(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 14

Dia 14: Quando Deus Parece Distante

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren encerra o bloco sobre adoração com a tese de que Deus permanece real independentemente do que o crente sinta, e que a forma mais genuína de adoração é justamente aquela que persiste apesar da dor e do silêncio divino. Compara essa experiência a uma amizade humana, testada por períodos de distância e silêncio, e recorre a expressões consagradas para nomear essa fase, como a “noite escura da alma” de João da Cruz e o “ministério da ausência” de Henri Nouwen. Recorda que Davi, apesar de sua intimidade incomum com Deus, reclamou repetidamente de sua aparente ausência, e observa que, embora Deus tenha prometido nunca abandonar seu povo, jamais prometeu que essa presença seria sempre sentida.

O capítulo distingue duas causas possíveis para essa sensação: o pecado, que de fato compromete a comunhão, e um teste de fé genuíno, sem relação alguma com culpa pessoal, que Warren considera a explicação mais comum. A partir daí, critica o hábito de buscar experiências emocionais em vez de buscar o próprio Deus, argumentando que a onipresença divina é um fato permanente, ao passo que a sensação dessa presença é apenas isso, uma sensação, que Deus por vezes retira propositalmente para que o crente amadureça na fé em vez de na emoção. A história de Jó ilustra esse padrão: perdeu tudo num só dia e, ao longo de “37 capítulos”, Deus permaneceu em silêncio. Ainda assim, Jó adorou. Desabafou sua amargura sem reservas diante de Deus, e listou motivos concretos para continuar louvando mesmo sem nenhuma evidência visível da atuação divina em sua vida. O capítulo recomenda, à luz desse exemplo, confiar nas promessas de Deus, e não nas próprias emoções, e apegar-se ao caráter imutável de Deus quando as circunstâncias não fizerem sentido algum.

Por fim, Warren retoma o maior motivo de gratidão: o sacrifício de Cristo. Descreve com detalhes gráficos o sofrimento físico da crucificação e relata que, ao assumir sobre si a culpa da humanidade, o próprio Jesus experimentou o mesmo tipo de abandono, clamando “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mateus 27:46, NVI). Explica esse sofrimento como o preço necessário para que o leitor pudesse ser “poupado da eternidade no inferno” e partilhar da glória de Deus para sempre. Para Warren, esse sacrifício basta. Mais do que qualquer outra bênção recebida, é o que deveria sustentar um louvor contínuo e grato pelo resto da vida do crente.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Os períodos de distanciamento são tratados como parte regular e até necessária do amadurecimento de qualquer amizade genuína, aplicando esse padrão das amizades humanas quase diretamente à relação entre Deus e o crente.

Warren separa cuidadosamente aquilo que é realmente verdadeiro (Deus está sempre presente) daquilo que é apenas sentido (a impressão de proximidade ou distância), e ancora nessa distinção todo o argumento do capítulo de que a fé, não o sentimento, é o que agrada a Deus.

Ao afirmar que Deus concede emoções que servem de prova aos crentes mais novos na fé, mas depois os liberta gradualmente dessa dependência à medida que amadurecem, o capítulo pressupõe uma trajetória espiritual em que essa necessidade de confirmação emocional vai diminuindo com o tempo.

O clamor de Jesus na cruz encerra o capítulo, logo após uma extensa argumentação sobre o crente que “se sente” abandonado por Deus sem de fato estar, e é apresentado como o exemplo culminante do mesmo tema discutido ao longo do texto.

