Adoração e o Princípio Sola Scriptura

A Adoração — 16 de junho de 2015 05:00

por: Pr. John Macarthur Jr.

O comediante Flip Wilson tinha em seu repertório um tipo chamado Reverendo Leroy que pastoreava “A Igreja do que está Acontecendo Agora”. No início dos anos 70 o Reverendo Leroy e a sua igreja era uma paródia ultrajante. Mas, verdadeiramente, a comunidade evangélica destes dias está repleta de Reverendos Leroys e igrejas que poderiam ser chamadas de “A Igreja do que está Acontecendo Agora”.

Não há quase nenhum limite que esteja muito longe para algumas igrejas serem "contemporâneas" nos seus cultos de adoração. E nada, ao que parece, é muito profano ou muito ultrajante para ser usado na "adoração.".

A revista Los Angeles Times fez recentemente uma reportagem com uma igreja luterana no Sul da Califórnia que distribui folhetos de propaganda no serviço da igreja como o “País de Deus da Hora Feliz”. Os folhetos prometem "programa de dança na adoração". De acordo com o artigo da revista, o pastor está dançando também, com botas e calças jeans de vaqueiro. O pastor acredita que a campanha revitalizará a sua igreja. O artigo descreve uma manhã de domingo na igreja:

Os membros ouvem sermões cujos tópicos incluem a pickup Ford dos anos 70 do pastor, e sexo cristão (classificado como R de "relevância, respeito, e relação", diz [o pastor], "e tudo mais que soe divertido"). Depois do culto, eles dançam sob o som de uma banda chamada Os Anjos do Cabaré.

A freqüência aos cultos tem crescido continuamente. Você poderia pensar que tal cena é somente uma aberração de uma igreja ruim. Infelizmente, isso não é o caso. As teorias atuais de crescimento da igreja têm aberto uma porta larga para tais farsas.

Circo

Veja Barnum e Barley se apresentarem como mágicos do grande circo que vem para a Comunhão com Excitação! Palhaços! Acróbatas! Animais! Pipoca! Isso que é uma grande noite!

Esta mesma igreja teve o pessoal do seu ministério vestido com roupas de luta livre durante um culto de domingo, até mesmo trouxeram profissionais da luta para treinarem os pastores num ring, puxando cabelos e dando ponta pés nas canelas sem ferir um ao outro. Novamente, estes não são incidentes realmente extraordinários. Inúmeras igrejas estão seguindo métodos semelhantes, empregando todo os meios disponíveis para animarem seus cultos.

Claramente, a adoração de domingo está sofrendo uma revolução que não tem nenhum paralelo em qualquer época da história da igreja.

Verdadeira Adoração

Alguns anos atrás enquanto pregava o evangelho de João, fui golpeado pela profundidade do significado de João 4:23: "Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.”. Eu vi tão claramente como jamais tinha visto antes, as implicações daquela frase, "adoração. . . em espírito e em verdade." A frase sugere, em primeiro lugar, que a verdadeira adoração envolve tanto o intelecto quanto as emoções. Sublinha a verdade que a adoração está focalizada em Deus, não no adorador. O contexto também revela que Jesus estava dizendo que a verdadeira adoração é mais uma questão de substância do que de forma. E Ele estava ensinando que a adoração engloba o que nós fazemos em nossa vida, não apenas o que nós fazemos no lugar formal de adoração.

O estudo sobre adoração me afetou tão profundamente como nunca havia ocorrido antes no preparo de meus sermões anteriores. Mudei para sempre minha perspectiva quanto ao significado do que seja adorar.

Aquelas séries de estudos sobre adoração também assinalaram o começo de uma nova fase para nossa igreja. Nossa adoração assumiu uma profundidade e uma nova e completa significação. As pessoas começaram a ficar conscientes que cada aspecto do culto da igreja – a música, a oração, a pregação, e até mesmo as ofertas – é adoração feita a Deus. Eles começaram a olhar para as superficialidades como uma afronta para um Deus santo. Eles viram a adoração como a atividade de participantes; não como um show para espectadores. Muitos perceberam pela primeira vez que a adoração é a prioridade fundamental da igreja – não relações públicas, não recreação e atividades sociais – mas adoração a Deus.

