O Louvor no Culto Cristão – Parte I

A Adoração — 3 de julho de 2012 20:52

por: Gilson Santos[*]

Parte I

Os Batistas e a Natureza da Plena Revelação em Cristo; A Histórica Ênfase da Igreja no Louvor a Cristo.

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as cousas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as cousas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.

Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firmes a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.

Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz. (Hebreus 1.1-4, 10.19-25, 13.15-16)

A Plenitude da Revelação em Cristo

A palavra portuguesa “revelar” deriva do latim revelo, e no texto bíblico é geralmente a tradução do termo hebraico Gâlâ e do termo grego apokalyptõ (substantivo apokalypsis), que corresponde a Gâlâ na Septuaginta e no Novo Testamento. As palavras Gâlâ, apokalyptõ e revelo expressam todas as mesma idéia – a de desvendar alguma coisa oculta, para que possa ser vista e conhecida conforme é.

A palavra “revelação” assume sentido técnico para expressar a manifestação que Deus faz de si mesmo. Na revelação, Deus faz-se conhecido dos homens na sua personalidade e nas suas relações. Deus quer que o homem o conheça; daí a razão de Ele se revelar. Portanto, a fonte e objeto de toda a revelação é o próprio Deus. O apóstolo João chama a Jesus Cristo de A Palavra (Logos) de Deus. À parte do Logos não há revelação.

Em um nível especial, a revelação se deu quando Deus entrou na esfera do homem e se revelou pessoalmente. Esta revelação especial culminou com a vinda de Jesus em carne. Jesus Cristo frisou bem esta verdade quando disse que veio revelar o Pai: “Quem me vê a mim, vê o Pai”. Os ensinos de Jesus eram a Palavra de Deus. Suas expressões eram expressões concretas da natureza celestial de seu Pai celestial na história. Por causa da natureza divina de Jesus e de sua relação com o Pai, os homens podem conhecer a Deus pessoalmente pela mediação dEle. Por meio de Jesus Cristo, a natureza e a vontade de Deus se expressam no nível da compreensão do homem. À parte da revelação que Deus fez de si mesmo e de sua natureza na pessoa de Jesus Cristo, a personalidade e a natureza de Deus permaneciam, em grande parte, escondida. O ponto culminante da revelação de Deus na história cristalizou-se, portanto, na encarnação, na morte e na ressurreição e ascensão de Jesus Cristo.

A encarnação está no âmago da revelação de Deus. Este método de encarnar a verdade foi escolhido por Deus para se revelar ao homem. O Senhor não queria tão somente revelar os seus pensamentos, senão também manifestar o seu Ser ao homem. Este método de encarnar a verdade numa pessoa divina se realizou em Jesus Cristo, que não só ensinou, mas também viveu a verdade toda a respeito de Deus. E esta revelação em Cristo foi completa, porque nEle e por meio dEle, Deus disse tudo quanto tinha que dizer (Colossenses 1.9; João 14.9). Tudo o que Deus pensa e sente a respeito do homem é instrumentalizado em Jesus Cristo. Ele é a Palavra final.

A Bíblia é produto da revelação e registro das relações especiais de Deus, particularmente com seu povo escolhido. Deus se manifestou primeiramente na vida e depois nas Escrituras. A Bíblia é o registro de uma revelação gradual e progressiva, dentro da trama histórica, e que tem seu centro e unidade em Jesus Cristo. A redenção está no interesse central da Bíblia. Esta revelação de Deus começa no Antigo Testamento, e alcançou seu objetivo final em Jesus Cristo.

A história da Igreja Cristã dá testemunho da resoluta insistência, por parte dos batistas, na consideração deste aspecto revelacional da fé cristã. Tenho escrito numa postagem anterior que “uma característica da teologia reformada é que ela é firmemente tanto pactual quanto revelacional. Todo crente reformado percebe que um dos seus desafios é confrontar-se com estes dois aspectos de sua fé bíblica, de uma maneira tal que a ênfase em um não acabe devorando o outro”.

Os reformados podem diferir quanto ao número das “dispensações” nas quais devem ser propriamente divididos os procedimentos de Deus com o homem desde a queda. Mas, conforme pode ser visto em suas confissões de fé, em geral eles concordam que estas “dispensações” são todas administrações de um e o mesmo Pacto da Graça. Ao tratar do Pacto da Graça (7.3), a Confissão Batista de 1689 declara: “Este pacto está revelado no evangelho: primeiramente, na promessa feita a Adão, de salvação pelo descendente da mulher; depois, por etapas sucessivas, até que sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”. Com esta afirmação da orgânica e temática unidade dos pactos, os reformados batistas assumem a verdade de que o caminho ou esquema da salvação tem sido um e o mesmo em todas as eras do mundo. As grandes promessas de todos os pactos são cumpridas em Cristo e no “Novo Pacto” (Efésios 2.12; João 1.14; Mateus 1.22-23). Todos os precedentes pactos foram típicos e preparatórios, e a salvação é pela promessa. Isto significa dizer que ela era pela graça, através da fé num Redentor que estava por vir. Sua eficácia para salvar dava-se apenas através do antecipado trabalho de Cristo (Hebreus 9.15).