Ao responder à pergunta retórica sobre por que Cristo suportou a cruz, logo após descrever em detalhe o sofrimento físico da crucificação, o capítulo explica que isso poupou o leitor da “eternidade no inferno” e lhe garantiu partilhar da glória de Deus para sempre. Trata-se do mesmo pressuposto sobre a natureza do inferno já identificado no Dia 4 desta série a propósito da frase “separado de Deus”, ali apenas implícito e aqui declarado de modo explícito.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a um leque amplo de versões, sem que uma delas predomine. As paráfrases são a Bíblia Viva (BV: Salmos 10:1, nota 3; Salmos 89:49, nota 5) e The Message (Msg: Salmos 88:14, nota 5). As traduções de equivalência dinâmica são a NLT (Salmos 22:1, nota 4; Jó 23:8-10, nota 9; a lista da nota 10, com Salmos 51; Efésios 4:29,30; 1 Tessalonicenses 5:19; Jeremias 2:32; 1 Coríntios 8:12; Tiago 4:4), a NTLH (Isaías 8:17, no início do capítulo; Salmos 43:2 e 44:23, nota 5; Jó 7:11, nota 12; 2 Coríntios 5:21, nota 23; Hebreus 13:5, no versículo para memorizar), a NVI (Jó 1:20,21, nota 11; Jó 29:4, nota 13; Jó 23:12, nota 21; Mateus 27:46, no clamor de Jesus, sem nota), a NCV (Salmos 116:10, nota 14) e a CEV (Jó 13:15, nota 22). As notas 2, 6, 7 e 15 a 20 trazem apenas referências, sem versão indicada, o mesmo ocorrendo com Salmos 74:11, na nota 5. As notas 1 e 8 remetem a fontes não bíblicas (Yancey e McClung).

No versículo de abertura, Isaías 8:17 (NTLH), o capítulo lê: “Ele se escondeu do seu povo, mas eu confio nele”. A Almeida traz: “Esperarei no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei.” Onde a NTLH registra uma confiança já firmada, a Almeida mantém a postura de quem ainda espera e apresenta o ocultamento como ato do próprio Senhor. O contexto imediato passa a tratar de a quem recorrer, se aos necromantes ou “à lei e ao testemunho” (Isaías 8:19,20), sem tratar da sensação de distância de Deus.

A nota 4 (Salmos 22:1, NLT) traz o lamento de Davi: “Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me”. A NLT conserva o sentido da Almeida: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido?” A lacuna está no que o capítulo deixa de dizer. Mais adiante, Warren reproduz o clamor de Jesus na cruz, “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”, sem nota alguma. As palavras são as de Mateus 27:46 na NVI, cuja nota de rodapé remete a Salmos 22:1, o versículo que o capítulo havia apresentado como exemplo de ausência apenas aparente de Deus. A seção 5 examina o que o grito de Jesus significa.

A nota 7 (Isaías 45:15), sem versão marcada, sustenta a afirmação de que “Deus reconhece que algumas vezes esconde a sua face de nós”. A Almeida diz: “Verdadeiramente, tu és Deus misterioso, ó Deus de Israel, ó Salvador.” O versículo é uma exclamação dirigida a Deus, na sequência da libertação dos exilados por meio de Ciro (Isaías 45:13) e da confissão de que só em Israel está Deus (Isaías 45:14). O uso é extrapolado: o texto fala do modo misterioso como Deus salva, e a face escondida não aparece nele.

Entre os seis motivos que, segundo Warren, Jó “achou” para louvar a Deus (notas 15 a 20), dois não vêm de falas de Jó. A nota 18 traz Jó 34:13, que sustenta “ele está no controle”: o capítulo se abre com “Disse mais Eliú” (Jó 34:1), e a pergunta “Quem lhe entregou o governo da terra?” é dele. A nota 16 reúne Jó 42:2 e Jó 37:5,23, que sustentam “ele é todo-poderoso”, e o segundo trecho prossegue o discurso aberto em Jó 36:1, “Prosseguiu Eliú e disse”. O uso é impreciso quanto a quem fala: as afirmações são verdadeiras sobre Deus, mas o livro as põe na boca de um interlocutor de Jó, e Warren as atribui ao próprio Jó.

A nota 23 (2 Coríntios 5:21, NTLH) sustenta que Cristo assumiu a culpa dos pecados humanos. A Almeida diz: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” A primeira metade conserva o sentido da substituição. Na segunda, a NTLH troca a justiça de Deus concedida a quem está em Cristo por uma vida “de acordo com a vontade de Deus”. A mudança desloca o que o versículo apresenta como resultado da cruz, e a seção 5 a desenvolve.

No restante, o uso bíblico não apresenta problema relevante: as demais citações em tradução de equivalência dinâmica, ou apenas indicadas por referência, não sustentam argumento principal do capítulo.

