Está Difícil!

A Forma da Adoração — 30 de dezembro de 2012 13:23

por: Isaltino Gomes Coelho Filho

Esta crônica é mais choradeira que outra coisa. Mas sejam pacientes. Exerçam a misericórdia comigo. Li esta notícia que reproduzo ipsis literis, do jornal “O Globo”: “A música piorou nas últimas décadas. O que parece relativo quando dito por um crítico ganhou tons científicos com um estudo realizado pelo Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha. Pesquisadores, através de programas de computador, analisaram 464.411 músicas populares do Ocidente lançadas entre 1955 e 2010, incluindo pop, rock, hip-hop, folk e funk. Com os resultados obtidos, avaliaram tendências com o passar dos anos. As diferentes transições entre combinações de notas diminuíram de número nas últimas décadas. A variedade de timbres na música pop também caiu significantemente desde os anos 1960. Sobre este fato, a conclusão dos pesquisadores é que os compositores tendem a se manter fiéis às mesmas qualidades de som obtidas anteriormente. O volume, porém, tem aumentado desde 1955, em uma ‘espécie de corrida pela música mais alta’”.

Em outras palavras: o volume de decibéis tem substituído a qualidade. O sentido da música não está mais na letra nem na harmonia dos sons, mas na agitação. Isto me parece estar em consonância com a cultura atual em outros níveis. Nós não nos comunicamos mais cognitivamente, mas gestualmente ou corporalmente. A qualquer hora em que alguém ligar a televisão verá um grupo se sacolejando. A cognição cedeu lugar aos sentidos. A razão tem sido posta de lado em detrimento da sensação. O que importa não é o que se expressa verbalmente, mas o que se sente.

Sempre ávidos por novidades mundanas, alguns segmentos da igreja embarcaram nesta tendência. A música evangélica também tem sido empobrecida (e como!) e sua comunicação maior não está no que sua letra diz, mas no quanto faz as pessoas se sacudirem. Desta maneira, os sentidos prevalecem sobre a cognição. E quanto erro teológico se canta! Avalia-se o culto por quanto as pessoas se mexeram, e não por quanto aprenderam sobre Deus e como isto impactou sua vida.

[…]Não se trata de rabugice de velho nem lamúrias de pastor cheirando a naftalina. Apenas uma constatação: o evangelho está se tornando cada vez mais matéria de sentimento, e o culto cada vez mais expressão de movimentos. O homem é o foco do culto. Deus foi glorificado se as pessoas se sentiram bem ou se se expressaram. Por isso que hoje, quando recebo convite de uma igreja para pregar, minha primeira pergunta é como é a liturgia da igreja. Muitas igrejas querem um pastor mais conhecido, para dar notoriedade ao culto e convidam um ou dois cantores famosos. O que prego não faz diferença. O que importa é que eu vá, pois sou um pouco conhecido, e isso dá peso ao evento. E segue o culto: um cantor apresenta uns quatro hinos sem nexo um com o outro e sem conexão com o que prego. Após a mensagem, mais músicas, porque o investimento no cantor precisa ser recompensado. O culto vira uma colcha de retalhos com partes que não se tangenciam. O que o pregador expôs da Palavra de Deus é logo esquecido, porque o cantor “levanta a galera”. A sensação triunfa sobre a reflexão.

Converti-me numa igreja em que Cristo era pregado com convicção, todos os domingos. […] Aprendi a refletir sobre a Palavra de Deus e a procurar internalizá-la. Minha família não era crente e eu era um menino de catorze anos. Morava com meu pai e um primo nos fundos de um bar, na Penha [RJ]. Para um adolescente, era “barra”, como se diz. O culto me alimentava por uma semana. E era aguardado sempre com expectativa porque no próximo eu iria aprender sobre Deus. Hoje, quando não prego e vou me congregar com irmãos de outra igreja, sempre me aflijo: aonde vou? Gosto de ouvir falar de Jesus, gosto de ver a Bíblia ensinada, e não tenho paciência com barulho. Fiquei um ano e oito sem pastorear (por opção). Viajei muito. Em um ano e meio fiz sessenta viagens. Mas quando estava em casa e precisava me congregar (não consigo ficar sem ir à igreja prédio) me afligia. O que encontraria? Seria alimentado ou seria chamado por um animador de auditório a me sacudir?

[…]A música de qualidade está escasseando. O culto com início, meio e fim, com uma mensagem progressiva, em que todas as partes caminham na mesma direção também está sumindo. A pobreza cultural do mundo se reflete na pobreza bíblica e teológica da igreja.

É, envelhecer é fogo. Mas ter senso analítico também. A gente nem sempre aceita se banalizar. E nossos cultos estão se tornando tão banais! Quando não puder mais pastorear, para onde irei?

Fonte: http://www.isaltino.com.br/2012/11/esta-dificil/

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