidas, na Bíblia Viva (nota 13) e na NLT (nota 14). A primeira lê o versículo como advertência contra o rancor, e a segunda, como o dever de perdoar do jeito que Deus perdoou. A Almeida reúne as duas ideias: suportar-se e perdoar-se mutuamente, “assim como o Senhor vos perdoou”. Por ser paráfrase de autor único, a Bíblia Viva traz um vocabulário de rancor que o texto formal não usa, mas o sentido se mantém nas duas versões. A repetição funciona como reforço retórico, e o uso é fiel.

Duas diferenças menores não alteram o argumento. Em Tiago 5:16 (nota 3, The Message), a instrução de confessar e orar uns pelos outros para ser curado coincide, com outras palavras, com a da Almeida. Em 2 Coríntios 2:7 (nota 12, CEV), o conselho de perdoar e consolar, que a Almeida dirige a uma pessoa determinada da igreja de Corinto, aparece generalizado em “quando as pessoas pecarem”.

No restante, o uso bíblico do capítulo é fiel: Colossenses 3:15 e Salmos 133:1, sobre viver unidos; Romanos 1:12 (nota 5), Romanos 12:10 (nota 6) e Romanos 14:19 (nota 7), sobre ajuda, honra e edificação recíprocas; Colossenses 3:12 (nota 8), sobre a compaixão; e Gálatas 6:2 (nota 10), Jó 6:14 (nota 11), Filipenses 3:10 e Hebreus 10:33,34 (nota 9), sobre carregar o fardo e sofrer com o outro.

4. Pontos de convergência

A autenticidade proposta por Warren, com sua exigência de vulnerabilidade e de confissão mútua (Tiago 5:16), converge de perto com a prática adventista dos pequenos grupos e das classes de Escola Sabatina, espaços regulares de crescimento e de prestação de contas fraterna.

A distinção entre perdão imediato e confiança reconstruída aproxima Warren da prudência bíblica diante do próximo (Mateus 10:16) e do cuidado pastoral adventista com as ofensas e as rupturas de relacionamento. Perdoar deve ser incondicional; confiar exige tempo e mudança consistente de comportamento. A convergência é parcial. Anunciar perdão imediato sem indicar caminho algum para reconstruir a confiança costuma gerar mal-entendidos, e o ofensor muitas vezes o lê como recusa disfarçada. A orientação adventista supre essa lacuna com o processo descrito em Mateus 18:15-17, que apresenta a reconciliação como um percurso de passos concretos entre as partes.

Warren extrai da reciprocidade (Romanos 12:10; 1 Coríntios 12:25) a interdependência mútua no corpo de Cristo, e esse princípio converge com o que o Dia 17 desta série já reconheceu. Ali ele servia de razão para pertencer a uma igreja; aqui orienta o cuidado cotidiano entre os membros de um mesmo grupo.

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

O valor que Warren atribui à intimidade dos grupos pequenos é reconhecido pela posição adventista. Em dois pontos do capítulo, ela segue outro caminho: a comunhão, que se realiza também na assembleia corporativa, e a confissão mútua entre irmãos, que tem valor relacional real, mas não substitui o perdão concedido por Deus por meio do sacerdócio de Cristo.

A comunhão sem a assembleia corporativa

Warren acerta ao insistir que a intimidade de um grupo pequeno cumpre algo que uma reunião numerosa dificilmente alcança sozinha. O capítulo vai além do que a Escritura sustenta quando afirma que é possível “adorar no meio de uma multidão”, mas nunca “ter comunhão com ela”. Com isso, as duas experiências passam a se excluir por definição.

O autor de Hebreus escreve o oposto dessa separação. Exorta os crentes a se considerarem uns aos outros, “para nos estimularmos ao amor e às boas obras”, e a não abandonarem o hábito de se congregarem (Hebreus 10:24,25). A função de exortação mútua, que Warren reserva ao grupo pequeno, é atribuída à própria assembleia reunida, sem que adoração e comunhão sejam separadas em categorias distintas. Esta série já apresentou, no Dia 9, as três esferas do culto (comunhão particular, pequenos grupos e culto congregacional). O livro Adoração — O Presente do Homem Para Deus descreve essas esferas como círculos concêntricos e interligados, de abrangência crescente, cada um dependente do anterior. Ali, o culto congregacional é a ocasião em que os filhos de Deus se reúnem para se edificarem, fortalecerem e se consolarem mutuamente, e a Escritura, nas palavras de Daniel O. Plenc, “convida ao culto corporativo”. Segundo Eurydice V. Osterman, ele deveria ser a “culminância” das experiências de adoração da semana. Neste capítulo, Warren avança só até a segunda esfera. A terceira, o culto congregacional, fica reduzida a espaço de adoração, nunca de comunhão.

