Áudio na Igreja

por: Samuel Mattos

Introdução

Gostaria de conversar um pouco sobre um problema que muitas igrejas enfrentam na maioria de seus cultos o som. As reclamações são sempre as mesmas: “está muito alto, está muito baixo, não se entende nada do que se canta, que ruído é esse, o microfone está falhando, não funciona, etc.”.

O maior problema que verifico quando visito igrejas para avaliação de seu equipamento de som, é a falta de preparo das pessoas envolvidas na operação do som, dessas igrejas. Quero dizer que se não houver um mínimo de investimento nas pessoas que diretamente irão lidar com o equipamento, de nada adianta investimento em equipamento moderno e de qualidade. Costumo fazer a seguinte comparação; pode ser qualquer tipo de aeronave, um jato moderníssimo ou um teco-teco, se o piloto não estiver preparado o avião vai acabar caindo.

Existem hoje no mercado inúmeros cursos que preparam profissionais na área de operação de áudio, habilitando-os para executarem os trabalhos mínimos relacionados ao som da igreja; por isso sempre aconselho à liderança da igreja que, se possível, patrocine ao candidato a operador da igreja, um destes cursos.

Nosso propósito nesta coluna é ajudar aqueles que não tiveram acesso a nenhum destes cursos, ou que já têm conhecimento ou experiência na área, mas mesmo assim ainda encontram muita dúvida no dia a dia de seu ministério de operadores de som da igreja – sim, ministério: considero que esta pessoa, assim como os músicos, ministros de louvor, pregador, evangelista, deva ter este chamado para atuar nesta área.

Microfonia

Um dos maiores “males” que afligem o operador de som em qualquer ambiente, é a famosa microfonia, ou realimentação acústica.

A realimentação é um fenômeno eletro-acústico que ocorre devido a um desequilíbrio das freqüências que estão sendo projetadas num determinado ambiente.

A microfonia é identificada como um apito forte, que ocorre quando as ondas sonoras emitidas por um alto-falante são captadas e reamplificadas pelo microfone que as originou. Muitas vezes começa fraco e vai aumentado gradualmente até que uma das fontes sonoras seja interrompida. Sendo assim, temos: microfonia de graves que mais se parece com um apito de navio, a microfonia de médios, parecida com o som produzido por uma corneta, e a de agudos, a pior delas, pois atinge freqüências altas que podem até prejudicar a audição, se não for controlada a tempo.

Mas o que provoca a microfonia ? Como já disse, é um desequilíbrio, que ocorre quando há excesso de volume em uma determinada freqüência. Por exemplo; quando ligamos um microfone próximo de um alto falante, o som captado pelo microfone, percorre um caminho, ou seja, entra pelo microfone, vai para a mesa de som, que o pré-amplifica e envia para os amplificadores que os enviam para as caixas de som. Quando esse sinal sai pelo alto falante, uma boa parte dele é nova mente captada pelo microfone, criando assim um ciclo vicioso. Até ai tudo bem, pois esse ciclo é natural num sistema de reforço sonoro. Porém quando uma determinada freqüência – seja de graves, médios ou agudos – é excessiva, esse ciclo se tornará audível e crescente até que passe a ser ouvido e interferir na qualidade do sistema sonoro.

Uma maneira de amenizar este problema é evitando que os microfones fiquem posicionados de frente para o raio de emissão dos alto-falantes. Porém sabemos que a acústica do ambiente proporciona um ganho em determinadas freqüências, o que aumenta a possibilidade de causar microfonia.

Pretendemos mais adiante tratar da questão da acústica do ambiente, mas quero falar sobre o uso dos equalizadores que, são uma grande ferramenta no sentido de amenizar o problema da microfonia.

Equalizando

Como falamos no item anterior, hoje iremos falar sobre equalização. Porém antes, precisamos compreender que a aplicação do equalizador em um ambiente a ser sonorizado tem a ver principalmente com a resposta de freqüências que a acústica do ambiente tem.

Explicando, cada ambiente tem um som próprio, alguns ressaltam freqüências graves, outros médias e outras agudas. Aí entra esta ferramenta, que nos auxilia a corrigir os excessos que tanto prejudicam a boa audição nos ambientes onde vamos sonorizar.

Infelizmente, devido principalmente às comuns reduções de orçamento na hora de se projetar uma igreja, é normal que a construção final tenha gravíssimos problemas de acústica. Existem paliativos, como carpetes, cortinas grossas, até a colocação de material absorvente nas paredes com o intuito de se diminuir reverberações, ecos, e ressonâncias, e realmente em muitos casos, a colocação desses materiais consegue amenizar bastante esses problemas. Porém sempre será necessário fazer correções de freqüência, com o nosso equalizador.

São vários os tipos de equalizador, sendo shelving os mais comuns, paramétricos, encontrados em muitas mesas de som e gráficos. Através da análise acústica do ambiente, aplica-se o equalizador aumentando ou atenuando uma determinada freqüência.

Imaginemos um ambiente, onde através da análise acústica se observa que a região compreendida entre 200 Hz a 280 Hz, é muito audível, e que chega até a provocar ressonâncias e microfonias. O papel do equalizador neste caso é exatamente este, diminuir a freqüência que estão sobrando. Um princípio básico, se esta faltando uma freqüência acrescente, se esta sobrando, atenue-a com o equalizador.

Na realidade o que estamos fazendo é exatamente equilibrar os excessos ou a falta de freqüências . O ouvido humano com o tempo, tende a perder a sensibilidade nos extremos, ou seja, nos graves e agudos (é o famoso efeito loudness), levando muitos operadores a reforçar essas regiões; porém é exatamente na região dos médios que está localizada a voz humana e toda a parte de inteligibilidade.

Inteligibilidade

Conforme destaca o dicionário, essa palavra vem do adjetivo inteligível, que significa “compreender bem”. O ser humano é capaz de ouvir as freqüências compreendidas dentro do espectro de freqüências de 20Hz até 20Khz. Como entender isso?

Imagine um teclado de piano: o lado que fica totalmente à esquerda representaria os 20Hz ou os sons graves. No lado totalmente à direita ficam os 20 KHz, ou, os sons agudos, na parte central estão os sons médios.

Sendo assim, podemos dividir este espectro de freqüências em Graves, Médios e Agudos, que por sua vez vão subdividir-se em Médios Graves, Médios Médios e Médios Agudos. Observe que nesta subdivisão os Médios foram subdivididos em Médios Graves, Médios Médios e Médios Agudos. É exatamente nesta região que encontramos as freqüências que são melhor compreendidas pelo ouvido humano. A ciência descobriu que os cães e morcegos, por exemplo, ouvem freqüências muito acima de 20 KHz, enquanto que os elefantes e baleias podem produzir sons muito abaixo dos 20 Hz.

É muito comum verificarmos, em muitas equalizações, nas sonorizações de nossas igrejas, as regiões Médias normalmente muito atenuadas, e aí esta um grande problema, pois como já dissemos, nesta região está a maior parte das freqüências que nosso ouvido compreende melhor. Nesta região está a voz humana, e a maioria dos instrumentos que fazem a parte harmônica da música, como violão, guitarra, piano, sax, etc.

Cabe então ao operador, treinar o seu ouvido para perceber quais são as freqüências que devem ser destacadas, seja da voz ou dos instrumentos. Não esquecendo que a resposta (acústica) do ambiente pesa muito, sendo necessário então um equilíbrio de todos estes fatores.


Fonte: Samuel Mattos mantém um blog em http://www.samuel-mattos.blogspot.com/