Ellen White, A Música e os Tambores

A Forma da Adoração, Debate Sobre a Música na Igreja — 9 de janeiro de 2014 08:32

por: Gilberto Theiss

Quando entramos nos méritos das declarações de Ellen White a respeito de instrumentos de música, uma de suas citações usadas com mais frequência por aqueles que desejam admitir qualquer tipo de instrumento na adoração é a que encontramos em Testemunhos para a Igreja, v.9, página 144, afirmando que, “não nos devemos opor ao uso de instrumentos musicais em nossa obra”. Com regularidade, esta declaração de Ellen White tem ampliado as discussões sobre música na igreja e, especialmente, com relação à bonificação do uso de bateria. Aparentemente, esta declaração parece tornar irrelevante a diferença de sagrado ou profano na instrumentalidade, e, a objeção a qualquer tipo de instrumento parece ser incoerente e bizarra. Mas, para compreender esta citação de Ellen White, é necessário analisarmos 4 pontos fundamentais desta e também de outras declarações nas quais ela fez menção da música e dos instrumentos. Por que tirar proveito apenas de uma ilha quando temos um continente inteiro a ser explorado?

1º – “Não nos devemos opor ao uso de instrumentos”

Esta citação, na tradução para o português, originalmente inserida em Testemunhos Para a Igreja v. 9, página 144, também pode ser encontrada em Obreiros Evangélicos página 357, Mensagens aos Jovens, página 294, e em Evangelismo página 507. É curioso notar que, embora a tradução para a língua portuguesa no Testemuhos para a Igreja, v. 9, Obreiros Evangélicos e Mensagem aos Jovens descrevam “instrumentos musicais”, na língua original a citação descreve, “We are not to oppose the use of instrumental music in our work.”, ou seja,“não devemos nos opor ao uso de música instrumental”. Pode ser claramente observado que a tradução para o português, nestas publicações, não seguiu exatamente a correspondência do original. Embora essa tradução, em seu contexto correto, não traga implicações para o tema, percebemos que Ellen White não estava se referindo, neste ponto específico, a instrumentos em si, mas, à “música instrumental” como um todo. Nas figuras adiante temos cópias da versão na língua original de Testimonies for the Church volume 9 com o copyright de 1948 (Figura 1 e 2), publicado pela Pacific Press, e a (figura 3) que confirma a veracidade do conteúdo. Observe:


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O livro Evangelismo, que também cita em sua página 507 este mesmo trecho de Testemunhos para a Igreja, vol. 9 página 144, traz uma versão mais compatível com o original, “Não nos devemos opor ao uso da música instrumental em nossa obra.”, o que confirma cabalmente o argumento acima.

2º – Ellen White e a teologia sobre música

É necessário compreender que Ellen White jamais desenvolveu uma teologia sobre música, mas, em alguns momentos, suas declarações, orientações e observações vieram com o objetivo de ajudar a igreja em seus desacertos. Do ponto de vista puramente técnico, ela não era uma autoridade no assunto, especialmente por não ser uma musicista, mas, sua autonomia em falar da música refletia seu papel como mensageira do Senhor. No tempo de Davi, o profeta Natan também não era uma autoridade em música, mas, como já visto no capítulo 2, foi através dele que se iniciou uma reforma musical para a inauguração do templo. Em outras palavras, a revelação está acima do profissionalismo técnico.