Essa separação não encontra respaldo na obra de referência da Igreja Adventista. Ali o companheirismo cristão figura, ao lado da adoração e da exortação, entre as funções vitais da igreja visível, e não num espaço à parte. Por meio da igreja, afirma a obra, as necessidades mais profundas de companheirismo dos membros são supridas: uma “cooperação no evangelho” (Filipenses 1:5) que provê relacionamento íntimo com Deus e também com os outros da mesma fé (1 João 1:3,6,7; Nisto Cremos, cap. 12). O culto comunitário, a terceira esfera, se concretiza de modo especial no sábado, guardado corporativamente pela congregação inteira, expressão maior dessa mesma comunhão (Nisto Cremos, cap. 20). Mais do que tempo pessoal dedicado a Deus, já discutido no Dia 16 desta série, o sábado reúne a igreja como um só corpo diante do Criador, numa escala que nenhum grupo pequeno reproduz sozinho.

A imagem que Warren escolhe para reforçar seu ponto, levada a sério, aponta na direção oposta. Comparar a igreja a um navio e os grupos pequenos a botes salva-vidas presos a ela pressupõe uma hierarquia que o capítulo nunca declara. O bote permanece preso ao convés durante toda a travessia normal, reservado como equipamento de emergência, e só é usado quando o navio já está em apuros. O navio, a assembleia reunida, é o lugar normal da vida a bordo. O bote, o grupo pequeno, é recurso auxiliar para a exceção. A metáfora de Warren inverte, assim, a ordem que o capítulo defende em palavras.

Essa inversão atinge algo que o próprio Warren, no Dia 17 desta série, descreve como firme e permanente: a igreja aparece ali como indestrutível, capaz de sobreviver ao próprio universo. Um navio que carrega botes salva-vidas admite, em princípio, a possibilidade de naufragar, o que combina mal com a embarcação inabalável descrita naquele capítulo. A imagem que deveria valorizar o grupo pequeno acaba pondo em dúvida a solidez que Warren atribui, noutro momento, à própria assembleia.

Tratar a comunhão como fenômeno exclusivo da intimidade de poucos tende a esvaziar o valor espiritual da congregação reunida. O culto corporativo passa a parecer o prelúdio de uma vida cristã real, vivida em outro lugar, em grupos menores.

A confissão horizontal sem o sacerdócio de Cristo

Warren apoia a autenticidade primeiro em 1 João 1:7, sobre andar na luz e ter comunhão uns com os outros, e só depois na confissão de pecados uns aos outros (Tiago 5:16). A citação do primeiro texto usa reticências para omitir, no meio do versículo, a cláusula “e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado”, e emenda o restante do versículo 7 ao versículo 8. A obra de referência adventista aplica essa cláusula ao sacrifício e ao sacerdócio de Cristo (Nisto Cremos, cap. 24). O trecho omitido tem peso também no contexto imediato: dois versículos adiante, a mesma passagem afirma: “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9). A cláusula e o versículo 9 apontam para o mesmo lugar: a confissão que perdoa e purifica é dirigida a Deus, não aos irmãos.

Esta série já observou, no Dia 11, uma lacuna semelhante: o acesso a Deus tratado como fato consumado, sem o sacerdócio contínuo de Cristo no santuário (Nisto Cremos, cap. 24). Aqui a mesma ausência reaparece por outro ângulo. A ofensa cometida contra um irmão, o tipo de falha que Tiago recomenda confessar uns aos outros, continua sendo, antes de tudo, pecado contra Deus. Os dez mandamentos reúnem, sob um único Legislador, os deveres para com Deus e os deveres para com o próximo (Êxodo 20:3-17; Nisto Cremos, cap. 19), e “qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tiago 2:10). Essa percepção levou Davi, depois de pecar contra Urias e Bate-Seba, a confessar: “Pequei contra ti, contra ti somente” (Salmos 51:4). Sua ofensa direta atingira pessoas, e Davi a reconheceu diante de Deus. A confissão mútua entre crentes tem valor terapêutico e relacional genuíno, e a Escritura a recomenda. Ao mesmo tempo, essa dimensão vertical reforça o ponto já estabelecido: quem de fato perdoa e purifica é o único mediador que intercede continuamente em favor do pecador (Hebreus 4:14-16; 1 Timóteo 2:5).

Absorver a confissão horizontal como suficiente pode transformar o pequeno grupo no lugar onde o crente busca alívio de consciência. O grupo deveria conduzi-lo, antes de tudo, ao trono da graça, de onde vem o perdão que ele procura. Com o tempo, a inversão desloca o próprio critério de maturidade espiritual: confessar-se aos irmãos passa a ser tomado como ponto de chegada da experiência, e não como passo intermediário que também aponta para Deus. O grupo, criado para sustentar e encorajar, acaba ocupando um lugar que pertence só ao único mediador entre Deus e os homens.


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