Religião de Consumo x Consumo da Religião

(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja — 17 de março de 2013 09:36

por: Wilson Franklim, ThD

“E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade; e, por avareza, farão de vós negócio com palavras fingidas…” (II Pedro 2.2-3).

Atualmente a indústria da propaganda parece ter tomado de assalto a maioria das igrejas, isso é facilmente explicável uma vez que a cultura ocidental, hoje, é orientada, e até mesmo manipulada, pelos ditames dos “gênios” do marketing. Todavia, a profundidade em que os novos “gurus evangélicos” desse novo paradigma utilizam esses métodos de manipulação na igreja é muito maior do que se imagina.

Nessa perspectiva, muitas igrejas se transformaram em público consumidor, um mercado cada vez mais em alta. Tamanha é essa força comercial, que algumas igrejas em pouco tempo construíram grandes impérios, com bancos, rede de comunicação nacional, editoras, jatinhos e fazendas, para seus líderes e muito mais… Infelizmente esse é o parâmetro da igreja moderna para medir o seu sucesso.

Nesse artigo tentarei demonstrar que essa apropriação do mercado pela religião, paradoxalmente, é uma cópia da apropriação religiosa do mercado. E que nessa busca desenfreada pelo sucesso (financeiro), nem mesmo a verdade bíblica é poupada.

I. Um panorama dos dias atuais

A tese de que o consumo influencia nossa maneira de viver não carece de lógica, já havia sido denunciado por Marx na magia da mercadoria. As pessoas não querem apenas o necessário, passam a buscar, e mesmo venerar o supérfluo. A grande verdade é que o marketing, com a publicidade massificada, especialmente a televisiva, transformaram o supérfluo em necessário, e o necessário em supérfluo. A perplexidade é que essa realidade também está acontecendo nas igrejas conforme será demonstrado em sequência.

A esse respeito, na sociedade secular, a força do mercado é tamanha que alterou significativamente as relações sociais. Note-se que antigamente o objeto de comércio era o intermediário na relação entre seres humanos. O esquema da relação era pessoa-mercadoria-pessoa. Atualmente esse esquema foi pervertido para mercadoria-pessoa-mercadoria. Por exemplo, se chego a uma festa com carro importado, meu valor é superior ao de quem vai de carro popular. Isso vale para o terno que uso ou para o relógio que trago no pulso.

Vejam a diferença: não sou eu, pessoa humana, que faço uso do objeto. É o produto, revestido de “magia”, que me imprime valor, aumentando a minha cotação “no mercado das relações sociais”. Se Descartes estivesse vivo hoje declararia: “Consumo, logo existo”. Para os “sacerdotes” do mercado, fora do mercado não há salvação…

II. A apropriação religiosa do mercado

Apropriadamente, o escritor português José Saramago em sua obra “A Caverna” faz uma critica a apropriação religiosa do mercado evidenciada nos shoppings centers. De fato, quase todos shoppings centers possuem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas. São os templos do deus mercado. Neles não se entra com qualquer traje, e sim com roupa do culto de domingo. Percorrem-se os seus claustros marmorizados ao som do “sacro” pós-moderno. Ali dentro tudo evoca o paraíso: não há mendigos nem pivetes, pobreza ou miséria. Com olhar devoto, o consumidor contempla as capelas que ostentam, em ricos nichos, os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode pagar à vista se sente no céu; quem recorre ao crediário, no purgatório; quem não dispõe de recurso, no inferno. Na saída, entretanto, todos se irmanam na mesa “eucarística” do McDonald’s, Starbucks, …

Em 2000 a Young & Rubicam, comparou as agências de publicidade aos missionários que difundiram pelo mundo religiões como o cristianismo e o islamismo. “As religiões conferiam significado e objetivo à vida porque eram baseadas em ideias poderosas”, declarou o diretor da agência. Isso indica que o mercado se apropriou de alguns aspectos da religião.

III. A apropriação mercadológica da religião

Se por um lado, o mercado se apropriou da religião, por outro a religião, paralelamente se apropriou do mercado. A essência desse novo paradigma, na igreja, deve-se ao fato de que as pessoas estão sedentas não pela salvação pessoal. Mas pela ilusão momentânea de bem-estar, saúde, segurança psicológica e social. Neste contexto, a igreja seguidora desse novo paradigma trará pessoas pela porta da frente aos milhares e eles continuarão a convencer as pessoas que Cristo morreu para atender às necessidades delas. Em contra partida essas pessoas precisam pagar por esse novo produto. Nessa linha, quem paga mais, ganha mais.

O fato problemático nessa nova religião é falsa ilusão de que graças ao produto (as propaladas bênçãos) se tem mais valor aos olhos alheios. Todavia, o pecado original dessa nova “religião de consumo” é o egoísmo. É um “evangelho” individualista, que não favorece a solidariedade, e sim a competitividade; não faz da vida dom, mas uma posse (lembra o velho jargão “toma posse da tua benção”). Ao contrário do verdadeiro cristianismo que é altruísta.

É oportuno lembrar a absurda afirmação de Robert Schuller, o autoproclamado pai do Movimento de Crescimento de Igrejas, quando disse: “Devemos nos concentrar nas necessidades das pessoas, em vez de na verdade teológica” (Pritchard, G. A, “Willow Creek Seeker Services”, Baker Books, Grand Rapids, MI, 1996, p.170). O resultado direto dessa máxima é que a verdade bíblica se torna refém da manipulação emocional e do planejamento estratégico para alcançar os tão esperados objetivos.

Não há dúvida de que a maioria dos que foram a Jesus estavam em busca de cura ou de outras necessidades físicas. E por compaixão, Jesus atendeu a muitas dessas necessidades. Entretanto, a aplicação desse aspecto diretamente ao ministério da Igreja seguidora do Novo Testamento é totalmente risível. Porque somente aqueles que vieram a Cristo em humildade, em verdadeiro arrependimento, reconhecendo e adorando sua divindade, receberam a salvação eterna para entrada no Reino de Deus.

Conclusão

A nova religião de consumo tem muitos problemas e erros dos quais mencionarei apenas alguns: 1. Permite que o mundo defina a igreja, em vez da Bíblia. 2. Tenta reduzir o Eterno Deus do Universo a algo que se possa vender. 3. Foca naquilo que o consumidor pensa que precisa ou deseja, em detrimento do que a Bíblia manda. 4. Esquece que embora se possa fazer marketing da igreja, jamais se poderá fazer marketing do caráter cristão, do significado da vida e muito menos de Cristo.

Desta forma, a religião de consumo esquece o céu e acena com o paraíso na Terra. Manda o consumidor para a eternidade completamente vazio e perdido. Porém, o mais grave é que na religião do consumo não escapa nem o consumo da religião. E na medida em que esse processo cresce entre as igrejas, enfraquece e empobrece o verdadeiro evangelho. Podendo mesmo até eliminar ao longo das próximas gerações o resultado do grande trabalho evangelístico dos nossos antepassados. O cristianismo simples ensinado por Jesus e seus apóstolos no Novo Testamento que resgata o ser humano da escravidão do pecado.

Enquanto isso, “eles tem fome e não lhe dão de comer” (Mateus 25.31-40). O povo precisa da verdadeira mensagem que pode dar sentido a suas vidas, eles necessitam de comida espiritual. Eles precisam de Jesus, o Cristo.


Wilson Franklim, é pastor batista, colaborador da PIB Tingui, RJ


Fonte: O Jornal Batista, 17/03/2013, pág. 3

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