Embora Ellen White tenha encorajado firmemente o uso de música instrumental em nossas reuniões e em nossa obra, no entanto, ela foi enfática ao afirmar que “é melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos musicais para” criar "uma balbúrdia de barulho" que “choca os sentidos e perverte” o culto. "O Espírito Santo nunca revela em tais métodos, em tal balbúrdia de ruído." [1] Através de seus conselhos, percebemos que existe certo tipo de música que é mais adequada para o palco, sendo completamente estranha ao contexto do culto. O uso forçado das técnicas vocais que enfatizam a sonoridade em detrimento da mensagem da letra, juntamente com gesticulações, além do som forte e alto de instrumentos que supera a voz da congregação, está fora de sintonia com a atmosfera de louvor e adoração do céu. [2] Para ela, a música cristã deve ser suave e pura [3], com tons claros e suaves [4], como melodias de pássaros [5], que não firam os ouvidos [6], que não possuam notas estridentes [7]. Deve ser harmoniosa e melodiosa [8], possuindo simplicidade em tom natural [9]. Deve ser alegre, porém solene [10], tendo a capacidade de erguer os pensamentos ao que é puro, nobre e edificante [11] e possa impressionar o coração com verdades espirituais [12], conduzindo à santidade [separação do mundo] [13] e afastando o cristão das coisas terrenas [14], não levando à união com o mundo e suas diversões [15]. Também não deve estimular as gesticulações e movimentos corporais [16], e as notas não devem ser longamente puxadas [17], nem deve haver confusão de vozes e nem dissonância [18]. As músicas no culto a Deus não devem ser do gênero das valsas frívolas[19], nem podem vir de canções petulantes que elogiam os homens [20] e nem ruidosas, vulgares, nem com entusiasmos exagerados [21], não causando idolatria ao cantor [22]. Também não devem ser semelhantes à música de salão de baile [23], nem do tipo que se adapta facilmente aos estilos de palco [24], ou que estimule a dança [25], ou ainda que inclua gritos, tambores e danças [26][27].

3º – Reprovação aos tambores

Ellen White anunciou através do ocorrido em 1900, em uma reunião campal em Indiana [28],que, pouco antes do fim do tempo da graça, na igreja haveria música barulhenta, com gritos, tambores e danças. A esse respeito escreveu: “Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança.Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo”[29].

É muito curioso atentar para o fato que no momento do louvor, em uma reunião em Indiana que envolvia membros e líderes, havia muitos instrumentos sendo usados, como “um órgão, um contrabaixo, três violinos, duas flautas, três tamborins, três trompas e um grande tambor”, conforme testemunhado por alguns e fraseado no relatório de Haskell [30]. Se havia tantos outros instrumentos fazendo parte do louvor naquele momento, porque Ellen White citou apenas os tambores em suas observações de coisas estranhas que ocorreram naquele louvor? Ela não citou nenhum outro instrumento, apenas os tambores. É evidente que, devido o destaque dado pela mensageira, havia algo de impróprio neste tipo de instrumento, pois se o problema fosse genérico, relacionado com a maneira de se usar todos os demais instrumentos, com certeza ela não destacaria de maneira explícita apenas este em suas considerações. Veja:

“O que você descreveu como tendo acontecido em Indiana, o Senhor revelou-me que haveria de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança” [31] (Grifos meus). Perceba que a música não é citada de maneira isolada, pois, os tambores, gritos e a dança estão associados ao tipo de música ali resultante. Ela cita quatro coisas que são completamente estranhas a um culto verdadeiro: gritos, tambores, música deturpada e danças. Nada disto pode haver em nossos cultos, sendo que, entre os instrumentos musicais, somente o tambor é citado de maneira específica. Porém o mais interessante é que ela profetizou que tal estranheza teria lugar novamente antes da terminação do tempo da graça em nosso meio. Pois assim afirmou a mensageira do Senhor, que: “Seria introduzida em nossas reuniões”. [32]

Portanto, em se tratando da revelação recebida e tendo como base o ocorrido em Indiana e os elementos destacados por Ellen White, classificados por ela como estranhos, é evidente que, por alguma razão, aquele tipo de música ritmada e dançante, gritos, tambores e danças não deveriam fazer parte da música e adoração a Deus. Com base nesta premissa, ela declara que “nenhuma animação deve ser dada a tal espécie de culto” [33], e que “Os que participam do suposto reavivamento recebem impressões que os levam ao sabor do vento.” [34]

Recebeu também orientações precisas de Deus para compreender que “O Espírito Santo nunca se revela por tais métodos, em tal balbúrdia de ruído. Isso é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificante verdade para este tempo” [35], e alerta que, “Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se poderá confiar neles quanto a decisões retas. E isso será chamado de operação do Espírito Santo” [36]. Interessante notar que a chocante afirmação “isso será chamado de operação do Espírito Santo” pode indicar que esta falsa concepção será massificada e defendida por muitos em nosso meio como sendo uma obra de Deus, pouco tempo antes do fechamento da porta da graça.

