Dia 25: Transformado pela Provação
por: Levi de Paula Tavares
1. Resumo do argumento do capítulo
Warren abre afirmando que Deus tem um propósito por trás de cada problema: a vida é uma sucessão de dificuldades, e ninguém está imune a elas (João 16:33; 1 Pedro 4:12). Para o autor, Deus usa essas dificuldades sobretudo para aproximar o crente de si mesmo: ele cita José na prisão, Daniel na cova dos leões, Jeremias na cisterna, os três hebreus na fornalha e os naufrágios de Paulo como sofrimentos que Deus permitiu, não impediu, para trazer cada um deles para mais perto dele (Salmos 34:18). Segundo Warren, nenhum problema acontece sem a permissão de Deus, que está soberanamente no controle de tudo (Salmos 139:16).
A partir de Romanos 8:28,29, Warren explica que “para o bem” não significa que tudo seja bom em si mesmo, mas que Deus extrai o bem até do mal, como fez na linhagem de Jesus, que inclui mulheres de reputação manchada; o propósito final dessa promessa, reservada aos filhos de Deus, é que eles se tornem “iguais ao Filho”. Ele descreve o caráter como algo forjado pela adversidade, comparando o crente a uma joia lapidada e citando a imagem bíblica do fogo que refina o metal (1 Pedro 1:7). Como Deus quer torná-lo semelhante a Jesus, o crente deve esperar passar pelas mesmas experiências de Jesus: solidão, tentação, pressão, rejeição.
O capítulo fecha com uma lista de reações recomendadas diante do sofrimento: lembrar que o plano de Deus é bom (Jeremias 29:11), manter o foco em Jesus e não no problema, lembrar que o sofrimento é temporário e a recompensa eterna, dar graças “em” todas as circunstâncias, mas não “por” elas, distinguindo isso de masoquismo, e perseverar sem desistir, pois a construção do caráter é um processo lento que a fuga do sofrimento apenas atrasa.
2. Pressupostos teológicos implícitos
Sofrimento tratado quase exclusivamente como instrumento pedagógico direto de Deus
Warren atribui a Deus a autoria direta de cada problema específico enfrentado pelo crente, listando nominalmente os heróis bíblicos que Deus poderia ter poupado do sofrimento, mas não poupou, tratando cada caso particular como algo desenhado e permitido pessoalmente por Deus para um propósito formativo, sem mencionar qualquer outro agente por trás da origem do mal. O capítulo estende esse mesmo raciocínio a toda a gama de dificuldades da vida, doenças, perseguições, naufrágios, prisões, solidão, tratando-as todas sob o mesmo rótulo de “problema” e atribuindo a cada uma delas a mesma função: aproximar o crente de Deus e forjar nele o caráter de Cristo.
A pergunta “por que eu” tratada como espiritualmente imatura
O capítulo recomenda substituir a pergunta “por que eu?” por “o que você quer que eu aprenda?”, tratando a primeira como um impulso a ser corrigido e a segunda como a resposta espiritualmente madura diante do sofrimento. Essa substituição é apresentada como um passo prático e imediato, a ser tomado assim que o problema surge, seguido de imediato pela instrução de confiar em Deus e persistir fazendo o que é certo, sem que o texto reserve, nessa sequência, um momento prévio de lamento ou de perplexidade diante da dor.
3. Base bíblica usada por Warren
O capítulo recorre a uma variedade de versões: NLT (notas 3, 11, 25, 26), BV (notas 2, 9, 23), NCV (notas 14, 15), NVI (notas 19, 20, 24), CEV (nota 21), KJV (nota 12) e CH (nota 30), além da paráfrase The Message, usada quatro vezes (notas 16, 18, 22, 31), aplicada a textos sobre perseverança, sofrer com Cristo, disciplina e paciência; por se tratar de paráfrase, vale a mesma cautela já registrada nesta série ao cotejar essa linguagem, mais solta que literal, com versões de maior formalidade.
O uso bíblico do capítulo é, de resto, incomumente cuidadoso para os padrões já observados nesta série, e vale destacar em particular o tratamento de Romanos 8:28,29 (nota 11), um dos usos exegéticos mais precisos da série até aqui: Warren evita a leitura simplista de que “tudo é bom”, explicando corretamente que o texto promete que Deus extrai o bem do mal, não que o mal deixe de ser mal, e restringe a promessa aos “que amam a Deus e são chamados segundo o seu propósito”, sem estendê-la de forma genérica a todas as pessoas.
4. Contraponto adventista
A posição adventista sobre a origem do sofrimento dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás, e sobre o lugar bíblico da pergunta “por quê”, resume-se nos tópicos a seguir.
O sofrimento situado no grande conflito entre Cristo e Satanás
Para o adventismo, o sofrimento humano tem origens distintas, não uma só: o efeito impessoal de um mundo caído, a consequência de escolhas erradas, e o ataque direto do inimigo dentro do grande conflito, como no caso de Jó (Jó 1:6-12; 2:1-7; Nisto Cremos, cap. 8; distinção já desenvolvida no Dia 2 desta série).
O “por quê” como forma legítima de oração
Para o adventismo, perguntar “por quê” a Deus em meio ao sofrimento é uma forma bíblica legítima de oração, praticada por Jó, pelos salmistas e pelo próprio Cristo na cruz, não um sinal de imaturidade espiritual a ser corrigido (Salmos 22:1; Jó 3; Mateus 27:46).
5. Pontos de convergência
O sofrimento como participação no caráter e nas experiências de Cristo
A afirmação de que Deus permite ao crente passar pelas mesmas experiências de Jesus, solidão, pressão, rejeição, para formar nele o caráter de Cristo, converge com a teologia adventista da santificação pela participação nos sofrimentos de Cristo (Romanos 8:17; Hebreus 5:8,9; Crença Fundamental nº 11, Crescer em Cristo).
Deus presente no sofrimento, não distante dele
A afirmação de que Deus, por meio da encarnação de Cristo e da presença do Espírito Santo, entra no sofrimento do crente em vez de apenas observá-lo à distância converge com a doutrina adventista da simpatia divina, expressa no sumo sacerdócio compassivo de Cristo (Hebreus 4:15).
Gratidão em todas as circunstâncias, não pelas circunstâncias
A distinção cuidadosa que Warren traça entre agradecer a Deus em meio às circunstâncias difíceis e agradecer pelas próprias circunstâncias, rejeitando expressamente o masoquismo espiritual, converge com a compreensão adventista de que o sofrimento em si não é bom, ainda que Deus possa usá-lo para o bem (1 Tessalonicenses 5:18).
6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista
O sofrimento situado no grande conflito entre Cristo e Satanás
Warren atribui a cada sofrimento específico enfrentado pelos heróis bíblicos uma origem inteiramente divina e pedagógica: “Deus podia ter mantido José fora da cadeia, Daniel fora da cova dos leões, evitado que Jeremias fosse lançado em um poço de lama… mas não o fez.” A frase é biblicamente correta quanto à soberania de Deus sobre esses episódios, mas trata o sofrimento como algo que acontece apenas entre o crente e Deus, sem qualquer agente adversário ativo por trás do mal sofrido.
Chama atenção, nesse sentido, a ausência total de Jó no capítulo. Nenhum outro relato bíblico descreve com mais precisão o que Warren tenta explicar aqui: um sofrimento permitido por Deus para um propósito maior, sim, mas causado diretamente por Satanás, que se apresenta diante de Deus e recebe permissão limitada para atacar (Jó 1:6-12; 2:1-7). O livro de Jó não apresenta uma escolha entre “Deus causou isso” e “Satanás causou isso”: apresenta as duas coisas ao mesmo tempo, dentro de uma disputa cósmica sobre o caráter de Deus que os personagens humanos da história desconhecem por completo.
A doutrina adventista da grande controvérsia nomeia essa origem sem rodeios: “Satanás, um anjo caído, é o responsável pela crueldade e sofrimento” (Nisto Cremos, cap. 8), não Deus, “que ama a justiça e aborrece a iniquidade” (Hebreus 1:9). Esta série já desenvolveu, no Dia 2, uma distinção mais precisa que este capítulo poderia ter usado: a Escritura reconhece pelo menos três origens distintas para o sofrimento humano, o efeito impessoal do pecado sobre um mundo caído, a consequência de escolhas pessoais equivocadas, e o ataque espiritual direto dentro do grande conflito, do qual Jó é o exemplo mais claro. Warren funde as três numa única categoria, “problema”, todas igualmente atribuídas ao mesmo desígnio formativo de Deus.
Para o adventismo, esse pano de fundo é central para entender o sofrimento, já discutido nesta série a propósito da queda de Lúcifer e da autoexaltação (Dia 1) e da acusação de Apocalipse 12:10 (Dia 21). Quem aprende a atribuir cada sofrimento específico apenas a Deus, sem essa referência ao inimigo, tende a viver uma de duas distorções: crer que Deus é a causa direta até do mal mais cruel que o atinge, ou concluir que, já que Deus permitiu, o mal deixou de ser mal. O livro de Jó evita as duas armadilhas ao mesmo tempo, mostrando um Deus soberano sobre o sofrimento sem jamais ser seu autor.
O “por quê” como forma legítima de oração
Warren instrui o leitor a abandonar a pergunta “por que eu?” em favor de “o que você quer que eu aprenda?”, tratando a primeira como um impulso a ser corrigido antes mesmo de ser feito. A Escritura, porém, não trata “por quê” como uma pergunta espiritualmente imatura. Jó pergunta “por quê” repetidamente ao longo de quase quarenta capítulos, sem jamais pecar com os lábios por isso (Jó 1:22); ao final do livro, é Deus quem repreende os amigos de Jó, não a Jó, “porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7), o mesmo texto já examinado nesta série a propósito do erro dos amigos de Jó, no Dia 20. Os salmos estão repletos de lamentos que abrem exatamente com “por quê” ou “até quando” (Salmos 13:1; 22:1; 88:14), e Jesus, na cruz, ora com as mesmas palavras: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46).
Vale notar, porém, que a pergunta raramente recebe resposta direta, ao menos enquanto o crente ainda vive num mundo marcado pelo pecado. Quando Deus finalmente responde a Jó, nos capítulos finais do livro, não explica o motivo do sofrimento nem revela a disputa que se travava nos bastidores entre ele e Satanás; responde, em vez disso, com uma extensa demonstração de sua sabedoria e poder na criação, sem jamais dizer a Jó “foi por isso”. Jó se contenta com essa resposta não porque suas perguntas tenham sido finalmente esclarecidas, mas porque reconhece, na própria grandeza de Deus, motivo suficiente para confiar mesmo sem entender.
Para o adventismo, a pergunta “por quê” não é um obstáculo à fé madura, mas parte legítima do vocabulário de oração que a própria Escritura fornece. Substituí-la sempre e imediatamente por “o que você quer que eu aprenda?” arrisca ensinar ao sofredor duas coisas ao mesmo tempo: que sua dor deveria produzir de imediato uma resposta serena e pedagógica, e que essa resposta está sempre disponível para quem pergunta da forma certa, quando a Bíblia modela, com Jó, uma fé que persiste mesmo sem jamais obtê-la.
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