(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 31

Dia 31: Entendendo sua Forma

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren afirma que ninguém mais pode ser você: Deus projetou cada pessoa como exclusiva, e por isso ninguém pode cumprir o papel que só ela pode desempenhar. Depois de tratar dos dons espirituais e do coração no capítulo anterior, o autor passa aos três fatores restantes do acróstico FORMA.

Os recursos pessoais são os talentos naturais com que cada um nasce, ilustrados pelos artesãos do Tabernáculo (Êxodo 31); mesmo habilidades usadas para o pecado vêm de Deus, apenas mal empregadas, e quem tem aptidão para gerar riqueza deve devolver ao menos o dízimo como ato de adoração (Deuteronômio 8:18; 14:23). O modo de ser é o temperamento de cada um (Pedro sanguíneo, Paulo colérico, Jeremias melancólico): não existe temperamento certo ou errado para o ministério, e forçar-se a imitar o estilo de outra pessoa só gera tensão.

As áreas de experiência somam seis categorias, familiares, educacionais, vocacionais, espirituais, de ministério e árduas, sendo esta última a que Deus mais usa para preparar alguém: “Deus jamais desperdiça uma dor”, e quem já sofreu costuma ser quem melhor consola outros na mesma situação (2 Coríntios 1:4).

Depois de examinar essas cinco vias pelas quais Deus molda cada crente para o serviço (Formação espiritual, Opções do coração, Recursos pessoais, Modo de ser e Áreas de experiência), Warren conclui que utilizar a própria FORMA é o segredo tanto da produtividade quanto da realização no ministério, e que a eficiência máxima vem de alinhar dons, coração, personalidade e experiências numa mesma direção.

2. Pressupostos teológicos implícitos

Talentos naturais e dons espirituais como categorias equivalentes

Warren pressupõe que capacidade natural e dom espiritual pertencem à mesma categoria teológica, “tão importantes e espirituais” quanto o outro, diferindo apenas quanto ao momento em que a capacidade natural foi recebida, no nascimento, enquanto o dom espiritual chega em algum outro momento da vida do crente.

Habilidade de origem divina, mesmo quando mal empregada

O capítulo afirma que toda habilidade, inclusive as usadas para o mal, vem de Deus, e que o problema está apenas no uso impróprio que se faz dela, nunca na origem da própria capacidade.

O temperamento como pacote já pronto, a identificar e usar

Warren trata a personalidade como um dado estável e bom em si mesmo, algo a ser identificado, aceito e utilizado, sem qualificar em que medida os próprios traços de temperamento também precisam passar pelo mesmo processo de transformação de caráter já discutido em capítulos anteriores desta série.

Experiências árduas planejadas individualmente por Deus

Ao afirmar que “Deus jamais desperdiça uma dor”, Warren estende às experiências difíceis específicas a mesma linguagem de providência detalhada já registrada nesta série a propósito de outros capítulos (Dias 2, 25, 29 e 30).

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo recorre a uma combinação de traduções dinâmicas (NVI, NLT, BV, NLTH) ao lado de uma passagem sem versão indicada nas Notas (Romanos 8:28,29). Repete, dentro de si mesmo, um hábito já registrado em outros capítulos desta série: cita 1 Coríntios 12:6 duas vezes, em traduções diferentes, a NTLH na nota 5 e uma paráfrase identificada apenas como “CH” na nota 10, para sustentar dois argumentos distintos, a origem divina dos talentos naturais e a diversidade de temperamentos. A paráfrase The Message aparece uma única vez, na epígrafe do capítulo (Salmos 139:13), sem função argumentativa específica no corpo do texto.

4. Contraponto adventista

Este capítulo levanta três pontos que merecem o registro da posição adventista: a equivalência plena entre talento natural e dom espiritual, o temperamento tratado como um traço pessoal a ser usado sem refinamento, e a atribuição de toda experiência árdua ao planejamento direto de Deus.

Talento natural e dom espiritual: uma equivalência incompleta

Para o adventismo, dom espiritual e talento natural, embora ambos de origem divina, não têm o mesmo estatuto diante de Deus, uma vez que o dom concedido para o serviço da igreja está sujeito a ser retirado (1 Samuel 16:14; Juízes 16:20; Mateus 25:28).

Temperamento pendente de refinamento pelo Espírito

A diversidade de temperamentos é, para o adventismo, uma bênção da criação, mas cada temperamento carrega tendências que precisam ser refinadas pelo fruto do Espírito, não apenas identificadas e postas em uso (Gálatas 5:22,23; Nisto Cremos, cap. 11).

Experiências árduas e o grande conflito

Nem toda experiência árdua, para o adventismo, é planejada diretamente por Deus com propósito formativo individual: parte dela resulta da ação de um adversário real, dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás (Nisto Cremos, cap. 8).

