(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 28

Dia 28: Isso Leva Tempo!

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren encerra o bloco sobre discipulado (Propósito 3, iniciado no Dia 22) com uma tese que o capítulo repete de vários modos: não existem atalhos para a maturidade espiritual. Ele a ilustra com o tomate colhido verde e vaporizado com CO2 para ficar vermelho de imediato, que não tem o sabor do fruto deixado para amadurecer no pé. O crescimento espiritual, afirma ele, segue a lógica do crescimento físico. Uma criança precisa de anos para chegar à idade adulta, e o caráter cristão também não pode ser apressado. Deus vê a vida do crente da eternidade para a eternidade e, por isso, nunca tem pressa em produzi-lo.

Para explicar o processo, Warren recorre à analogia militar de Lane Adams. Na Segunda Guerra Mundial, os aliados enfraqueciam uma ilha do Pacífico com bombardeios, estabeleciam nela uma pequena cabeça-de-praia e só então reconquistavam o restante, pouco a pouco. Do mesmo modo, Cristo estabelece uma cabeça-de-praia na vida de quem se converte e avança sobre território cada vez maior, até que a vida inteira lhe pertença. Haverá batalhas duras no caminho, mas a vitória é certa.

O capítulo lista, em seguida, seis razões para a demora do crescimento. Aprendemos devagar. Temos muito a desaprender, uma vez que a conversão traz uma natureza nova, mas não apaga de imediato os velhos hábitos e padrões de pensamento. Tememos encarar com humildade a verdade sobre nós e preferimos a negação ao desconforto de expor as próprias falhas. Toda mudança envolve dor e perda, pois abrir mão até de um hábito destrutivo é abrir mão de algo familiar. Formamos a identidade em torno dos defeitos e receamos, sem perceber, quem seríamos sem eles. A sexta razão é que os hábitos só se desenvolvem pela prática repetida ao longo do tempo, já que o caráter, definido como a soma total dos hábitos, nunca nasce de atos isolados. Warren reúne as práticas formadoras de hábito sob o rótulo de “disciplinas espirituais”.

Warren propõe, então, quatro formas de cooperar com o processo. A primeira é crer que Deus está operando mesmo quando o crente nada sente. Para isso, compara as estações do crescimento espiritual às do ano e lembra que uma correnteza lenta desgasta a rocha mais dura e que um broto pequeno pode tornar-se uma sequoia gigante. A segunda é manter um diário espiritual, que registra não os acontecimentos, mas as lições aprendidas, a fim de não precisar reaprendê-las. A terceira é ser paciente com Deus e consigo mesmo, pois o cronograma divino raramente coincide com o do crente, como mostra Moisés, formado ao longo de oitenta anos, quarenta deles no deserto. A quarta é não desanimar diante da demora, como Habacuque, a quem Deus assegurou que a visão prometida se cumpriria, ainda que devagar.

O capítulo termina com a lembrança de que até a lesma alcançou a arca, por perseverar.

2. Pressupostos teológicos implícitos

A explicação do crescimento por analogias da natureza e da estratégia militar pressupõe um Deus que conduz o processo de modo cooperativo. O fruto que amadurece na estação própria e o carvalho que leva um século para crescer sugerem um ritmo orgânico, ao qual o crente se adapta. A campanha da ilha do Pacífico atribui a Cristo a iniciativa estratégica e a certeza da vitória. Daí a recomendação de crer que “Deus está operando em sua vida”, mesmo quando o crente não o sente. As imagens agrícolas têm precedente nas parábolas de Jesus. Uma é a semente que cresce por etapas, sem que o lavrador saiba como (Marcos 4:26-29). Outra é o grão de mostarda que chega a ser árvore (Mateus 13:31,32), próxima do broto que vira sequoia.

Os fatores internos ao crente respondem, nas razões do capítulo, pela lentidão da santificação. O vocabulário dessas razões é pedagógico e psicológico: lições que precisam ser repetidas muitas vezes (a história de Israel serve de evidência de quão depressa elas se esquecem), medo de enfrentar os próprios defeitos e apego a uma identidade formada em torno deles. Esse conjunto convive com a afirmação de que Deus escolheu desenvolver o crente de modo vagaroso, como permitiu que os israelitas tomassem a Terra Prometida aos poucos, para que não fossem sobrepujados. A demora tem uma causa divina, a pedagogia de Deus, e causas humanas, as razões listadas. As respostas práticas do capítulo, como o diário de lições e a paciência perseverante, dirigem-se ao que o crente pode fazer com os próprios hábitos e esquecimentos.

