Hinologia

Cânticos Modernos nas Igrejas

por: Consultoria Doutrinária da Revista Adventista


Um maestro evangélico, cultor da hinologia, asseverou-me que as letras dos hinos para o nosso tempo não devem falar em cruz, em sangue, em sacrifício de Jesus, porque tais palavras e expressões chocam demais, produzem impacto negativo, e são desaconselháveis ante a Comunicação moderna, pois podem produzir angústia no espírito humano. Que me dizem sobre isto? – W.S.


Antes de mais nada seja dito que esta tendência de eliminar das letras dos hinos e cânticos religiosos palavras e expressões fundamentais sobre a Expiação de Cristo, não constitui novidade e muito menos tem que ver com a comunicação. Manifestou-se já há uns vinte anos, e teve origem no modernismo religioso negativista. Um ramo de certa denominação evangélica, nos Estados Unidos, cuja posição teológica acha-se infestada de criticismo bíblico que nega, entre outras coisas, os milagres, a inspiração plenária das Escrituras, o nascimento virginal de Cristo e Sua obra expiatória (e agora vai descambando para a Teologia Radical, da “morte de Deus”), já havia eliminado de seus hinários as expressões “sangue”, “sangue de Jesus”, “cruz”, “morreste por mim, e termos semelhantes. Isto é nada menos do que negação de doutrina capital de fé cristã: a expiação feita por Cristo no Calvário, Sua morte propiciatória, Seu sacrifício como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Em suma, a redenção do homem.

Procurar associar as palavras vigorosas que expressam essa doutrina com a ciência de comunicação, é um contra-senso (e mesmo ignorância, pois a Comunicação não tem por objetivo omitir a difusão de uma imagem, mas, ao contrário, trata dos métodos mais cientificamente adequados para transmiti-la). E se as expressões impugnadas pelos modernistas religiosos e negadores de doutrinas fundamentais da fé cristã, causam impacto, chocam, fazem estremecer as pessoas sensíveis, vemos neste fenômeno uma forma eficiente de comunicação: pelo impacto. Cremos que o impacto desperta, e abre caminho para a ação do Espírito Santo a fim de impressionar os corações sinceros com as verdades eternas.

Mesmo em nossos dias, os hinos e cânticos espirituais devem, a nosso ver, conter melodia acessível à maioria dos que vão à igreja. E se as letras nada trazem de mensagem vigorosa, mas limitam-se apenas a descrever as belezas do céu, das nuvens, dos montes e das flores, e coisas assim, não cumprem sua finalidade essencialmente religiosa. Aquilo que Deus desejaria fosse dito, fica diluído em tiradas poéticas vulgares, semelhantes às da “música religiosa” de certos famosos cantores populares de nosso tempo. Há harmonias, ritmos e arranjos que correm parelha com estilos notoriamente mundanos. Um especialista americano escreveu: “Os cânticos espirituais têm feição peculiar, marcante, inconfundível. Há, neles, certo “Iandmark” que não deve ser transposto, sob pena de caírem na vulgaridade, quando não na profanidade. As doxologias, por exemplo, jamais devem perder a solenidade característica. O ritmo do que se canta ou se executa no interior dos templos não deve, nem de leve sugerir reações físicas corporais ou lembrar “bests” de música de dança. O tema das letras deve confirmar doutrinas, evocar o plano da salvação, apelar para a consagração, encorajar o cristão nas suas lutas ou expressar seu exultamento espiritual. Sabemos que variam as sensibilidades bem como o gosto dos estilos. Há uma tendência de rejeitar os arquétipos corriqueiros e fugir de certos chavões melódicos. Cremos que se podem buscar novas formas de expressão hinológica, porém fora de estrutura de músicas objetáveis, principalmente no tocante ao ritmo.”

Por outro lado, há uma realidade que não podemos ignorar. É que há muitos hinos (principalmente para o canto congregacional) em estilo, por assim dizer, quadrado, linear, com melodia muito primária, e letras sem poesia e defeituosas. Ora, a geração jovem de nossos dias, acostumada às agressões de músicas estridentes e ritmos alucinantes, difundidos pelos veículos de comunicação de massa (músicas “pop’, “jet”, “soul” e outros berreiros afins), não se sente “comunicada” com esses hinos religiosos de mau gosto, achamboados e ultra-sentimentais. Sem menosprezo aos hinos clássicos, achamos válida uma renovação. Não, porém, em direção do profano, do prosaico, do vulgar, e mesmo do hermético. Deve-se evitar a perversão do gosto musical, mantendo-se a característica do hino ou cântico espiritual.

Voltando às letras que omitem expressões relacionadas com o sacrifício de Cristo, convém ressaltar que os hinos tradicionais que falam do sangue de Jesus e da cruz, foram compostos por homens de profunda piedade e experiência, homens inspirados como Willíam J. Kirkpatrik (“Remido fui por Seu Sangue”), Frank Pincott (“Oh! que Poder no Sangue de Jesus!”), Ithamar Conkey (“Na Cruz de Cristo me Glorio”), George Bernard (“Rude Lenho se Ergueu”), além de muitos outros autores porta-vozes da mensagem do canto. Em nosso hinário oficial [1] há perto de 60 hinos que mencionam a cruz, o sangue e expressões relacionadas com a Expiação, que é uma das nossas doutrinas fundamentais. Graças a Deus! A cruz é o grande tema do Evangelho. O Espírito de profecia aconselha-nos a meditar uma hora por dia, pelo menos, no sacrifício de Cristo. Por que tentar bani-la de nossos meios de comunicação?


Nota:

[1] – Considerando-se que se trata de uma publicação de 1973, autor refere-se aqui ao hinário Cantai ao Senhor,


Fonte: Consultoria Doutrinária da Revista Adventista de Agosto de 1973, p. 30.

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