Além disso, como nossa congregação começou a pensar mais seriamente do que antes sobre adoração, nós fomos continuamente ao único manual de adoração seguro e suficiente, a Bíblia. Se Deus deseja adoração em espírito e em verdade, então seguramente todos os verdadeiros adoradores têm que ajustar sua adoração com a verdade que Ele revelou. Se adoração é algo par ser oferecido a Deus – e não um show feito para o agrado da congregação – então cada aspecto disto deve agradar a Deus e estar em harmonia com a sua Palavra. Assim o efeito de nossa ênfase renovada em adoração foi o que despertou nosso compromisso com o coração da Bíblia.

Sola Scriptura (Somente a Escritura)

Alguns anos depois destas séries de estudos sobre adoração, eu preguei o Salmo 19. Era como se eu visse pela primeira vez o poder do que o salmista estava dizendo sobre a suficiência absoluta da Bíblia:

“A lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos, e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido, e permanece para sempre ; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar há grande recompensa.” (Salmos 19:7-11).

O ponto central desta passagem é, bastante simples, que a Bíblia é completamente suficiente para satisfazer toda necessidade da alma humana. Sugere que toda a verdade espiritual essencial está contida na Palavra de Deus. Pense sobre isto: A verdade da Bíblia pode restaurar a alma arruinada pelo pecado, confere sabedoria espiritual, alegra o coração abatido, e traz esclarecimento espiritual. Em outras palavras, a Bíblia resume tudo o que nós precisamos saber sobre verdade e justiça. Ou, como o apóstolo Paulo escreveu, a Bíblia pode nos equipar para toda boa obra (II Timóteo 3:17).

Aquelas séries de estudos no Salmo 19 marcaram outro momento decisivo na vida de nossa igreja. Trouxe-nos cara a cara com o princípio dos Reformistas do Sola Scriptura – Somente a Escritura. Em uma era em que muitos evangélicos parecem estar virando uma massa em perícias mundanas nas áreas de psicologia, negócios, política, relações públicas, e entretenimento, nós estávamos voltando para a Bíblia como a única fonte que nós podemos usar para a verdade espiritual infalível. Isso teve um impacto em todo aspecto da vida de nossa igreja – inclusive nossa adoração.

A Suficiência da Bíblia como um Princípio para Regular a Adoração

Como a suficiência da Bíblia é aplicada na adoração? Os Reformistas responderam a esta pergunta aplicando Sola Scriptura à adoração em uma doutrina que eles chamavam de Princípio Regulativo. João Calvino foi um dos primeiros em articular isto de forma concentrada: "Nós podemos não adotar qualquer dispositivo [em nossa adoração] que parece estar ajustado a nós mesmos, mas olhar as suas imposições para aqueles aos quais está prescrito. Então, se nós tivéssemos que aprová-lo para nossa adoração, esta regra deve ser cumprida em todos os lugares com exatidão extrema, e deve ser observada cuidadosamente. … Deus não aprova todos os modos de adoração não expressamente sancionados em sua Palavra".

Calvino apoiou aquele princípio com vários textos bíblicos, incluindo I Samuel 15:22: “obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor do que a gordura de carneiros."; e Mateus 15:9: "em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.".

Um contemporâneo inglês de Calvino, John Hooper, declarou o mesmo princípio deste modo: "Nada deveria ser usado na Igreja que não tenha apoio na Palavra expressa de Deus, ou caso contrário é uma coisa indiferente em si mesma que não traz nenhum benefício quando feita ou usada, e nenhum dano quando não é feita ou omitida.".

No décimo nono século a igreja escocesa, através do historiador William Cunningham definiu o Princípio Regulativo nestes termos: "Não é justificado e legal introduzir no governo e adoração da igreja qualquer coisa que não tem a sanção positiva da Bíblia.”.

