(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 15

Dia 15: Moldado para Fazer Parte da Família de Deus

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren abre o segundo dos cinco propósitos, a comunhão, argumentando que Deus, sendo eternamente relacional dentro de si mesmo (Pai, Filho e Espírito Santo), nunca esteve só e não precisava de uma família, mas desejou tê-la, e planejou desde antes da criação trazer pessoas para dentro dela, um projeto que lhe traz prazer pessoal. Essa filiação, porém, não é automática: todo ser humano é criação de Deus, mas somente quem nasce de novo, mediante a fé em Cristo, torna-se de fato filho, do mesmo modo que o primeiro nascimento insere a pessoa na família humana e o segundo a insere na família de Deus. Warren contrasta a fragilidade da família terrena, sujeita ao divórcio, à distância, à velhice e à morte, com a permanência da família espiritual, que reunirá para sempre todos os crentes de todas as épocas, e lista os privilégios dessa nova filiação: o nome, a semelhança, os privilégios, o acesso íntimo e, sobretudo, a herança reservada nos céus. Essa herança, segundo o capítulo, inclui a companhia eterna de Deus, a transformação plena à semelhança de Cristo, a libertação de toda dor e sofrimento, a recompensa por posições de trabalho reassumidas e a participação na própria glória de Cristo, indestrutível e superior a qualquer segurança que a aposentadoria terrena possa oferecer.

A segunda metade do capítulo é dedicada ao batismo. Warren relata que buscou compreender, por anos, por que a Grande Comissão atribui ao rito a mesma importância dada às grandes tarefas de evangelismo e edificação, e conclui que isso se deve a ele simbolizar justamente esse segundo propósito, a inclusão na família eterna de Deus. Explica que o batismo não confere a filiação, apenas a fé o faz, mas a declara publicamente diante do mundo, tal como uma aliança de casamento sela de modo visível um compromisso já firmado no coração, e que seu significado abrange a identificação com a morte e a ressurreição de Cristo. Argumenta, a partir de exemplos do livro de Atos (o Pentecoste, o eunuco etíope, o carcereiro filipense), que o Novo Testamento desconhece qualquer forma de “batismo atrasado”: basta a fé para batizar-se, e quem já crê deve anunciar publicamente, sem vergonha, que pertence à família de Deus, buscando o batismo o quanto antes. O capítulo se encerra reafirmando que pertencer à família de Deus, ao ponto de Jesus não se envergonhar de chamar o crente de irmão, é a maior honra e o maior privilégio que um ser humano pode receber.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Filiação divina como evento condicionado

Warren distingue com cuidado a criação universal (todo ser humano é obra de Deus) da filiação real (somente quem nasce de novo pertence à família), tratando o convite como amplamente aberto, mas jamais automático: a entrada depende sempre de um evento identificável, o novo nascimento pela fé.

Primazia da família espiritual sobre a terrena

O capítulo situa o parentesco em Cristo acima dos laços biológicos e conjugais, não apenas em valor afetivo, mas em quanto tempo dura: a família terrena é descrita como bem temporário e vulnerável, ao passo que a família espiritual carrega, na própria formulação de Warren, a garantia de continuar “pela eternidade afora”.

Batismo como declaração pública sem eficácia salvífica

Warren pressupõe uma separação nítida entre o momento em que a filiação é adquirida (a fé) e o momento em que ela é anunciada (o batismo), e essa separação sustenta, por sua vez, a insistência do capítulo na urgência: uma vez que o rito nada acrescenta à substância da salvação, não há motivo para adiá-lo.

