Ouvindo “O Messias”, de Haendel

Grandes Obras da Música Sacra — 6 de maio de 2015 05:00

por: Rolando de Nassau

Uma das mais divulgadas peças da música erudita é o coro “Aleluia”. Por isso, é muito conhecido pelo cidadão comum (até mesmo pelo ateu) esse trecho do oratório religioso “Messias”. Com aquele coro, Haendel contribuiu grandemente para o louvor de Deus e o orgulho da Inglaterra; é um perfeito exemplo da maestria de Haendel.

Em 1732, com a produção de oratórios de um novo tipo, Haendel iniciou também uma nova fase em sua vida (ver: Christopher Hogwood, Haendel. London: Thames and Hudson, 1988).

Ao compor esta obra, Haendel teve uma sublime inspiração; ele confessou: “Pensei que estava vendo o Céu diante de mim” (ver: Julian Herbage, Messiah. London: Max Parrish, 1948).

Diferentemente de Johann Sebastian Bach (1685-1750), cuja “Paixão, segundo São Mateus” durante um século ficou esquecida pelos músicos da Alemanha, seu compatriota e contemporâneo Georg Friedrich Haendel (1685-1759) sempre viveu cercado pela fama. Aos 53 anos de idade, Haendel já era famoso: sinal do sucesso de sua carreira musical em Londres, foi a construção de uma estátua no parque de Vauxhall pelo escultor francês Louis François Roubiliac, que, em 1761, ergueu na Abadia de Westminster um monumento ao compositor recentemente falecido (ver: Tim Blanning, O triunfo da música. São Paulo: Cia. das Letras, 2011).

O oratório “Messias” estreou no “New Musick Hall”, em Dublin (Irlanda), num concerto beneficente, em 13 de abril de 1742 (OJB, 16 e 30 abr 1978).

Em Londres (Inglaterra), em 1743, a recepção a Haendel e ao seu novo oratório foi hostil; havia oposição à execução de música religiosa nos teatros; a obra só foi apreciada a partir de 1750 (ver: Edmond Lemaître, Guide de la Musique Sacrée – L’ âge baroque. Paris: Fayard, 1992). Até 1759, época da morte de Haendel, o oratório tinha sido apresentado 56 vezes. Além de óperas, Haendel compunha e executava obras religiosas, para um público voluntário de ouvintes, constituído de nobres e burgueses, que queriam assistir a um concerto musical. Em cada compasso, Haendel procurou obter a atenção do público pagante.

O povo inglês identificou-se com este oratório de Haendel, que dava a um tema sério (a glória do Messias) o esplendor de sua música, e à aspiração nacional (o desenvolvimento econômico e a expansão colonial) um motivo de orgulho (ver: Hans A. Neunzig, Uma nova música europeia. Bonn: Inter Nationes, 1985).

Em 1978 o Departamento de Música, que existia na estrutura da Convenção Batista Brasileira, publicou a partitura de canto do oratório. Na ocasião, escrevemos: “Agora, trechos … poderão ser executados. … Desejamos que … sejam cantados … pelos coros das igrejas batistas do Brasil”. No decurso de 40 anos (1956/1996) escrevemos oito artigos, sempre incentivando várias gerações de músicos e apreciadores de música sacra. Nisto, associamo-nos às palavras de Bernard Holland: “A arte religiosa opera sob o princípio de que Deus quer o melhor” (NYT, 13 dez 07).

A vitória de Jesus é celebrada pelo famoso coro “Aleluia”; depois de uma curta fanfarra, sustentada pelos trompetes e timbales, segue-se a exclamação do coro, no estilo do coral protestante.

A revista VEJA pretendeu orientar seus leitores em Brasília como escapar da folia (música popular) durante o Carnaval, mas não encontramos nenhuma matéria sobre como aproveitar o tempo ouvindo música erudita.

Desde 1956 temos o costume de ouvir o “Messias” durante o Carnaval, a Semana Santa ou o Natal. A primeira vez que ouvimos esse oratório, na íntegra, foi por meio de um disco LP, gravado em 1954, com o coro da Sociedade Coral de Huddersfield e a Orquestra de Liverpool, sob a regência de Malcolm Sargent, na residência do escultor Leonardo e da cantora lírica Eunice Lima Vianna da Cunha Lima (OJB, 13 set 1956). Na década de 90, passei aos CDs de Colin Davis e Neville Marriner.