A prática repetida é, no capítulo, o mecanismo principal da formação do caráter, e o conjunto dessas práticas recebe o nome de “disciplinas espirituais”. A premissa que o sustenta é a de que o caráter coincide com a soma dos hábitos de alguém: só se diz gentil quem é habitualmente gentil, e só se diz íntegro quem tem o hábito da honestidade. A relação entre hábito e caráter aparece na literatura devocional evangélica brasileira. Um artigo da Revista Renascer, por exemplo, a resume na sequência atribuída a James C. Hunter, em que pensamentos geram ações, ações geram hábitos e hábitos geram o caráter. Warren a condensa na fórmula de que “a repetição é a mãe do caráter e da habilidade”. Nesse entendimento, a maturidade passa a depender da constância das práticas ao longo do tempo. O capítulo remete o aprofundamento das disciplinas a outros livros, listados no apêndice da obra.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo reúne três paráfrases de autor único e quatro traduções de equivalência dinâmica. As paráfrases são Cartas para Hoje (CH: Efésios 4:13, nota 2), The Message (Msg: 2 Coríntios 3:18, nota 4; Hebreus 2:1, nota 10; Tiago 1:4, nota 11) e a Bíblia Viva (BV: Habacuque 2:3, nota 12; Filipenses 1:6, na abertura do capítulo). As traduções de equivalência dinâmica são a NVI (Filipenses 1:6, nota 1), a NCV (Colossenses 3:10, nota 3), a GWT (1 Timóteo 4:15, nota 7) e a CEV (Eclesiastes 3:1, nota 8 e abertura do capítulo). As notas 5 (Deuteronômio 7:22), 6 (Romanos 13:12; Efésios 4:22-25; Colossenses 3:7-10,14) e 9 (Salmos 102:18; 2 Timóteo 3:14) não indicam a versão.

A nota 4 cita 2 Coríntios 3:18 em The Message: “Nossa vida vai se tornando gradualmente mais brilhante e mais bonita à medida que Deus entra nela e nos tornamos semelhantes a ele”. A Almeida diz: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. A paráfrase conserva a ideia de gradualidade, mas apaga a contemplação da glória do Senhor e troca o agente da transformação, o Espírito, por um “Deus” genérico. O uso é fiel quanto ao processo gradual, e é a paráfrase que retira o agente, ponto que a seção 5 retoma.

Na nota 7, a GWT traz 1 Timóteo 4:15 como “Pratique essas coisas. Dedique sua vida a elas, para que todos possam ver seu progresso”, base da afirmação de que o caráter de Cristo só se forma pela prática. A Almeida registra: “Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto”. O verbo do original abrange os sentidos de meditar e de exercitar-se, e a GWT traz o segundo, o que dá a Warren o suporte de que o argumento precisa. O versículo, porém, é dirigido a Timóteo a propósito de seu ministério. Na carta, “estas coisas” designam a leitura, a exortação e o ensino (1 Timóteo 4:13), além do dom recebido (1 Timóteo 4:14), e não um programa geral de formação de hábitos. O princípio de que o progresso exige diligência é bíblico, mas o versículo não trata de hábitos de caráter.

Eclesiastes 3:1 abre o capítulo na CEV e volta na nota 8: “Tudo na terra tem seu próprio tempo e sua própria estação”. A Almeida traz: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. O texto formal não fala em estação, e os versículos seguintes enumeram tempos de acontecimentos da vida (nascer e morrer, plantar e arrancar, chorar e rir, guerra e paz), não fases de crescimento. Warren parte da palavra “estação” para descrever estações da vida espiritual, com uma primavera de crescimento intenso seguida de outono e inverno de estabilidade e provações. A analogia ilustra bem a ideia de ritmo, mas o versículo não a sustenta.

Para sustentar o conselho de não desanimar, a nota 12 traz Habacuque 2:3 na Bíblia Viva: “Devagar, firmemente, e com certeza, vai se aproximando o tempo em que a visão será cumprida”. A Almeida afirma que a visão “está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará”. O texto formal fala de uma visão que se apressa para o fim e admite apenas que ela pareça demorar, e “devagar” é palavra da paráfrase. A visão também é uma profecia específica dada a Habacuque (Habacuque 2:2), e não a experiência pessoal de amadurecer no caráter. O princípio de que o tempo de Deus difere do nosso se sustenta, mas o versículo trata do cumprimento certo de uma promessa profética, e não da lentidão da santificação.

Três diferenças menores não alteram o argumento. Na abertura, a Bíblia Viva faz Filipenses 1:6 prometer que Deus continuará “ajudando-os a crescer em sua graça”. A Almeida não traz essa expressão: “aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”. Em Colossenses 3:10 (nota 3, NCV), a citação de Warren deixa de fora o “pleno conhecimento” que a Almeida registra. Em Hebreus 2:1 (nota 10, Msg), “o que ouvimos” generaliza as “verdades ouvidas” da Almeida, que o contexto liga à salvação anunciada pelo Senhor (Hebreus 2:3), e Warren as aplica às lições pessoais do diário espiritual.

No restante, o uso bíblico não apresenta problema que afete os argumentos do capítulo, e a nota 9 apenas indica passagens por referência.

4. Pontos de convergência

A tese do capítulo, a de que a maturidade espiritual não se adquire de modo instantâneo, por mais poderosa que seja uma única experiência, converge plenamente com a ênfase adventista na santificação como processo contínuo e vitalício. A própria Escritura sustenta essa ênfase: “aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). A exposição oficial da doutrina do crescimento em Cristo descreve esse mesmo processo como diário (Nisto Cremos, cap. 11). Ellen White o ilustra com uma imagem natural próxima às de Warren: “não podemos esperar santificação instantânea, mas devemos crescer como o grão, […] primeiro a erva, depois a espiga, e então o grão cheio, e assim aperfeiçoar o caráter cristão” (Manuscript Releases, vol. 3, p. 68).

O exemplo de Moisés, formado por Deus durante oitenta anos, quarenta deles no deserto, converge com a compreensão adventista de que Deus age na história com paciência deliberada, sem pressa e sem atraso. A convergência não se estende ao uso de Habacuque 2:3 para o mesmo ponto, que pede a ressalva registrada na seção 3.

O reconhecimento de que o caráter cristão, como qualquer hábito, exige prática repetida e não apenas boa intenção converge com a compreensão bíblica da santificação como cooperação real do crente com a graça (Filipenses 2:12,13).

5. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

A afirmação que sustenta o capítulo, a de que a maturidade cristã leva tempo, é compatível com a posição adventista, que se distingue da apresentada por Warren em dois pontos: o Espírito Santo como agente nomeado da transformação, e o grande conflito cósmico como contexto da lentidão do crescimento.

O Espírito Santo como agente nomeado da transformação

Ao longo do capítulo, o sujeito que promove o crescimento espiritual é quase sempre “Deus”, em sentido genérico: “Deus está operando em sua vida”, “Deus se preocupa em que cresçamos fortes”, “ele escolheu nos desenvolver vagarosamente”. O Espírito Santo não é nomeado como agente do crescimento em nenhum ponto. Nem mesmo 2 Coríntios 3:18, versículo que cita o Espírito como autor da transformação, traz esse nome na versão usada pelo capítulo, como a seção 3 mostra.

Esse silêncio consolida um padrão que a série já registrou em capítulos anteriores. O Dia 8 observou que, sem o papel do Espírito Santo, a adoração pode reduzir-se a mais uma disciplina de vontade própria. No Dia 22, Warren foi categórico em sentido contrário: ninguém reproduz o caráter de Cristo pelo próprio esforço, força de vontade ou boas intenções, e somente o Espírito Santo tem esse poder (Filipenses 2:13). O Dia 24 notou que a citação de 2 Coríntios 3:18 termina antes da cláusula que nomeia o Espírito. O Dia 27 registrou que a menção ao poder do Espírito quase desaparece quando o assunto passa do caráter em geral à técnica de resistir a uma tentação específica.