Certeza presente da herança celestial

Ao descrever a herança celestial como algo já “reservado”, “inestimável” e que “ninguém pode tirar”, o capítulo a apresenta como uma certeza já disponível no presente. Essa certeza sustenta decisões concretas de vida, como recusar a aposentadoria como meta suprema. Warren constrói essa garantia por contraste: de um lado, a segurança financeira terrena, a aposentadoria, os bens, vulnerável à guerra, a uma economia deficiente ou a um desastre natural; de outro, a herança celestial, imune a essas mesmas ameaças. Portanto, a indestrutibilidade afirmada é da herança em si, diante de forças externas, não se tratando de uma tese sobre a impossibilidade do próprio crente se afastar da fé.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre predominantemente à NLT (notas 1, 5, 8, 11, 17, 19, 20 e 23), complementada pela NVI (notas 9 e 18), pela Bíblia Viva (notas 2, 3 e 6, a nota 3 também remetendo à NTLH) e pela CEV (nota 22, além do epígrafe de Hebreus 2:10a). Por se tratar de paráfrase, e não de tradução de equivalência formal, a Bíblia Viva já embute escolhas interpretativas do tradutor, que pedem cotejo com uma versão mais literal sempre que sustentam um ponto específico do argumento. Nas notas 2 (Tiago 1:18) e 3 (1 Pedro 1:3b, combinada com Romanos 8:15,16 na NTLH), essa liberdade não desvia o sentido do texto grego de forma relevante: falar em “primeiros filhos” da nova família, ou em “membros da família do próprio Deus” pelo novo nascimento, está em linha com o que os originais afirmam sobre a adoção e a regeneração.

Já a nota 6 (Efésios 3:14,15) merece registro à parte: usada para descrever a família de Deus como algo que reúne “alguns deles lá em cima no céu e outros aqui embaixo na terra”, ela avança além do que o grego, e mesmo traduções de maior equivalência formal como a Almeida Revista e Atualizada, sustentam, isto é, apenas que “toda família, tanto no céu como sobre a terra” toma o nome do Pai, uma afirmação sobre o alcance da paternidade divina, não necessariamente sobre a localização atual de crentes falecidos. Essa interpretação mais concreta sobre o paradeiro dos crentes é uma escolha do tradutor, e vários comentaristas leem “família nos céus” como referência aos anjos, não aos mortos em Cristo. Tomada como afirmação doutrinária, e não apenas como o floreio devocional que parece ser neste ponto do capítulo, essa frase repetiria o mesmo pressuposto sobre a consciência imediata após a morte já examinado nos Dias 4 e 6 desta série; mas a base textual em que essa leitura se apoiaria é, ela mesma, discutível.

Duas outras passagens merecem registro. A primeira é a nota 19 (Mateus 28:19, NLT), que encerra a citação da Grande Comissão exatamente onde ela prossegue, no versículo seguinte, com a instrução de ensinar os novos discípulos a guardar tudo o que Cristo ordenou. A segunda é a nota 21 (Atos 2:41; 8:12,13,35-38), citada como prova de que o eunuco etíope foi batizado “no mesmo instante em que se converteu”: o texto de Atos, porém, registra que Filipe, antes de batizá-lo, partiu justamente da passagem que o eunuco já lia (Isaías 53) para lhe anunciar a Jesus. As duas passagens, e o que sua continuidade textual implica para o argumento do capítulo, são examinadas com mais detalhe na seção 6.

Uma terceira passagem, a nota 17 (1 Pedro 1:4, NLT), usada para descrever a herança que “ninguém pode tirar” do crente, interrompe a citação exatamente antes da cláusula que a segue no mesmo período: a promessa de que os crentes são guardados para essa herança mediante a fé. A seção 6 retoma essa continuidade e o que ela implica para o argumento do capítulo.

De modo geral, porém, o uso bíblico do capítulo é fiel ao propósito de cada texto: a linguagem de adoção e herança de Efésios 1 e 3, por exemplo, sustenta corretamente o argumento central sobre a filiação.

4. Contraponto adventista

A posição adventista sobre a natureza da fé que qualifica para o batismo, instruída e não apenas instantânea; sobre a origem da filiação divina, como restauração de um relacionamento original rompido pelo pecado, não como categoria inédita instituída na cruz; sobre o alcance temporal da herança celestial, garantida desde já, mas plenamente recebida somente na volta de Cristo; e sobre o valor da família terrena, que a prioridade do vínculo espiritual não torna secundário, resume-se nos tópicos a seguir.

Batismo: fé instruída, não apenas fé instantânea

Para o adventismo, a fé que qualifica alguém para o batismo nasce da instrução na Palavra e vem acompanhada de arrependimento genuíno e de frutos visíveis de conversão, não apenas da declaração de crença, ainda que essa instrução possa ocorrer com rapidez (Romanos 10:17; Mateus 28:19,20; Atos 2:38; Nisto Cremos, cap. 15).

