(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 38

Dia 38: Tornando-se um Cristão de Primeira Classe

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren abre o capítulo com uma escolha binária: o “cristão mundano”, voltado para a própria satisfação e ausente de qualquer interesse por missões, e o “cristão de primeira classe”, que se entusiasma por ser usado por Deus e que Warren chama de “as únicas pessoas totalmente vivas neste planeta”. Para ilustrar o alcance dessa missão, evoca a cena de Apocalipse 7:9, a multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas reunida diante do trono, e descreve o dia em que a Grande Comissão se tornará, em suas palavras, a “Grande Consumação”. A Grande Comissão, argumenta, é a comissão pessoal de cada leitor, e tornar-se um cristão de primeira classe exige quatro mudanças de mentalidade.

A primeira é trocar o raciocínio egoísta pelo altruísta: abandonar o pensamento infantil, voltado só para si, em favor de uma mentalidade madura, que se interessa pelos outros com a ajuda do Espírito Santo. Na prática, isso se traduz no hábito de orar silenciosamente, um simples “murmúrio”, por cada pessoa com quem se cruza no dia a dia, buscando perceber em que ponto da jornada espiritual ela se encontra.

A segunda é trocar o raciocínio restrito pelo global: orar por países específicos com a ajuda de um mapa ou atlas, acompanhar as notícias com os olhos de quem assumiu a Grande Comissão, e, sobretudo, participar de um projeto missionário de curto prazo no exterior, que Warren descreve como quase insubstituível para desenvolver essa mentalidade. O mundo, argumenta, encolheu com o avião e a internet a ponto de distância, custo e transporte deixarem de ser obstáculos reais; o único obstáculo que resta é a própria forma de pensar do leitor.

A terceira mudança é trocar o pensamento imediatista pela perspectiva eterna: investir tempo e dinheiro em pessoas, não em coisas temporárias, já que, segundo a leitura que Warren faz de Lucas 16:9, quem ajuda a levar ao conhecimento de Cristo se torna um amigo que o receberá no céu, o investimento mais seguro que existe.

A quarta e última mudança é abandonar as desculpas e agir de forma criativa. Warren relaciona objeções comuns (não falar vários idiomas, não ter nada a oferecer, ser velho ou jovem demais) e as descarta uma a uma, comparando-as às que Sara e Jeremias apresentaram diante do chamado de Deus. Encerra insistindo que esse chamado independe de qualquer experiência sobrenatural específica: todo cristão já foi chamado, pelos próprios cinco propósitos do livro, a participar, de alguma forma, da missão de levar o evangelho a todo o mundo.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Critério de classe espiritual

O capítulo pressupõe que o grau de envolvimento missionário distingue duas categorias de cristão, o “mundano” e o “de primeira classe”. Essa distinção tem relação com a doutrina da posição do crente diante de Deus, ao associar status espiritual ao desempenho missionário.

Plenitude de vida e engajamento missionário

Ao descrever os cristãos de primeira classe como “as únicas pessoas totalmente vivas neste planeta”, o capítulo associa a plenitude da vida cristã ao nível de atividade missionária de cada um. Essa associação diz respeito à doutrina bíblica da vida abundante como realidade concedida em Cristo, ao vincular sua realização experiencial ao volume de atividade do crente.

Investimento eterno como transação

Warren lê o convite de Lucas 16:9 (NVI) a “ganhar amigos” com a riqueza deste mundo como uma promessa de amizades que receberão o crente no céu. Essa leitura pressupõe um modelo de recompensa eterna proporcional ao investimento de cada crente na evangelização, tocando diretamente a doutrina bíblica do galardão dos salvos.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a uma ampla variedade de versões (CEV, NLT, NCV, GWT, KJV e NVI), além de duas paráfrases de autor único: The Message (notas 12 e 20), que sustenta um pedido de oração por coragem para falar e uma advertência para não se apegar demais às coisas deste mundo, sem funcionar como base exclusiva de nenhum argumento mais específico; e a Bíblia Viva (BV, notas 19, 21, 24 e 27), de presença mais numerosa neste capítulo, examinada a seguir. Chama a atenção, neste capítulo em particular, a presença de duas notas que não remetem à Escritura: a nota 1 recomenda dois livros de Paul Borthwick como leitura obrigatória “para todos os cristãos”, e a nota 26 atribui ao Pacto de Lausanne (1974) a afirmação sobre a necessidade urgente de missionários. Ambas aparecem lado a lado com as citações bíblicas, sem qualquer distinção de autoridade entre uma fonte humana e o texto sagrado.