4. Pontos de convergência

A tese central do capítulo, de que a onipresença de Deus é um fato que não depende de ser sentido, converge com a ênfase adventista na adoração racional, já desenvolvida nesta série a propósito do Dia 13, e representa um refinamento bem-vindo em relação àquele capítulo, que ligava “espírito” quase inteiramente à sinceridade emocional. Há uma ressalva que a seção 5 desenvolve: a extensão dessa mesma tese à “emancipação” da emoção merece exame mais detalhado.

A confiança de Jó em que Deus “conhece o caminho” por onde ele anda, mesmo sem poder encontrá-lo em nenhuma direção (Jó 23:8-10), converge com o mesmo tema já expresso no próprio livro de Salmos: “para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua face?” (Salmos 139:7). Warren poderia, aliás, ter reforçado seu próprio argumento citando esse salmo lado a lado com o texto de Jó.

O convite para que o crente “derrame seu coração” diante de Deus sem filtrar sua amargura converge com a tradição bíblica do lamento já reconhecida nesta série a propósito do Dia 12, na qual a honestidade da queixa nunca é tratada como ausência de fé.

O reconhecimento de que Cristo assumiu sobre si a culpa da humanidade converge integralmente com o ensino adventista de que Ele morreu em nosso lugar, levando sobre si a pena que seria nossa (2 Coríntios 5:21; Nisto Cremos, cap. 9), ainda que, como se verá adiante, a forma como o capítulo apresenta essa experiência mereça uma ressalva importante.

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

A posição adventista sobre o silêncio de Deus à luz do grande conflito, sobre o lugar do sentimento na fé, sobre o grito de abandono de Cristo na cruz como separação real, sobre a justiça de Deus concedida em Cristo, e sobre a eternidade no inferno como alternativa apresentada, é desenvolvida nos tópicos a seguir.

O silêncio de Deus e o adversário ativo no grande conflito

Para o adventismo, o sofrimento de Jó tem origem numa disputa que se trava no tribunal celestial, não em uma ausência real de Deus (Jó 1:6-12; 2:1-7; Nisto Cremos, cap. 8). Os Dias 1, 2 e 12 desta série já situaram esse pano de fundo cósmico por trás do sofrimento humano em geral. No caso específico de Jó, mesmo quando Deus finalmente responde a ele, ao final do livro, Ele não lhe revela nada sobre a disputa com o acusador. Jó chega à sua confissão final, “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5), sem jamais saber por que, de fato, atravessou aquele silêncio. Isso enfraquece o tipo de explicação que o capítulo oferece. Se o próprio texto bíblico não resolve o silêncio de Jó com uma causa que ele chegue a conhecer, tratar toda distância percebida como uma etapa previsível e pedagógica, que o crente pode decifrar como “teste de amizade”, presume mais clareza sobre os propósitos de Deus do que a própria Escritura concede a Jó.

Há, além disso, um agente que o capítulo praticamente não menciona. McClung é citado descrevendo alguém que “repreende o Diabo” sem que nada mude, e a experiência toda acaba atribuída somente a Deus, que a administraria para amadurecer o crente. A Escritura, no entanto, nomeia esse acusador ativo, interessado em manter a alma na escuridão, e descreve exatamente esse tipo de escuridão como terreno de ação de um acusador real, que se posta para incriminar diante de Deus (Zacarias 3:1) e anda “como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1 Pedro 5:8), razão pela qual o crente é instruído a vestir a armadura de Deus contra ele, e não contra circunstâncias neutras (Efésios 6:11,12). Ellen White descreve com uma imagem concreta o que acontece justamente quando alguém, cansado da escuridão, busca a Deus com mais fervor: “o inimigo teme perder um cativo, e chama um reforço de seus anjos a fim de encurralarem a pobre alma, formando um muro de trevas […] de modo que a luz do Céu não chegue até onde ela está” (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 121). Atribuir esse cerco inteiramente a Deus, mesmo com boa intenção pedagógica, é precisamente a leitura que esse mesmo cerco quer produzir; reconhecer, porém, quem o constrói devolve a Deus o lugar de quem envia socorro, não o de quem apaga a luz para observar o crente no escuro.