Lembro-me de uma mulher que certa feita afirmou, em um comentário durante uma visita minha a certa igreja, que as músicas do hinário adventistas estão destituídas de poder e que seria necessário produzir músicas mais fortes e rítmicas para tocarem em nossos corações, pois o mundo mudou e as músicas também precisam acompanhar estas mudanças. De fato o mundo tem passado por muitas mudanças, mas temos que ter em mente que quem realiza as mudanças é o inimigo das almas e não Deus.Muitos confundem essas estimulações,afirmando que a música tem que mexer, sacudir, criar estimulações para gerar poder. Mas, precisamos nos lembrar que não é o barulho que gera o poder. Ritmos elevados e músicas cheias de estimulações não fazem ninguém cheio do Espírito de Deus. O que torna uma pessoa cheia de poder é a fé munida de submissão plena. O que condiciona uma pessoa a ser cheia do Espírito Santo é a consagração e abandono decisivo do pecado. Não há nenhum problema em modernizar a música, no entanto, existe uma diferença grotesca entre modernizar e mundanizar.

Sobre as nuanças da estimulação, Ellen White pondera que "Se trabalharmos para criar excitação do sentimento, teremos tudo quanto queremos, e mais do que possivelmente podemos saber como manejar. […] Importa não considerar nossa obra em criar excitação. Unicamente o Espírito de Deus pode criar um entusiasmo são. Deixai que Deus opere, e ande o instrumento humano silenciosamente diante dEle, vigiando, esperando, orando, olhando a Jesus a todo momento, conduzido e controlado pelo precioso Espírito que é luz e vida” [37].

Eurydice Osterman expressou que “a motivação para adorar a Deus é gerada pelo amor. A verdadeira adoração vem do coração e do encontro pessoal com Ele sete dias por semana, não somente no dia da semana dedicado para reunião. Aquilo que alimentamos e nutrimos florescerá e crescerá. Quanto mais tempo passamos com Deus mais profundo é nosso amor e apreciação por Ele. Religião não é limitar-se a formas e cerimônias exteriores. A religião que vem de Deus é a única que leva a Ele. Para O servirmos devidamente, é mister nascermos do divino Espírito. Isso purificará o coração e renovará a mente, dando-nos nova capacidade para conhecer e amar a Deus.” [38]

Isto seria muito sério?

Observe cuidadosamente a força deste texto de Ellen White: “O Senhor mostrou-me que seriam introduzidos em nossas reuniões campais teorias e métodos errôneos, e que a história do passado se repetiria. Senti-me grandemente aflita. Fui instruída a dizer que, nessas demonstrações, acham-se presentes demônios em forma de homens, trabalhando com todo o engenho que Satanás pode empregar para tomar a verdade desagradável às pessoas sensatas; O inimigo estava procurando arranjar as coisas de maneira que as reuniões campais, que têm sido o meio de levar a verdade da terceira mensagem angélica perante as multidões, venha a perder sua força e influência. Assim busca Satanás pôr seu selo sobre a obra que Deus quer que se destaque em pureza. O Espírito Santo nada tem que ver com tal confusão de ruído e multidão de sons. Satanás opera entre a algazarra e a confusão de tal música, a qual , devidamente dirigida seria um louvor e glória para Deus. Ele torna seu efeito qual venenoso aguilhão da serpente.” [39] (Grifos meus). A serva do Senhor afirmou também que, “Essas coisas que aconteceram no passado hão de ocorrer no futuro. Satanás fará da música um laço…” [40]. O ocorrido em Indiana e as sérias ponderações de Ellen White, tendo como ponto de partida o tempo da mensageira, indicam uma série de acontecimentos que englobam o passado e o presente, mas sua ênfase parece focar um período um pouco distante de seu tempo, pois ela afirma que “o Senhor revelou-me que haviam de ter lugar imediatamente antes da terminação da graça” [41] (Grifos meus). A palavra “imediatamente” segundo a tradução na versão em português [42], também pode ser entendida como: em seguida, de imediato, sem detença, próximo, seguinte, instantaneamente, consecutivamente, diretamente, ou seja, sem nenhuma dúvida, que estes eventos estariam às portas da terminação da graça.

