Assombrados por Deus

Especial Liturgia — 31 de outubro de 2013 03:00

por: Diogo Cavalcanti

A palavra “reverência” não é estranha ao vocabulário do século 21. É jargão das celebridades, circula nos meios acadêmicos e de comunicação. Astros do cinema e dos gramados são reverenciados como verdadeiros ídolos. Aliás, os estádios cada vez mais têm se transformado em templos, os torcedores, em fiéis, e os uniformes, em mantos sagrados. Há verdadeira devoção por pessoas e coisas. Todos querem chegar mais perto, ocupar os primeiros assentos, ficar junto ao palco, à arena ou à tela, em expectativa reverente. E não ouse atrapalhar. Alguém vai pedir que você se cale e que, por favor, desligue o celular.

Igreja local, manhã de sábado. O nome santo do Deus criador e redentor é invocado. Dirigem-se os hinos mais belos e solenes, tradicionais ou contemporâneos. A Bíblia é aberta, e se espera interesse, participação, reverência, porém o que se vê muitas vezes é uma congregação dispersa. Crianças monopolizando os corredores, adultos conversando, idosos dormindo. Um zunido preenche o ar, alguns se incomodam, e as sementes da Palavra não encontram solo receptivo. Caem à beira do caminho, à beira do coração (Mateus 13:19).

Esse quadro pode ser explicado pelas transformações comportamentais e sociais da realidade urbana. O alucinante trânsito de pessoas, produtos e informações tem acelerado nossa rotina. Qualquer pessoa com um mínimo de responsabilidades é empurrada pelos compromissos e luta diariamente contra o implacável relógio. Isso não é uma realidade exclusiva das capitais. Em cidades do interior e até em ambientes rurais ou turísticos o fenômeno é perceptível. Em todo lugar, celulares, computadores e, mais recentemente, os tablets, competem por nossa atenção. Tudo isso tem causado uma série de impactos sobre a saúde. Síndrome da hiperatividade (TDAH), déficit de atenção e síndrome do pensamento acelerado são alguns dos distúrbios aos quais não estamos imunes.

Assim, é natural que levemos ao culto um coração perturbado e nossos ouvidos cansados de buzinas e toques de celular. Levamos nossa mente atulhada de informações absorvidas em todos os meios. Para se ter uma ideia do volume de informação que acumulamos diariamente, segundo o Global Information Center, da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, cada americano consome em média mais de 100 mil palavras e 34 gigabytes de informação por dia, em 20 diferentes fontes de informação. Isso equivale a assistir a 68 longa-metragens ou ler 34 mil livros de 200 páginas. [1]

Apesar de entendermos as dificuldades enfrentadas pelos membros de igreja e até pela liderança, incluindo pastores, um sinal amarelo deve ser aceso. Em vez de justificar nossas dificuldades de concentração e reflexão, precisamos desenvolver uma atitude de reverência exatamente para encontrar a paz de que necessitamos. Sem atitude reverente, pretensamente adoramos a Deus no templo, mas não descemos justificados para casa (Lucas 18:14). Como líderes, temos a responsabilidade de incentivar a reverência, que é muito mais do que um comportamento externo.

Dom da graça

É possível que a pessoa ou a igreja esteja em silêncio, mas sua reverência ainda assim seja vazia. O adorador pode até ser participativo, orando, cantando e pregando, porém, maquinalmente (Isaías 29:13). Um dos grandes problemas como líderes é que muitas vezes queremos lidar com a dimensão perceptível da agitação, quando a questão é mais profunda. Não adianta combatermos o ruído na igreja, quando o barulho no coração dos adoradores é ensurdecedor.

Antes de haver reverência dentro do templo-igreja, essa atitude deve existir no templo-pessoa (I Coríntios 6:19). A reverência logicamente se expressa em atos externos, mas brota de um coração que reconhece a distinção divina. Se o mundo emudece diante de líderes e celebridades, o adorador se prostra ante a Majestade. Neste aspecto, um espírito reverente é essencial tanto à salvação quanto à missão da igreja. As alianças e chamados proféticos ao longo da Bíblia foram marcados por uma manifestação de Deus, ou teofania. A teofania exercia a função crucial de impressionar olhos e corações com a realidade de Deus, Seu caráter e poder, como ilustra o episódio clássico de Isaías 6.

Depois do contato com o divino, as pessoas passavam a enxergar Deus e o mundo com outros olhos, assumindo uma atitude de reverência ao sublime Senhor. “A verdadeira reverência para com Deus é inspirada por um sentimento de Sua infinita grandeza e de Sua presença. Com esse sentimento do Invisível, todo coração deve ser profundamente impressionado.” [2] Assim, a reverência começa em Deus, como dom da Sua graça, que desperta uma resposta humana. Somente um coração convertido pode reverenciar a Deus. Demônios “creem e tremem” diante dEle (Tiago 2:19), mas não O reverenciam como Pai. Apontando para o apóstolo João, Ellen G. White destacou a reverência que nasce dessa ligação filial. [3] Somos Seus filhos, temos muito respeito pelo Senhor, por isso, O reverenciamos.

