Gosto Musical (3)

Artigos Diversos e Curiosidades Musicais — 11 de fevereiro de 2015 05:00

por: Rolando de Nassau

Como explicar que pessoas formadas em cursos superiores não sabem apreciar a música que cantam ou tocam? Por que instrumentistas tocam um trecho do "Lago dos Cisnes", música para balé, de Tschaikowsky, como interlúdio no culto? Por que um quarteto duplo canta um trecho da ópera "A Flauta Mágica" de Mozart, evocando Sarastro, personagem maçônico, antecedendo o sermão pastoral? Por que um conjunto vocal executa hinos em ritmo de "jazz", em substitui- cão ao canto coral consuetudinário? Por que um regente faz com que a congregação cante um hino, cuja música é baseada no quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven, com a agravante de usar um poema panteísta de Schiller? Por que um coro de igreja canta trechos de óperas de Wagner, Bizet, Offenbach e Haendel, como itens da Ordem de Culto? Todas essas aberrações são praticadas sob a alegação de satisfazer o gosto musical de cada um dos artistas (ver: Roberto Torres Hollanda, Culto – Celebração e Devoção, pp. 122-123. Rio de Janeiro: JUERP, 2007). Tudo isso ocorre quando esses músicos não deixam de ser meros aprendizes da técnica musical.

Na igreja, no templo e no culto, a noção de gosto musical é (e deve ser) diferente e mais ampla. A noção determina o conhecimento (consciência de que a obra musical é técnica e artisticamente apropriada ao culto), o sentimento (eficiência da obra musical para produzir emoções puras) e o discernimento (eficácia na separação entre o sacro e o profano) na escolha de uma obra musical a ser executada no templo durante o culto.

Para a infância e a adolescência da igreja, a execução musical é orientada por uma noção de gosto musical específica. Evidentemente, às crianças e aos adolescentes da igreja não devem ser oferecidos os estilos "funk", "rap" e "hip-hop", que são impingidos pelos apresentadores mundanos dos programas de rádio e televisão; os jovens devem ser poupados dos estilos "rock" e "heavy-metal" (ver: Roberto Torres Hollanda, op. cit., pp. 110, 123-125). Lamentávelmente, temos observado, até mesmo em igrejas "tradicionais", a penetração desses estilos de música profana popular, acompanhados de guitarra, saxofone, bateria e outros instrumentos de percussão, ilustrados por música coreografada, com o aval da liderança.

Para os adultos, o gosto musical, provavelmente contaminado desde a infância, adolescência e juventude, requer um trabalho educativo mais persistente do ministro ou diretor de música da igreja.

A noção é diferente porque é indispensável separar a música-de-culto e a música-de-entretenimento. Para realizar esta obra ciclópica, o ministro ou diretor de música não deve recorrer especialmente às pessoas formadas em cursos superiores, porque nem sempre sabem ouvir e apreciar a música apropriada.

Embora seja diferente, certos evangélicos estão alheios à melhor noção a ser usada em suas igrejas; consideram que a matéria é irrelevante para a convicção teológica; já não nos surpreendem, pois até questões doutrinárias, no passado firmemente defendidas por conceituados teólogos, são consideradas de menor importância.

Com certeza, é um risco deixar um artista sozinho no santuário do templo (no caso, artista pode ser um músico, um poeta, um arquiteto, um decorador, um escultor, um pintor, um fotógrafo, um sonoplasta etc.), nesta nossa época de relativismo cultural; para os pastores é um sério problema lidar com a diversidade de gostos.

No ambiente eclesiástico, gosto não é somente preferência, é também ação; o crente individual e a congregação agem, quando participam das escolhas, segundo as suas preferências musicais; quando um ministro de música é substituído, em seu impedimento logo se nota a preferência do substituto.

No templo e no culto, as escolhas de obras, estilos e instrumentos musicais afetam o próprio ambiente do culto. Às vezes, a execução musical demonstra se a igreja está ou não prestando um culto a Deus, se a congregação está coesa ou dividida no louvor. As diferentes peças são determinadas para execução durante o culto conforme as faixas etárias, as formações culturais e os níveis sociais dos membros da congregação, o que contraria a teologia do culto.

Gosto não é somente preferência (Salmo 137: 6b) e ação (Josué 24: 15); é sabor (Salmo 34: 9), é o tipo de música que atende ao caráter teocêntrico do culto e à natureza santa da congregação; não é a música "ao sabor da maré", a que está na moda dos cantores evangélicos que atuam na mídia; depois de uma canção popular ser executada mais de 50 vezes, as pessoas não pensam mais no significado da letra; elas cantam sem perceber o que estão falando.

No culto, o gosto musical dos dirigentes revela a qualidade da execução musical: se é realmente sacra, disfarçadamente profana ou impudentemente "kitsch". A qualidade sacra atesta a competência dos líderes; a qualidade profana, a sua falta de preparo para as funções que exercem no culto; o "kitsch" facilmente produz uma resposta calorosa e ruidosa do auditório, pois a música tem a natureza de um produto industrial (indústria do entretenimento) e satisfaz os requisitos do "marketing" para as massas consumidoras.

Quando um ministro de música, mesmo que seja tecnicamente formado (inclusive no exterior do país), leva algum coro de igreja a cantar, ou permite instrumentistas tocar obras de música profana, confere a si mesmo um atestado de incompetência (ver: OJB, 03 jul 2005, p. 4).

Coerentemente, tendo por aforismo "não existe nada sagrado", a respeito de gosto musical Rick Warren, no capítulo 15 de seu livro, confessa suas opiniões exclusivistas, por vezes contraditórias. Warren acha que ele deve identificar o estilo e combiná-lo com o tipo de pessoas da igreja; uma vez escolhido o estilo, direcionar a música da igreja e caracterizá-la de acordo com o público. Em conseqüência dessa noção, Warren usa (na comunidade "Saddleback") o estilo de música que a maioria das pessoas ouve no rádio: música agitada, com cadência forte; o "rock" é o estilo principal.

Temos ouvido pessoas dizerem que as igrejas evangélicas devem permitir o uso de guitarra, saxofone, atabaques, bateria e outros instrumentos de percussão em seus cultos, porque os jovens gostam. Se dependesse de nosso gosto musical, elas executariam música sacra erudita. Mas não se trata de agradar aos jovens ou aos idosos, às pessoas cultas ou às pessoas que ouvem os estilos mais difundidos pelo rádio e pela televisão.

Propomos uma noção muito diferente: em nossa opinião, o gosto da Igreja deve observar a música que melhor atende à teologia do culto, à seriedade, solenidade e reverência no ambiente de culto; é um gosto impessoal e objetivo, que não obedece às injunções pessoais e aos humores subjetivos, mas procura prestar culto em espírito e em verdade, discernindo entre o sacro e o profano, realizado com ordem e decoro.


Fonte: Publicado em "O Jornal Batista", 06 jul 08, p. 4.


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