(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 36

Dia 36: Feito para uma Missão

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren abre o bloco final do livro distinguindo ministério (serviço aos que já creem) de missão (serviço aos que ainda não creem), quinto e último propósito da vida cristã. A palavra “missão”, explica, remonta ao termo latino para “enviar”: ser cristão inclui ser enviado ao mundo como representante de Jesus, à semelhança do próprio Pai que enviou o Filho. A missão de cada crente é, a um só tempo, comum a todos os cristãos e específica de cada um: continuação direta da própria missão de Jesus na terra, que se tornou missão da igreja por ela ser o corpo de Cristo. Como ilustração dessa clareza de propósito, Warren aponta as duas declarações que abrangem toda a vida terrena de Jesus: a primeira aos doze anos de idade, sobre cuidar dos negócios do Pai, e a segunda, já agonizando na cruz, sobre a obra consumada, tratando-as como capa e contracapa de uma existência inteiramente dirigida por essa incumbência. Warren observa que Jesus repetiu essa incumbência cinco vezes, em cinco livros diferentes do Novo Testamento, tornando-a compromisso obrigatório, não sugestão opcional.

O capítulo lista razões pelas quais a missão é urgente e valiosa: cada crente é responsável pelos incrédulos ao seu redor, a quem foi designado para alcançar; a missão é um privilégio, não apenas uma obrigação, pois envolve dois benefícios concretos, trabalhar ao lado de Deus como colaborador e representá-lo ao mundo como embaixador; seu valor é eterno, superando qualquer realização terrena; e o tempo disponível para cumpri-la é limitado. Warren observa que o cronograma da segunda vinda de Cristo está de algum modo relacionado à conclusão dessa incumbência, mas adverte que calcular a data exata do retorno é inútil, já que o próprio Jesus afirmou não conhecê-la. O capítulo esclarece ainda que cumprir essa missão não exige abandonar a vida profissional para se tornar missionário em tempo integral: seja qual for a ocupação do leitor, estudante, mãe, professor, vendedor ou gerente, a tarefa é buscar as pessoas que Deus coloca em seu caminho e partilhar com elas o evangelho. Cumprir a missão custa, ainda assim, a rendição dos próprios planos aos planos de Deus, custo que Warren ilustra com a história de seu pai, pastor que ergueu mais de 150 igrejas e que, já moribundo, repetia a frase “salvar mais um para Jesus” como lema de vida inteira.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Missão como continuação direta da obra de Cristo

O capítulo trata a missão da igreja como extensão literal da missão terrena de Jesus, e não apenas como sua consequência ou fruto: o que Cristo fez em seu corpo físico, a igreja, como seu corpo espiritual, deve continuar fazendo.

Segunda vinda condicionada à conclusão da missão

Warren pressupõe uma relação de causa e efeito entre o cumprimento da tarefa missionária da igreja e o momento da volta de Cristo, ainda que recuse qualquer tentativa de calcular a data exata a partir dessa relação.

Urgência fundada no valor eterno de cada pessoa

A urgência da missão decorre de uma comparação de valor: o destino eterno de uma pessoa pesa mais do que qualquer realização, emprego ou objetivo alcançável durante a vida terrena, o que torna a missão, por definição, mais importante que qualquer outra atividade humana.

Sinais e profecias como matéria à parte

O capítulo trata o crescente interesse social pelo fim dos tempos, e o próprio estudo diligente da profecia para discernir a iminência desse fim, como assuntos distintos da missão prática de evangelizar, e potencialmente concorrentes com ela, a serem notados de passagem ou deliberadamente evitados para que a atenção permaneça no trabalho de ganhar almas.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo se apoia predominantemente na NCV (notas 1, 6, 9, 11, 13, 18), com NVI (notas 2, 16, 17) e NLT (notas 14, 15, 20, 22) também recorrentes, além de KJV (nota 3), NTLH (nota 5), CEV (nota 8) e referências sem versão marcada (notas 4, 7), ao lado de duas paráfrases de autor único, a Bíblia Viva (BV, notas 10, 19, 21) e The Message (Msg, nota 12), examinadas a seguir por sustentarem pontos mais específicos do capítulo.