5. Pontos de convergência

Nenhuma vida é uma réplica

A ideia de que Deus projetou cada pessoa sem repetição possível retoma a mesma base de dignidade humana já registrada no Dia 2 desta série.

A diversidade de temperamento como bênção à igreja

A recusa de hierarquizar personalidades, tratando introvertidos, extrovertidos, coléricos e melancólicos como igualmente aptos ao ministério, converge com a doutrina dos dons distribuídos “como quer” o Espírito, sem padrão único de vocação (1 Coríntios 12:11).

Aptidão para gerar riqueza e o dízimo

Diferente do padrão de omissão já registrado nesta série a propósito da mordomia financeira, aqui Warren liga explicitamente a capacidade de prosperar ao dever de devolver o dízimo como ato de adoração (Deuteronômio 14:23; Malaquias 3:8-11).

O consolo mútuo através da experiência compartilhada

A ideia de que quem já sofreu está mais bem preparado para consolar outros na mesma aflição converge com o princípio pastoral do testemunho e do apoio mútuo dentro da igreja (2 Coríntios 1:4).

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Talento natural e dom espiritual: uma equivalência incompleta

Warren afirma que os talentos naturais “são tão importantes e ‘espirituais’ quanto seus dons espirituais”, e que “a única diferença é que você as recebeu no nascimento”. A equivalência ignora, porém, uma diferença que a Escritura marca com clareza: o dom espiritual, concedido para servir e edificar a igreja, pode ser retirado de quem falha em usá-lo com fidelidade, enquanto o talento natural permanece ligado à própria constituição biológica da pessoa, independentemente do uso que se faça dele.

Saul recebeu o Espírito para governar Israel, mas “o Espírito do Senhor se retirou de Saul” depois de sua desobediência persistente (1 Samuel 16:14). Sansão recebeu força sobrenatural ligada ao voto nazireu, e, ao violá-lo repetidamente, “não sabia, porém, que o Senhor se tinha retirado dele” (Juízes 16:20). Jesus contou a parábola de um servo que recebeu um talento e não o usou: “tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez” (Mateus 25:28). Nenhuma dessas passagens tem equivalente do lado dos talentos naturais: ninguém perde a própria inteligência, destreza manual ou talento musical como consequência de os usar mal, ainda que continue prestando contas a Deus por esse uso. Tratar as duas categorias como equivalentes, exceto pela data de recebimento, obscurece essa diferença real, e com ela a seriedade específica de guardar fielmente aquilo que foi concedido para o serviço da igreja.

Temperamento pendente de refinamento pelo Espírito

Warren ilustra a diversidade de temperamentos com exemplos bíblicos: “Pedro era sanguíneo. Paulo era colérico. Jeremias era melancólico.” O próprio exemplo, porém, sugere mais do que Warren explora. O temperamento colérico de Paulo, antes de sua conversão, expressava-se como Saulo perseguindo e consentindo na morte de cristãos (Atos 8:1; 9:1,2); depois da conversão, a mesma disposição de caráter passou a servir à igreja, mas não sem alguma transformação no meio do caminho. O mesmo padrão aparece no sanguíneo Pedro, cuja impulsividade o levou a negar Cristo três vezes (Mateus 26:69-75) e cujas próprias cartas, mais tarde, insistem repetidamente em humildade e mansidão (1 Pedro 5:5,6). O capítulo trata o temperamento como algo a identificar e usar, sem qualificar que traços associados a cada um (impaciência no colérico, instabilidade no sanguíneo, desânimo no melancólico) continuam precisando do mesmo processo lento de santificação do caráter que esta série já examinou nos Dias 22 a 28.

Ellen White é direta quanto a essa exigência: “os seguidores de Cristo estão na obrigação […] de trazerem todas as suas paixões, forças físicas e faculdades mentais, em perfeita subordinação à Sua vontade” (Mente, Caráter e Personalidade). Um leitor que absorva o temperamento apenas como algo a identificar e usar, sem essa subordinação contínua, pode confundir traços que ainda precisam de refinamento com uma identidade já pronta e imune à obra santificadora do Espírito.

Experiências árduas e o grande conflito

“Deus jamais desperdiça uma dor”, escreve Warren, ao afirmar que Deus permite intencionalmente as experiências árduas para capacitar cada um a ministrar aos outros. Esta série já examinou por inteiro essa mesma leitura, no Dia 25, a propósito do sofrimento como instrumento formativo: o texto atribui a origem da dor diretamente a Deus, sem mencionar o adversário real que, segundo o grande conflito entre Cristo e Satanás, também atua na história de cada pessoa (Jó 1:6-12; 1 Pedro 5:8). Não é preciso repetir aqui o argumento inteiro; basta registrar que a mesma lacuna reaparece, agora aplicada à descoberta do próprio ministério.


Dia 30 — Moldado para Servir a Deus

Índice dos Capítulos Dia 32 — Usando o que Deus lhe Deu

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