A Bíblia Viva concentra-se sobretudo na terceira mudança de mentalidade, a troca do pensamento imediatista pela perspectiva eterna. Na nota 19 (Lucas 9:62; BV), base do apelo a não se deixar desviar da missão, a paráfrase troca a imagem concreta do arado e do olhar para trás, preservada pela Almeida (“ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”), por uma formulação abstrata sobre não se deixar desviar “do trabalho que eu planejo para ele”; perde-se a força da metáfora agrícola, ainda que o sentido geral de advertência contra a distração permaneça. Na nota 21 (Hebreus 12:1; BV), a mesma paráfrase generaliza o “embaraço, e o pecado que tão de perto” cerca o crente, na Almeida, para um apelo mais genérico contra “qualquer coisa que nos torne vagarosos”, eliminando a referência específica ao pecado. Isto se ajusta ao uso mais amplo que Warren já faz do texto no capítulo, sem alterar o argumento ali sustentado. Mais relevante é a nota 24 (1 Timóteo 6:19; BV), base direta da afirmação de que investir em pessoas é “o único investimento seguro para a eternidade”: onde a Almeida fala apenas em lançar “um bom fundamento para o futuro”, a BV introduz vocabulário de “tesouro” e “investimento” ausente do texto grego, reforçando por conta própria a mesma lógica transacional que a leitura de Lucas 16:9 já projeta sobre o capítulo (ver abaixo e seção 6). A nota 27 (Marcos 8:35; BV), citação de fechamento do capítulo, não sustenta nenhum argumento específico e não exige o mesmo exame.

Quanto ao uso de Lucas 16:9 (NVI) para sustentar que os convertidos se tornarão amigos pessoais que recebem o crente no céu, a tradução escolhida não diverge da Almeida nesse ponto; a leitura tem apoio na função de referência do texto às “moradas eternas”, mas estende o alcance da parábola, cujo ponto central é o uso sábio dos recursos materiais com vistas à eternidade, não a identificação nominal de quem, especificamente, dará essas boas-vindas. Trata-se de extrapolação do próprio Warren, não induzida pela tradução, que merece a qualificação detalhada realizada na seção 6. A leitura de Atos 1:8 (CEV) como “comissão simultânea, e não consecutiva” segue o mesmo padrão: a CEV também preserva a sequência formal do texto (Jerusalém, Judeia e Samaria, confins da terra), de modo que a leitura “simultânea” tampouco vem da tradução, mas da interpretação do próprio Warren, e recebe o mesmo exame mais adiante na seção 6.

4. Contraponto adventista

A posição adventista sobre a existência de classes espirituais distintas entre os cristãos, sobre a condição para a plenitude da vida cristã, sobre a proporcionalidade da recompensa eterna ao que cada um investiu na evangelização, e sobre a estrutura do próprio padrão missionário que o capítulo cita como base, resume-se nos tópicos a seguir:

Uma só condição diante da graça

Para o adventismo, todo crente salvo pela graça compartilha a mesma condição diante de Deus, sem hierarquia de classes espirituais baseada no grau de atividade missionária, ainda que a fidelidade de cada um varie (Efésios 2:8,9; Gálatas 3:28).

Plenitude de vida em Cristo

A leitura adventista situa a plenitude da vida cristã na relação com Cristo, dom concedido por igual a todo crente, qualquer que seja sua condição de saúde, idade ou recursos (João 10:10).

Recompensa sem graus entre os salvos

A recompensa eterna, segundo o adventismo, não é proporcional ao que cada um “investiu” em conversões alheias, mas concedida pela graça a todos os que permaneceram fiéis, como já visto nos Dias 5 e 29 desta série (Mateus 20:1-16; Nisto Cremos, cap. 27).

Expansão progressiva, não simultânea

O próprio texto de Atos 1:8 descreve, na leitura adventista, uma ordem deliberada de testemunho, não um chamado a atuar simultaneamente em todas as frentes (Atos 1:8; Nisto Cremos, cap. 12).