Filiação como restauração de um relacionamento perdido

A condição de filho de Deus, na leitura adventista, não é uma categoria inédita instituída na cruz, mas um relacionamento original, próprio da criação do ser humano à imagem de Deus, que o pecado rompeu e que o novo nascimento restaura (Gênesis 1:26,27; Gênesis 3; Lucas 3:38), dentro do contexto do grande conflito já estabelecido nos Dias 1, 2 e 6 desta série.

Garantia presente, posse futura

A teologia adventista situa a garantia da herança já na fé presente do crente, mas reserva sua posse plena, corpo e caráter glorificados, para a ressurreição, no retorno de Cristo (1 Pedro 1:4,5; 1 Coríntios 15:51-54; Nisto Cremos, cap. 10).

Parentesco espiritual sem desvalorizar o biológico

Para o adventismo, a lealdade a Cristo pode superar o vínculo de sangue quando os dois entram em conflito, mas isso não torna a família biológica um vínculo de menor valor: o casamento e a família são instituição divina, estabelecida desde a criação (Gênesis 2:24; Nisto Cremos, cap. 23).

5. Pontos de convergência

A família de Deus por adoção e novo nascimento

A descrição que Warren faz da filiação, um convite amplo mas condicionado à fé, que introduz o crente numa família que “toma o nome” tanto no céu quanto na terra (Efésios 3:15), converge de perto com a compreensão adventista da igreja como família, apoiada exatamente no mesmo texto paulino e nas mesmas categorias de adoção (Efésios 1:5) e novo nascimento (João 3:3; Nisto Cremos, cap. 10). Poucos capítulos desta série chegam tão perto, em vocabulário e em estrutura, da própria formulação com que o adventismo descreve esse tema. Trata-se, porém, de uma convergência parcial: o mecanismo pelo qual alguém se torna filho hoje (fé e novo nascimento) é o mesmo para as duas partes; o contexto histórico mais amplo em que esse mecanismo se encaixa recebe uma ressalva no segundo ponto da seção 6.

Batismo como identificação pública, não como rito salvífico

Ao afirmar, sem meios-termos, que “o batismo não o torna um membro da família de Deus; somente a fé em Cristo faz isso”, Warren converge plenamente com a rejeição adventista de qualquer entendimento sacramental do batismo, como se o próprio ato, por si mesmo, distribuísse graça (Nisto Cremos, cap. 15). Vale notar, além disso, que a própria lista de significados que Warren atribui ao rito, sepultamento e ressurreição com Cristo, morte para a vida antiga, já contém, mesmo sem nomeá-lo, o fundamento bíblico do modo de batismo por imersão que o adventismo pratica (Romanos 6:3,4).

Prioridade do parentesco espiritual em Cristo

O uso que Warren faz das palavras de Jesus sobre quem verdadeiramente é “irmão, irmã e mãe” (Mateus 12:49,50) converge com o ensino bíblico de que a lealdade a Cristo pode superar até o vínculo de sangue, um princípio que sustenta, também para o adventismo, a compreensão da igreja como família que acolhe quem não tem a sua. A convergência, porém, não é integral: a forma como o capítulo generaliza essa prioridade é retomada, com a devida ressalva, no quarto ponto da seção 6.

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Instrução como pré-requisito implícito ao batismo apostólico

Warren tem razão ao insistir que o batismo não deve ser adiado indefinidamente, e os exemplos que escolhe (Pentecoste, o eunuco etíope, o carcereiro filipense) de fato mostram uma igreja apostólica que não tratava esse passo como opcional. A conclusão que extrai desses exemplos, porém, “a única condição bíblica é crer”, presume mais do que os próprios textos citados sustentam: examinados de perto, os três contêm exatamente o elemento que essa conclusão deixa de fora.