Sentimento e fé: o lugar da emoção na adoração

Warren acerta ao insistir que a onipresença de Deus não depende de ser sentida, mas o capítulo dá um passo além que merece exame: sugere que, à medida que a fé amadurece, o crente é “emancipado” da dependência de emoções que sirvam de prova, como se o sentimento religioso fosse, em si, uma marca de imaturidade a ser superada. Essa formulação está em tensão direta com o próprio Dia 13 desta série, no qual o mesmo Warren havia insistido que “louvor sem sentimentos não é em absoluto louvor”. Os dois capítulos, lidos em conjunto, oscilam entre valorizar a emoção como prova de sinceridade emocional e desconfiar dela como fonte de imaturidade, sem que o livro assinale, em nenhum dos dois momentos, o critério que distingue as duas coisas.

A Escritura oferece esse critério de forma mais estável. Vale, antes de tudo, separar dois conceitos que costumam ser confundidos: sentimento (ou emoção), que nasce de compreender quem Deus é e Suas obras em nosso favor, e sentimentalismo (ou emocionalismo), que é a busca da emoção por si mesma, como se sentir bastasse para provar que a fé é real; é o segundo, não o primeiro, que merece desconfiança.

A emoção não é nem o alvo nem o inimigo da adoração madura, mas seu fruto natural, quando nasce da contemplação de quem Deus é e o que Ele fez, faz e fará por cada pecador. Mais do que isso, essa contemplação tende a aprofundar a emoção, e não reduzi-la: quanto mais o crente conhece a Deus, maior tende a ser sua admiração por Ele. A Escritura também trata a emoção como parte legítima da adoração ao longo de toda a vida cristã, e não apenas em seus estágios iniciais (Salmos 43:4; Romanos 8:16). Ellen White descreve essa mesma trajetória projetada até a eternidade: “assim como o conhecimento é progressivo, também o amor, a reverência e a felicidade aumentarão. Quanto mais aprendem os homens acerca de Deus, mais Lhe admiram o caráter” (O Grande Conflito, p. 678).

Warren descreve o caminho inverso, uma fé que amadurece sentindo cada vez menos, quando a Escritura aponta para o sentido contrário: a proximidade com Deus intensifica o sentimento, não o dispensa. O salmista não reprime o desejo ardente por Deus, “a minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmos 42:2), e completa esse mesmo desejo prometendo ir “ao altar de Deus, a Deus, que é a minha grande alegria” (Salmos 43:4), sem considerar nenhum dos dois sinal de imaturidade; ele o expressa livremente, porque nasce do conhecimento de Deus, não de uma busca por sensação pela sensação. Paulo, de modo semelhante, descreve o próprio Espírito Santo testificando “com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16), uma certeza que inclui, e não exclui, a dimensão afetiva da fé. O mesmo padrão aparece já no início da caminhada cristã, sem inverter a ordem entre causa e efeito: Pedro atribui aos que “creem” em Cristo sem tê-lo visto uma “alegria indizível e cheia de glória” (1 Pedro 1:8), alegria que decorre da fé, não a substitui, e convida os leitores a desejar, “como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual” (1 Pedro 2:2), um apetite pela verdade que alimenta o crescimento, não uma busca por sensação em si mesma.

Nem no início da caminhada cristã, nem em sua maturidade posterior, a emoção é recomendada como fim: ela acompanha, como consequência, a compreensão que a fé produz ao longo de toda a vida cristã, o que é bem diferente de recomendar o emocionalismo em qualquer fase do crescimento. O problema não está em sentir a presença de Deus, mas em fazer da sensação, e não da verdade que a produz, o critério pelo qual se mede se a fé é genuína, precisamente a mesma confusão já identificada nesta série a propósito do Dia 13.

Em Adoração — O Presente do Homem Para Deus, o autor desta série chega a essa mesma conclusão por um caminho complementar, e talvez ainda mais próximo do assunto deste capítulo: alerta contra o hábito de tratar a excitação dos sentidos como prova de bênção espiritual, citando Ellen White, para quem muitos cristãos “não acham que são abençoados a menos que sejam agitados e excitados”, buscando o que ela chama de “intoxicação do excitamento” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 21). A mesma obra recomenda, por isso, que a verdade seja apresentada à mente “o mais isenta possível do elemento emocional” (Evangelismo, p. 611), não porque a emoção seja dispensável, mas porque ela precisa vir depois da verdade, e não antes dela, guiando-a. Esse é exatamente o alerta que Warren faz neste capítulo ao criticar quem busca sensação em vez de buscar a Deus, e por isso mesmo soa estranho que o mesmo capítulo, poucos parágrafos depois, descreva a maturidade espiritual como uma “emancipação” da emoção, como se a fé mais madura se reconhecesse por sentir cada vez menos, e não por sentimentos mais intensos e mais bem ancorados na verdade. Absorver essa “emancipação” como meta espiritual arrisca produzir o oposto da maturidade que promete: em vez de uma fé mais viva, uma fé progressivamente anestesiada, que confunde a ausência de sentimento com solidez espiritual.

O grito de abandono na cruz: separação real, não sensação subjetiva

Todo o capítulo se apoia numa distinção cuidadosa: a ausência de Deus que o crente sente é apenas isso, uma sensação, por trás da qual o fato permanece imutável, Deus nunca de fato se ausenta. Precisamente por isso, a forma como Warren apresenta o clamor de Jesus na cruz merece uma ressalva importante. Ao citá-lo como o exemplo culminante de “quando Deus parece distante”, logo após duas páginas inteiras dedicadas a provar que essa distância nunca é real, Warren corre o risco de sugerir, ainda que não o diga explicitamente, que a experiência de Cristo pertence à mesma categoria da experiência comum do crente, mais uma vez apenas sensação, sem ruptura de fato.

Apoiada nos escritos de Ellen White, contudo, a teologia adventista compreende essa mesma experiência de maneira bem diferente (Nisto Cremos, cap. 9). Ao narrar a agonia de Cristo no Getsêmani, momentos antes da cruz, ela descreve algo bem diferente de uma simples sensação passageira: “sentia que, pelo pecado, estava sendo separado do Pai. O abismo era tão largo, tão escuro, tão profundo, que Seu espírito tremeu diante dele” (O Desejado de Todas as Nações, p. 485). Já na cruz, no exato momento do grito que Warren reproduz, ela é ainda mais direta: “não pode ver a face reconciliadora do Pai. O afastamento do semblante divino […] penetrou-Lhe o coração com uma dor que nunca poderá ser bem compreendida pelo homem” (O Desejado de Todas as Nações, p. 532). Não se trata de uma percepção equivocada, que a fé deveria simplesmente ignorar. Trata-se de uma ruptura real, ainda que temporária, na comunhão entre o Pai e o Filho, motivada pelo peso do pecado alheio que Cristo, como substituto, efetivamente carregava (2 Coríntios 5:21), algo que “criatura alguma humana jamais poderia sofrer” (O Desejado de Todas as Nações, p. 489), precisamente porque nenhum ser humano comum carrega, sobre si, a culpa de uma raça inteira.

Se a onipresença de Deus é um fato imutável que nunca cede às circunstâncias, como o capítulo insiste com razão para o crente comum, o clamor de Jesus não pode ser lido como mais um exemplo dessa mesma verdade, mas como uma exceção genuína, enquanto a graça ainda está disponível neste mundo de pecado: o instante em que a separação deixou de ser apenas sentida e se tornou real, para que o crente jamais precisasse experimentá-la dessa forma. Essa mesma separação real é justamente o destino reservado a quem rejeita definitivamente essa oferta: “sem Cristo só pode haver condenação e uma expectação horrível de juízo, e ardor de fogo (Hebreus 10:27), e final separação da presença de Deus” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 372). Reduzir o episódio da cruz à mesma categoria da sensação comum de distância de Deus esvazia, sem intenção, o peso singular do sacrifício que o próprio capítulo, em sua conclusão, quer exaltar como o maior de todos os motivos para adorar.

