(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja

“Uma Vida com Propósitos” à luz da Teologia Adventista – Dia 8

Dia 8: Planejado para Agradar a Deus

por: Levi de Paula Tavares

1. Resumo do argumento do capítulo

Warren abre o primeiro dos cinco blocos do livro (Propósito 1: adoração) com a afirmação de que o ser humano foi planejado para agradar a Deus, ilustrando a ideia com a imagem de Deus como testemunha invisível e sorridente no instante do nascimento de cada pessoa. Segundo o capítulo, Deus não precisava criar ninguém, mas escolheu fazê-lo para sua própria satisfação, “pois este era o seu prazer e a sua vontade” (Efésios 1:5, NTLH); ser motivo de prazer para Deus é o que garante o valor de cada pessoa: ninguém que Deus deseja manter consigo por toda a eternidade pode ser insignificante. Deus deu à humanidade a capacidade de sentir prazer, incluindo os cinco sentidos e as emoções, uma vez que a fez à sua imagem, e o próprio Deus, segundo Warren, sente emoções intensas e genuínas: alegria, tristeza, ciúme, compaixão, ira, riso.

O capítulo define agradar a Deus como o sentido da palavra “adorar”, comparando-a a um diamante de várias facetas, cujo estudo completo exigiria vários livros, e dedica boa parte do texto a corrigir concepções populares equivocadas sobre o tema: ela não é sinônimo de música (Adão adorou no Éden antes de existir qualquer instrumento musical na Bíblia); não depende de estilo, ritmo ou volume; e, principalmente, não existe para benefício de quem adora, mas exclusivamente para agradar a Deus. Segundo Warren, antropólogos já observaram que adorar é um impulso universal, posto por Deus na própria estrutura do ser humano, tão natural quanto comer ou respirar, de modo que, na ausência de um objeto legítimo, a pessoa sempre acaba encontrando algum substituto, ainda que seja ela mesma.

Warren cita a repreensão de Isaías contra a adoração de lábios sem coração e conclui que a adoração abrange a vida inteira, não somente uma parte dela separada das demais: qualquer atividade, inclusive comer, beber ou trabalhar, se torna adoração quando feita conscientemente para Deus. O capítulo termina com uma ilustração pessoal de Warren sobre pensar constantemente na esposa quando namoravam, como metáfora do que significa “permanecer no amor” de Jesus.

2. Pressupostos teológicos implícitos

A satisfação de Deus como motivo da criação

O capítulo afirma que Deus não precisava criar ninguém, mas “escolheu fazê-lo para sua própria satisfação”: a criação existe, segundo essa formulação, para que Deus obtenha prazer dela.

O prazer de Deus como prova do valor pessoal

O capítulo ancora o valor de cada pessoa no fato de agradar a Deus e de Deus anelar mantê-la consigo para sempre: nas palavras do próprio Warren, “jamais voltará a se sentir insignificante, pois isso prova o valor que você tem”. Trata-se de um argumento pastoral compreensível, que localiza o valor humano inteiramente na disposição afetiva de Deus em relação à pessoa.

As emoções de Deus em paralelo direto às emoções humanas

Ao listar as emoções que Deus sente, é provável que Warren não tenha pretendido propor uma doutrina sistemática sobre a natureza das emoções divinas. Ainda assim, ao reunir uma longa lista de textos do Antigo Testamento (nota 2) sem distinguir entre linguagem figurada e literal, ele descreve as emoções divinas (ciúme, ira, tristeza, riso) como se funcionassem exatamente da mesma maneira que as emoções humanas, sem qualquer nuance que distinga uma experiência da outra.

Adoração redefinida como estilo de vida contínuo, não como evento

O capítulo amplia deliberadamente o sentido comum de “adoração”, tirando-a do contexto exclusivo do culto de igreja e da música, e a estende a qualquer atividade cotidiana feita conscientemente para Deus.

Neutralidade espiritual do estilo musical

Ao afirmar que “não existe um estilo bíblico” e que “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas”, o capítulo trata a forma musical como uma categoria inteiramente neutra do ponto de vista espiritual, reduzida a uma questão de formação cultural e personalidade, sem a necessidade de qualquer critério capaz de distinguir um estilo apropriado de outro.