Os Reformistas e Puritanos aplicaram o Princípio Regulativo contra vestimentas rituais, sacerdotais formais, hierarquia de igreja, e outras formas de adoração católica romana medieval. O Princípio Regulativo foi citado freqüentemente, por exemplo, pelos Reformistas ingleses que se opuseram aos elementos do alto Anglicanismo que tinha sido emprestado da tradição católica. Foi o compromisso dos Puritanos ao Princípio Regulativo que causou a expulsão de centenas de pastores de seus púlpitos pelo decreto da Igreja da Inglaterra em 1662.

Além disso, a simplicidade de formas de adoração em tradições evangélicas Presbiterianas, Batistas, Congregacionais, e outras é o resultado da aplicação do Princípio Regulativo.

Os evangélicos de hoje fariam bem em recuperar a confiança dos seus antepassados espirituais na Sola Scriptura para ser aplicado na igreja pelos seus líderes. Várias tendências prejudiciais que estão ganhando impulso nestes dias revelam que a confiança dos evangélicos está diminuindo na suficiência da Bíblia. Por um lado, há, como notamos, quase uma atmosfera circense em algumas igrejas onde estão sendo empregados métodos pragmáticos que tornam sem importância o que é santo para dar impulso à freqüência. Por outro lado, números crescentes de antigos evangélicos estão abandonando as formas simples de adoração em favor do formalismo das chamadas igrejas tradicionais. Alguns estão deixando até mesmo completamente o meio evangélico e estão alinhando com a Ortodoxia Oriental e com o Catolicismo Romano.

Enquanto isso, algumas igrejas abandonaram simplesmente toda objetividade, quando optam por um estilo de adoração que é turbulento, emocional, e destituído de qualquer senso racional. Talvez o mais falado movimento que está atualmente varrendo a cristandade é um fenômeno conhecido como o "Toronto Abençoando", onde congregações inteiras riem incontrolavelmente por nenhuma razão racional, latem como cachorros, rugem como leões, cacarejam como galinhas, ou saltam, correm, e têm convulsões. Eles vêem isto como uma evidência do poder que foi dado por Deus a eles.

Nenhuma destas tendências está sendo promovida por razões bíblicas sólidas. Ao contrário, seus adeptos citam argumentos pragmáticos, ou buscam apoio de textos de prova mal interpretados, revisionismo da história, ou tradição antiga. Esta é precisamente a tendência contra a qual os Reformistas lutaram.

Uma nova compreensão da Sola Scriptura – a suficiência da Escritura – deve nos encorajar a continuar reformando nossas igrejas, para regular nossa adoração de acordo com as diretrizes bíblicas, e desejar ser aqueles que adoram a Deus em espírito e verdade.

Aplicando a Sola Scriptura à Adoração

Perguntas práticas surgem imediatamente sobre como a Sola Scriptura deveria ser usada para regular a adoração. Alguém mostrará que ninguém melhor que Charles Spurgeon usou o Princípio Regulativo como regra para reger o uso de qualquer instrumento musical na adoração. Spurgeon recusou usar um órgão no Tabernáculo Metropolitano, porque ele cria não haver nenhuma autorização bíblica para música instrumental na adoração cristã. Certamente, há cristãos que igualmente hoje se opõem à música instrumental nos mesmos padrões. Em nossa igreja, porém, nós empregamos instrumentos de todos os tipos, do trompete à harpa (cf. Salmos 150).

Obviamente, nem tudo que o Princípio Regulativo afirma concorda em todos os detalhes sobre a forma como deveria ser aplicado. Alguns apontariam para diferenças em assuntos de prática e sugerem que o Princípio Regulativo inteiro é então insustentável. William Cunningham notou que os críticos do princípio tentam freqüentemente validar sua posição recorrendo à tática de redução e do absurdo.

"Os que repugnam este princípio, por qualquer causa, normalmente tentam nos colocar em dificuldades pondo uma construção muito estrita nisto, e dando-lhe uma aparência de absurdo. Mas, o princípio deve ser interpretado e deve ser explicado no exercício do bom senso. … Dificuldades e diferenças de opinião podem surgir sobre detalhes, até mesmo quando são trazidos ao julgamento do bom senso para ver se é sustentável a aplicação do princípio, mas isto não permite que qualquer padrão possa negar a validade do princípio em si mesmo."