Assim, há um propósito de redenção progressivamente revelado e um povo da redenção progressivamente revelado. Neste sentido, os reformados batistas têm resistido em limitar artificialmente o desenvolvimento do Pacto da Graça a meras mudanças em sua administração externa ou “sacramentos”, pois entendem que isto minimiza a diversidade dos procedimentos pactuais de Deus, e omite a progressão nas características da comunidade do pacto. A apresentação da Confissão Batista, com seu uso da idéia de progressiva revelação, nos parece prover um equilíbrio entre a unidade e a diversidade e uma abrangente perspectiva nos procedimentos pactuais de Deus.

Louvando a Cristo na Plenitude em que Foi Revelado

Certamente, esta atenção dispensada ao aspecto revelacional da fé bíblica conduz a algumas implicações para o caráter do culto cristão. Benjamin Keach (1640-1704), que integrou a primeira geração de batistas ingleses, muito refletiu sobre o louvor (incluindo o louvor com música) no culto cristão, e concluiu que cantar louvor a Deus é uma “santa ordenança” de Cristo, e que toda a Igreja em suas assembléias públicas (assim como os cristãos privativamente) deve cantar louvores a Deus “de acordo com a melhor luz que tiver recebido”.

Comentando o texto de Efésios 5.19, D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) escreve:

Geralmente se concorda que as palavras “o Senhor” se referem ao Senhor Jesus Cristo, como o apóstolo deixa claro no próximo versículo, onde diz: “Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. É importante lembrar que no Novo Testamento a expressão “o Senhor” geralmente equivale a Deus o Filho, não a Deus o Pai. E quando explicamos as palavras “salmos, e hinos, e cânticos espirituais” mostramos que estes são dirigidos especificamente ao Salvador, o Filho, a segunda pessoa da Trindade santa e bendita.

E então Lloyd-Jones nos convoca a considerar a Cristo em nossos cânticos: sua pessoa, sua glória, sua encarnação, sua vida na terra, seus ofícios. Alguns estudiosos identificam um cântico primitivo nas palavras de Paulo em I Timóteo 3.16:

Aquele que foi manifestado na carne
Foi justificado em espírito,
Contemplado por anjos,
Pregado entre os gentios,
Crido no mundo,
Recebido na glória.

E no último livro da Bíblia, o Apocalipse, encontramos o “Cântico da Redenção” ou “Cântico do Cordeiro”, entoado em Apocalipse 5:

Digno és de tomar o livro
e de abrir-lhes os selos,
porque foste morto e com o teu sangue
compraste para Deus
os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação
e para o nosso Deus os constituíste
reino e sacerdotes;
e reinarão sobre a terra
(9-10).

Digno é o Cordeiro que foi morto
de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força,
e honra, e glória, e louvor
(12).

Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro,
seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio
pelos séculos dos séculos
(13).

Num estilo literário considerado por alguns estudiosos como excelente, Plínio (62 a 140), que se tornou governador da província da Bitínia e do Ponto, na Ásia Menor (cerca de 112 d.C.) escreveu as suas cartas ao imperador Trajano. Ele informa que os cristãos costumavam reunir-se antes do amanhecer, entoavam um hino a Deus e a um homem chamado Cristo. E acrescenta: “com vozes intercaladas, uma após outra, hinos a Cristo, como a um deus”.

Abaixo, um texto da Liturgia Grega do século V, que hoje é geralmente cantado com a melodia Picardy, do século XVII:

Em Silêncio Toda Carne

Em silêncio toda carne, com temor e devoção,
Abandone, reverente, todo pensamento vão.
Nosso Deus à terra desce; tributai-lhe adoração!

Rei dos reis, da virgem filho, entre nós ele habitou.
Deus, em corpo e sangue humano, Deus, Senhor se humilhou,
Os seus filhos alimenta. Ele disse: “O pão eu sou.”

Vigilantes anjos voam ao redor do Criador
E, cobrindo as suas faces, sem cessar Lhe cantam louvor:
“Aleluia, aleluia! Ao supremo Deus, o Senhor!”

(Hinário Para Culto Cristão, nr. 89, tradução de João W. Faustini, 1960)


Notas:

[*] Como pode-se notar no título do presente artigo, suas colocações com respeito ao Louvor e Adoração estão inseridas no contexto Batista, portanto, no interior da tradição protestante, da qual os Adventistas também fazem parte. É por este motivo que os editores do Música Sacra e Adoração incluem em sua coleção este texto.

[1] D. Martyn Lloyd-Jones, Cantando ao Senhor. São Paulo: PES, 2004, 105 pp.

[2] H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro e São Paulo: ASTE e JUERP, 1983, 370 pp.

[3] John Makujina, Measuring the Music. Willow Street (PA): Old Paths Publications, 2002, 369 pp.

[4] Donald P. Hustad, A Música na Igreja. São Paulo: Vida Nova, 1991, 310 pp.

[5] Samuel E. Waldron, A Modern Exposition of the 1689 Baptist Confession of Faith. London: Evangelical Press, 1995, 490 pp.

[6] William L. Lumpkin, Baptist Confessions of Faith. Philadelphia: The Judson Press, 1959, 430 pp.


Fonte: Publicado originalmente em: http://www.gilsonsantos.com.br


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