Adoração definida pelo prazer que causa a Deus

Warren identifica adorar com agradar a Deus, tratando essa disposição, sobretudo, como uma decisão e um estado de ânimo que o próprio adorador produz diante de Deus. Ele chega a advertir, a partir de bilhetes que recebe como pastor elogiando “a adoração de hoje”, que sentir-se bem na adoração pode ser sinal de motivação errada, insistindo que “a adoração não é para nosso benefício” e que seu único objetivo é agradar a Deus, não a quem adora.

3. Base bíblica usada por Warren

O capítulo usa uma boa variedade de versões: NTLH (notas 1, 6), CEV (nota 3), NVI (notas 5, 10, 11), BV (nota 7) e GWT (nota 9), além de vários textos sem versão marcada, o que indica a tradução de referência padrão do livro. A paráfrase The Message aparece uma vez (nota 12, Romanos 12:1; ver nota metodológica da Apresentação), ali parafraseado como um convite a oferecer a “vida cotidiana e comum” a Deus, sem a expressão “culto racional” que a seção 6 explora a partir da tradução formal do mesmo versículo. A nota 2, usada para sustentar que “Deus também tem emoções”, reúne mais de dez referências de livros diferentes do Antigo Testamento (Gênesis, Êxodo, Deuteronômio, Juízes, Reis, Crônicas, Salmos, Ezequiel, 1 João) em bloco único, sem desenvolver individualmente nenhuma delas, um uso mais próximo de lista de apoio geral do que de exegese pontual, ainda que os textos, tomados em conjunto, sustentem razoavelmente o ponto geral do capítulo. No restante, o uso das passagens sobre adoração é fiel ao propósito do texto, sem extrapolação relevante.

4. Contraponto adventista

Este capítulo levanta múltiplos pontos que a posição adventista situa de forma distinta: a satisfação de Deus como fruto do amor e não como motivo da criação; o valor humano ancorado no grande conflito; a natureza consciente da adoração, incluindo os limites da diversidade musical; a âncora sabática da adoração contínua; e a mordomia da saúde a partir de 1 Coríntios 10:31, resumidos nos tópicos a seguir.

A satisfação de Deus como fruto do amor

Para o adventismo, Deus criou por um amor que já era pleno em si mesmo, não por precisar de um objeto que lhe desse prazer; a satisfação divina na criação é consequência desse amor, não sua causa (Atos 17:25; Salmos 50:9-12; João 17:24).

O valor humano ancorado no grande conflito

Para o adventismo, o valor de cada pessoa não repousa apenas no prazer que ela dá a Deus, mas no preço concreto pago pela sua redenção dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás (1 Pedro 1:18,19; João 3:16; Nisto Cremos, cap. 8).

Adoração como resposta consciente à revelação

Para a teologia adventista, adorar é a resposta consciente e submissa de quem conhece a Deus por revelação, habilitada pelo Espírito Santo, um “culto racional” (Romanos 12:1) distinto de qualquer estado emocional induzido por música, ambiente ou dinâmica de grupo (João 4:24).

Diversidade musical dentro de limites discerníveis

A Escritura recomenda ampla diversidade de instrumentos e formas de louvor (Salmos 150), mas a forma musical não é espiritualmente neutra. Além disso, a Escritura registra ocasiões em que um culto musicalmente irrepreensível foi rejeitado por Deus porque o coração dos adoradores estava distante dele (Amós 5:21-23; Isaías 1:11-14).

A âncora sabática da adoração contínua

A adoração como estilo de vida diário encontra, na teologia adventista, um ponto de ancoragem semanal concreto, o sábado, que treina e protege essa mesma continuidade (Êxodo 20:8-11; Nisto Cremos, cap. 20).

1 Coríntios 10:31 e a mordomia da saúde

O mesmo texto que Warren cita para dizer que comer e beber podem ser adoração é, para o adventismo, a base da mordomia da saúde física, já discutida no Dia 7 desta série (1 Coríntios 6:19,20; Nisto Cremos, cap. 22).

5. Pontos de convergência

Adoração como estilo de vida, não como evento isolado

A afirmação central do capítulo, de que a adoração não se limita à música ou ao culto de igreja e pode se estender a qualquer atividade cotidiana, converge de perto com o próprio ensino adventista sobre conduta cristã, segundo o qual “todo cristão verdadeiro coloca a Deus em primeiro lugar naquilo que faz, em todos os seus pensamentos, e em todos os seus desejos”, citando para isso o mesmo texto que Warren usa: “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31; Nisto Cremos, cap. 22). Aliás, ao incluir explicitamente o trabalho nessa mesma lista, “comer, beber ou trabalhar”, o capítulo também fecha, sem se dar conta, a lacuna do trabalho cotidiano como forma de adoração já apontada no Dia 7 desta série.

Rejeição do formalismo vazio

A crítica de Warren, apoiada em Isaías 29:13, contra uma adoração de lábios sem coração, converge inteiramente com a ênfase adventista na religião do coração, e não apenas da forma externa.

A universalidade do impulso de adorar

A observação de que adorar é um impulso natural, posto por Deus na própria estrutura do ser humano, e que, na ausência de um objeto legítimo, sempre encontra algum substituto, converge com a leitura bíblica da idolatria como adoração desviada, não abolida.

Deus como ser que sente

A afirmação de que Deus é um ser pessoal que tem emoções genuínas, e não é uma força impessoal e indiferente, converge com a centralidade do caráter emocionalmente investido de Deus dentro do grande conflito, já discutido no Dia 1 desta série.

6. Pontos de tensão ou divergência com a teologia Adventista

Prazer divino como consequência do amor, não sua causa

O capítulo afirma que Deus “não precisava criar ninguém, mas escolheu fazê-lo para sua própria satisfação”. A primeira metade da frase é bíblica e precisa: Deus é autossuficiente, e Paulo afirma que ele “nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse” (Atos 17:25). O próprio Deus faz uma afirmação semelhante pela boca do salmista: mesmo que tivesse fome, ele não pediria nada à sua criação, uma vez que tudo já lhe pertence (Salmos 50:9-12).

A segunda metade da frase, porém, introduz uma imprecisão sutil. Ao dizer que Deus criou “para sua própria satisfação”, o texto trata essa satisfação como o motivo da criação, ou seja, aquilo que ela existe para produzir. O mesmo padrão aparece em diversos mitos antigos do Oriente Próximo, como o babilônico Enuma Elish, em que os deuses criam os seres humanos justamente para suprir uma carência própria: comida, trabalho, alívio. A diferença entre “Deus tem prazer na criação” e “Deus criou para ter prazer” parece pequena, mas separa duas ideias bem diferentes de Deus: a primeira descreve um transbordamento de um amor já completo; a segunda descreve uma necessidade, mesmo que disfarçada de escolha livre.

A Escritura sustenta fartamente a primeira ideia, não a segunda. Sofonias promete: “ele se deleitará em ti com alegria” (Sofonias 3:17), e Jesus, orando ao Pai, lembra que já era amado “antes da fundação do mundo” (João 17:24): o amor de Deus não esperou a criação para existir, ele já era pleno na relação entre o Pai e o Filho. A criação não supre uma falta nesse amor; ela transborda dele. Warren teria dito algo mais preciso, e igualmente pastoral, se tivesse descrito a satisfação de Deus como consequência do seu amor, não como o motivo da criação.

Essa imprecisão carrega uma consequência pastoral concreta. Absorver a criação como algo motivado pela busca de satisfação de Deus, ainda que eletiva e não obrigatória, pode levar à mesma lógica invertida sobre a própria vida espiritual: buscar em Deus uma fonte de prazer que sacie uma necessidade própria, em vez de responder, com gratidão, a um amor que já estava completo antes de qualquer criatura existir.