O primeiro é o próprio Pentecostes, com o qual Warren abre a lista: aos três mil batizados naquele dia, Pedro não pede apenas fé, mas “arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” (Atos 2:38), um chamado distinto da simples declaração de crença. Esse chamado, porém, não vem isolado: é a conclusão de um sermão doutrinário mais longo (Atos 2:14-36), no qual Pedro expõe, a partir das Escrituras, quem é Jesus e o que a multidão fez ao rejeitá-lo e crucificá-lo. Ouvir essa explicação é o que leva o povo a “se compungir em seu coração” e perguntar o que fazer (Atos 2:37); o arrependimento que vem a seguir é fruto direto do reconhecimento de um erro específico, ensinado, não um sentimento genérico de culpa que a simples crença já bastaria para produzir.

No segundo episódio, o próprio eunuco etíope reconhece essa necessidade antes mesmo de Filipe abrir a boca: perguntado se compreende o que lê, ele responde “como poderia entender, se alguém não me explicar?” (Atos 8:30,31), e só então convida Filipe a subir e sentar-se a seu lado. Filipe parte exatamente do texto de Isaías que o eunuco já tinha em mãos para lhe anunciar a Jesus (Atos 8:35), e a fé que leva ao pedido de batismo, poucos versículos depois, nasce dessa explicação recebida, não a antecede.

No terceiro episódio, a resposta de Paulo e Silas ao carcereiro segue o mesmo padrão, ainda que de forma mais compacta. À pergunta aflita sobre o que fazer para se salvar (Atos 16:30), eles respondem primeiro com o imperativo “crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (Atos 16:31); mas a resposta não se esgota nessa palavra solta, porque o versículo seguinte já registra que “lhe pregaram a palavra de Deus e a todos os de sua casa” (Atos 16:32), antes que ele e toda a sua família fossem batizados, ainda naquela mesma hora da noite. O “crê” inicial não fica como um convite vazio à espera de sentido; o próprio relato garante que ele vem acompanhado, no mesmo fôlego, do conteúdo que lhe dá substância.

Os três episódios comprimem o intervalo entre ouvir e crer, mas nenhum deles suprime a instrução que ocorre dentro desse intervalo. O mesmo padrão aparece na ordem de Cristo que o próprio capítulo cita: fazer discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mateus 28:19, NLT, já citado no capítulo) e, na frase seguinte, “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mateus 28:20). A instrução não é um acréscimo posterior ao mandato de batizar; integra o mesmo mandato, na mesma frase.

Presumir que basta a declaração de crença, sem qualquer garantia de que o candidato compreenda ao menos os princípios fundamentais daquilo que está prestes a professar publicamente, tende a produzir, com o tempo, batismos que carecem de lastro real de conversão: pessoas formalmente imersas nas águas, sem que o antigo “eu” tenha de fato morrido para o pecado; pois a falta de instrução também deixa a própria noção de pecado vaga e genérica demais para que algo preciso possa, de fato, ser deixado atrás. Por isso a igreja que ministra o batismo assume a responsabilidade de examinar, com cuidado pastoral e sem julgar motivações íntimas, se o candidato de fato compreende o significado do compromisso que assume (Nisto Cremos, cap. 15). Ellen White insiste no mesmo ponto: “mais cuidadoso preparo dos que se apresentam candidatos ao batismo, é o que se faz mister. Têm necessidade de mais conscienciosa instrução do que em geral recebem” (Evangelismo, p. 308). Cristo continua sendo o modelo de urgência que Warren corretamente enxerga no Novo Testamento; mas essa urgência sempre andou ao lado da instrução, nunca em seu lugar.

Participação na família de Deus é restauração, não novidade

A ideia central deste capítulo, de que a criação torna todos filhos de Deus em potencial, mas só o novo nascimento em Cristo efetiva essa filiação, é inteiramente verdadeira dentro da realidade presente, marcada pelo pecado, e não contradiz o mecanismo da filiação já reconhecido como convergência na seção 5: fé e novo nascimento continuam sendo, também para o adventismo, a porta de entrada hoje. A ressalva é sobre o contexto histórico em que esse mecanismo é apresentado, não sobre o mecanismo em si: o capítulo descreve a solução sem descrever a perda que a tornou necessária.

A genealogia de Jesus em Lucas termina exatamente onde a sequência de “filho de” chega a Deus: “[…] filho de Adão, filho de Deus” (Lucas 3:38). O texto chama Adão, antes de qualquer queda, de filho de Deus, o que a própria criação à imagem e semelhança divina já implicava (Gênesis 1:26,27). Foi a ruptura do capítulo seguinte, quando o casal se escondeu de Deus e foi expulso do jardim (Gênesis 3), que interrompeu esse relacionamento filial original; não a ausência dele desde o início.

Essa distinção se encaixa no mesmo contexto do grande conflito já estabelecido nos Dias 1, 2 e 6 desta série: o plano da salvação existe para restaurar algo genuíno que se perdeu, não para oferecer, pela primeira vez, algo que a humanidade nunca teve. Descrever o novo nascimento apenas como a única forma de entrar na família, sem mencionar essa perda anterior, corre o risco de deixar a impressão de que a família de Deus é um território inteiramente novo, quase uma naturalização, quando a linguagem bíblica sugere antes uma volta para casa depois de uma ruptura real. Trata-se de uma diferença de ênfase, não de doutrina, mas que ajuda a explicar por que a própria metáfora da família, escolhida por Warren para este capítulo, ressoa tão fundo: não é a entrada num círculo ao qual nunca pertencemos, é o reencontro com um Pai de quem um dia nos afastamos.

Herança já garantida, mas ainda não recebida por completo

Warren tem razão ao afirmar que a herança celestial já é garantida, e não uma promessa vaga sujeita a reversão; a nota 17, já examinada na seção 3, sustenta exatamente esse ponto, mas a citação para exatamente onde o mesmo período continua: 1 Pedro 1:4 segue, no versículo seguinte, afirmando que os crentes, “mediante a fé, são guardados pelo poder de Deus para a salvação que está prestes a revelar-se no último tempo” (1 Pedro 1:5). A garantia, portanto, já é presente; a posse plena da herança, não.

O restante do capítulo confirma essa mesma distinção, ainda que sem intenção. Os cinco itens que o próprio Warren lista como conteúdo da herança: estar com Deus, ser transformado à semelhança de Cristo, livrar-se da dor e da morte, ser recompensado e participar da glória de Cristo, descrevem exatamente aquilo que a Escritura reserva para a ressurreição dos mortos e a transformação dos vivos, no momento em que soar a última trombeta (1 Coríntios 15:51-54; Nisto Cremos, cap. 10). Ou seja, a certeza da herança já pertence ao crente, por fé, desde agora; sua posse plena aguarda um único evento futuro, comum a todos os salvos de uma só vez.

Descrever a herança apenas como algo já disponível, sem mencionar o evento futuro que a torna plenamente acessível, pode levar um crente a esperar, já nesta vida ou logo após a morte, algo que a Bíblia reserva apenas para o retorno de Cristo.

A família terrena como instituição divina, não apenas biológica

Warren tem razão ao afirmar que a família espiritual sobrepõe o vínculo de sangue quando os dois exigem lealdades opostas: é exatamente o que Jesus ensina ao identificar como “irmão, irmã e mãe” quem faz a vontade do Pai (Mateus 12:49,50), num episódio em que a própria família biológica de Jesus tinha saído para contê-lo, por julgá-lo fora de si (Marcos 3:21,31-35). A generalização que Warren faz a partir desse episódio, porém, vai além do que o texto sustenta: o capítulo descreve a família espiritual como algo “ainda mais importante” que a família biológica, por ser mais permanente, uma afirmação que ultrapassa o que Mateus 12 de fato ensina.

Para o adventismo, o casamento e a família não são apenas um vínculo natural de menor hierarquia diante do espiritual: são instituição divina, estabelecida no Éden e confirmada por Jesus, o alicerce da própria sociedade (Gênesis 2:24; Nisto Cremos, cap. 23). A prioridade de lealdade que Cristo exige em caso de conflito não é, portanto, um veredito geral sobre a importância relativa das duas famílias, mas uma exceção pontual, válida quando os dois vínculos de fato colidem.

Torna-se fácil, a partir da leitura isolada do capítulo, concluir que a família terrena é um vínculo de segunda categoria diante da igreja, uma conclusão que a própria doutrina adventista da família não sustenta: o casamento e o lar seguem sendo, mesmo depois da queda, um dos dons mais altos que Deus concedeu à humanidade.


Dia 14 — Quando Deus Parece Distante Índice dos Capítulos Dia 16 — O que Realmente Importa

Tags: ,