Culto da “Carne Santa”: Uma Cópia de Métodos

Artigos Diversos e Curiosidades Musicais — 4 de julho de 2012 23:20

por: Isaac Malheiros

Parte 2

A Conexão entre o Movimento Holiness e a Carne Santa

O Exército da Salvação nasceu numa época em que os reavivamentos de santidade eram extremamente fortes. O Exército da Salvação tem uma estreita ligação com o movimento “Holiness“, e é nítida a semelhança entre os cultos primitivos do Exército da Salvação, do movimento “Holiness” em geral, e o que ocorreu em Indiana. Mas a semelhança não fica apenas no estilo de culto, ela abrange também a teologia.

William Booth, fundador do Exército da Salvação, era um ministro metodista ordenado. [1] Sua denominação refletia o conceito de santificação das igrejas Metodista/Holiness. De um modo geral, as igrejas da linha Metodista/Holiness (como o Exército da Salvação) enfatizam a vida santa como sendo a evidência do enchimento do Espírito. Por outro lado, as igrejas Pentecostais vêem evidência do derramamento do Espírito no falar de línguas em êxtase (glossolalia). Mas todos concordam com a necessidade de uma “segunda bênção”: a inteira santificação, ou perfeição cristã. [2]

A Missão Cristã de William Booth, a missão original que deu origem ao Exército da Salvação, realizava cultos especiais chamados “Reuniões de Santidade” (Holiness Meetings), que incluía coisas como pessoas caindo no chão, permanecendo em estado de transe por horas, e finalmente se levantando tão transformadas pela alegria que elas não podiam fazer mais nada além de gritar e cantar em êxtase. O chão por vezes ficava lotado de homens e mulheres caídos, e os obreiros da Missão pegavam esses corpos e os levava para outras salas, assim a reunião poderia continuar sem distração. [3]

Em essência, era exatamente isso o que acontecia no culto da Carne Santa: uma experiência profunda que levava à santificação quase imediata. Essa experiência quase sempre envolvia manifestações emocionais e físicas.

O perfeccionismo da Carne Santa

Quando comparamos o conceito perfeccionista da Carne Santa com a ênfase na santidade e perfeição do movimento Holiness, vemos muitas similaridades. Mas é claro que a Carne Santa é um desenvolvimento dessas idéias perfeccionistas às últimas conseqüências.

As principais idéias da Carne Santa eram:

  1. que Jesus havia nascido com a natureza não-caída – com a natureza humana semelhante à que Adão possuía no Jardim do Éden antes da queda.
  2. Jesus havia passado por uma experiência no Jardim do Getsêmani e, aqueles que O seguiram em tal experiência podem possuir a natureza não-caída, como Jesus tinha (e que Adão tinha antes da queda), e que essa experiência possibilitaria a trasladação do indivíduo;
  3. Após tal experiência, que envolvia manifestações extáticas, o indivíduo, como Cristo, não seria mais pecador;
  4. Após a experiência do Jardim, eles veriam Cristo voltar.[4]

Em suma, a Carne Santa era um movimento de santidade radical, perfeccionista.[5] Quem não passasse pela “experiência do Jardim” era considerado “filho adotivo” e teria que passar pela morte para, então, “ir para o Céu pelo caminho sepulcral.” [6]

E, apoiando a sua teologia perfeccionista, o movimento da Carne Santa usava os mesmos métodos do movimento Holiness: emocionalismo e excitação. Para obter a tal “experiência do Jardim”, que supostamente concederia instantaneamente a natureza não-caída, as pessoas se ajuntavam em cultos com “longas orações, música instrumental alta e estranha, e sermões demorados, excitantes e histéricos. Eles eram orientados a buscar uma experiência por meio da demonstração exterior. Bumbos e pandeiros auxiliavam nesse objetivo.” [7]

Após descobrir esse pano-de-fundo, é extremamente ingênuo pensar que a histeria perfeccionista da Carne Santa foi uma invenção adventista “provocada pelos tambores”. A história mostra claramente as raízes do que aconteceu em Indiana: o ambiente perfeccionista gerado na América pelo movimento Metodista/Holiness. [*]

Perfeccionismo: um problema desde Wesley

O próprio Wesley, fundador do metodismo tradicional, teve que lidar com o perfeccionismo e seus excessos. Embora a religião “afetiva” de Wesley almejasse a perfeição, detratores viam seu foco no coração como uma receita para o caos. Nessa gravura satírica, feita por William Hogarth, chamada “Credulidade, Superstição e Fanatismo”, acima, um encontro metodista é retratado como um ninho para a sensualidade e irracionalidade.[8]

A linha teológica no metodismo do movimento “Holiness” defendia uma santificação inteira e instantânea, diferente da santificação dinâmica defendida por Wesley. Um dos grandes nomes desse perfeccionismo Holiness foi Phoebe Palmer, uma evangelista metodista e escritora que foi uma das fundadoras do movimento Holiness.