A Bíblia Viva aparece três vezes. Na nota 10 (2 Coríntios 5:18), base do privilégio de trabalhar ao lado de Deus, a BV expande o texto num tom mais relacional (“o privilégio de insistir com todos para que se tornem aceitáveis diante dele e se reconciliem com ele”, BV), mas preserva o núcleo da reconciliação já presente na Almeida (“nos reconciliou consigo mesmo… o ministério da reconciliação”), sem divergência relevante. Já a nota 19 (Lucas 9:62), base da advertência sobre a distração satânica desenvolvida na seção 5 do capítulo, troca a imagem concreta do arado e do olhar para trás da Almeida (“ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”) por uma formulação abstrata sobre desviar-se “do trabalho que eu planejo para ele” (BV): perde a força da metáfora agrícola, mas conserva o sentido geral de desqualificação pela distração. Mais digna de nota é a nota 21 (Romanos 6:13b), base do ponto de submissão da vontade também na seção 5: onde a Almeida fala em apresentar os membros a Deus “como instrumentos de justiça”, termo ligado especificamente à retidão, a BV generaliza para instrumentos “usados para seus bons propósitos” (BV), perdendo essa especificidade sem alterar o apelo geral à entrega.

A paráfrase The Message aparece uma única vez (nota 12), na citação de 2 Coríntios 5:20 que fecha a passagem sobre representar Deus ao mundo: “Somos representantes de Cristo… Estamos falando por Cristo agora: tornem-se amigos de Deus” (2 Coríntios 5:20; Msg). A Almeida traduz o mesmo termo grego como “embaixadores” e mantém o apelo formal à reconciliação (“rogamos… que vos reconcilieis com Deus”); a paráfrase preserva a ideia de representação, apenas com um substantivo mais genérico, mas substitui esse apelo formal a uma reconciliação pelo convite à amizade, uma formulação livre que preserva razoavelmente o sentido diplomático do termo grego original sem reproduzir a importância do vocabulário referente a uma renovação do pacto, que as versões mais formais mantêm.

Digno de registro: tanto 2 Coríntios 5:18 (notas 5 e 10) quanto 2 Coríntios 5:20 (notas 6 e 12) são citados duas vezes cada, em traduções diferentes, para reforçar o mesmo ponto sobre a reconciliação. A nota 5 (NTLH), que abre essa dupla citação, é a citação que define a própria missão do capítulo (“Que missão é essa? Apresentar Deus às pessoas!”), e merece registro à parte. Onde a Almeida fala em Deus que “nos reconciliou consigo mesmo” e no “ministério da reconciliação”, a NTLH troca a reconciliação pela amizade (“nos transforma de inimigos em amigos dele… para que os outros também sejam amigos dele”, NTLH), a mesma suavização que a nota 12 (Msg) repete adiante para 2 Coríntios 5:20. Assim, a própria definição da missão do capítulo se apoia, nas duas vezes em que é citada, numa ênfase que a Almeida não sustenta com o mesmo destaque, ponto desenvolvido na seção 6.

O uso da Grande Comissão, repetida em cinco livros do Novo Testamento (Mateus 28:19,20; Marcos 16:15; Lucas 24:47; João 20:21; Atos 1:8), é preciso e bem documentado. A leitura de Mateus 24:14 como sinal ligado à proclamação mundial do evangelho antes do fim também é fiel ao texto, mas a nota 18 (NCV) chama atenção à parte: onde a Almeida fala em um evangelho pregado “por todo o mundo, para testemunho a todas as nações”, a NCV simplifica para “serão pregadas em todo o mundo e a todas as nações” (NCV), omitindo o termo grego original por trás de “testemunho” (martyrion). A omissão não distorce o uso que o próprio Warren faz do texto, mas apaga uma nuance forense do termo original que reaparece, com outro peso, no desenvolvimento da seção 6.