Cunningham reconheceu que o Princípio Regulativo é usado freqüentemente para argumentar contra coisas que podem estar sendo vistas como relativamente sem importância, como "ritos e cerimônias, vestuários e órgãos, genuflexões", e outros adornos de adoração formal. Por causa disso, Cunningham disse que "alguns homens parecem pensar que isto faz parte da pequenez intrínseca das coisas". Muitos concluem então que esses que defendem o Princípio Regulativo assim procedem porque na verdade gostam de lutar com assuntos de pequena importância, como por exemplo, sobre a validade de se comemorar o natal ou não, de crentes usarem árvores de natal, etc.

Certamente ninguém deveria ter prazer em disputas sobre pontos secundários. É indubitavelmente verdade que o Princípio Regulativo foi abusado ocasionalmente deste modo. Uma obsessão por aplicar qualquer princípio até os detalhes menores pode se tornar facilmente uma forma destrutiva de legalismo.

Mas o princípio de Sola Scriptura como é aplicado à adoração é bastante valioso. O próprio princípio não é de jeito nenhum banal em si mesmo. Afinal de contas, o fracasso em aplicar o princípio com a prescrição bíblica à adoração foi o que mergulhou a igreja nas trevas e idolatria da Idade Média.

Eu não tenho nenhum interesse em acender um debate sobre instrumentos musicais, roupões pastorais, decorações de santuário, ou outros assuntos semelhantes. Os assuntos em que concentro minha preocupação sobre adoração contemporânea vão muito mais longe do que isso. Eles se dirigem para cada coração que pretende adorar em espírito e em verdade.

Minha preocupação é isto: o abandono da Sola Scriptura pela igreja atual como Princípio Regulativo tem aberto a igreja a abusos inimagináveis – inclusive igrejas com cultos de cabarés, com atmosfera de espetáculo de carnaval. Somente uma mais ampla e liberal aplicação do Princípio Regulativo teria um efeito corretivo em tal abuso.

Considere por um momento o que aconteceria à adoração pública se a igreja contemporânea levasse o Sola Scriptura a sério. Quatro diretrizes bíblicas para adoração viriam imediatamente à mente. Estas têm sido gravemente negligenciadas. Se restauradas trarão uma verdadeira e nova Reforma à adoração das igrejas modernas.

Pregação da Palavra

Na adoração pública, a pregação da Palavra deveria ter o primeiro lugar. Todas as instruções do Novo Testamento estão centradas nestas palavras de Paulo a Timóteo: "Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina (II Timóteo 4:2). Em outro lugar, Paulo resumiu o seu conselho ao jovem pastor: "Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.” (I Timóteo 4:13). Claramente, o ministério da Palavra estava no centro das responsabilidades pastorais de Timóteo.

Na igreja do Novo Testamento, as atividades da comunidade dos crentes estavam totalmente devotadas à "doutrina dos apóstolos, e na comunhão, no partir do pão e nas orações." (Atos 2:42). A pregação da Palavra era o centro de cada culto de adoração. Paulo pregou uma vez a uma congregação à meia-noite (Atos 20:7-8). O ministério da Palavra era uma parte crucial da vida da igreja que antes que qualquer homem pudesse ser qualificado para servir como um ancião, ele teria que provar que estava qualificado ensinando a Palavra (cf. I Timóteo 3:2; e II Timóteo 2:4).

O Apóstolo Paulo caracterizou a sua própria vocação deste modo: "da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus.” (Colossenses 1:25). Você pode ter certeza que pregar era a característica predominante em todo culto de adoração em que ele participou.