Como a campal da Carne Santa foi descrita como “uma cópia dos métodos do Exército da Salvação”, é importante dizer que William Booth, do Exército da Salvação, foi especialmente influenciado pelo ministério de Phoebe Palmer a partir dos anos 1840. Palmer ensinava um “caminho mais curto” para receber a inteira santificação e enfatizava a importância da “experiência” em detrimento da precisão teológica. [9]

Mas os ecos da influência Holiness no adventismo ultrapassam a campal de Indiana: Phoebe Palmer escreveu vários hinos, e alguns deles ainda estão no Hinário Adventista do Sétimo Dia: “Vigiai Cristãos” (HASD 126) e “Agora Posso Ver” (HASD 516). Sua filha, Phoebe Palmer Knapp, é co-autora do famoso “Bendita Segurança” (HASD 240). [10]

Fechando a conexão Holiness-Carne Santa

O movimento da Carne Santa é geralmente creditado a três nomes adventistas: Albion Fox Ballenger, S. S. Davis e R. S. Donnell. Conforme veremos a seguir, cada um deles apresenta uma ligação com os métodos ruidosos e a mensagem perfeccionista do movimento Holiness.

A Conexão “Ballenger” – Durante os anos 1890, Albion Fox Ballenger, um já renomado evangelista adventista, começou a enfatizar a importância do batismo com o Espírito Santo em sua mensagem “Recebei o Espírito Santo” que incluía uma forte ênfase na vitória sobre o pecado. Seu apelo invadiu campmeetings e reavivou igrejas.

Como destaca Arthur Patrick: “Sem dúvida isso refletia a preocupação do crescente movimento Holiness, bem como os interesses do pentecostalismo que estava nascendo nos Estados Unidos na época. Provavelmente, isso criou a estrutura efetiva dentro da qual uma específica implementação poderia ser tentada – o movimento da Carne Santa no Meio-Oeste Americano.” [11]

A mensagem perfeccionista de Ballenger era forte, ao estilo “tudo ou nada”. Veja como ele se pronunciou numa sessão da Conferência Geral de 1899:

“Irmão, eu tenho ido de Massachusetts à Califórnia, e desde o Canadá até o Texas, e tenho dito ao nosso povo: ou se purifica ou sai da igreja de Deus. Irmão, atrevo-me a fazer isso, eu ouso falar exatamente isso de modo claro para o meu povo, e graças ao Senhor, alguns estão a ficar limpos, e alguns estão saindo …. Devo ter uma igreja limpa para convidar as pessoas para ela, antes que eu esteja diante do povo para dar o alto clamor em toda sua glória …. Vamos começar a orar para que Deus limpe as aves impuras para fora da igreja, pois elas estragam o alto clamor …. O Senhor diz que não podemos ter o batismo do Espírito Santo até chegarmos a vitória sobre todo pecado que assedia.” [12]

A Conexão “Davis” – O pastor S. S. Davis foi um dos líderes do movimento da Carne Santa. Davis era filho de uma mãe metodista fervorosa e um pai batista veterano da Guerra Civil. Ele se converteu ao adventismo em 1886, aos 32 anos de idade. Em 1895 ele foi ordenado ministro adventista e começou um ministério comunitário chamado “Missão Mão Ajudadora” (Helping Hand Mission) em Evansville, Indiana. Essa missão consistia em distribuir comida e roupas, bem como dirigir cultos e dar estudos bíblicos, um método semelhante ao do Exército da Salvação: assistência social e pregação. [13]

Existem duas grandes influências que moldaram o pensamento e o ministério de S. S. Davis:

  1. as pregações de Albion Fox Ballenger, um famosos evangelista adventista da época, que enfatizavam a necessidade de ser “inteiramente sem pecado” para receber a plenitude do Espírito Santo.
  2. o contato que ele teve na época com a mensagem e os métodos fervorosos dos pentecostais.