O preço da redenção como base do valor humano

A mesma frase com que Warren abre o capítulo, “Deus não precisava criar ninguém, mas escolheu fazê-lo para sua própria satisfação”, sustenta ainda outro argumento, além do já visto no item anterior. Warren ancora o valor de cada pessoa no fato de que Deus a planejou para sua própria satisfação e deseja mantê-la para sempre, um argumento pastoral bem-intencionado, pensado para combater o sentimento de insignificância, mas que descreve o valor humano quase como consequência de uma preferência afetiva de Deus, sem tocar no que a Escritura oferece como prova mais concreta desse mesmo valor: o preço pago por ele. Pedro escreve: “não foi mediante coisas corruptíveis… mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo”, que os crentes foram resgatados (1 Pedro 1:18,19).

Essa base é significativamente mais sólida, e pastoralmente mais estável, do que apenas afirmar que Deus sente prazer com a própria existência de alguém. Ainda que o caráter de Deus não mude (Malaquias 3:6), um sentimento, por sua própria natureza, tende a ser associado ao momento presente, às circunstâncias, ao desempenho recente de quem é amado, convidando à pergunta ansiosa de todo coração inseguro: “será que Deus ainda sente prazer em mim, agora?” O sacrifício histórico e concreto do Calvário, já pago e irrevogável, não deixa espaço para essa mesma dúvida. O valor humano, para a teologia adventista, está ligado ao próprio custo da redenção dentro do grande conflito entre Cristo e Satanás, já discutido no Dia 1 desta série: o valor da alma humana se mede pelo preço que Deus considerou justo pagar por ela, não apenas pelo prazer momentâneo que ela lhe proporciona.

Essa mesma vulnerabilidade tem ainda outra face, talvez bastante comum na prática pastoral: pode levar alguém a sentir-se pesado pela tarefa de produzir, sozinho, a satisfação de um Deus perfeito e santo, como se a aceitação dependesse do sucesso constante em agradá-lo. Jesus responde a esse mesmo cansaço, não a uma plateia preocupada com prazer próprio, mas a pessoas exaustas de tentar dar conta de exigências religiosas: “vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei […] porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Essa mesma resposta, sob outro ângulo, é o que o ponto seguinte deste artigo desenvolve: a adoração não nasce do esforço isolado de quem adora, mas é habilitada pelo Espírito Santo, o mesmo princípio de cooperação, não desempenho solitário, já discutido a propósito do crescimento do caráter no Dia 5 desta série (Filipenses 2:12,13).

Culto racional, não emoção induzida

Warren define adorar essencialmente como agradar a Deus, uma síntese pastoral compreensível, mas incompleta. A Bíblia descreve a adoração, antes de tudo, como uma resposta: a palavra mais usada no Novo Testamento para “adorar” descreve literalmente alguém se curvando, prostrando-se diante de um superior. Não se trata de uma decisão isolada de “dar prazer” a Deus, mas do que acontece naturalmente quando alguém reconhece quem Deus é, e quem ele mesmo é diante de Deus. Ellen White descreve esse mesmo processo: “para O servirmos devidamente, é mister nascermos do divino Espírito […] esse é o verdadeiro culto. É o fruto da operação do Espírito Santo” (O Desejado de Todas as Nações, p. 123). A adoração, portanto, não nasce apenas do esforço ou da boa intenção do adorador; ela é a resposta que o Espírito Santo desperta no coração de quem conhece a Deus.

Essa distinção ajuda a resolver, com mais precisão, uma tensão que o próprio Warren cria ao dizer que “a adoração não é para nosso benefício”. No Dia 7 desta série, ele havia citado John Piper para afirmar o contrário: que a satisfação humana em Deus e a glória que Deus recebe são a mesma moeda vista por dois lados, o núcleo do que Piper chama de “hedonismo cristão”. Aqui, sem perceber, ele parece corrigir a si mesmo: chega a classificar como equivocada a pessoa que sai de um culto dizendo tê-lo apreciado, como se sentir prazer na adoração fosse, só por isso, sinal de motivação errada.