Outro ponto relevante a ser destacado é que esta solene advertência não se tratou de uma opinião pessoal de Ellen White, o que possibilitaria uma interpretação particular inserindo este acontecimento apenas para os seus dias e não para os dias finais distantes de seu tempo, pois, foi contundente em afirmar que “o Senhor revelou-me” [43]. Esta clara revelação não deixa dúvidas que se tratou de uma revelação sobrenatural e que a implicação da advertência tem relação direta com dias distantes aos de Ellen White. Se foi o “Senhor” quem revelou e mostrou tais eventos “imediatamente antes da terminação da graça”, então esta profecia tem a sua aplicação exatamente nos dias que previamente terminam a graça, e isto significa que as advertências possuem maior relevância para os nossos dias que para os dias de Ellen White, uma vez que estamos mais perto do fim da graça do que ela em seu tempo. Não significa que este ocorrido não tenha lugar nos dias dela, mas, que a ênfase da revelação era um período que quase culminará com a terminação da graça. Na versão inglesa, as palavras usadas por ela são “just before[44], que também significa: justamente antes, exatamente antes, verdadeiramente antes, logo antes, ou, na dianteira, [45] o que confirma a autenticidade da tradução para o português, se referindo aos dias mais próximos possíveis da terminação da graça.

Muitos escritores modernos e cientistas que não têm nenhum vínculo com a igreja, após cuidadoso estudo e pesquisa, têm afirmado que os tambores são elementos essenciais dos cultos pagãos, ensinando inclusive, que são as principais ferramentas para estabelecer “contato com o mundo dos espíritos [46]. Os defensores dos tambores geralmente desconhecem que Ellen White escreveu que “Esses [que estavam envolvidos com o movimento “carne santa”]…foram arrastados por um engano espírita” [47], e que “Fui instruída a dizer que, nessas demonstrações, acham-se presentes demônios em forma de homens […]” [48]. Ela ainda alerta com veemência que, “Coisa alguma há, mais ofensiva aos olhos de Deus, do que uma exibição de música instrumental, quando os que nela tomam parte não são consagrados, não estão fazendo em seu coração melodia para o SenhorNão temos tempo agora para gastar em buscar as coisas que agradam unicamente aos sentidos”[49] (Grifos meus).

Fica evidente que Ellen White, com base nas revelações recebidas, possuía grande preocupação com a situação em que a música adventista poderia chegar. O fato é transparente em suas considerações e advertências. Sobre toda a problemática ocorrida em Indiana e que, conforme lhe foi revelado, ocorreria novamente no futuro, ela ainda teve forças para dizer que, “É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música,do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que, foi-me apresentado em janeiro último, seria introduzida em nossa reuniões […]” [50].

É válido relembrar que a serva do Senhor jamais incentivou o uso indiscriminado de instrumentos na música, pelo contrário, fez observações contundentes que nos levam a refletir profundamente se devemos ou não usar tambores (bateria) na música de louvor e adoração na igreja, pois, descreveu que “O Espírito Santo nada tem que ver com tal confusão de ruído e multidão de sons. Satanás opera entre a algazarra e a confusão de tal música, a qual, devidamente dirigida seria um louvor e glória para Deus. Ele torna seu efeito qual venenoso aguilhão da serpente.” [51] (Grifos meus). Ainda afirmou que tudo o que ocorreu não é obra do Espírito Santo, mas de outro espírito:

“O Espírito Santo nunca se revela por tais métodos, em tal balbúrdia de ruído. Isso é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificante verdade para este tempo” [52].

Observe que, quando Ellen White afirmou que os instrumentos de música não são absolutamente objetáveis, ela faz referência exata dos mesmos instrumentos utilizados pelo povo de Israel na adoração reformada [53], o que nos faz crer que o princípio que sustentou o louvor e adoração a partir do santuário de Salomão deve ser os mesmos para a geração atual. Os instrumentos utilizados hoje não precisam ser exatamente os mesmos, mas, embora a música e os instrumentos tenham passado por grandes mudanças no decorrer dos séculos, os princípios permanecem exatamente os mesmos.

4º – O conflito da música no tempo do fim

Para Ellen White, no tempo do fim a música desempenharia um papel importante tanto para o bem quanto para o mal, pois, com base no ocorrido em Indiana, focando o futuro, ela descreve que “Satanás fará da música um laço pela maneira por que é dirigida" [54]. Portanto, não é sábio tratar deste assunto com pouca relevância, e não é coerente tratar a música com neutralidade. Para a mensageira do Senhor, a música teria uma forte relação com o conflito envolvendo o bem e o mal.

Na experiência relatada em Daniel 3, nitidamente percebemos uma guerra espiritual, na qual estavam entrelaçados aspectos políticos e religiosos. Por causa do decreto do rei Nabucodonosor, todos os representantes da nação deveriam ajoelhar-se diante da estátua demonstrando sua submissão, reverência e adoração aos deuses babilônios. No entanto, a Palavra de Deus declara que três valorosos jovens não obedeceram ao decreto permanecendo em pé e, consequentemente, atraindo sobre eles a ira do monarca. O mais curioso nesta narrativa, é que houve um momento de louvor e êxtase que antecedeu a coação, e que serviu de sinalização para que a falsa adoração fosse realizada. No mesmo capítulo, com exceção da Septuaginta, a descrição que envolveu a música com seus instrumentos, foi repetida quatro vezes nos versos 5, 7, 10 e 15. Alguns estudiosos alegam que quando uma mensagem é repetida na Bíblia significa que Deus talvez esteja querendo chamar-nos a atenção para algo importante. Portanto, se Daniel apresentou este fato repetidamente no mesmo contexto, pode indicar que ele estivesse grifando esta experiência em particular com o objetivo de fazer-nos olhar com mais atenção e seriedade. Não há dúvidas que a música, especificamente neste conflito, narrado no capítulo 3 de Daniel, tenha exercido um importante papel para a adoração aos falsos deuses, na falsa religião daquele tempo. Ellen White, a este respeito, concorda com esta afirmativa, pois ela declara que “O dia marcado chegou, e ao som da música arrebatadora, a vasta multidão ‘prostrou-se e adorou a imagem de ouro [55]’”. Outra declaração semelhante ainda afirma que, “Diante do irado monarca, tendo a imagem diante de si, e ao som da música extasiante no ouvido deles, esses jovens se lembraram da promessa feita por meio de Isaías […] ‘Não temas! [56]’”. White é contundente ao afirmar que a música foi um elemento fundamental para levar o povo à contrafação religiosa da adoração ali em Babilônia. No entanto, a experiência do passado se repetirá novamente, pois ela, se referindo ao ocorrido no campo de Dura, declara que “A história se repetirá. A falsa religião será exaltada. O primeiro dia da semana, um dia comum de trabalho, não sendo santificado em coisa alguma, será exaltado como foi a imagem na antiga Babilônia. […] A coação é o último recurso de toda falsa religião. A princípio, será tentada a linguagem da atração, como o rei de Babilônia tentou usando o poder da música e da exibição exterior. Se essa atração [da música], inventada por homens inspirados por Satanás, falhar em levar as pessoas a adorar a imagem, a chamas ardentes da fornalha estarão prontas para consumi-los” [57]. (Grifos meus). Observe que o conflito travado em Daniel 3 é especificamente político/religioso. Isto indica que a própria música também deva ter seguido uma linguagem ou contexto religioso. Ellen White faz menção dos principais elementos de conflito experimentados no império Babilônico que se levantará, no final dos tempos, como contrafação religiosa, inserindo no mesmo nível profético a falsificação sabática e a música supostamente religiosa.