5. Pontos de convergência

Advertência contra a fé morna

O diagnóstico de Warren sobre o “cristão mundano”, voltado para o próprio conforto e indiferente à missão de Deus, converge com a leitura adventista da advertência de Cristo à igreja de Laodiceia, nem fria nem quente (Apocalipse 3:15,16).

A missão como chamado de todo crente

A insistência de que todo cristão, tenha ou não o dom específico de missões, é chamado a participar da Grande Comissão de alguma forma converge com o sacerdócio de todos os crentes, já valorizado nesta série nos Dias 29 e 37 (Atos 1:8).

A oração como instrumento central da missão

A afirmação de que a oração é “a ferramenta mais importante” na missão, capaz de alcançar pessoas que rejeitariam qualquer outra abordagem, converge com o pedido bíblico de intercessão constante por oportunidades de pregar o evangelho (Colossenses 4:3).

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Duas classes de cristão

Warren tem razão ao denunciar o cristianismo autocentrado, mas a linguagem de “cristão mundano” contra “cristão de primeira classe” vai além dessa denúncia legítima: sugere duas categorias de cristão, quase duas classes de cidadania no Reino, e não apenas graus distintos de fidelidade dentro da mesma família da fé. A Escritura reconhece, sim, que há cristãos fiéis e cristãos negligentes, mas reserva a ambos, enquanto permanecem abertos à direção do Espírito e à correção, a mesma condição de filhos, chamados ao crescimento, não duas classes fixas de cidadania no Reino (Romanos 8:14-17). A ressalva, já registrada nesta série no Dia 29, é a negligência que se torna definitiva e revela que a fé professada nunca foi genuína: nesse caso, a Escritura não descreve uma recompensa apenas reduzida, mas a mesma exclusão do Reino reservada a quem nunca creu (Mateus 7:21-23; 25:46). Essa distinção, porém, não é a que está em jogo na dicotomia de Warren: o “cristão mundano” que ele descreve continua sendo, por definição, um cristão salvo, apenas egoísta e alheio às missões, não alguém cuja fé se revele falsa por perseverar, sem arrependimento, na própria negligência. Vale notar, ainda, que essa dicotomia não é sustentada por Warren com nenhum texto bíblico: a única nota anexada à frase que a introduz remete a dois livros de Paul Borthwick, uma fonte humana, não à Escritura.

Essa mesma tendência a hierarquizar quem está “mais vivo” espiritualmente, medido por atividade, aparece no restante do capítulo, quando é reduzida a um critério específico: viajar ao exterior em um projeto missionário de curto prazo, descrito como quase insubstituível para o desenvolvimento espiritual. Para a ampla maioria dos crentes, restrita por idade, saúde, recursos financeiros ou responsabilidades familiares, esse critério está simplesmente fora de alcance. Já a Escritura mede grandeza pela fidelidade com o que se tem, não pelo alcance ou pelo custo do que se consegue realizar, a exemplo da viúva pobre que deu duas pequenas moedas (Lucas 21:1-4). O tema já apareceu nesta série a propósito da grandeza medida por quantidade (Dia 33) e do poder de Deus aperfeiçoado justamente na fraqueza, não na abundância de recursos (Dia 35). A própria Ellen White descreve como “trabalho missionário eficaz” algo tão simples quanto interceder em oração por um vizinho, “aprender a exercer fé na apresentação do próximo perante o trono da graça” (Testemunhos para a Igreja, v. 8, p. 243), sem depender de viagem, recurso ou alcance algum além do que já está disponível a qualquer crente.

Vida plena condicionada à atividade missionária

A afirmação da seção 2, de que os cristãos de primeira classe seriam as únicas pessoas totalmente vivas no planeta, é forte, e não recebe, no capítulo, nenhuma citação que a sustente, seja bíblica ou de outra natureza. A Escritura, por sua vez, de fato liga vida plena a Cristo: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10:10). Mas o texto atribui essa vida plena ao relacionamento com a própria pessoa de Cristo, não ao volume de atividade missionária que alguém consegue sustentar. Um crente gravemente enfermo, um idoso sem forças para viajar, ou um pai sobrecarregado pelo sustento da família permanecem plenamente vivos em Cristo, ainda que não correspondam ao padrão de engajamento que este capítulo descreve; a mesma ênfase no poder de Deus aperfeiçoado na fraqueza, e não nos recursos disponíveis, já registrada no Dia 35, se aplica aqui.