4. Contraponto adventista

Este capítulo, que dá início ao bloco final do livro, toca em quatro pontos que dizem respeito ao cerne da identidade adventista: a postura diante do interesse crescente pelo retorno de Cristo, o lugar do estudo profético na vida da igreja, o conteúdo específico do anúncio final que precede a segunda vinda, e o peso doutrinário da própria reconciliação que fundamenta a missão:

Uma oportunidade para a missão

Os adventistas veem no interesse crescente pela iminência do retorno de Cristo, conforme apontado por Warren, uma oportunidade concreta para a missão, não um pano de fundo cultural corriqueiro e genérico (Nisto Cremos, cap. 13).

O estudo diligente da profecia

Na leitura adventista, o estudo diligente da profecia bíblica não distrai da missão prática, como Warren propõe, mas é parte constitutiva dela (Daniel 12:4; 2 Pedro 1:19; Nisto Cremos, cap. 13).

O evangelho eterno e a hora do juízo

Quanto ao conteúdo dessa proclamação final, o adventismo entende que ao evangelho de proclamação mundial que Warren já identifica em Mateus 24:14 se acrescenta um recorte específico: o “evangelho eterno” de Apocalipse 14:6,7, centrado no anúncio de que “é chegada a hora do seu juízo”, e no chamado à adoração do Criador (Apocalipse 14:12; Daniel 8:14; Nisto Cremos, caps. 13 e 24).

A reconciliação como ministério

A posição adventista lê a reconciliação de 2 Coríntios 5:18-21 não como aproximação afetiva, mas como a restauração de uma aliança rompida pelo pecado, realizada por Cristo e prosseguida em seu ministério sacerdotal no santuário celestial (Colossenses 1:21,22; Nisto Cremos, caps. 9 e 24).

5. Pontos de convergência

O grande conflito por trás da distração missionária

Warren nomeia corretamente Satanás como o interessado em desviar o crente de sua missão, disposto a permitir qualquer boa ação, contanto que não leve ninguém para o céu; converge de forma plena com o pano de fundo do grande conflito entre Cristo e Satanás, ausência já registrada em capítulos anteriores desta série (Dias 1, 2, 14, 25).

Nenhuma especulação sobre o dia e a hora

A recusa de Warren em calcular a data exata da segunda vinda, apoiada nas próprias palavras de Jesus sobre não conhecer o dia nem a hora (Mateus 24:36; Atos 1:7), converge com a mesma cautela que a teologia adventista sustenta há muito tempo diante do mesmo tema (Nisto Cremos, cap. 25).

Sacerdócio de todos os crentes

A missão apresentada como tarefa de todo crente, não apenas de pastores ou missionários de tempo integral, reforça o mesmo princípio do sacerdócio de todos os crentes já valorizado no Dia 29 desta série.

Submissão da vontade própria à missão de Deus

O apelo de Warren para que o crente entregue seus próprios planos aos planos de Deus, ilustrado pela oração de Jesus no Getsêmani (Lucas 22:42), converge com a ênfase na abnegação já desenvolvida nos Dias 22 e 34 desta série.

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

A oportunidade cultural que o capítulo desperdiça

Warren observa, de passagem, que “hoje em dia, há um interesse crescente na segunda vinda de Cristo e no fim do mundo”. A frase funciona como constatação sociológica, algo que está acontecendo ao redor, não algo que a igreja seja chamada a entender como oportunidade; a seguir, o próprio texto muda de assunto, pois os discípulos quiseram falar sobre profecia, e Jesus “rapidamente mudou a conversa para o evangelismo”. O interesse crescente pelo fim aparece no capítulo como pano de fundo cultural que se registra e do qual logo se muda de assunto, não como uma porta de entrada para a missão da igreja.