Como visto, a música não é um personagem neutro no grande conflito entre o bem e o mal. A música, nas declarações bíblicas e do Espírito de Profecia, é encarada como algo sério, importante e carente de extremo cuidado. Embora os instrumentos e a música tenham passado por constantes renovações e atualizações no decorrer dos séculos, é importante compreender que modernização ou renovação é profundamente diferente de mundanização, e que princípios divinos, dados através da revelação inspirada, são válidos para todas as épocas, lugares e ocasiões em que o povo de Deus se reúne para adorá-Lo.


Referências Bibliográficas

[1] – WHITE, E. G., Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, p. 36.

[2] – Ibid., V. 3, p. 335.

[3] – Id., Educação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2008), p.167

[4] – Id., Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), V. 9, p. 143.

[5] – Id., Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 510.

[6] – Id., Carta 66, p. 2 e 3, de 1983.

[7] – Id., Manuscrito 5, de 1874.

[8] – Id., Testemunhos Seletos (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2009), V. 1, p. 45; e, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 510.

[9] – Id., Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 510-511.

[10] – Id., Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 507-508.

[11] – Id., Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), p. 637.

[12] – Id., Educação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2008), p. 167.

[13] – Id., Id., Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), V. 1, p. 496-497.

[14] – Id., O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), p. 73.

[15] – Id., Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), p. 637.

[16] – Id., Manuscrito 5, de 1874.

[17] – Id., Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 510.

[18] – Id., Testemunhos Seletos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009), V. 1, p.45.

[19] – Id., Fundamentos da Educação Cristã (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 97.

[20] – Ibid.

[21] – Id., Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 306.

[22] – Id., Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), V. 1, p. 506.

[23] – Id., Ibid.

[24] – Id., Manuscrito 5, de 1874.

[25] – Id., Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, P. 36.

[26] – Id., Ibid.

[27] – Ver o teste completo da natureza da música segundo os escritos de Ellen G. White disponível no Centro de Pesquisas Ellen G. White

[28] – O evento ocorrido em 1900, na reunião campal de Indiana foi a culminância do movimento herético denominado "Carne Santa", o qual pregava que o crente em Cristo recebe uma natureza gloriosa e não pode mais pecar. Tal heresia teve o apoio de vários membros e líderes da igreja e envolvia uma espécie de louvor e reavivamento copiado de outro movimento religioso chamado Exército de Salvação, que utilizava músicas dançantes com letras religiosas, as quais induziam ao êxtase. Os membros deste movimento, além de terem copiado tal estilo de culto, também fizeram uso de um hinário não adventista intitulado Garden of Spices (Jardim de Temperos), que foi publicado em 1899 pela Pentecost Band Publishing Company, com músicas de estilo pentecostal. Para maiores detalhes, ver Ella Robinson, S.N. Haskell Man of Action, p. 168.

Ellen White alertou sobre os perigos tanto da teologia errônea do movimento carne santa quanto da utilização de um estilo de culto extático, com o uso de música dançante promovida por tambores e outros instrumentos. Suas advertências revelam, inclusive, o perigo de se copiar músicas de movimentos carismáticos, que, geralmente estão associados aos estímulos inconsequentes, afirmando que tais cultos estão sob influência satânica. Ver Música: Sua influência na vida do cristão, p. 32 a 42, e Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 31 a 39.

