(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 16

Dia 16: O que Realmente Importa

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Dando continuidade ao segundo dos cinco propósitos, a comunhão, Warren declara que viver consiste, sobretudo, em amar: uma vez que Deus é amor, aprender a amar seria a lição mais importante que ele reserva ao ser humano na terra. O capítulo situa esse aprendizado dentro da própria família da fé, recordando que o maior mandamento, e o segundo semelhante a ele, resumem toda a Lei e os Profetas (Mateus 22:37-40), e observando que quatro dos Dez Mandamentos tratam do relacionamento com Deus, enquanto os outros seis tratam do relacionamento entre pessoas, de modo que os dez, na leitura de Warren, giram igualmente em torno de relacionamentos. Defende que relacionamentos, e não realizações ou posses, constituem o verdadeiro conteúdo da vida, e atribui à sobrecarga de compromissos a razão pela qual tantas pessoas deixam o amor de lado em favor do que parece mais urgente. Warren resume essa proporção numa fórmula direta: “vida menos amor é igual a zero”.

Essa prioridade se apoia em três razões. O amor é eterno, permanecendo quando fé e esperança já tiverem cumprido seu papel (1 Coríntios 13:13). O amor deixa o legado mais duradouro que alguém pode oferecer, ilustrado por relatos pessoais de leitos de morte nos quais ninguém pede para revisitar diplomas ou bens, e reforçado pela conhecida sentença atribuída a madre Teresa de que o que conta não é a obra realizada, mas a quantidade de amor investida nela. E o próprio crente será avaliado, na eternidade, pela forma como tratou outras pessoas, sobretudo as mais necessitadas, remetendo à parábola das ovelhas e dos cabritos (Mateus 25:34-46). A primeira metade do capítulo se encerra afirmando que o caráter, e não os bens, é o único elemento que atravessa a fronteira da eternidade.

Na segunda metade, Warren identifica o tempo como a expressão mais concreta do amor: aquilo que uma pessoa mais valoriza se revela pelo tempo que lhe dedica, e o tempo, sendo finito e irrecuperável, seria o presente mais precioso que se pode oferecer a alguém. O capítulo termina com um apelo à urgência: o amor não deve ser postergado, porque circunstâncias e vidas mudam sem aviso, e o melhor momento para amar é sempre agora.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Amor relacional como testemunho suficiente

Ao opor, a partir de João 13:35, o amor mútuo entre os crentes às convicções doutrinárias como fundamento do testemunho cristão diante do mundo, o capítulo pressupõe uma hierarquia entre duas categorias: a experiência relacional visível, tratada como suficiente por si mesma diante do mundo, e a correção doutrinária, tratada como secundária para esse mesmo fim. Esse pressuposto sustenta, na segunda metade do capítulo, a urgência de investir tempo nos relacionamentos como uma prioridade quase apologética.

Amor avaliado como mordomia relacional

Ao afirmar que o crente será avaliado, na eternidade, pela forma como tratou as outras pessoas, apoiando-se na parábola das ovelhas e dos cabritos (Mateus 25:34-46), o capítulo insere essa avaliação no mesmo esquema de duas perguntas finais já identificado no Dia 3 desta série: a primeira, sobre a resposta a Cristo, determinaria o destino eterno; a segunda, sobre a mordomia, aqui aplicada à mordomia dos relacionamentos, determinaria apenas a qualidade da experiência na eternidade. O capítulo não reabre essa estrutura; apenas a aplica a um novo conteúdo.

Prioridade relacional na família da fé

Warren distingue, a partir de Gálatas 6:10 e 1 Pedro 2:17, um amor devido a todos e um amor “especial” devido aos demais membros da família da fé, situando essa prioridade dentro do segundo propósito da vida, a comunhão, já introduzido no Dia 15 desta série. Trata-se de um pressuposto mais estrutural do que doutrinário: a igreja, entendida como família espiritual, funcionaria como o principal laboratório no qual o crente aprende a amar, precisamente por reunir, de forma involuntária e por vezes desconfortável, pessoas que ele não escolheria por afinidade natural.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre predominantemente a versões dinâmicas ou parafrásticas: BV (notas 1, 4, 5, 13), NCV (notas 3, 8, 16), NLT (notas 7, 15), NTLH (notas 12, 17) e CEV (nota 2), além da NVI (nota 11) e de uma referência sem versão marcada ao texto mais conhecido de João 3:16 (nota 14). A paráfrase The Message aparece uma única vez (nota 6), condensando 1 Coríntios 13:1-3 numa única frase que resume, de forma eficaz, a ideia de que nada tem valor sem amor, ali onde o texto grego desenvolve o mesmo argumento em três exemplos sucessivos (línguas, profecia, entrega dos bens e do corpo). Por se tratar de paráfrase, e não de tradução de equivalência formal, vale a mesma cautela já registrada nos capítulos anteriores desta série ao cotejar esse tipo de compressão com versões de maior formalidade, como a Almeida.

