Traumatismo Craniano Liberta Gênio Musical

Sobre Corpo e a Mente Humanas — 10 de outubro de 2013 03:00

por: Bruno Calzavara (HypeScience)

Derek Amato estava de pé na parte rasa de uma piscina e pediu a um amigo para jogá-lo uma bola de futebol americano. Em seguida, lançou-se no ar, com os braços estendidos. Ele imaginou que poderia agarrar a bola e mergulhar com ela na água da piscina.

Grave erro de cálculo. O plano não deu certo – sua cabeça bateu no chão de concreto da piscina com tamanha força que o barulho pareceu o de uma explosão.

Na beira da piscina, Amato desmaiou nos braços de seus amigos, Bill Peterson e Rick Sturm. Era 2006 e o treinador de vendas de 39 anos estava visitando sua cidade natal de Sioux Falls, no estado de Dakota do Sul, EUA.

Enquanto seus dois amigos do ensino médio dirigiam Amato para a casa de sua mãe, ele entrava e saía do estado de consciência, insistindo que era um jogador de beisebol profissional atrasado para o treinamento em Phoenix.

A mãe de Amato o levou às pressas para o pronto-socorro, onde os médicos diagnosticaram Amato com uma concussão grave. Eles o mandaram para casa, com instruções de ser acordado uma vez a cada poucas horas.

Você pode não estar consciente do seu talento musical

Semanas depois do impacto, o trauma na cabeça de Amato tornou-se evidente: 35% de perda de audição em um ouvido, dores de cabeça, perda de memória. Mas a consequência mais dramática apareceu apenas quatro dias após o acidente.

Amato acordou após um sono quase contínuo e se dirigiu até a casa de seu amigo Sturm. Enquanto eles conversavam no estúdio de música improvisado de Sturm, Amato viu um teclado elétrico em um canto.

Sem pensar, ele se levantou da cadeira e sentou-se na frente do instrumento musical. Ele nunca tinha tocado piano ou algo parecido – e nunca teve a menor inclinação para isso. Naquele momento, porém, seus dedos pareciam encontrar as teclas por instinto e, para seu espanto, continuavam tocando uma melodia que fazia muito sentido.

Amato tocava rapidamente, lentamente, com acordes ricos, como alguém que se dedicasse ao piano desde criança. Quando Amato finalmente olhou para cima, os olhos de Sturm estavam cheios de lágrimas.

O acidente à beira da piscina deixou Derek Amato com uma concussão grave e uma capacidade surpreendente de tocar piano. Uma teoria é que o cérebro dele se reorganizou após o acontecimento, tornando acessíveis suas memórias de música já existentes.

Outra hipótese levantada é a de que o cérebro dele já não filtra a entrada de estímulos sensoriais, permitindo-lhe ouvir as notas individualmente, em vez das melodias.

Amato tocou teclado por seis horas, saindo da casa de Sturm na manhã seguinte com um inabalável sentimento de admiração pelo que tinha acabado de acontecer. Ele procurou na internet por uma explicação, e o resultado de sua busca o surpreendeu.

8 coisas que nós simplesmente não entendemos sobre o cérebro humano

Ele leu sobre Tony Cicoria, um cirurgião ortopédico em Nova York, EUA, que foi atingido por um raio enquanto falava com a mãe de uma cabine telefônica. Cicoria, desde então, se tornou obcecado com piano clássico e aprendeu sozinho a tocar e compor música.

Depois de ser atingido na cabeça com uma bola de beisebol com 10 anos, Orlando Serrell se tornou capaz de dizer o dia da semana de qualquer data do ano. Uma queda feia aos três anos de idade deixou Alonzo Clemons com comprometimento cognitivo permanente e com um talento incrível para esculpir réplicas de animais.

Finalmente, Amato encontrou o nome de Darold Treffert, um reconhecido especialista mundial em Síndrome de Savant, uma condição em que os indivíduos que normalmente são deficientes mentais demonstram habilidades notáveis. Amato lhe mandou um e-mail e logo obteve as respostas pelas quais tanto procurava. Treffert, agora aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade de Wisconsin, EUA, diagnosticou Amato com “Síndrome de Savant Adquirida”.

Nos cerca de 30 casos conhecidos, a história se repete: pessoas comuns sofrem um traumatismo cerebral e, de repente, desenvolvem novas habilidades quase sobre-humanas: desenvoltura artística, domínio matemático, memória fotográfica, etc.

Um outro caso de Síndrome de Savant Adquirida, um estudante de ensino médio brutalmente espancado por assaltantes, é a única pessoa conhecida no mundo capaz de desenhar padrões geométricos complexos chamados de fractais. Ele também afirma ter descoberto um erro no número matemático pi.

Um acidente vascular cerebral transformou um quiroprático mediano em um famoso artista visual, cujo trabalho já apareceu em publicações como The New Yorker e em exposições em galerias de arte, e é vendido por milhares de dólares.

As causas neurológicas da Síndrome de Savant Adquirida ainda são mal compreendidas. Mas a internet tornou mais fácil para pessoas como Amato se conectarem com pesquisadores que estudam a condição médica. Técnicas de imagens cerebrais melhoradas também permitiram que os cientistas investigassem os mecanismos neurais que desempenham algum papel nesse processo único.

Alguns pesquisadores até começaram a elaborar experimentos ousados que visam investigar uma possibilidade intrigante: a genialidade está em todos nós, apenas esperando para ser liberada. Quem sabe? [Pop Sci]


Fonte: HypeScience.


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