Warren tem razão em desconfiar de uma adoração medida pelo quanto ela emociona o adorador, mas erra ao concluir daí que ela não deveria trazer benefício algum a quem adora. Paulo chama a verdadeira adoração de “culto racional” em Romanos 12:1. Esta é a mesma passagem que o capítulo cita, mas na paráfrase The Message, que troca essa expressão por um apelo mais genérico a oferecer a “vida cotidiana e comum” a Deus (ver seção 3). Quando lida em uma versão mais fiel ao original, este texto descreve um culto que envolve a mente e a vontade, não apenas o sentimento do momento, e é essa categoria que separa com precisão as duas coisas que o capítulo confunde: buscar a adoração pela emoção que ela produz é, de fato, um desvio; buscar a Deus na adoração e receber, como fruto natural dela, uma alegria genuína, não é. O alvo da adoração continua sendo Deus, não o adorador, mas a alegria segue sendo sua consequência natural e esperada, não um risco a ser evitado. Ellen White reforça essa mesma ordem de prioridades: “no serviço de Deus […] há satisfação e alegria” (Caminho a Cristo, p. 124,125), descrevendo a satisfação como resultado do serviço prestado, não como seu objetivo. Essa alegria, exatamente por nascer como fruto e não como meta, não precisa ser vigiada com desconfiança quando aparece.

A consequência prática de perder essa distinção é dupla. Sem o papel do Espírito Santo, a adoração pode virar apenas mais uma disciplina de vontade própria, algo que a pessoa decide fazer para agradar a Deus, sem a transformação interior que só o Espírito produz e que conduz à verdadeira adoração.

A segunda metade do problema é uma inversão de valores espirituais que a própria Escritura já preveniu. Quando Elias esperava o Senhor no monte Horebe, o texto é explícito: Deus não estava no vento forte que despedaçava rochas, nem no terremoto, nem no fogo, mas num “cicio tranquilo e suave” que veio depois de tudo isso (1 Reis 19:11-13). A intensidade do fenômeno sensorial, no relato bíblico, é justamente onde Deus escolhe não estar. Sem essa mesma discrição, o critério se inverte: qualquer experiência que produza forte comoção, gerada por música, luzes ou pela dinâmica de um grupo, passa a ser aceita como prova de verdadeira adoração, enquanto a alegria genuína que nasce de um encontro real com Deus, fruto do Espírito segundo a própria Escritura (Gálatas 5:22), e por isso digna de confiança, passa a ser vista com desconfiança, só por não vir acompanhada do mesmo estrondo. O profeta Amós registra o mesmo critério pela via oposta: Deus rejeitou um culto israelita ritualisticamente correto, música incluída, precisamente porque o coração dos adoradores estava distante dele: “afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras” (Amós 5:23). O texto não acusa a música de estar mal executada; acusa o coração de estar ausente. Em ambos os casos, o critério de Deus para reconhecer a verdadeira adoração nunca foi a intensidade do fenômeno externo, seja ele a favor ou contra a experiência genuína, mas a condição do coração de quem adora.

A história adventista já enfrentou de perto essa mesma inversão. No início do século 20, um movimento conhecido como “carne santa” surgiu em Indiana confundindo gritos, tambores e forte agitação emocional com a descida do Espírito Santo. Ellen White, ao escrever sobre esse episódio, corrigiu o engano sem meias palavras: “mero ruído e gritos não são sinal de santificação, ou da descida do Espírito Santo”, acrescentando que “o Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal confusão e ruído” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pp. 35,36). O alerta permanece válido fora daquele episódio específico: barulho, luzes e emoção intensa podem acompanhar uma experiência genuína com Deus, mas nunca são, por si mesmos, a prova dela, nem o meio de produzi-la.

Música com consequência espiritual, não neutra

Warren tem razão ao negar que exista um “estilo bíblico” único e obrigatório: a Bíblia não registra partituras, e boa parte dos instrumentos mencionados nela já não existe em forma reconhecível hoje. Dessa observação correta, porém, o capítulo avança para uma afirmação bem mais ampla, ao declarar que “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas” e que o estilo preferido de cada um “diz mais sobre você […] do que sobre Deus”. Nessa segunda etapa do argumento, a ausência de um estilo obrigatório é tratada como se equivalesse à neutralidade espiritual de qualquer estilo, o que é uma inferência mais ampla do que a primeira observação, por si só, sustenta. A raiz do problema é presumir que a música, por si mesma, pode gerar adoração: “a música não é a origem da adoração. Ela é um dos veículos da adoração. Música não é o princípio da adoração, mas sim, o seu resultado” (Adoração – O Presente do Homem para Deus).

A Escritura não trata a forma musical como espiritualmente indiferente. A própria posição oficial adventista sobre o tema é direta: “a música não é moral nem espiritualmente neutra”, podendo “nos levar a alcançar a mais exaltada experiência humana”, ou ser “usada pelo príncipe do mal para degenerar e degradar” (Música: Sua Influência na Vida do Cristão, Apêndice 1). Ellen White, comentando o propósito original da música no culto de Israel, descreve seu papel de “erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante”, e adverte, no mesmo fôlego, que a música mal empregada “torna-se um dos mais bem-sucedidos fatores pelos quais Satanás distrai a mente, do dever e da contemplação das coisas eternas” (Patriarcas e Profetas, p. 594).

A compilação Música — Sua Influência na Vida do Cristão, preparada pelo Ellen G. White Estate a pedido da Associação Geral justamente para oferecer à igreja uma postura equilibrada sobre o tema, reúne o tipo de critério que falta ao capítulo de Warren. Em termos diretos, ela adverte que “Satanás fará da música uma armadilha pela maneira como é dirigida” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 37), e que “Satanás não faz objeções à música, uma vez que através dela possa ter acesso à mente” de quem a ouve (Testemunhos para a Igreja, v. 1, pp. 505,506). Ela descreve a dupla possibilidade que qualquer forma musical carrega: “quando empregada para fins bons, a música é uma bênção; mas é muitas vezes usada como um dos mais atrativos instrumentos de Satanás para enredar almas” (Mensagem aos Jovens, pp. 295,296).

Um dos riscos que a compilação destaca não depende do gênero musical, mas de onde a atenção da congregação se volta durante a execução: “o talento musical não raro incentiva o orgulho e o desejo de exibição, e os cantores não dedicam senão pouca atenção para o culto a Deus. A música, em vez de levá-los a lembrar-se de Deus, leva-os com frequência a esquecê-Lo” (Música — Sua Influência na Vida do Cristão, p. 60). Esse alerta específico, sobre o talento humano competir com Deus pela atenção da assembleia, aplica-se igualmente a um órgão de tubos executado com virtuosismo e a uma banda contemporânea afinada com precisão, sempre que o brilho de quem toca ou canta se torna o que a congregação de fato contempla. A Escritura já havia antecipado o remédio para esse mesmo risco, devolvendo ao Doador o crédito que o talento humano tende a reter para si: “que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7), pergunta que Paulo dirige a quem se orgulha de um dom concedido, e “não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória” (Salmos 115:1), a recusa do próprio salmista em aceitar para si a glória que pertence exclusivamente a Deus.

A neutralidade que o capítulo atribui ao estilo musical se aproxima, ainda, de um argumento que a própria tradição cristã já empregou de modo equivocado para justificar a mesma conclusão: a ideia de que a sinceridade de quem adora santifica aquilo que ele escolhe oferecer a Deus, apoiada numa leitura solta de Tito 1:15, “todas as coisas são puras para os puros”. O contexto imediato do texto, porém, trata da polêmica de Paulo contra mestres judaizantes em Creta (Tito 1:10-14), não de elementos de adoração, e a Escritura em nenhum lugar atribui ao adorador a autoridade de tornar santo aquilo que decide trazer a Deus: Nadabe e Abiú morreram por oferecerem “fogo estranho”, semelhante ao prescrito, mas não idêntico a ele (Levítico 10:1-2), e a oferta de Caim foi rejeitada sem que o texto a acuse de insinceridade (Gênesis 4:3-5). Quem santifica um elemento de adoração é Deus, não a boa intenção de quem o escolhe; do contrário, seria o próprio adorador, e não o Criador, quem decidiria o que Lhe é aceitável.

Merece registro, ainda, que o próprio Paulo, ao instruir aos efésios e colossenses sobre o cântico na igreja, não abençoa indiscriminadamente qualquer forma musical de seu tempo: ele especifica claramente “salmos… hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5:19; Colossenses 3:16), categorias que, por definição, já deixam de fora parte da produção musical secular contemporânea a ele. Isto não equivale a reconstruir hoje, texto a texto, qual gênero antigo corresponderia a cada categoria paulina, tarefa que ultrapassa o escopo deste capítulo; equivale, porém, a reconhecer que a afirmação “Deus ama todos os tipos de música porque ele inventou todas” carece do mesmo cuidado que o apóstolo teve ao especificar, e não generalizar, o que cabe no cântico da igreja.

Isto não devolve ao debate cristão sobre música um “estilo bíblico” que Warren corretamente descartou, nem estabelece aqui uma lista do que é ou não apropriado, questão que ultrapassa o escopo deste capítulo. Estabelece, porém, algo mais modesto e igualmente ausente do texto de Warren: que a pergunta legítima diante de qualquer forma musical não é apenas “isto reflete genuinamente minha personalidade?”, mas também “isto eleva o pensamento a Deus, ou o distrai dele, seja pela excitação sensorial, seja pela admiração ao próprio talento?” Reduzir toda a questão à primeira pergunta, como faz o capítulo, deixa sem resposta exatamente o tipo de discernimento que quem lidera música na igreja precisa exercer todas as semanas, e que a própria tradição adventista, ao tratar a música como dom que tanto pode edificar quanto distrair, nunca considerou uma questão apenas de gosto pessoal, indiferente a Deus.

O sábado como treino da adoração contínua

Warren tem razão ao rejeitar a ideia de que adoração se resume à música de domingo de manhã, e ao afirmar que ela deveria permear toda a vida, do trabalho ao lazer. O capítulo, porém, não menciona uma única vez o sábado, já apresentado nesta série (Dia 1) como o memorial semanal da criação. Aqui a lacuna aparece sob um ângulo diferente: não se trata apenas de ancorar a doutrina da criação no calendário, mas de sustentar, na prática, a própria ideia de que toda a vida deveria ser adoração.

Para o adventismo, o sábado (Êxodo 20:8-11) não compete com essa ideia; é o que lhe dá ritmo e sustentação concretos. Um dia inteiro, a cada sete, reservado sem concorrência de outras tarefas, funciona como o momento em que a pessoa pratica, de forma concentrada, aquilo que os outros seis dias deveriam refletir de forma diluída. Sem esse ponto de ancoragem semanal, concreto, marcado no calendário e guardado em comunidade, a ideia de “adoração como estilo de vida” corre o risco de permanecer bonita no papel e ausente na prática, exatamente o tipo de intenção sincera que a correria do cotidiano tende a engolir sem nenhum lembrete regular a fim de resistir a ela.

O cardápio também incluído em 1 Coríntios 10:31

Convém notar que o próprio Warren cite o texto mais usado pela teologia adventista a fim de justificar a mordomia da saúde, “quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31), mas o aplique de forma inteiramente diferente: como prova de que qualquer atividade, feita com a atitude certa, vira adoração, presumindo que a atitude interior baste por si só, sem qualquer atenção ao conteúdo do que se come ou bebe.

Já vimos, no Dia 7 desta série, que a lista dos cinco propósitos do livro deixa de fora a mordomia do corpo. Aqui a lacuna se repete de forma ainda mais concreta, uma vez que desta vez o próprio texto que fundamenta essa mordomia já está citado no capítulo, apenas lido em outra chave. Para o adventismo, dedicar a Deus o ato de comer e beber não é somente uma questão de atitude interior enquanto se come qualquer coisa, mas também uma questão do que, de fato, se põe à mesa (1 Coríntios 6:19,20). Um leitor pode aprender corretamente, com este capítulo, a orar antes das refeições e a comer com gratidão consciente, e ainda assim nunca considerar que o próprio cardápio também está incluído nesse mesmo chamado.


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