De resto, o uso bíblico do capítulo é fiel ao propósito de cada texto. O maior mandamento (Mateus 22:37-40, NLT) e a supremacia do amor sobre fé e esperança (1 Coríntios 13:13, NCV) sustentam corretamente o argumento central. Mateus 25:40 (nota 10) é citado na NSRV, uma das versões americanas sem correspondente brasileiro relacionadas no Apêndice 3 do próprio livro; sua tradução não diverge de modo relevante das versões formais em português para o ponto que o capítulo extrai dela.

4. Contraponto adventista

Este capítulo levanta, com maior peso doutrinário, três pontos que a posição adventista situa de forma distinta da apresentada por Warren: a relação entre amor e doutrina como testemunho cristão, o lugar da avaliação do amor dentro do esquema do juízo final, e a conexão entre o tempo como expressão do amor e a observância do sábado.

Amor e doutrina inseparáveis

Para o adventismo, o amor manifestado entre os crentes e a fidelidade à verdade revelada não competem entre si como testemunho: o povo remanescente dos últimos dias é identificado precisamente por guardar, ao mesmo tempo, “os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12; 2 João 1:9,10; Nisto Cremos, cap. 14).

O juízo investigativo como exame unificado

Para o adventismo, a qualidade do amor e a mordomia relacional integram igualmente a avaliação do juízo investigativo, que examina fé professada e obras como duas faces de um mesmo exame, não como testes separados (Mateus 25:31-46; Daniel 7:9,10; Nisto Cremos, cap. 24).

O sábado como expressão máxima do amor pelo tempo

Para o adventismo, o quarto mandamento (Êxodo 20:8-11) é precisamente a aplicação, ao relacionamento com Deus, do princípio que o próprio Warren defende para os relacionamentos humanos: um bloco fixo e recorrente de tempo, separado sem concorrência de outras tarefas, como prova concreta e semanal de amor (Nisto Cremos, cap. 20).

5. Pontos de convergência

O amor como maior mandamento

A afirmação de que amar a Deus e ao próximo resume toda a Lei e os Profetas (Mateus 22:37-40) converge com o lugar central que o amor ocupa na ética adventista, e a leitura que Warren faz do Decálogo, quatro mandamentos voltados para o amor a Deus, seis voltados para o amor ao próximo, é estruturalmente correta. Trata-se, porém, de convergência parcial: Warren nunca especifica, nessa contagem, qual mandamento ocupa cada uma das quatro primeiras posições, e esta série já observou, desde o Dia 1, que o quarto mandamento, o sábado, não recebe deste livro o mesmo reconhecimento de validade contínua que os demais nove.

O amor como valor superior a posses e realizações

A crítica de Warren a uma vida organizada em torno de conquistas materiais, em detrimento dos relacionamentos, converge com a ênfase bíblica na efemeridade das riquezas diante da permanência do caráter (1 Timóteo 6:17-19; Mateus 6:19,20).

O amor demonstrado por ações concretas, não apenas por palavras

O apelo de Warren a que o amor se prove pelo tempo investido, apoiado em 1 João 3:18, converge integralmente com a ênfase bíblica e adventista de que a fé genuína se manifesta em obras (Tiago 2:14-17), e não em declarações isoladas de sentimento.

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Amor sem doutrina como testemunho: uma falsa dicotomia

Ao afirmar que “nosso amor uns pelos outros — e não nossas crenças doutrinárias — é o nosso maior testemunho perante o mundo” (João 13:35), Warren acerta ao reconhecer o peso evangelístico da unidade fraterna, mas constrói, na mesma frase, uma oposição que o próprio texto que cita não sustenta. João 13:35 identifica o amor mútuo como sinal do discipulado; não afirma, em lugar nenhum, que esse sinal substitui ou dispensa a fidelidade doutrinária como parte do testemunho cristão.

A tensão se agrava ao observar que Warren extrai o próprio tema deste capítulo de 2 João, epístola que abre com o mandamento de “viver uma vida de amor” (2 João 1:6), já citado no capítulo. Essa mesma carta, poucos versículos depois, é uma das passagens mais diretas do Novo Testamento contra a separação que Warren propõe: “Todo aquele que se desvia e não permanece na doutrina de Cristo não tem a Deus […] se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis” (2 João 1:9,10). Para o autor da mesma carta que Warren usa como fonte, o amor fraterno e a permanência na doutrina não competem entre si: a segunda é condição do primeiro, não seu substituto.

A mesma inseparabilidade aparece na oração sacerdotal de Cristo, texto que a teologia adventista também associa à unidade do corpo (Nisto Cremos, cap. 14): Jesus pede que os discípulos sejam “santificados na verdade” (João 17:17) antes de pedir que sejam “um… para que o mundo creia” (João 17:21). A unidade que testemunha ao mundo nasce da verdade compartilhada, não apenas do calor relacional percebido entre os crentes. Ellen White reconhece o valor estratégico de conquistar primeiro a confiança pelo exemplo de piedade prática, mas jamais como substituto definitivo da instrução doutrinária: “insisti sobre a necessidade da piedade prática […] assim lhes granjeareis a confiança; e haverá tempo suficiente para as doutrinas” (Evangelismo, p. 202). O amor abre a porta; não dispensa, depois de aberta, a necessidade de ensinar a verdade que a sustenta.

Tratar o amor percebido como suficiente, independentemente da correção doutrinária, tende a produzir, na prática, uma espiritualidade que mede a autenticidade da fé apenas pelo calor afetivo entre os crentes, tornando-se propensa a tolerar erro doutrinário grave em nome da harmonia relacional: exatamente o comportamento que 2 João, a mesma fonte de Warren, instrui os leitores a evitar.

A avaliação do amor e o juízo investigativo

O apelo de Warren a que o crente será avaliado, na eternidade, pela forma como tratou as pessoas, apoiado na parábola das ovelhas e dos cabritos (Mateus 25:34-46), integra, como já identificado na seção 2, o mesmo esquema de “segunda pergunta” examinado com mais detalhe no Dia 3 desta série, sem necessidade de repetir aqui aquela crítica mais ampla sobre segurança condicional da salvação. Vale notar, porém, um efeito específico desse esquema sobre esta passagem em particular: a mesma cena do juízo das nações, em que o Rei separa ovelhas de cabritos com base em como cada um tratou “os meus pequeninos irmãos” (Mateus 25:40), é, na leitura adventista, evidência central de que o exame final da vida cristã trata fé e obras como uma coisa só, diante de todo o universo (Daniel 7:9,10; Apocalipse 20:12). Situar essa mesma cena apenas no âmbito de uma recompensa pessoal e privada, à parte da questão do destino eterno, deixa o leitor sem categoria para reconhecer, mais adiante, por que o adventismo lê essa mesma parábola como parte do juízo investigativo, e não como um cálculo posterior de bônus espiritual.

O tempo como medida do amor e a lacuna sabática

Warren afirma, neste mesmo capítulo, que “quatro dos Dez Mandamentos versam sobre nosso relacionamento com Deus”, mas não diz quais. Dos quatro, três tratam da atitude de adoração (não ter outros deuses, não fazer ídolos, não usar o nome de Deus em vão); apenas o quarto, o sábado, se define por um bloco fixo de tempo (Êxodo 20:8-11). Poucas páginas depois, no mesmo capítulo, Warren propõe medir o próprio amor pelo mesmo critério: o valor de algo, escreve ele, mede-se pelo tempo que alguém está disposto a lhe dedicar. Sem pretender, o capítulo aproxima os dois lados dessa equação, mandamento e critério, sem nunca fechá-la.

Dificilmente haveria demonstração mais consistente desse critério do que reservar, toda semana e sem exceção, um bloco inteiro de tempo, do pôr do sol de sexta-feira ao pôr do sol de sábado, exclusivamente para a comunhão com Deus.

Essa lacuna não é nova nesta série, e o dado é revelador: a palavra “sábado” não aparece uma única vez em nenhum dos 40 dias deste livro. O Dia 1 já observou essa ausência a propósito do memorial da criação, e o Dia 8, a propósito da adoração como estilo de vida contínuo, sem necessidade de repetir aqui aquelas críticas. Este capítulo abre uma terceira porta para o mesmo cômodo, agora pela medida do amor pelo tempo, e tampouco a atravessa. Para o adventismo, esse mesmo tempo não é uma obrigação externa e arbitrária, mas o que o próprio Deus separou como sinal permanente de comunhão, um dia concedido como “bênçãos, companheirismo e comunhão especiais com o Criador” (Nisto Cremos, cap. 20). Um leitor que levasse este capítulo a sério teria em mãos, de fato, uma das premissas que o leitor adventista tem para santificar o sábado: dedicar tempo é a prova mais concreta de amor. Essa premissa, porém, não se completa sozinha. Em nenhum outro ponto do livro ela é apontada na direção do sábado, e o hábito religioso já formado no leitor evangélico médio preenche de antemão a pergunta “que dia, exatamente?” com um domingo genérico, ou com nenhuma resposta. O raciocínio está todo ali; falta apenas quem aponte para onde ele conduz. Por isso o leitor não chega ao sábado sozinho — e não chegará, enquanto ninguém lhe mostrar essa ponte.


Dia 15 — Moldado para Fazer Parte da Família de Deus Índice dos Capítulos Dia 17 — Um Lugar ao Qual Pertencer

Tags: ,