Desafios do Culto Latino-Americano

Especial Liturgia — 1 de novembro de 2013 03:00

por: Daniel Oscar Plenc

Que Pasó con el Culto en América Latina?“; esse é o sugestivo título de um livro escrito pelo pastor e teólogo peruano Miguel Ángel Palomino (Lima, Peru: Edições Puma, 2011).

Palomino se propõe explorar de modo crítico duas hipóteses: 1) O chamado Movimento de Renovação do Louvor contribui para o desaparecimento de fronteiras denominacionais, perda de identidade e fidelidade à igreja local, e contribui para a “migração religiosa”. 2) A forma do culto evangélico tem recebido o impacto da cultura midiática que afetou o sentido e a natureza do culto.

De acordo com Palomino, houve três correntes evangélicas que chegaram à América Latina: As igrejas de “transplante”, compostas por imigrantes europeus do século 19, que trouxeram a liturgia de seus países de origem e que paulatinamente foram se isolando. O movimento de fé, também do século 19, liderado por missionários ingleses e norteamericanos, com ênfase pietista, que girava em torno da Bíblia e desenvolvia um tipo de culto que incluía hinos, pregação e evangelização. O movimento pentecostal do início do século 20, que introduziu inovações no culto e na música. O autor acredita que a grande mudança ocorreu com o movimento de renovação do louvor, nos anos 80, iniciado com Marcos Witt, Juan Carlos Salinas e outros. A partir dali, predominou a uniformidade nos cultos e uma inclinação para adoração de entretenimento.

Mudanças

As mudanças no culto na América Latina são expostas por décadas: Década de 60: Culto tradicional, com uso da Bíblia e do hinário. O hinário marcou fronteiras e conferiu identidade denominacional. Então, iniciou-se a popularização dos corinhos. Esses corinhos foram incluídos nos hinários e os hinos tradicionais perderam vigência. Década de 70: Culto contemporâneo, influenciado por duas correntes: O movimento de renovação carismática e o nacionalismo provocado por governos militares. Autores locais e suas melodias ganharam espaço. Conjuntos musicais jovens substituíram os duetos, trios e quartetos. Os cultos se tornaram mais participativos, espontâneos, informais e longos. Prevaleceu a música moderna; bateria, contrabaixos e guitarras elétricas tomaram o lugar do órgão e do piano, gerando controvérsia nas igrejas.

Década de 80: Culto televisivo ou de entretenimento. Surgiu então a “igreja eletrônica”, cultos com formato televisivo e a “liturgia da mídia”, estruturada segundo padrões do mundo do espetáculo. As igrejas incorporaram maquiadores, designers, iluminadores e produtores, impondo-se dessa forma uma cultura de massas e a construção de megaigrejas. Década de 90: Culto renovado. Nesse período, aconteceu a “explosão” do louvor. Marcos Witt mudou a hinologia das igrejas e a forma de conduzir os cultos. Essa celebração centralizada no louvor foi situada acima da exposição da Palavra. Os “ministérios de louvor e adoração” geralmente eram integrados por jovens habilidosos na execução de instrumentos musicais e neófitos na vida e teologia cristãs. Essa prática foi chamada de “culto de celebração”, no qual desapareceu, em grande medida, a reverência.

O livro fala de quatro correntes do culto renovado: Louvor e adoração; sinais e prodígios; guerra espiritual; e evangelho da prosperidade. O povo vai a essa última modalidade de culto em busca de coisas extraordinárias. No culto renovado, há três atores: 1) O diretor do culto, que dirige o louvor; 2) o pregador, que continua sendo o ator principal, mas com a característica de comunicador ou motivador social. Ou seja, usa as Escrituras para transmitir ânimo e esperança, mas não quer ser profundo; opta por ser simples e informal. Deve ter habilidade para contar história, e carisma para fazer milagres e prodígios. Sua vestimenta deve ser jovem e informal. Durante os cultos renovados, há pessoas que experimentam o “riso santo”, caem no chão ou dançam. 3) Os “guerreiros de oração” compõem a equipe de apoio dos pastores. Atuam como intercessores, oram e atendem às pessoas que respondem aos apelos. O tempo em que agem costuma ser o fim do sermão.