O Dia 28 repete esse padrão em escala maior, pois dedica o capítulo inteiro a explicar o mecanismo do crescimento sem nomear seu agente mais específico. As práticas que o capítulo recomenda (crer que Deus está operando, o diário espiritual, a paciência, a prática repetida) são úteis e biblicamente sustentáveis. Falta nomear quem realiza a obra mais decisiva. Dizer que somos “transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2 Coríntios 3:18) afirma algo mais específico do que dizer que “Deus entra” (2 Coríntios 3:18, Msg) na vida do crente. A transformação tem um agente pessoal identificável, o mesmo que habita no crente e o reveste de poder para reproduzir o caráter de Cristo (Nisto Cremos, cap. 11 – Crescer em Cristo). Ellen White nomeia esse agente ao descrever um processo tão gradual quanto o que Warren apresenta: “dia a dia a influência santificadora do Espírito de Deus leva, de forma quase imperceptível, […] à perfeição da justiça […] Santificação é a obra de uma vida inteira” (Espírito de Profecia, vol. 2, p. 243,244).

O fruto bíblico confirma esse ponto. Diferente de um hábito adquirido por repetição, ele resulta de permanecer ligado à videira: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (João 15:5). O mesmo fruto que Paulo descreve como “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5:22,23) tem sua fonte na comunhão constante com o Espírito. Por isso a Escritura o chama de “o fruto do Espírito”, e não de fruto do crente. Warren usa essa expressão logo na abertura do capítulo, ao comparar o amadurecimento da fruta ao do caráter cristão, mas não a retoma quando passa a tratar do processo em que o fruto se forma. Dali em diante, o processo aparece como prática sustentada pelo crente e como obra de “Deus” em sentido genérico.

O contraste alcança as “disciplinas espirituais”. O capítulo as apresenta como hábitos formados pela repetição, sem defini-las, e remete o leitor a livros listados no apêndice. A questão decisiva é a quem o crente atribui o resultado dessas práticas. Se o atribui às próprias disciplinas, o fruto passa a depender da constância de quem as cumpre. Se o atribui ao Espírito, elas se tornam o meio de permanecer em Cristo, de quem procede o fruto.

O crescimento lento dentro do grande conflito cósmico

As seis razões que Warren lista para a lentidão do crescimento (aprendemos devagar, temos muito a desaprender, tememos a verdade sobre nós, a mudança dói, apegamo-nos à identidade formada em torno dos defeitos, hábitos exigem prática) são verdadeiras e pastoralmente úteis. Todas elas localizam a causa da demora dentro do próprio crente, como a seção 2 já notou. Nenhuma menciona que o “território” ainda não conquistado da vida cristã continua sendo disputado por um inimigo. Segundo a doutrina adventista do grande conflito, ele tem interesse direto em atrasar, distorcer ou reverter esse crescimento (1 Pedro 5:8; Apocalipse 12:17). A única imagem de conflito que o capítulo emprega, a analogia militar de Lane Adams sobre a invasão de uma ilha do Pacífico, serve apenas de metáfora para a resistência interna do crente à mudança. Seu vocabulário de guerra (invasão, resistência, batalhas) não aponta para um adversário real fora do crente.

Essa omissão deixa sem resposta uma pergunta: por que a lentidão do processo importa a alguém além do próprio crente? Para o adventismo, o tempo exigido pela formação do caráter tem peso diante do universo inteiro, testemunha do conflito entre Cristo e Satanás (Nisto Cremos, cap. 8). A Escritura anuncia que o Senhor “assentar-se-á como derretedor e purificador de prata” (Malaquias 3:3), numa imagem de refinamento deliberadamente lento e supervisionado, sem pressa. A mesma expectativa de um caráter formado, e não apenas aparente, reaparece na descrição bíblica dos que, no fim dos tempos, perseveram e “guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12). O caso de Jó, já tratado no Dia 25, mostra um caráter provado de modo doloroso e prolongado, com um significado que ultrapassava a experiência pessoal de Jó (Jó 1:6-12; 2:1-6).

Warren tem razão ao dizer que Deus não tem pressa. Explicar essa paciência apenas pela pedagogia de Deus e pela dificuldade do crente em aprender e mudar deixa o leitor com uma jornada difícil, mas privada. O Apocalipse a situa num palco público: a perseverança dos santos (Apocalipse 14:12) está no mesmo capítulo em que o evangelho eterno é anunciado “a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (Apocalipse 14:6).


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