Muitas pessoas vêem a pregação e a adoração como duas coisas distintas no culto da igreja, como se a pregação nada tivesse a ver com a adoração, e vice versa. Mas isso é um conceito errôneo. O ministério da Palavra é a plataforma na qual toda genuína adoração é construída. Em seu [livro] Entre Dois Mundos, John Stott disse isto:

"Palavra e adoração pertencem indissoluvelmente um ao outro. Toda a adoração é uma resposta inteligente e amorosa à revelação de Deus, porque é a adoração do seu Nome. Então adoração aceitável é impossível sem pregação. Pela pregação fazemos conhecido o Nome de Deus, e adoração está louvando o Nome do Deus feito conhecido. Longe de ser uma intrusão estranha na adoração, a leitura e pregação da Palavra são realmente indispensáveis a ela. Os dois não podem ser se divorciados."

Pregar é um aspecto insubstituível de toda adoração pública. Na verdade, todo o culto da igreja deveria desenvolver-se em torno do ministério da Palavra. Tudo o mais é preparatório para isto, ou uma resposta à mensagem da Bíblia.

Quando é permitido que o drama, a música, comédia, ou outras atividades tomem o lugar da pregação da Palavra, a verdadeira adoração será prejudicada inevitavelmente. E quando a pregação é subjugada pela pompa e circunstância, a verdadeira adoração será também prejudicada. Observem isto na prática, quando ocorre no culto de suas igrejas, e veja se não é uma grande verdade o que acabamos de dizer. Um serviço de "adoração" sem o ministério da Palavra é de valor questionável. Além disso, uma "igreja" onde a Palavra de Deus não é regularmente e fielmente pregada não é nenhuma igreja verdadeira.

Edificação do Rebanho

A Bíblia afirma que o propósito dos dons espirituais visa à edificação de toda a igreja (Efésios 4:12; I Coríntios 14:12). Então todo o ministério no contexto da igreja deveria estar edificando o rebanho, não só provocando emoções.

Acima de tudo, o ministério deveria ser dirigido a estimular a adoração genuína. Fazer isto edificando. Isto está incluído na expressão "adoração. . . em espírito e em verdade.". Como destacamos anteriormente, a adoração deve envolver tanto o intelecto quanto as emoções. Por todos os meios a adoração deve ser fervorosa, sincera, e de coração. Mas o ponto é não estimular as emoções enquanto estiverem fora do domínio da mente. A verdadeira adoração funde o coração com a mente como resposta de pura adoração, baseada na verdade revelada na Palavra.

A música às vezes pode nos mover completamente pela beleza de seu som, mas tal sentimento não é nenhuma adoração. Música por si só, separada da verdade contida nas Escrituras, nem mesmo é um trampolim legítimo para a real adoração. Semelhantemente, uma história pungente pode estar tocando ou pode mexer conosco, mas a menos que a mensagem que carrega esteja fixada ao contexto da verdade bíblica, qualquer emoção que poderá produzir será inútil para conduzir à adoração genuína. Paixões despertadas não são necessariamente uma evidência que uma verdadeira adoração está acontecendo.

Adoração genuína é uma resposta à verdade divina. É apaixonante porque surge do nosso amor por Deus. Mas para ser verdadeira adoração também tem que surgir de uma correta compreensão da lei de Deus; da Sua justiça, da Sua misericórdia, do Seu Ser. A verdadeira adoração reconhece Deus como Ele se revelou na Sua Palavra e se expressa no desejo de obedecer essa Palavra, no amor e admiração que se tem por Ela e pelo que ela nos revela sobre a pessoa de Deus.

Por exemplo, sabemos que a Bíblia é a única fonte perfeitamente santa, toda poderosa, toda instrutiva, onipresente, de onde flui toda a bondade, clemência, verdade, sabedoria, poder, e salvação. Adoração significa atribuir glória a Deus por todas essas verdades. Significa adorá-lo pelo que Ele é, pelo que Ele fez, e pelo que Ele tem feito segundo tudo que prometeu na Palavra. Deve ser então uma resposta à verdade que Ele revelou sobre Ele. Tal adoração não pode cair num vazio. Isto é despertado e vitalizado pela verdade objetiva da Palavra.