Em nossos dias, há igrejas adventistas que são "conservadoras", fazendo uso do hinário adventista, e há igrejas "liberais" que fazem uso de músicas evangélicas, inclusive pentecostais. Também há igrejas que possuem dois cultos diferentes, um culto "conservador" e um culto "liberal". Existem outras igrejas que fazem uma mescla entre as duas coisas, tentando achar um tipo de compromisso entre estilos de culto intrinsecamente irreconciliáveis. Neste caso, com base nas advertências registradas devido ao ocorrido em Indiana, quais destes movimentos se encaixa mais com o ocorrido em Indiana? Qual seria a vontade de Deus com relação ao estilo apropriado de adoração?

[29] – Id., Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, p. 36. (Para maiores detalhes sobre o ocorrido em Indiana, ver páginas 31-39. Esta mesma citação também pode ser encontrada no livro intitulado: Música: Sua influência na vida do cristão, páginas 36-42, editado pela Casa Publicadora Brasileira).

[30] – Relatório de S.N. Haskell a Ellen White, 25 de setembro de 1900. Pode ser lido em Música: Sua influência na vida do cristão, p. 36-38.

[31] – WHITE, E. G. Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, p. 36; e Id., Música: Sua influência na vida do cristão (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), p. 38-39.

[32] – Id., Ibid. p. 36

[33] – Id., Ibid., p. 37

[34] – Ibid.

[35] – Id., Ibid., p. 36.

[36] – Id., Ibid., p. 36-37

[37] – Id., Ibid., p. 16-17

[38] – OSTERMAN, Eurydice V. O que Deus diz sobre a música (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2007), p. 35.

[39] – WHITE, E. G. Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, p. 37.

[40] – Id., Ibid., p. 38

[41] – Id., Ibid., p. 36

[42] – O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Editora Positivo), revista e atualizada do Aurélio Século XXI, O Dicionário da Língua Portuguesa, 2004, (Cdrom).

[43] – WHITE, E. G. Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, p. 36.

[44] – Ver Selected Messages, Book 2, p. 36 (CD Rom – Ellen G. White Estate, comprehensive Research Edition).

[45] – Ver: Novo dicionário Barsa das línguas inglesa e portuguesa, Meredith Publishing Company, 1967, p. 51 e 317.

[46] – Ver capítulo “Danças e Tambores no Salmo 150”, e, ELIADE, Mircea. História das Crenças e das Ideias Religiosas (São Paulo: Martins fontes, 1998); Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase (São Paulo: Martins Fontes, 1998); e ROUGET, Gilbert. Music and Trance: A Theory of the Relations Between Music and Possession (University of Chicago Press, 1985); SPARTA, Francisco. A Dança dos Orixás (São Paulo: Herder, 1970); e, BASTOS, Abguar. Os Cultos Mágico-Religiosos no Brasil (São Paulo: Hucitec, 1979).

[47] – WHITE, E. G. Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 595.

[48] – Id., Mensagens escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), V. 2, p. 37.

[49] – Id., Review and Herald, 14/11/1899; e, Id. Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 510.

[50] – Id., Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000) V. 2, p. 36.

[51] – Id., Ibid., p. 37

[52] – Id., Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000) V. 2, p. 36.

[53] – Id., Evangelismo(Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 501; e Id., Carta 1232, 1898. Citação original: "In our camp-meeting services there should be singing and instrumental music. Musical instruments were used in religious services in ancient times. The worshippers praised God upon the harp and cymbal, and music should have its place in our services." (General Conference Daily Bulletin, March 2, 1899 par. 25)

[54] – Id., Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000) V. 2, p. 36 e 38.

[55] – Id., Manuscript 110, 1904; Id., Cristo Triunfante. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002), p. 177.

[56] – Id., Youth’s Instructor, 8/3/1904.

[57] – Id., Signs of the Times, 6 de maio de 1897; Id., Seventh Day Adventist Bible Commentary, v. 7, “Revelation”, p. 976.


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