Amizades compradas com investimento eterno

Ao ler Lucas 16:9 como uma promessa de que os convertidos, especificamente, receberão o crente no céu como amigos pessoais, Warren aproxima o investimento na evangelização de uma transação: quanto mais pessoas alguém ajuda a alcançar, mais amizades o aguardam do outro lado. Essa mesma lógica proporcional, aplicada à recompensa eterna, já foi examinada com profundidade nesta série a propósito do serviço cristão (Dia 29): a Escritura reconhece graus na punição dos ímpios, mas não no galardão dos salvos, que a parábola dos trabalhadores contratados em horas diferentes paga com o mesmo denário a todos (Mateus 20:1-16). A Bíblia recompensa fidelidade, não o número de pessoas que alguém pode reivindicar ter alcançado. Comentando essa mesma parábola, Ellen White situa o critério do galardão fora do alcance do trabalho realizado: “Não a soma do trabalho que executamos, nem seus resultados visíveis, mas o espírito com que o fazemos, é que o torna valioso para Deus” (Parábolas de Jesus, p. 217). Levada às últimas consequências, essa mesma lógica faria o testemunho discreto prestado a uma só pessoa, ao longo de anos, valer menos do que uma campanha de alcance mais amplo, contabilidade que a própria parábola contraria diretamente e que pode desanimar justamente o crente mais fiel ao campo mais restrito que lhe foi confiado.

Do local para o global, não o inverso

Warren cita o próprio texto de Atos 1:8 para justificar a segunda mudança de mentalidade que propõe, do raciocínio restrito ao global, e comenta a estrutura do texto: “nossa comissão é simultânea, e não consecutiva”. Mas o texto que ele cita descreve exatamente o oposto de uma comissão simultânea: uma sequência deliberada, que começa em Jerusalém (a própria cidade dos discípulos), passa pela Judeia e Samaria (regiões vizinhas, de cultura já distinta) e só então alcança os confins da terra. O livro de Atos narra a história seguindo essa mesma ordem, concentrada em Jerusalém nos primeiros capítulos, espalhada para a Judeia e Samaria após a perseguição que se segue à morte de Estêvão (Atos 8:1), e só depois expandida ao mundo gentio pelas viagens de Paulo. O próprio Nisto Cremos lê essa passagem no mesmo sentido, descrevendo-a como o sinal de “uma vida de testemunho em constante expansão”, começando pelo campo mais próximo, não como um chamado a atuar em todas as frentes ao mesmo tempo (Nisto Cremos, cap. 12).

A consequência prática dessa leitura tem peso, porque ela organiza a própria ordem das prioridades que o capítulo recomenda ao leitor. Colocar o “raciocínio global” como a segunda mudança de mentalidade, logo depois da mudança pessoal e antes de qualquer outra consideração, inverte a lógica do texto que o próprio capítulo cita como fundamento: o testemunho começa pela “Jerusalém” de cada crente, a família, os vizinhos, o próprio campo missionário mais imediato, e só a partir dele se expande. A mesma inversão reaparece na quarta mudança de mentalidade: ao tratar das desculpas comuns e de como superá-las, o exemplo concreto de ação que o capítulo oferece ao leitor é, mais uma vez, poupar dinheiro e se preparar para uma viagem ao exterior, não o testemunho aos vizinhos ou familiares mais próximos que ainda não conhecem a Cristo.

Ellen White também alerta contra esse mesmo desequilíbrio, embora sem transformá-lo numa sequência rígida de etapas: pede que se abandone “a visão acanhada” e se faça “planos mais amplos”, com “um mais vasto desenvolvimento da obra, tanto em favor dos que se acham perto como pelos que se encontram distantes” (Evangelismo, p. 46), e adverte especificamente contra o entusiasmo desproporcional pelos campos distantes: “as almas na China não são mais preciosas que as almas sob a sombra de nossas portas” (Review and Herald, 25 de julho de 1918). O alerta recai sobre o mesmo risco deste capítulo: não o interesse pela missão global, legítimo em si, mas o desequilíbrio de investir nele à custa do testemunho mais próximo, ainda pendente. Um crente que absorva a ordem proposta pelo capítulo pode se sentir compelido a investir energia e recursos em missões distantes antes de ter exercido, com fidelidade, o testemunho junto às pessoas mais próximas de si.


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