Em 2006, a Music Critics Association votou as melhores gravações: em LP – Colin Davis (1966), Neville Marriner (1976) e Christopher Hogwood (1980); em CD – Andrew Davis (1990), Christopher Hogwood (1991), Colin Davis (1993), Neville Marriner (1995), Robert Shaw (2004) e Charles Mackerras (2006).

A primeira vez que esta coluna musical registrou a execução do coro “Aleluia” por uma instituição musical evangélica foi no primeiro concerto do Coral “Excelsior”, em 19 de novembro de 1951, regido por Guilherme Loureiro (OJB, 13 dez 1951).

Foi em 20 de novembro de 1954 que, pela primeira vez, ouvimos, numa igreja batista (a de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro), o trecho do “Messias”, no. 23, “Ele foi desprezado”, pela contralto Wilsênia Sales, e o de no. 24, “Sobre Sí caíram as nossas dores”, pelo coro, sob a regência de Heitor Argolo (OJB, 13 jan 55). Na época eram raros os trechos do oratório traduzidos para o português.

Em nossa modesta opinião, as interpretações do “Messias” deveriam satisfazer alguns requisitos referentes à capacitação dos intérpretes e algumas condições necessárias a um bom desempenho.

Para bem executar a partitura de Haendel, o regente deve discernir entre os estilos de uma performance convenientemente barroca; ele deve observar a urgência narrativa da obra e exigir a clareza nos solos vocais.

Os mais incisivos comentários da orquestra aparecem no acompanhamento das árias “O thou that tellest” (no. 9a) e “Rejoice greatly” (no. 18). Os instrumentistas devem parecer que respiram juntamente com os solistas vocais. O trompetista deve provar sua habilidade técnica no trecho “The trumpet”.

Nos trechos mais difíceis atribuídos ao coro, como, por exemplo, o de no. 28, “He trusted in God” (Ele confiou em Deus), em que o populacho de Jerusalém zomba de Jesus, o teor dramático surge no canto transparente dos coristas e na execução coerente da orquestra.

Os coristas, no trecho no. 4, “And the glory of the Lord shall be revealed (E a glória do Senhor será revelada), dão um caráter cadenciado e alegre à interpretação.

A soprano solista deve emitir um som delicado, especialmente nos limites superiores da voz. Na ária no. 18, “Rejoice greatly, o daughter of Zion!” (Regozija-te, grandemente, ó filha de Sião!), deve mostrar uma técnica ágil.

À voz da contralto solista, profunda e clara, por exemplo no trecho no. 9a, “O thou that tellest good tidings to Zion” (O tu que anuncias boas novas a Sião), não deve faltar energia.

O tenor solista deve evitar a aceleração da emissão vocal. No trecho no. 2, “Comfort ye, comfort ye my people” (Consolai o meu povo), quando se aproxima de passagens agitadas, deve cantar numa mistura de ternura e equilíbrio.

O baixo solista deve possuir um som robusto e uma emissão severa, numa ária algo deprimida, o trecho no. 48, “The trumpet shall sound” (A trombeta soará).

Nos coros, Haendel usou livremente sua considerável experiência, desenvolvida na música-de-igreja (“Laudate Pueri” e “Dixit Dominus”).

Enquanto os recitativos “accompagnato” desempenham um importante papel na descrição dos mais dramáticos momentos do oratório, às árias Haendel reservou uma nova função. Durante a década precedente (1731-1741), Haendel, gradualmente, abandonou a tradição operística italiana; ele se interessou pelos novos gêneros ingleses e deixou de depender dos hábitos das estrelas da ópera.

Então, criou-se o novo tipo de oratório inglês. No “Messias” encontramos as importantes árias “Rejoice greatly” e “The trumpet shall sound”, mas alteradas pelo próprio Haendel (ver: Donald Burrows, Haendel: Messiah. Cambridge: University Press, 1991).

Aos nossos amados leitores, recomendamos o livro de Donald Burrows e as gravações do King’s College de Cambridge (Stephen Cleobury), da Christ Church Cathedral de Oxford (Christoph Hogwood) e do “Monteverdi” (John Eliot Gardiner).


Fonte: Jornal O Batista, 03, Maio, 2015.


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