Esse mesmo interesse, hoje alimentado por temas como catástrofes globais, inteligência artificial e profecias apocalípticas na cultura popular, representa uma oportunidade concreta: pessoas já curiosas sobre o fim dos tempos formam um público mais receptivo ao conteúdo específico do evangelho eterno do que alguém sem qualquer interesse prévio no assunto. Ellen White trata esse tipo de vigilância como dever permanente da igreja, não como algo a evitar ou de que se deva mudar de assunto: “o povo de Deus deve acatar a advertência e discernir os sinais dos tempos. Os sinais da vinda de Cristo são demasiado claros para deles se duvidar” (Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 260; Nisto Cremos, cap. 13).

A certeza desse retorno ocupa, na teologia adventista, um lugar de honra que dificilmente se equipara ao de outras tradições cristãs. Toda a Escritura converge para esse evento: o Antigo Testamento já o anunciava por meio dos sacrifícios e festivais que apontavam para a vinda do Salvador, e o Novo Testamento, tendo relatado o primeiro advento, permanece igualmente voltado para o segundo (Hebreus 9:28), a razão pela qual Paulo chama esse retorno de “bendita esperança” (Tito 2:13): não uma doutrina entre outras, mas o desfecho para o qual toda a história da redenção se dirige, incluindo a resolução pública do grande conflito entre Cristo e Satanás diante do universo (Nisto Cremos, cap. 25). Deixar esse interesse crescente passar sem aproveitá-lo como ponte para o evangelho eterno é desperdiçar exatamente a abertura que a própria certeza bíblica torna estratégica.

Uma urgência que dispensa o estudo profético

Warren é explícito: “concentre-se em cumprir sua missão, e não em desvendar a profecia.” A instrução trata o estudo diligente da profecia bíblica como um desvio de atenção em relação à tarefa prática de evangelizar, tempo que poderia ser mais bem investido ganhando almas.

Essa instrução soa em tensão com o próprio capítulo. Warren insiste que “o relógio que controla a missão de sua vida está correndo” e que o tempo disponível é limitado, mas essa urgência nasce, no texto, apenas da mortalidade pessoal do leitor, não de qualquer leitura dos tempos em que a igreja vive. Se o capítulo reconhece que a missão é urgente porque o tempo é escasso, deveria reconhecer também que o estudo dos sinais que apontam para esse mesmo tempo escasso é parte dessa urgência, não obstáculo a ela: é justamente o exame da profecia que permite discernir se o tempo está de fato próximo, em vez de apenas presumir isso de forma genérica.

A contradição fica mais nítida quando se observa a origem dos próprios textos que Warren usa para sustentar essa urgência. Mateus 24:14 e 24:36 vêm do grande sermão profético do Monte das Oliveiras, o discurso mais longo de Jesus sobre os sinais do fim dos tempos. Para escrever esse trecho do capítulo, Warren precisou examinar de perto exatamente o tipo de texto profético que instrui o leitor a não se preocupar em desvendar.

A Escritura liga esse mesmo estudo diretamente à compreensão da proximidade do fim, não o trata como algo que desvia dessa compreensão. O próprio Apocalipse abre com essa mesma promessa: “bem-aventurados aqueles que leem… as palavras da profecia… pois o tempo está próximo” (Apocalipse 1:3), associando a leitura da profecia diretamente à proximidade do tempo, não a uma distração dela. A Daniel foi prometido que, no tempo do fim, “muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará” (Daniel 12:4), e Pedro instrui seus leitores a permanecerem atentos à palavra profética “como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso” (2 Pedro 1:19). O próprio Jesus, ao citar uma profecia de Daniel, interrompe a fala para dizer “quem lê, entenda” (Mateus 24:15), tratando a compreensão do texto profético como parte do preparo do ouvinte, não como tarefa alheia a ele. Tratar o estudo da profecia como tempo mal gasto inverte essa relação: o que a Escritura liga à preparação para o fim, o capítulo trata como aquilo que a atrasa. Um crente formado nesse hábito de leitura tende a permanecer alheio justamente aos sinais que a Escritura liga à sua própria preparação, no momento em que mais precisaria reconhecê-los.