Raízes protestantes

Diante desse cenário, Palomino compartilha uma preocupação pertinente: “Hoje, mais do que nunca, quando as igrejas estão sendo obrigadas a repensar sua espiritualidade, necessitamos ter bases bíblico-teológicas sólidas para sustentar nossas práticas no culto.” Ele vê também a necessidade de se olhar o passado protestante, já que os líderes renovados acreditam que Deus está levantando uma igreja sem fronteiras geográficas nem denominacionais. O tema não é simples, considerando que as igrejas pós-denominacionais são as que crescem mais rapidamente, enquanto as igrejas históricas estão declinando vertiginosamente. Atualmente, as igrejas tendem à homogeneização da liturgia.

Ao analisarmos as raízes protestantes, devemos nos lembrar de que o culto dos reformadores tinha quatro elementos importantes: Leitura e pregação da Palavra, orações faladas e cantadas, Santa Ceia e ofertas. A Palavra era o eixo principal. Havia entusiasmo pela leitura e pela pregação expositiva da Bíblia. As orações eram informais, a Santa Ceia voltou à sua simplicidade original, e as ofertas eram alçadas no fim do culto, como demonstração de amor cristão. Os puritanos procuraram voltar ao modelo do Novo Testamento, com duas exigências fundamentais: mais atenção à Palavra e mais reverência. Por sua vez, o pietismo e o evangelicalismo reagiram contra a ortodoxia das igrejas protestantes e se caracterizaram pela ênfase na conversão individual, pregação a grandes multidões, incorporação de hinos nos cultos e por um culto mais informal.

Palomino acredita que existe mudança de paradigma no culto evangélico da América Latina, ao mesmo tempo em que, ao estudar a evolução histórica do culto, vê que este se move em círculos: do tradicional para o contemporâneo, e deste ao renovado, para logo voltar ao começo.

Ao observar o culto no mundo pós–moderno, Palomino concorda com a ideia de que há uma volta à espiritualidade (não à religião sistematizada) e um retrocesso da secularização. As metanarrativas já não apelam, por causa da prevalência do relativismo, do pluralismo e da tolerância. Tudo isso afeta o culto. A religião é vista como bem de consumo e o culto como expressão dela. Mensagens doutrinárias são substituídas pelas experiências emocionais e sobrenaturais. O sermão foi descentralizado pela música, as coreografias, os fenômenos sobrenaturais e outros elementos.

Diálogo com Deus

O autor do livro recorre a exemplos de adoração do Antigo Testamento, como as festas judaicas e certas passagens como II Crônicas 5:2–7:6; Neemias 8:17 e os Salmos. No Novo Testamento, ele destaca certas palavras-chave para adoração. Tendo como base a Escritura, conclui que o louvor é mais uma resposta ao caráter e aos atos de Deus do que uma preparação para adorá-Lo. Também conclui que o louvor não depende das emoções nem está destinado a estimular sentimentos. Palomino lamenta que o culto atual prometa prosperidade, sucesso e outras coisas aos “consumidores religiosos”. Está convencido de que o culto-entretenimento é uma experiência manipuladora e emocional, em contraste com o autêntico louvor, que é uma resposta de exaltação a Deus. “Portanto, nossa adoração é uma resposta a esse Deus que tomou a iniciativa do relacionamento entre Ele e a igreja. O culto é o diálogo corporativo entre Deus e a congregação, mediante o qual nós falamos a Ele e também permitimos que Ele nos fale.”

No fim do livro, Palomino aborda as questões da música e da cultura. Sobre a primeira, ele afirma que, na Bíblia, a música responde aos atos salvadores de Deus. Admite que atualmente se discute o conceito de “música cristã” e que a música sempre provocou debate. Ao mesmo tempo, acredita ser ingênuo pensar que qualquer música serve para louvar a Deus. Há música excessivamente carregada de romantismo; e muitos artistas cristãos participam dos benefícios de uma indústria milionária de vendas de discos e materiais audiovisuais. Então, alerta para que as igrejas considerem o conteúdo de sua música e que os pastores trabalhem junto aos músicos, orientando-os a vincular música e teologia cristã. O livro menciona que os estilos de culto devem considerar a cultura do lugar, o meio ambiente no qual a igreja está inserida, a própria congregação, a reverência, o silêncio e a estética do templo/p>

Sem dúvida, as preocupações de Palomino são pertinentes e também nos dizem respeito. Portanto, devemos buscar sabedoria divina para administrar em nosso âmbito as questões relacionadas ao culto.


Daniel Oscar Plenc é professor de Teologia e diretor do Centro White de Pesquisa, na Universidade Adventista del Plata, Argentina


Fonte: Revista Ministério, julho/agosto 2013, pp. 31-32


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