Assim, impressionado por uma mensagem perfeccionista e influenciado pelo fervor dos pentecostais, Davis se tornou um evangelista e reavivalista na Associação de Indiana, sob a tutela do recém-eleito presidente R. S. Donnell.

A Conexão “Donnell” – A ligação do pastor R. S. Donnell com o movimento “Holiness” é mais clara: ele era o presidente da Associação Adventista de Indiana, e a sua enteada era esposa de um capitão do Exército da Salvação. [14]

Após essa contextualização, fica fácil entender por que Haskell identificou o que ocorreu na campal da Carne Santa com estas palavras: “seu esforço de reavivamento é simplesmente uma cópia fiel do método utilizado pelo Exército da Salvação.” [15]

No próximo artigo, conheceremos a música usada na Campal de Indiana.


Leia também:

Culto da “Carne Santa”: Uma Cópia de Métodos – Parte 1 : A Influência Holiness nas Campais.

Culto da “Carne Santa”: Uma Cópia de Métodos – Parte 3 : A Influência Holiness na Música.


Notas:

[1] O Exército da Salvação foi fundado em 1865, em Londres. Booth era um evangelista que desejava oferecer ajuda prática aos pobres e necessitados, além de pregar-lhes o Evangelho. Originalmente, seu ministério se chamava Missão Cristã, mas teve seu nome mudado para Exército da Salvação em 1878. (voltar)

[2] Para uma análise da relação entre o Exército da Salvação e o movimento “Holiness“, veja “The American Holiness Movement”, pg. 15. (voltar)

[3] Harold Begbie, Life of William Booth, Founder of the Salvation Army, vol. 1 (London: MacMillan and Co., Limited, 1920), p. 410-413. Para uma análise do perfeccionismo doExército da Salvação: http://www.lcoggt.org/history/samuel_brengle_and_the_developme.htm (voltar)

[4] Para mais detalhes, ver Arthur L. White, Ellen G. White: The Early Elmshaven Years, vol. 5, p. 108. (voltar)

[5] Curiosamente, era um movimento pré-lapsariano. Ironicamente, hoje, os adventistas perfeccionistas são, em sua esmagadora maioria, pós-lapsarianos. Aqui também há algo curioso: teologia diferente produzindo heresia igual. (voltar)

[6] Arthur L. White, The Early Elmshaven Year, vol. 5, p.108. (voltar)

[7] Ibid., p. 101. (voltar)

[8] Sobre isso, ver: http://www.comunidademetodista.com.br/johnwesley/ (voltar)

[9] Phoebe Palmer. “The Shorter Way.” Voices From the Heart (Grand Rapids, MI.: Eerdmans Press, 1987), p. 156-158. (voltar)

[10] Na verdade, existem vários hinos do movimento Holiness no Hinário Adventista, mas isso será analisado no próximo artigo. Eu imagino a decepção dos “adventistas históricos” e outros grupos puristas ao descobrirem que cantamos o repertório perfeccionista a mais de um século. (voltar)

[11] Arthur Patrick, “Later Adventist Worship, Ellen White and the Holy Spirit: Further Historical Perspectives”. http://www.sdanet.org/atissue/discern/flesh.htm (voltar)

[12] Ibid. (voltar)

[13] Kameron DeVasher, “Confronting a Crisis: the Holy Flesh movement in Adventism – part 1”. Adventist Review, Setembro de 2010. http://www.adventistreview.org (voltar)

[14] Arthur Patrick, “Later Adventist Worship, Ellen White and the Holy Spirit: Further Historical Perspectives”. http://www.sdanet.org/atissue/discern/flesh.htm (voltar)

[15] Carta 1, S. N. Haskell para Ellen White, 25 de Setembro de 1900. (voltar)


Notas dos editores do Música Sacra e Adoração:

[*] Por outro lado, também é extremamente ingênuo pensar que os tambores não desempenharam um papel preponderante em causar a excitação pretendida pela teologia do movimento Carne Santa. A teologia pode ter sido o motivo, mas o tambor e os outros instrumentos foram o método para conseguir o êxtase. (voltar)


Fonte: Publicado originalmente em: http://www.adoracaoadventista.com


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