O conteúdo do evangelho eterno

A missão que Warren descreve ao longo do capítulo é, na prática, ganhar almas uma a uma, contando-lhes que Jesus salva. O adventismo trata essa mensagem como o próprio evangelho: ele não apresenta conteúdo diferente daquilo que apóstolos e profetas sempre proclamaram, apenas o reafirma com urgência redobrada em vista do juízo (Hebreus 4:2; Nisto Cremos, cap. 13). O capítulo de Warren, portanto, não contradiz esse evangelho; deixa de completá-lo com o acréscimo específico que a Escritura lhe faz para este momento da história.

Warren liga corretamente a segunda vinda de Cristo à conclusão da proclamação mundial do evangelho, apoiado em Mateus 24:14: as boas-novas pregadas a todas as nações, e então virá o fim. O texto, porém, não avança para o único lugar da Escritura em que essa mesma proclamação final recebe esse acréscimo determinado. Apocalipse 14:6,7 descreve um anjo com “o evangelho eterno” dirigido precisamente às mesmas nações de Mateus 24:14, mas o anúncio vem associado a um chamado específico: “é chegada a hora do seu juízo”, precisamente o acréscimo, tão significativo ao adventismo, que o capítulo de Warren deixa por completar.

Essa hora do juízo, no entendimento adventista, tem dois desdobramentos concretos: o primeiro é o juízo investigativo, em curso no santuário celestial desde 1844, no qual os casos dos que professam fé em Cristo são examinados diante de Deus antes do encerramento da graça (Daniel 7:9,10; 8:14; Hebreus 9:23-28; Nisto Cremos, cap. 24), já discutido em capítulos anteriores desta série (Dias 3, 5, 9, 29, 33).

O segundo desdobramento é a própria volta de Jesus, que encerra essa obra celestial e dá à missão seu alvo declarado. Warren afirma que “o cronograma de Deus para a finalização da história está relacionado à conclusão de nossa incumbência”, mas trata essa relação como um dado curioso ao lado da missão, não como seu destino declarado. Se a conclusão da missão está de fato ligada ao retorno de Cristo, seria natural apresentar esse retorno como o alvo para o qual a missão se dirige, não apenas como uma cronologia da qual é melhor não se ocupar demais.

Ao anúncio da hora do juízo, o mesmo texto de Apocalipse acrescenta o chamado para adorar “aquele que fez o céu, e a terra, e o mar”, linguagem que remete ao quarto mandamento e ao sábado como memorial da criação, lacuna já registrada nesta série desde os Dias 1, 8 e 16. Com seus dois desdobramentos, é a hora do juízo que dá à proclamação final seu traço mais determinante e sua urgência mais concreta; o chamado à adoração do Criador reforça esse mesmo anúncio, sem substituí-lo.

Essa lacuna ultrapassa o campo doutrinário: uma missão sem esse conteúdo determinado perde o próprio objetivo que a distingue de qualquer apelo evangelístico genérico. A tradição adventista tem um nome técnico para essa especificidade: “verdade presente”; expressão que Pedro usa para a mensagem que seus leitores já receberam e na qual precisam permanecer firmes (2 Pedro 1:12). Para Ellen White, um testemunho que perdesse essa especificidade sequer contaria como tal: “Deus não aceita agora um testemunho frouxo, sem vigor… Tal testemunho não seria verdade presente” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 124).

Sem essa mensagem específica, o único critério que resta para medir a missão é numérico: quantas pessoas foram alcançadas, não sendo crucial avaliar para quê elas foram alcançadas. O próprio Apocalipse marca essa diferença: as três mensagens angélicas não terminam num convite genérico à conversão, terminam numa colheita. O texto bíblico enfatiza que “passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada” (Apocalipse 14:14-16), deixando claro que estas mensagens devem preparar um povo para um evento concreto e iminente, não apenas para encher bancos de igreja. Esta é a segunda vez que esta série encontra essa mesma raiz: no Dia 33, a tensão registrada foi Warren medir grandeza pela quantidade de pessoas servidas, quando a Escritura mede por fidelidade. Ali, o critério equivocado distorcia a avaliação do servo; aqui, a lacuna de conteúdo distorce o próprio objetivo da missão, tornando-a, na prática, indistinguível de qualquer campanha de crescimento eclesiástico, adventista ou não.