Warren deixa passar uma última consequência dessa mesma cena, talvez mais útil pastoralmente do que a gratidão que ele destaca. Justamente por ter suportado uma ausência real de Deus, e não apenas sentida, Cristo se qualificou para socorrer quem atravessa a versão menor e subjetiva dessa mesma experiência: “tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hebreus 2:18), e o leitor pode achegar-se “confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de” receber misericórdia e achar “graça para socorro em ocasião oportuna” (Hebreus 4:16). O capítulo narra o sofrimento da cruz com riqueza de detalhes, mas o encerra apenas como motivo de gratidão retrospectiva, sem completar o raciocínio até seu destino pastoral mais imediato: quem hoje sente Deus distante não precisa apenas lembrar-se do que Cristo fez no passado, mas pode se apoiar em alguém que já conheceu, por dentro e em grau maior, o mesmo silêncio.

A justiça de Deus concedida em Cristo

A ligação que o capítulo faz entre o clamor de Jesus e a culpa que Ele assumiu está correta. A explicação que Warren dá para a cruz, no entanto, termina em dois resultados: o leitor “poupado da eternidade no inferno” e admitido a partilhar a glória de Deus. O único efeito descrito sobre a vida presente vem do versículo da nota 23, lido na NTLH, e se resume ao propósito de que “vivamos de acordo com a vontade de Deus”. Fica sem menção a outra metade da troca que o próprio versículo apresenta: Cristo é feito pecado, e o crente é feito justiça.

Segundo a Escritura, a cruz faz as duas coisas ao mesmo tempo. Paulo escreve: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). O pecado do crente passa a Cristo, e a justiça de Cristo passa ao crente. Por isso o apóstolo deseja ser achado em Cristo, “não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Filipenses 3:9), e declara: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1). A visão do sumo sacerdote Josué mostra a mesma troca: as vestes sujas lhe são tiradas, e o Anjo declara: “Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniquidade e te vestirei de finos trajes” (Zacarias 3:3,4).

Justificação e santificação são distintas, mas jamais separadas: a primeira é aquilo que Deus faz por nós, e a segunda, aquilo que Deus faz em nós (Nisto Cremos, caps. 9 e 10). Ellen White resume a distinção: “A justiça pela qual somos justificados é imputada; aquela pela qual somos santificados, é comunicada. A primeira é nosso título para o Céu; a segunda, nossa adaptação para ele” (Mensagens aos Jovens, p. 35). A NTLH descreve com acerto o fruto da santificação, mas passa em silêncio por aquilo que lhe serve de base.

Descrever a cruz só como livramento do inferno, seguido de uma vida conforme a vontade de Deus, deixa sem resposta a pergunta que o crente faz justamente nos dias de silêncio, tema do próprio capítulo: com que direito me aproximo de Deus? A resposta bíblica repousa na justiça de Cristo recebida pela fé, e por isso permanece firme quando as emoções oscilam e Deus parece distante.

A eternidade no inferno como alternativa apresentada

O fim dos que se perdem é a destruição definitiva, a segunda morte, e não o tormento consciente sem fim (Malaquias 4:1-3; Apocalipse 20:14,15; Nisto Cremos, cap. 27). O Dia 4 desta série já situou em detalhe essa divergência doutrinária: o destino final dos ímpios como extinção, e não como sofrimento perpétuo mantido indefinidamente por Deus; vale explorar aqui, em vez disso, o efeito pastoral específico que essa mesma imagem produz neste capítulo em particular: o leitor a quem o texto se dirige está, por definição, em dúvida sobre o cuidado de Deus com ele, e é justamente para essa pessoa que o capítulo foi escrito. Oferecer-lhe a fuga de um tormento sem fim como motivo supremo de louvor arrisca apoiar a reconstrução de sua confiança justamente sobre o retrato de Deus que a própria escuridão que ele atravessa já colocou sob suspeita. Ellen White chega a essa mesma preocupação por um caminho direto: um inferno de fogo eterno, “pregado do púlpito e conservado diante do povo, é uma injustiça ao benévolo caráter de Deus. Isto O apresenta como o maior tirano do Universo” (Testemunhos Seletos, vol. 1, pp. 119, 120). A razão de louvar a Deus continua sendo quem ele é, não o destino do qual o leitor escapou.


Dia 13 — A Adoração que Agrada a Deus Índice dos Capítulos Dia 15 — Moldado para Fazer Parte da Família de Deus
Apresentação Índice Remissivo

Tags: ,