O Verdadeiro Culto

A Adoração — 6 de novembro de 2012 15:37

por: autor desconhecido [*]

Este breve estudo pretende acentuar a verdadeira natureza do culto e a absurdidade de querer adorar qualquer ídolo como representação do Deus verdadeiro, que é Espírito, e jamais pode ser representado por uma imagem.

Leituras Bíblicas: Êxodo 20:3-6; 25:8-9; João 4:23-24

Introdução

Quais são as condições do culto verdadeiro? Diz-nos Jesus que devemos adorar em espírito e em verdade. Primeiro, pois, deve o culto ser de caráter espiritual. “Deus é Espírito”, e no culto temos de reconhecer devidamente este fato. Certo, nenhum ídolo poderia reclamar ou receber adoração espiritual. Os que se chegam a Deus devem dÊle aproximar-se em espírito. Isto é, temos de chegar com o coração participando consciente e voluntariamente da comunhão espiritual. Prostrados de joelhos, reconhecemos nossa necessidade de purificação, e em oração e louvor também erguemos a alma a Deus. Devemos, também, adorar a Deus em verdade. Isto é, a forma e o objetivo de nossa adoração têm de estar em harmonia com o mandamento dAquele que é a Verdade, e nosso culto deve também ser a expressão de um coração verdadeiro, que goste de obedecer-Lhe e guardar Seus mandamentos.

Devemos notar a diferença entre o primeiro e o segundo mandamentos. Poderíamos destacar que o primeiro mandamento trata da questão de quem seja o verdadeiro Deus, e o segundo, da maneira em que deve ser adorado. Modo fácil de lembrar a distinção entre os dois mandamentos é observar que o primeiro trata do verdadeiro objeto da adoração; o segundo, do verdadeiro método de adoração.

O Espírito de Devoção

Leia João 4:24. O texto indica que devemos adorar a Deus em espírito e em verdade. A adoração que alguns apresentam perante um altar ou imagem — repetidas prostrações, fazer o sinal da cruz, e inclinando o corpo ao ser mencionada a palavra “Jesus”, ou levando velas acesas — é substituto do culto espiritual e, com efeito, deixa o adorador frio e insatisfeito.

O texto de Êxodo 25:8 e 9 declara: “E Me farão um santuário, e habitarei no meio deles.” Embora o Senhor proibisse a feitura de imagens para adoração, não proibiu Ele apropriados auxílios audiovisuais (gravuras, representações, etc.) para emprego em Seu serviço. O santuário e seu ritual eram altamente representativos. Nas ofertas ordenadas por Deus, assim como por símbolos apropriados, mediante o uso dos móveis e utensílios do santuário, eram ensinadas lições de importância divina, e especialmente relativas ao Messias prometido. As cortinas do tabernáculo tinham, bordadas no tecido, figuras de anjos, ilustrando a obra desses emissários divinos no tabernáculo celestial, assim como seu ministério entre os homens. Também havia dois anjos bordados em ouro, de asas estendidas, sobre o propiciatório. Não eram, porém, objeto de culto, mas, como as ilustrações em nossos livros e revistas, lembravam aos adoradores as lições divinas dos serviços associados ao santuário.

As Imagens São um Laço

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na Terra, nem nas águas de baixo da Terra.” (Êxodo 20:4 e 5. Ver também Deuteronômio 4:15-19).

O propósito deste mandamento é evitar, entre o povo de Deus, o culto de imagens, ou de qualquer semelhança pela qual quisesse o homem fazer uma tentativa de honrar a Deus sob a forma de alguma criatura, ou objeto. “Em cima nos céus” proíbe a adoração do Sol, da Lua e das estrelas; “em baixo na Terra”, a adoração de homens ou dos animais do campo; “nas águas de baixo da Terra”, os animais aquáticos. Todos esses, os israelitas tinham visto ser adorados no Egito. Os pagãos tinham achado necessário possuir seus deuses de alguma forma definida, que comunicasse uma impressão visível das idéias abstratas mantidas em relação aos vários atributos de suas divindades. Quase não havia quadrúpede, ave, peixe ou réptil que não fornecesse uma semelhança sob a qual adoravam algum deus ou espírito. O Senhor, por isso, enumerou em pormenores a obrigatoriedade desse mandamento.

Leia Isaías 44:9, 14, 16 e 17. Este trecho das Escrituras, que descreve de modo muito vivo e interessante a absurdez do culto das imagens, tem um comentário também muito expressivo de uma testemunha bem insuspeita — o Padre Antônio Vieira. Saboreemos esse trecho do grande clássico e orador sacro de três séculos atrás:

“Foi um homem ao mato, diz Isaías, (ou fosse escultor de ofício, ou imaginário de devoção). Levava o seu machado, ou a sua acha às costas; e o seu intento era ir buscar um madeiro, para fazer um ídolo. Olhou para os cedros, para as faias, para os pinhos, para os ciprestes; cortou donde lhe pareceu um tronco, e trouxe-o para casa. Partido o tronco em duas partes, ou em dois cepos, a um destes cepos meteu-lhe o machado, e a cunha; fendeu-o em achas; fêz fogo com elas; e aquentou-se, e cozinhou o que havia de comer. O outro cepo pôs-lhe a regra; lançou-lhe as linhas; desbastou-o: e tomando já o maço, e o escopro, já a goiva, e o buril , foi-o afeiçoando em forma humana. Alisou-lhe uma testa; rasgou-lhe uns olhos; afilou-lhe um nariz; abriu-lhe uma boca; ondeou-lhe uns cabelos ao rosto; e foi-lhe seguindo os ombros, os braços, as mãos, o peito, e o resto do corpo até os pés. E feito em tudo uma figura de homem, pô-lo sobre o altar, e adorou-o. Pasma Isaías da cegueira deste escultor; e eu também me admiro dos que fazem, o que êle fêz. Um cepo, conhecido por cepo, feito homem, e posto em lugar onde há de ser adorado? … Duas metades do mesmo tronco, uma ao fogo, outra ao altar? Se são dois cepos, por que os não haveis de tratar ambos como cepos? Mas que um cepo haja de ter a fortuna de cepo, e vá em achas ao fogo; e que o outro cepo, tão madeiro, tão tronco, tão informe e tão cepo como o outro, o haveis de fazer à força, homem, e lhe haveis de dar autoridade, respeito, adoração, Divindade? Dir-me-eis que este segundo cepo, que está muito feito; e que tem partes. Sim, tem; mas as que vós fizestes nele. Tem boca; porque vós lhe fizestes boca: tem olhos; porque vós lhe fizestes olhos: tem mãos e pés; porque vós lhe fizestes pés, e mãos. E senão dizei-lhe que ande com esses pés, ou obre com essas mãos, ou que fale com essa boca, ou que veja com esses olhos. Pois se tão cepo é agora, como era dantes; por que não vai também este para o fogo? Ou por que não vem também o outro para o altar? Há quem leve à Confissão estas desigualdades? Há quem se confesse dos que fêz, e dos que desfez? A um queimastes, a outro fizestes; e de ambos deveis restituição igualmente. Ao que queimastes; deveis restituição do mal, que lhe fizestes; ao que fizestes; deveis restituição dos males, que êle fizer. Fizestes-lhe olhos, não sendo capaz de ver ; restituireis os danos das suas cegueiras. Fizestes-lhe boca, não sendo capaz de falar; restituireis os danos de suas palavras. Fizestes-lhe mãos, não sendo capaz de obrar; restituireis os danos das suas omissões. Fizestes-lhe cabeça, não sendo capaz de juízo; restituireis os danos de seus desgovernos. Eis aqui o encargo de ter feituras. Então prezai-vos de poder fazer, e desfazer homens? Quanto melhor fora fazer consciência dos que fizestes, e dos que desfizestes! Deus tem duas ações, que reservou só para Si: criar, e predestinar. A ação de criar já os poderosos a têm tomado a Deus, fazendo criaturas de nada: a de predestinar também Lh’a vejo tomada neste caso: Um para o fogo, e outro para o altar . Basta que também haveis de ter precitos, e predestinados! Se fôstes precito (não sei de quem) fôstes mofino; haveis de arder: se fôstes seu predestinado, fôstes ditoso; haveis de reinar.” — Sermões de Ouro, págs. 74-77. (Série Clássica Brasileiro-Portuguêsa “Os Mestres da Língua“, Vol. 7, Edições Cultura, São Paulo.)

Apesar de um tanto antiquada a maneira de escrever, especialmente no que respeita a pontuação, como é belo, expressivo e atual, esse escrito do famoso jesuíta, chamado “o Crisóstomo português”, “uma das figuras primaciais da literatura portuguesa.” “O estilo dos sermões de Vieira é de extraordinário brilho. Nenhum escritor português se lhe pode comparar na riqueza e propriedade do vocabulário, na variedade das expressões.” — Dicionário Prático Ilustrado.

Por que será que a adoração de imagens tem tido tão estranho domínio sobre os homens? Mesmo hoje centenas de milhões de habitantes do mundo ainda são idolatras! Não será por causa da tendência de querer o homem ver o objeto da adoração, em vez de exercitar-se em adorar a Deus “em espírito e verdade” — sem a presença de um objeto que Lhe lembre a presença?

Antiga e Moderna Adoração de Imagens

“Fizeste imagens de homens” (Ezequiel 16:17). Ainda hoje líderes religiosos estão fazendo “imagens de homens.” E milhões de professos cristãos crêem que uma imagem de nosso Senhor Jesus Cristo, ao estarem na agonia da morte , produzirá tão poderosa impressão sobre o espírito do moribundo, que se justifica o uso devocional do crucifixo. A forma visível, dizem eles, desperta sagradas emoções, ao contemplarmos o que o Calvário custou a nosso Senhor, em tristezas e angústia, quando fez expiação por nossos pecados. Mas o crucifixo, assim, logo é investido de uma sacraticidade artificial, e perde a identificação com o Deus que ele pretende representar. Logo já não se consegue fazer orações senão em sua presença, e começa-se a sentir por ele uma reverência que é a própria substância da idolatria. Igualmente, a adoração passa a ser dirigida a um Cristo a morrer na cruz, mais do que ao Cristo vivo, à destra de Deus, no Céu, onde agora está agindo como nosso Mediador.


[*] – Nota: Os editores do Música Sacra e Adoração não localizaram informações acerca do autor deste artigo. Qualquer contribuição acerca desta informação será bem-vinda.


Fonte: Adaptado de um estudo publicado na Revista Adventista, maio de 1960, p. 16-18 Disponível em: http://www.revistaadventista.com.br

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