Duas citações, a mesma suavização

A suavização identificada na seção 3, referente à troca da palavra “reconciliação” pela palavra mais genérica “amizade”, não é um deslize isolado de uma única tradução: aparece duas vezes no capítulo, em duas traduções diferentes, aplicada às duas citações que definem a própria missão. A nota 5 (NTLH) descreve a missão como “apresentar Deus às pessoas… para que os outros também sejam amigos dele” (2 Coríntios 5:18), e a nota 12 (Msg) resume a condição de embaixador do crente como um convite para as pessoas “tornarem-se amigos de Deus” (2 Coríntios 5:20). Não é possível afirmar categoricamente a intenção de Warren ao selecionar essas duas traduções para esses dois versículos específicos, mas convém notar que a repetição, em fontes distintas, do mesmo desvio de linguagem sobre o mesmo conceito bíblico dificilmente se explica só como coincidência de tradução; é provável que reflita antes uma preferência editorial pelo tom mais informal, coerente com a ênfase que o próprio livro já dá à amizade com Deus como uma das metáforas centrais da vida cristã (Dias 11 e 12 desta série).

O termo grego por trás de “reconciliação” nasce no vocabulário comercial, a troca de bens de valor equivalente e, no decorrer do tempo, passa a designar a troca da guerra pela paz, ou seja, o retorno à paz entre partes que estavam em conflito. Paulo usa essa mesma abrangência de significado quando descreve o ato restaurador por parte de Deus, a partir da condição humana de inimizade objetiva (Romanos 5:10; 2 Coríntios 5:18-20; Efésios 2:16; Colossenses 1:20,21). O termo “reconciliação” tem como significado básico a restauração de uma aliança quebrada, o retorno a um estado anterior de harmonia, após uma séria divergência ou conflito; ela não é a simples aproximação entre partes que antes estavam apenas distantes; já a palavra “amizade” descreve razoavelmente o resultado dessa restauração, ou seja, a relação que passa a existir depois dela, nunca a obra de restauração que precisa ser levada a efeito para que essa relação exista.

Essa preferência, porém, tem um custo específico neste capítulo. O adventismo lê essas mesmas duas passagens, e não outras, como o próprio texto que ancora a motivação da missão: Nisto Cremos identifica 2 Coríntios 5:20,21 como o “comovente apelo do evangelho” que “motiva nosso testemunho missionário aos outros” (Nisto Cremos, cap. 9), precisamente porque a reconciliação ali descrita implica que “Deus não levará em conta, contra a pessoa, os pecados” de quem a aceita, o mesmo lançamento jurídico que a amizade, sozinha, não comunica. Ao suprimir esse conteúdo nas duas vezes em que este assunto aparece, o capítulo constrói a definição de missão exatamente sobre o par de versículos que a teologia adventista usa para fundamentar essa motivação, mas sem a peça que, segundo essa mesma leitura, a sustenta.

Isso não invalida a amizade como categoria bíblica legítima para a relação com Deus, já reconhecida nesta série a propósito de Romanos 5:10 (Dia 11); o que se perde aqui é mais específico: o lançamento jurídico da própria reconciliação, no par de textos que definem o que a missão do capítulo, de fato, propõe alcançar. Uma missão que convida à amizade sem convidar também à reconciliação, no sentido pleno que a Escritura lhe dá, corre o risco de motivar o testemunho pela simpatia pessoal, não pela certeza objetiva de que os pecados já não são mais contados contra quem aceita o convite.


Dia 35 — O Poder de Deus na Fraqueza Índice dos Capítulos Dia 37 — Partilhando sua Mensagem de Vida
Apresentação Índice Remissivo

Tags: ,