Nem cerimônias rotineiras, nem mero entretenimento podem provocar tal adoração – nenhuma coisa como estas podem produzi-la. Assim, tais coisas não podem edificar. No melhor elas podem despertar as emoções. Mas isso não é nenhuma verdadeira adoração.

Honrar a Deus

Hebreu 12.28 diz: "retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor." Este verso fala da atitude com que nós deveríamos adorar. A palavra grega para "serviço" é latreuo que literalmente significa "adoração." O ponto é que a adoração deve ser feita reverentemente, que é o modo correto de honrar a Deus. Na verdade, a versão Autorizada traduz isto desta forma: "tenhamos a graça conosco, por meio da qual nós possamos servir Deus aceitavelmente com reverência e santo temor" – e o verso seguinte acrescenta: "porque o nosso Deus é um fogo consumidor." (v. 29).

Não há certamente nenhum lugar na adoração pública da igreja para o tipo de atmosfera frívola, superficial e irrefletida que freqüentemente prevalece nas igrejas modernas que procuram ser "contextualizadas". O nome de Deus não pode ser honrado desta maneira. Trocar o culto de adoração por um espetáculo circense está muito longe do espírito de adoração bíblica "em reverência e temor".

"Reverência e temor" se refere a um senso de honra solene em que percebemos a majestade de Deus. Ambos demandam um senso da santidade de Deus e um senso de nosso próprio pecado. Tudo na adoração pública da igreja deveria apontar e nutrir uma tal atmosfera.

Por que uma igreja substituiria a pregação e a adoração com entretenimentos e comédias nos cultos do Dia do Senhor? Muitos que fizeram isto dizem que estão objetivando alcançar os não crentes. Querem criar um ambiente "amigável" que estará atraindo mais incrédulos. A meta declarada deles é "relevância" em lugar de "reverência." E os cultos deles são projetados para alcançar os incrédulos com o evangelho, não para os crentes ser reunirem para adoração e edificação. Mas é somente quando isto acontece que os incrédulos são alcançados efetivamente. (O G-12, por exemplo, coloca a relevância acima da reverência. Cria as células para objetivar apenas ao alcance dos incrédulos, e pouco prioriza a comunhão em amor entre os crentes em suas próprias igrejas). (…)

Certamente havia momentos em que os incrédulos poderiam entrar em uma assembléia de crentes (cf. I Coríntios 14:23). As reuniões da igreja do primeiro século eram reuniões essencialmente públicas, da mesma maneira que a maioria é hoje. Mas o culto em si mesmo era projetado para a adoração e comunhão entre os crentes. O evangelismo acontecia no contexto da vida cotidiana, como quando os crentes saíram para propagar o evangelho. Eles se reuniam para adoração e comunhão e se espalhavam para o evangelismo.

Quando uma igreja faz todas as suas reuniões serem encontros evangelísticos, os crentes perdem oportunidades para crescer, seja na edificação, seja na adoração.

Além disso, não há nenhuma autorização na Bíblia para adaptar os cultos semanais da igreja às preferências dos incrédulos. Realmente, a prática parece estar ao contrário do espírito de tudo o que a Bíblia diz sobre a assembléia dos crentes. (Aqui valem também as observações anteriores sobre o G-12, que adota tal prática).

Quando a igreja se reúne no Dia do Senhor não é nenhum tempo para ser perdido divertindo os irmãos, ou então para atender às "necessidades" para estimular a freqüência. Este dia deveria levar-nos a nos curvarmos diante do nosso Deus como uma congregação e honrá-lo com nossa adoração.

Não Colocar Nenhuma Confiança na Carne

Em Filipenses 3:3 o apóstolo Paulo caracteriza a adoração Cristã deste modo: "Nós é que somos a verdadeira circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e não confiamos na carne.".

Paulo vai testemunhar como ele veio a ver que o seu próprio legalismo farisaico pré-cristão era inútil. Ele descreve como esteve uma vez obcecado com assuntos externos, carnais, como circuncisão, linhagem, e obediência legal – ao ponto de ser o assunto mais importante que ocupava o seu coração. A conversão de Paulo na estrada de Damasco mudou tudo aquilo. Os olhos dele foram abertos à verdade gloriosa de justificação pela fé. Ele percebeu que o único modo que poderia estar de pé diante de Deus e ser aceito por Ele, seria estando vestido com a justiça de Cristo (v. 9). Ele aprendeu que somente obedecendo os ritos religiosos como a circuncisão e demais cerimônias – não havia qualquer valor espiritual em tudo isso para a justificação. E a própria Bíblia não apresenta tal ensino, conforme veio a fazer o judaísmo: afirmar que o homem é justificado pela lei. Na realidade, Paulo rotulou essas coisas como lixo, ou mais literalmente, como "esterco" (v. 8).

Nestes dias, porém, quando a pessoa comum ouve falar de "adoração", normalmente são as coisas externas que estão em foco, como liturgia, cerimônia, música, gestos corporais e outras coisas formais semelhantes. Eu li o testemunho de um homem que deixou o Cristianismo evangélico e aderiu ao Catolicismo romano recentemente. Uma das razões principais que ele apresentou para abandonar o meio evangélico era que ele achou a liturgia católica romana "mais honrada". Como explicou, tornou-se aparente que o que ele quis dizer de fato era que o que Roma oferecia mais acessórios de ritualismo formal – queima de velas, genuflexões, sinais da cruz etc. Ele entendia essas coisas como adoração. Mas essas coisas não têm nada a ver com adoração genuína em espírito e em verdade. Na verdade, são invenções humanas, não prescritas pela Bíblia. São precisamente o tipo de dispositivos carnais que Paulo rotulou como "esterco", a saber, as invenções do judaísmo incorporadas à lei de Moisés.

A experiência e a história revelam que a tendência humana para acrescentar aparatos carnais à adoração que Deus prescreve é inacreditavelmente forte. Israel fez isto no Velho Testamento, culminando na religião dos fariseus. As religiões pagãs consistem de nada mais que ritual carnal. O fato que tais cerimônias são freqüentemente bonitas e comoventes não as torna verdadeira adoração. A Bíblia é clara ao afirmar que Deus condena todas as adições humanas ao que Ele determinou explicitamente (Mateus 15:9).

Nós que amamos a Palavra de Deus e cremos no princípio da Sola Scriptura devemos estar diligentemente em guarda contra tal tendência.

Adoração é a Principal Prioridade

Para Marta, preocupada e distraída com as tarefas de ser uma anfitriã, disse nosso Senhor: "Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas cousas. Entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só cousa: Maria, pois, escolheu a boa parte e esta não lhe será tirada.” (Lucas 10:41, 42). O ponto estava claro. Maria que se sentara aos pés de Jesus em adoração tinha escolhido a boa parte, que não poderia ser tirada dela. A adoração de Maria teve significação eterna, considerando que toda a atividade com que Marta se ocupou não significou nada além daquela tarde em particular.

Nosso Deus estava ensinando que a adoração é uma atividade essencial que tem que ter precedência sobre todas as demais atividades da vida. Primeiro gastar tempo na presença de Deus, e depois sair para fazer o que deve ser feito. E se isso é verdade em nossas vidas individuais, quanto mais peso nós deveríamos dar a isto no contexto da assembléia de crentes?

O mundo está cheio de religião falsa e superficial. Nós que amamos a Cristo e cremos que Sua Palavra é verdadeira não devemos ousar a acomodar nossa adoração aos estilos e preferências de um mundo de incrédulos. Ao contrário, temos que fazer disto nosso negócio, a saber, ser adoradores em espírito e em verdade. Nós devemos ser as pessoas que adoram no Espírito de Deus e se gloriam em Cristo Jesus e não colocam nenhuma confiança na carne. E fazer que, nós permitamos que somente a Escritura – Sola Scriptura – regule a nossa adoração.


Tradução e adaptação feitas pelo Pr. Silvio Dutra, do original em inglês, em domínio público


Fonte: Publicado originalmente em: http://www.poesias.omelhordaweb.com.br/index.php?cdPoesia=99953


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