A reverência transcende as paredes da igreja. “Deus é Espírito, e é necessário que os Seus adoradores O adorem em espírito e em verdade” (João 4:24). Com essas palavras, Cristo deixou claro para a mulher samaritana que a adoração vai além do aspecto local, geográfico. Adoração reverente acontece não apenas em templos, mas em casas, nas ruas, no campo e na cidade. Reverência é algo que levamos conosco por onde andamos. É aquilo que praticamos durante a semana e que repetimos na igreja. Quando a adoração não ocorre num espírito de reverência, além de se esvaziar, ela se perverte. “Quando alguém falha em perceber a majestade do Deus criador, a fé pode facilmente se transformar em presunção, e a adoração torna-se autoglorificação.” [4] Cometemos irreverência (II Samuel 6:7) e apresentamos “fogo estranho” (Levítico 10:1,10). Não podemos ser complacentes com a irreverência, pois ela carrega uma dose de orgulho que espanta pecadores arrependidos. Aliás, o orgulho é a pior irreverência.

Conta-se a história de um notório pecador que foi excluído e proibido de entrar na igreja. Então, ele se queixou a Deus: “Eles não me deixam entrar, Senhor, porque sou pecador.” E Deus replicou: “Do que você está reclamando? Eles também não Me deixam entrar.” [5]

Assombro

Como já sabemos, há uma série de fatores envolvidos na questão da reverência, desde a estrutura familiar, passando pela educação, organização, sonoplastia, música, infraestrutura dos templos, vestuário, entre outros, que podem ser abordados posteriormente. São parte do problema e da solução, Porém, a questão crucial está no reconhecimento do Deus vivo, que tem íntima relação com nossa capacidade de nos assombrar.

O rabino Abraham Heschel refletiu sobre a questão do assombro. Muito antes de sua morte, Heschel sofreu um ataque cardíaco quase fatal. Debilitado, comentou com um amigo: “Sam, sou grato pela minha vida, por todos os momentos que vivi. Estou pronto para partir.” Após uma pausa, completou: “Sam, nunca pedi na minha vida sucesso, sabedoria, poder ou fama. Pedi assombro, e Ele me concedeu.” [6]

Perdemos o assombro diante de um pôr do sol, das gotas de chuva e do arco-íris que se forma depois dela. “Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo… Quanto mais sabemos sobre meteorologia, menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade… Que ignomínia – se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia – reduzida de teofania a mero incômodo.” [7]

Davi se assombrou com seu próprio nascimento e, por isso, louvou a Deus (Salmos 139:14, 15). Nossa artificialidade nos impede de perceber a grandeza de Deus. Precisamos mais do que nunca do colírio espiritual (Apocalipse 3:18) para nos maravilhar diante da majestade divina refletida em Suas obras e anunciada em Sua Palavra. Somente contemplando “como por espelho, a glória do Senhor” é que “somos transformados” (II Coríntios 3:18). E essa contemplação não ocorre sem que haja uma pausa. Apenas quando abrimos espaço para Deus em nossa agenda, podemos encontrar paz. Jesus fez isso numa época em que Ele e Seus discípulos “não tinham tempo nem para comer” (Marcos 6:31).

Precisamos desesperadamente redescobrir a reverência ao Senhor Deus. Não o emocionalismo e as expressões ensaiadas do show business gospel, mas uma atitude responsiva à grandeza de um Deus tremendo. Mais do que um comportamento no templo, precisamos adorar o Rei com o silêncio do coração. Devemos reverenciá-Lo no caminho até a igreja e ao sair dela. Precisamos redescobrir a importância das mínimas coisas, seres e pessoas que nos ligam a Ele. Assim, iremos à igreja para buscar, acima de tudo, Sua presença.


Referências:

  1. Pesquisa sobre consumo de informação: “How much information? 2009 Report on American Cosumers“. Disponível em UCSD – Global Information Industry Center (voltar)
  2. Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, p. 178. (voltar)
  3. ___________, Caminho a Cristo, p. 15. (voltar)
  4. Joseph Kidder, Adoração Autêntica (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1012), p. 36. (voltar)
  5. Brennam Manning, O Evangelho Maltrapilho (Niterói, RJ: Textus, 2005), p. 30. (voltar)
  6. Ibid., p. 89. (voltar)
  7. Ibid., p. 90. (voltar)

Diogo Cavalcanti é editor associado do Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, Casa Publicadora Brasileira


Fonte: Revista Ministério, julho/agosto 2013, pp. 28-30


Tags: