Palestras, Seminários e Sermões

Não Abrir Concessões

por: Charles H. Spurgeon (1834-1892)
Sermão pregado em 7 de outubro de 1888 no Metropolitan Tabernacle, Newington, Londres

“E disse-lhe o servo: Se porventura não quiser seguir-me a mulher a esta terra, farei, pois, tornar o teu filho à terra donde saíste? E Abraão lhe disse: Guarda-te, que não faças lá tornar o meu filho. O SENHOR Deus dos céus, que me tomou da casa de meu pai e da terra da minha parentela, e que me falou, e que me jurou, dizendo: À tua descendência darei esta terra; ele enviará o seu anjo adiante da tua face, para que tomes mulher de lá para meu filho. Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho.” (Gênesis 24:5-8.)

Gênesis é tanto o livro dos princípios quanto o livro das dispensações. Conheceis o uso que Paulo faz de Sara e Hagar, de Esaú e Jacó, e outros. Gênesis é, todo ele, um livro que instrui o leitor acerca das dispensações de Deus com relação ao homem. Paulo diz, em certo lugar que “tais coisas são alegoria”, sendo que, ao dizer isso, não tencionou dizer que estes não sejam fatos literais , mas que, sendo fatos literais, podem também ser utilizados de forma educacional, como alegoria. Também posso dizer o mesmo deste capítulo. Ele relata o que foi realmente falado e feito. Mas, ao mesmo tempo, possui em si mesmo instruções alegóricas com respeito às coisas celestiais. O verdadeiro ministro de Cristo é como este Eleazar de Damasco. Ele é enviado a encontrar uma esposa para o filho de seu mestre. Seu grande desejo é que muitos sejam apresentados a Cristo no dia da Sua vinda, como a noiva, a esposa do Cordeiro.

O fiel servo de Abraão, antes de iniciar [sua jornada][1], comungou com seu mestre. E esta é uma lição para nós que saímos a cumprir a missão do Senhor. Que nós, antes de verdadeiramente nos engajarmos na obra, vejamos a face do Mestre, conversemos com Ele e Lhe digamos quaisquer dificuldades que possam ocorrer em nossas mentes. Antes de sairmos ao trabalho, devemos saber em que pé estamos e onde estamos pisando. Ouçamos da própria boca de nosso Senhor o que Ele espera que façamos e até que ponto Ele nos ajudará ao realizarmos esta obra.

Insisto convosco, meus co-obreiros, a que nunca saiam a apelar com os homens em nome de Deus até que tenhais, em primeiro lugar, apelado a Deus em favor dos homens. Não tenteis passar adiante uma mensagem a qual vós mesmos não tenhais, em primeiro lugar, recebido pelo Espírito Santo. Saí da câmara de comunhão com Deus para o púlpito do ministério entre os homens e haverá um frescor e poder sobre vós que ninguém será capaz de resistir.

O servo de Abraão falou e agiu como alguém que se sente compelido a executar exatamente o que o seu mestre ordenou e a dizer aquilo que o mestre lhe falou. Portanto, sua única ansiedade era saber a essência e a medida de sua comissão. Durante a conversa com seu mestre, mencionou um pequeno ponto sobre o qual poderia haver alguma dificuldade. E seu mestre rapidamente removeu a dificuldade de sua mente. É sobre esta dificuldade, a qual tem ocorrido nestes dias em larga escala e tem perturbado muitos dos bons servos de meu Mestre, que falarei nesta manhã – possa Deus permitir que este sermão seja para o benefício de toda a Sua Igreja!

I. Começando o nosso sermão, pedirei a vocês, em primeiro lugar, para que pensem na tarefa jubilosa, mas de grande responsabilidade, deste servo. Era uma tarefa jubilosa – os sinos das bodas soavam ao seu redor. O casamento do herdeiro deveria ser um evento jubiloso. Era uma coisa muito honrosa para o servo que lhe houvesse sido confiada a tarefa de encontrar uma esposa para o filho de seu mestre. Contudo, era também, em todos os sentidos, um negócio da mais alta responsabilidade, não sendo, de forma alguma uma tarefa fácil de ser completada. Deslizes poderiam ocorrer muito prontamente, antes que se apercebesse disso. E precisava utilizar-se de toda a sua sagacidade e talvez algo mais do que sagacidade, para este assunto delicado.

Teria que viajar para longe, sobre terras sem trilhas ou estradas. Teria que procurar uma família, a qual não conhecia e descobrir nesta família uma mulher a quem não conhecia e que, contudo, fosse a pessoa certa para ser a esposa do filho de seu mestre – tudo isso era uma grande tarefa. A obra que este homem assumiu era um negócio sobre o qual estava o coração de seu mestre. Isaque tinha agora quarenta anos de idade e não havia demonstrado sinais de casar-se. Possuía um espírito quieto e gentil e necessitava de um espírito mais ativo que o instigasse. A morte de Sara o havia destituído do consolo da sua vida, o qual havia encontrado em sua mãe e havia, sem dúvida, feito com que desejasse uma companhia terna.

O próprio Abraão era um homem idoso e bem avançado em anos. E, muito naturalmente, gostaria de ver a Promessa começando a ser cumprida, de que em Isaque seria continuada a sua semente. Portanto, com grande ansiedade, a qual é indicada por fazer com que seu servo jurasse um voto da mais alta solenidade, deu-lhe a comissão de ir à antiga habitação da família na Mesopotâmia e procurar ali por uma noiva para Isaque. Embora esta família não fosse tudo o que poderia desejar, ainda assim era o melhor que conhecia. E como alguma luz celeste ainda permanecia ali, esperava encontrar naquele lugar a melhor esposa para seu filho.

A tarefa que comissionava a seu servo era, contudo, muito séria. Meus irmãos, isto não é nada comparado com o peso que repousa sobre o verdadeiro ministro de Cristo. Todo o coração do Grande Pai está posto em dar a Cristo uma Igreja a qual possa ser a Sua Amada para sempre. Jesus não deve ficar só – Sua Igreja deve ser a sua querida companhia. O Pai quer encontrar uma noiva para o grande Noivo, uma recompensa para o Redentor, um conforto para o Salvador – desta forma, deposita [esta tarefa] sobre todos a quem chama para disseminar o Evangelho, para que busquemos almas para Jesus e nunca repousemos até que os corações estejam ligados ao Filho de Deus.

Oh, [supliquemos] pela graça divina para desempenhar esta comissão! Esta mensagem era ainda de maior responsabilidade por causa da pessoa para quem a esposa era procurada. De fato, para o servo, ele era único. Era um homem nascido de acordo com a Promessa, não pela carne, mas pelo poder de Deus. E sabeis como em Cristo e em todos os que são um com Cristo, a vida vem através da Promessa e do poder de Deus, e não brota de homens. Isaque era, ele próprio, o cumprimento da Promessa e o herdeiro da Promessa. Infinitamente glorioso é o nosso Senhor Jesus como Filho do Homem! Quem declarará a Sua geração? Onde encontraremos uma companheira para Ele? Uma alma que esteja pronta a desposá-Lo?

Isaque havia sido sacrificado. Havia sido deposto sobre o altar e, embora não houvesse realmente morrido, a mão de seu pai havia brandido o cutelo para imolá-lo. Abraão, em seu espírito, havia oferecido seu filho. E sabeis quem é Aquele a quem pregamos e por quem pregamos, o próprio Jesus, o qual depositou a Sua vida como um sacrifício pelos pecadores. Foi apresentado como uma oferta queimada completa a Deus. Oh, pelas chagas e pelo suor de sangue, vos pergunto – onde encontraremos um coração que esteja pronto a ligar-se a Ele? Como encontraremos homens e mulheres que possam recompensar dignamente um amor tão maravilhoso, tão divino, como o dAquele que morreu a morte da cruz?

Isaque também havia sido, em figura, ressuscitado dos mortos. Para seu pai, foi considerado como “amortecido”, como disse o apóstolo [em Hebreus 11:12] – e este lhe foi entregue dentre os mortos. Mas nosso abençoado Senhor foi realmente ressuscitado dentre mortos reais e está diante de nós hoje como o Conquistador da morte e o Vencedor da tumba. Quem se ajuntará a este Conquistador? Quem é digno de habitar com este Ser glorioso? Alguém pode ter pensado que cada coração ansiaria por tal felicidade e saltaria em antecipação de tal honra inigualável, e que ninguém se esquivaria, exceto por causa de um enorme senso de indignidade. Contudo, não é assim, embora que deveria ser.

Que tarefa de alta responsabilidade temos a cumprir para encontrar aqueles que estarão ligados para sempre em santa união com o Herdeiro da Promessa, aquele que é O Sacrificado e Ressurreto! Isaque era tudo para Abraão. Abraão teria dito a Isaque, “Tudo o que tenho é teu.” Isto também é verdade com relação ao nosso bendito Senhor, a quem tornou o Herdeiro de todas as coisas – através de quem fez também os mundos, pois “foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” [Colossenses 1:19]. Que dignidade será depositada sobre todo aquele que desposar a Cristo! E a esta altura de eminência sereis elevados, tornando-se um com Jesus!

Ó pregador, que obra tendes a fazer hoje, para encontrar aqueles a quem dareis o bracelete e sobre cuja face pendurarás a jóia! A quem direi, “Darias o coração ao meu Senhor? Faria de Jesus a tua confiança, tua salvação, teu Tudo em Tudo? Estás disposto a tornar-se Seu, para que Ele seja vosso?” Não vos disse verdadeiramente, que esta era uma tarefa jubilosa, mas de grande responsabilidade, quando pensais o que a noiva deve ser para tornar-se aquela a quem o filho de teu mestre desposaria? Deve, pelo menos, estar disposta e ser bela. No dia do poder de Deus, os corações tornam-se dispostos. Não pode haver bodas com Jesus sem um coração de amor.

Onde encontraremos este coração disposto? Apenas onde a Graça de Deus operou. Ah, vejo então como posso encontrar beleza, também, entre os filhos dos homens! Manchada como é a nossa natureza pelo pecado, apenas o Espírito Santo pode comunicar aquela beleza da santidade, a qual permitirá que o Senhor Jesus contemple a formosura em Seus escolhidos. Contudo, existe em nossos corações uma aversão a Cristo e uma indisposição para aceitá-Lo, e ao mesmo tempo, um terrível senso de inadequação e indignidade! O Espírito de Deus implanta um amor que é de origem divina e renova o coração pela regeneração que vem do alto. E então buscamos ser um com Jesus, mas não até então. Vede, portanto, como nossa tarefa necessita do auxílio do próprio Deus.

Imaginaram o que a noiva tornar-se-á ao ser desposada por Isaque? Ela deverá ser sua delícia – sua amiga e companheira amorosa. Deverá ser parceira de toda sua riqueza. E, especialmente, será participante na grande Promessa do Concerto, a qual foi concedida particularmente a Abraão e sua família. Quando um pecador vem a Cristo, o que Cristo faz dele? Seu deleite está nele – Ele comunga com ele. Ouve a sua oração, aceita seus louvores. Opera nele e com ele, e glorifica-Se nele. Torna o crente co-herdeiro Consigo mesmo de tudo o que possui, e o apresenta à casa do tesouro do Concerto, onde as riquezas e a glória de Deus estão armazenadas para Seus escolhidos.

Ah, caros amigos! É assunto de pequena monta, à vista de alguns, a pregação do Evangelho. E, contudo, se Deus está conosco, nossa obra é maior do que a dos anjos. De maneira humilde estais falando de Jesus aos meninos e meninas de vossas classes. E alguns vos desprezam, como “apenas professores da Escola Dominical”. Mas vosso trabalho tem um peso espiritual que é desconhecido nos conclaves de senadores e ausente nos conselhos de imperadores. Sobre o que dizeis, morte e inferno e mundos não conhecidos estão pendentes. Estais moldando os destinos de espíritos imortais, transformando almas da ruína à glória, do pecado à santidade:

“Não é uma obra de pequena monta
Pois exige vosso cuidado e amor;
Mas pode encher o coração de um anjo,
E enche as mãos do Salvador.”

Ao levar adiante esta comissão, este servo não deveria poupar esforços. Seria necessário que viajasse uma longa distância, possuindo uma indicação geral de direção, mas sem conhecer o caminho. Deveria possuir a direção e proteção divinas. Quando alcançasse o lugar, deveria exercer grande dose de bom senso e ao mesmo tempo uma dependência confiante na bondade e sabedoria de Deus. Seria a maravilha das maravilhas se chegasse a encontrar a mulher escolhida e apenas o Senhor poderia fazer com que isto acontecesse. Pela Graça de Deus, teria todo o cuidado e fé exigida.

Lemos a história de como ele viajou, e orou, e implorou. Poderíamos ter clamado, “Quem é capaz de realizar estas coisas?” Mas vemos que o Senhor Jeová o fez capaz e sua missão foi executada com felicidade. Como podemos nos colocar na situação certa para encontrar pecadores e conquistá-los para Jesus? Como podemos aprender a falar as palavras certas? Como adaptaremos nosso ensino à condição de seus corações? Como adaptaremos a nós mesmos aos seus sentimentos, seus preconceitos, suas dores, e suas tentações?

Irmãos, nós que pregamos o Evangelho continuamente bem podemos clamar, “Se a Tua Presença não estiver comigo, não nos faça sair deste lugar.” Procurar por pérolas no fundo do mar é brincadeira de criança, comparado a buscar almas nesta ímpia Londres. Se Deus não está conosco, podemos lançar nossos olhos e usar as nossas línguas em vão. Apenas quando o Poderoso Deus dirigir, e guiar, e influenciar, e inspirar, podemos executar a tarefa que nos foi solenemente confiada. Apenas com o Divino auxílio poderemos voltar com júbilo, trazendo conosco os escolhidos do Senhor. Somos os amigos do Noivo e nos regozijaremos grandemente em Sua alegria. Mas choramos e clamamos até que tenhamos encontrado os corações eleitos nos quais Ele se deleitará, os quais ressuscitará para que se assentem com Ele sobre o Seu Trono.

II. Segundo, gostaria de levá-los a considerar o medo razoável que é mencionado. O servo de Abraão disse, “Se porventura não quiser seguir-me a mulher a esta terra.” Esta é uma dificuldade muito séria, grave e comum. Se a mulher não estiver disposta, nada pode ser feito. Força e fraude estão fora de questão. Deve haver uma disposição verdadeira ou não pode haver matrimônio neste caso. Aqui está a dificuldade – aqui está uma vontade com a que devemos lidar.

Ah, meus irmãos! Esta é, ainda agora, a nossa dificuldade. Permitam-me descrever desta dificuldade em detalhes, assim como apresentou-se ao servo e como apresenta-se para nós. Ela poderá não crer no meu relato, ou impressionar-se com ele. Quando chegar a ela e lhe disser que fui enviado por Abraão, poderá olhar-me no rosto e dizer, “Existem muitos enganadores hoje em dia.” Se lhe disser que o filho do meu mestre é extremamente belo e rico e que alegremente a tomaria para si, poderá responder, “Fábulas estranhas e romances são comuns nestes dias. Mas os prudentes não abandonam as suas casas.”

Irmãos, em nosso caso, este é um triste fato. O grande profeta evangélico clamou “Quem deu crédito à nossa pregação?” [(Isaías 53:1)] Também podemos clamar as mesmas palavras. Os homens não se importam com a pregação do grande amor de Deus pelos rebeldes filhos dos homens. Não crêem que o infinitamente glorioso Senhor está procurando em amor pelo pobre e insignificante homem – e para conquistá-lo entregou a Sua vida. O calvário, com sua riqueza de misericórdia, dor, amor e mérito, é desprezado. De fato, contamos uma maravilhosa história, e esta pode parecer boa demais para ser verdade. Mas é triste, de fato, que grande multidão de homens seguem seus caminhos atrás de migalhas e consideram estas grandes realidades como sendo apenas sonhos.

Estou curvado em desânimo, ao ver que o grande amor do meu Senhor, o qual O guiou até a morte em favor do homem, dificilmente seja considerado digno da nossa audição, muito menos da nossa crença. Eis aqui um matrimônio celestial e núpcias reais colocados ao nosso alcance. Mas com um gesto de escárnio o desprezais e preferis as feitiçarias do pecado.

Há uma outra dificuldade – espera-se que ela se apaixone por alguém a quem nunca havia visto. Havia apenas acabado de ouvir que existia uma pessoa chamada Isaque, mas mesmo assim deve amá-lo o bastante para que deixe seus queridos e vá para uma terra distante. Isto somente poderia acontecer porque reconhecera a vontade de Jeová neste assunto. Ah, meus caros ouvintes! Tudo o que lhes dizemos diz respeito a coisas que ainda não vistes. E aqui está a nossa dificuldade. Tendes olhos e quereis ver todas as coisas. Tendes mãos e quereis tocar tudo. Mas existe Um a quem não podeis ver ainda, o qual conquistou o nosso amor por causa do que cremos a Seu respeito. Podemos verdadeiramente dizer dEle, “A quem não vimos, amamos: em quem, embora não O vemos agora, contudo crendo, nos regozijamos com alegria indizível e cheia de glória.”

Sei que a vossa resposta ao nosso apelo é – “Exiges demais de nós quando pedes que amemos um Cristo que nunca vimos.” Posso apenas responder, “Realmente é assim: pedimos mais de vós do que esperamos receber.” A menos que o Deus Espírito Santo opere um milagre da Divina Graça em vossos corações, não sereis persuadidos por nós a abandonar vossas antigas associações e juntar-se ao nosso Amado Senhor. E, ainda assim, se vierdes a Ele e amá-Lo, Ele mais do que vos satisfará. Pois encontrareis nEle descanso para vossas almas e uma paz que excede todo o entendimento [(Mateus 11:29; Filipenses 4:7)].

O servo de Abraão pode ter pensado – “Ela pode recusar-se a fazer uma mudança tão radical como deixar a Mesopotâmia e ir para Canaã. Havia nascido e sido criada em um distante país desenvolvido e todas as suas associações eram com a casa de seu pai. E, para casar-se com Isaque, deveria despojar-se de tudo.” Assim também, não podeis ter a Jesus e também o mundo – é preciso que rompais com o pecado para que vos ajunteis a Jesus. Deveis sair do mundo licencioso, do mundo da moda, do mundo científico e do (assim chamado) mundo religioso. Se vos tornardes um cristão, deveis abandonar velhos hábitos, velhos motivos, velhas ambições, velhos prazeres, velhas vanglórias, velhos modos de pensar. Todas as coisas devem tornar-se novas.

Deveis abandonar as coisas as quais tens amado e buscar muitas daquelas coisas as quais até agora tendes desprezado. Deverá vir sobre vós uma mudança tão grande como se houvésseis morrido e novamente recriados. Respondeis, “Devo suportar tudo isso por Alguém a quem nunca vi e por uma herança na qual nunca coloquei os pés?” Realmente é assim. Embora me entristeça por não aceitardes, não estou em nada surpreso, pois não é dado a muitos ver Aquele que é invisível, ou escolher o caminho estreito e apertado que leva à vida. O homem ou a mulher que seguirá o mensageiro de Deus para desposar a um Noivo tão estranho é realmente um pássaro raro.

Mais do que isso, poderia ser uma grande dificuldade para Rebeca, se é que ela teve alguma dificuldade, pensar que dali em diante, deveria levar uma vida peregrina. Deveria deixar a sua casa e fazenda por uma tenda e uma vida cigana. Abraão e Isaque não encontraram cidade na qual morar, mas vagueavam de lugar para lugar, habitando sozinhos, moradores transitórios, juntamente com Deus. Seu modo de vida exterior era típico da forma de fé pela qual os homens vivem no mundo, não pertencendo a ele. Para todas as intenções e propósitos, Abraão e Isaque estavam fora do mundo e viviam em sua superfície sem uma conexão duradoura com ele. Eram os homens do Senhor e o Senhor era a sua possessão. Ele separava-Se para eles e eles separavam-se para Ele.

Rebeca poderia muito bem ter dito, “Isto nunca dará certo para mim. Não posso marginalizar-me. Não posso deixar os confortos de minha habitação já estabelecida para vaguear pelos campos, onde quer que os rebanhos necessitem que eu vá.” Não se dá para a maior parte da humanidade que seria uma boa coisa estar no mundo e não ser parte dele. Não são estranhos no mundo – anseiam ser admitidos mais completamente em sua “sociedade”. Não são estrangeiros aqui, com seus tesouros no Céu – anseiam ter uma bela soma na terra e encontram o seu céu em desfrutá-la eles mesmos e enriquecendo suas famílias. Minhocas é o que são, a terra os satisfaz.

Se algum homem torna-se desvinculado deste mundo e faz das coisas espirituais seu objetivo, é desprezado como um entusiasta sonhador. Muitos homens pensam que as coisas da religião existem meramente para que seja lido a seu respeito e pregado acerca delas – mas viver por elas seria uma existência sonhadora e fantasiosa. E ainda assim, o espiritual é, depois de tudo, a única coisa real – o material é, na verdade mais profunda, aquilo que é visionário e não substancial. Ainda assim, quando as pessoas desistem por causa das durezas da batalha santa e da espiritualidade da vida de crença, não nos maravilhamos, pois dificilmente esperaríamos que pudesse ser de outra forma. A menos que o Senhor renove o coração, os homens sempre preferirão o pássaro-na-mão desta vida ao pássaro-voando da vida porvir.

Além disso, pode ser que a mulher não dê importância ao Concerto da Promessa. Se não tiver consideração por Jeová e a Sua vontade revelada, provavelmente não irá com o homem e encetar matrimônio com Isaque. Era ele o Herdeiro das Promessas, o herdeiro dos privilégios do Concerto, o qual o Senhor por juramento havia prometido. Sua escolhida tornar-se-ia a mãe da semente escolhida, a qual Deus havia designado para ser uma bênção para o mundo através de todas as épocas, até o Messias, a Semente da mulher, o qual esmagaria a cabeça da serpente.

Talvez a mulher não conseguisse ver o valor do Concerto, nem apreciasse a glória da Promessa. As coisas as quais devemos pregar – tais como a vida eterna, união com Cristo, ressurreição dos mortos, reinarmos com Ele para sempre e sempre – parecem aos corações endurecidos dos homens como se fossem fábulas sem sentido. Fale-lhes sobre altos juros pelo seu dinheiro, de grandes propriedades para um projeto imobiliário, ou das honras a serem prontamente recebidas e invenções a serem descobertas – e abrirão seus olhos e ouvidos, pois aí está algo digno de ser sabido. Mas as coisas de Deus – eternas, imortais, sem limites – estas são sem importância para eles. Não podem ser convencidos a ir de Ur para Canaã por coisas tão sem importância quanto a vida eterna e o Céu, ou Deus. Então, vejam a nossa dificuldade. Muitos descrêem completamente e outros racionalizam e criam objeções. Um grande número deles nem mesmo ouvem a nossa história. E, daqueles que ouvem, a maior parte não se preocupa e outros divertem-se com ela e adiam considerações sérias. Realmente, falamos a ouvidos que não se dispõe a ouvir.

III. Em terceiro lugar, gostaria de elaborar sobre sua sugestão, a qual é muito natural. Este prudente mordomo disse, “Se porventura não quiser seguir-me a mulher a esta terra, farei, pois, tornar o teu filho à terra donde saíste?” Se ela não vier até Isaque, deveria Isaque descer até ela? Esta é a sugestão do nosso presente tempo – se o mundo não vem a Jesus, deveria Jesus amenizar Seus ensinamentos ao mundo? Em outras palavras, se o mundo não se eleva até a igreja, não deveria a igreja descer até o mundo? Ao invés de insistir com os homens que se convertam e saiam de entre os pecadores e separem-se deles, juntemo-nos ao mundo ímpio, entremos em união com ele e, desta forma, poderemos permeá-lo com nossa influência, permitindo que ele nos influencie.

Formemos um mundo cristão. Tendo em vista este objetivo, revisemos as nossas doutrinas. Algumas são ultrapassadas, taciturnas, severas, impopulares. Acabemos com elas. Usemos as frases antigas, de forma a agradar os que são obstinadamente ortodoxos, mas demos a elas novos significados, de forma a conquistarmos infiéis filosóficos, que estão por aí fazendo as suas presas. Aparemos os cantos desagradáveis da Verdade de Deus, moderemos a tonalidade dogmática da Revelação infalível – digamos que Abraão e Moisés cometeram erros e que os livros, os quais há tanto tempo são reverenciados, estão cheios de enganos. Solapemos a antiga fé e coloquemos em seu lugar novas dúvidas. Porque os tempos estão mudados e o espírito desta época sugere o abandono de tudo que é muito severamente correto e muito definitivamente de Deus.

A adulteração enganosa da doutrina é acompanhada por uma falsificação da experiência. Diz-se atualmente aos homens que nasceram bons, ou tornaram-se bons pelo seu batismo infantil e, desta forma, a grande sentença “Necessário vos é nascer de novo” perde a sua força. O arrependimento é ignorado, a fé é uma droga no mercado, quando comparada à “dúvida honesta”, e a tristeza pelo pecado e a comunhão com Deus são dispensadas, de forma a abrir caminho para os entretenimentos, e o socialismo e política de várias nuances. Uma nova criatura em Cristo Jesus é vista como uma invenção amarga de Puritanos fanáticos. E, enquanto afirmam isto, no mesmo fôlego louvam a Oliver Cromwell.

Mas 1888 não é 1648. O que era bom e nobre há duzentos anos atrás é meramente hipocrisia atualmente. É isso o que nos está dizendo o “pensamento moderno”. E, sob a sua orientação, todas as religiões estão sendo diminuídas. A religião espiritual é desprezada e uma moralidade da moda é estabelecida em seu lugar. Arrume-se bem no Domingo – comporte-se. E, acima de tudo, creia em tudo, exceto naquilo que se lê na Bíblia e tudo estará bem. Esteja na moda e pense de acordo com aqueles que professam ser científicos – este é o primeiro e grande mandamento da escola moderna. E o segundo é semelhante a este – não seja singular, mas sim tão mundano quanto seus vizinhos. Assim, Isaque está descendo a Padã-Arã – assim a igreja está descendo para o mundo.

Muitos parecem dizer – Não existe vantagem em continuar da maneira antiga, atraindo um aqui e outro ali de entre a grande massa. Queremos tudo de forma mais rápida. Esperar até que as pessoas nasçam de novo e se tornem seguidores de Cristo é um longo processo – vamos abolir a separação entre os regenerados e os não regenerados. Vinde à igreja, todos vós, convertidos ou não convertidos. Tendes bons desejos e boas resoluções. Isto é o suficiente – não vos preocupeis com mais nada. É verdade que não credes no evangelho, mas nem tampouco nós. Vós credes em uma coisa ou outra. Vinde conosco. Se não credes em coisa alguma, não importa. A vossa “dúvida honesta” é muito melhor do que fé.

“Contudo”, dizeis vós, “ninguém fala desta forma”. Possivelmente não usam as mesmas palavras, mas este é o significado da religião da atualidade. Este é a grande derivação de todos os tempos. Posso justificar a mais ampla de minhas afirmações pelos atos ou pelo discurso de certos ministros, os quais estão traindo enganosamente nossa santa religião, sob o pretexto de adaptá-la à época atual. O novo plano é assimilar a igreja ao mundo e assim, abarcar uma área maior dentro de suas fronteiras. Através de apresentações semi-dramáticas, fazem a casa de oração aproximar-se do teatro. Transformam seus cultos em verdadeiros shows musicais, e seus sermões em discursos políticos ou ensaios filosóficos – de fato, trocam o templo pelo teatro, e transformam os ministros de Deus em atores, cuja função é entreter os homens.

Não é verdade, que o Dia do Senhor está se tornando mais e mais um dia de recreação ou de lazer, e a Casa do Senhor, uma casa cheia de ídolos, ou um clube político, onde existe mais entusiasmo por festas do que zelo pelo nome de Deus? Ai de mim, as cercas estão quebradas, as paredes estão derrubadas e para muitos, não existe mais igreja, exceto como uma parte do mundo, não há Deus, exceto como uma força desconhecida, através da qual operam as leis da natureza. Esta é a proposta. De forma a ganhar o mundo, o Senhor Jesus deve adaptar-se, bem como a Seu povo e a Sua Palavra, ao mundo. Não compactuo com proposta tão repugnante.

IV. Em quarto lugar, notemos a rejeição franca e determinada do mestre a esta proposta. Ele diz, de forma curta e incisiva, “Guarda-te, que não faças lá tornar o meu filho.” O Senhor Jesus Cristo encabeça esta grande caravana de emigração, que acaba de sair do mundo. Dirigindo-se a Seus discípulos, Ele diz, “Vós não sois deste mundo, assim como Eu não sou deste mundo.” Não somos deste mundo por nascimento, nem somos deste mundo por nossa vida, nem somos deste mundo em objeto, nem somos deste mundo em espírito, não somos deste mundo em qualquer aspecto. Jesus e aqueles que estão nEle constituem uma nova raça. A proposta de voltar ao mundo é abominável aos nossos melhores instintos – sim, é mortal para a nossa vida mais nobre.

Uma voz do Céu clama, “Não faças lá tornar o meu Filho.” Não permitais que o povo a quem o Senhor tirou do Egito retorne à casa da servidão. Mas que seus filhos saiam e que sejam separados, e o Senhor Jeová será um Pai para eles. Note como Abraão coloca a questão. De fato, ele argumenta, isto seria afastar-se da ordem divina. “O Senhor Deus dos céus,” disse Abraão, “me tomou da casa de meu pai e da terra da minha parentela.” Por que, então, se Ele tirou a Abraão, deveria Isaque retornar? Isto não pode ser. Até aqui o caminho do Senhor com a Sua igreja tem sido separar um povo do mundo para que sejam Seus eleitos – um povo formado para Si mesmo, o qual demonstrará o Seu louvor.

Amados, o plano de Deus não se altera. Ele ainda sairá a chamar aqueles a quem predestinou. Não menosprezemos este fato e passemos a supor que podemos salvar homens em uma escala por atacado, ignorando a diferença entre os mortos no pecado e os vivos em Sião. Se Deus tivesse em mente abençoar a família em Padã-Arã, permitindo que Seus escolhidos habitassem entre eles, por que chamou Abraão para sair dali? Se Isaque pudesse fazer algum bem habitando ali, por que Abraão partiu? Se não há necessidade de uma igreja separada hoje, o que estivemos fazendo todos esses anos? O sangue dos mártires foi derramado por pura tolice? Os reformadores estavam loucos quando lutaram por doutrinas as quais parece não serem de grande importância?

Irmãos, existem duas sementes – a semente da mulher e a semente da serpente – e a diferença será mantida até o final – e não podemos ignorar esta distinção para agradar aos homens. Para Isaque, descer à casa de Naor em busca de uma esposa, seria colocar a Deus em segundo lugar, em favor de uma esposa. Abraão principia seu argumento com uma referência a Jeová, “O Senhor Deus dos céus”. Pois Jeová era tudo para ele e também para Isaque. Isaque nunca renunciaria a sua caminhada com o Deus vivo, para que pudesse encontrar uma esposa. Contudo, esta apostasia é bastante comum em nossos dias. Homens e mulheres que professam santidade abandonam o que professam crer, de forma a conseguir esposas ou esposos ricos para si e seus filhos.

Não há desculpas para esta conduta mercenária. “Uma sociedade melhor” é o clamor – significando mais riquezas e moda. Para o verdadeiro homem, Deus está em primeiro lugar – sim, é o Tudo em Tudo. Mas Deus é colocado em último lugar e tudo mais é colocado à Sua frente pelo falso cristão. Em nome de Deus, conclamo aos fiéis a Deus e à sua verdade a que se recusem a abandonar sua fé. Não importa o que possam perder, não vos desvieis. Não importa o que possam ganhar, contai a repreensão de Cristo como riquezas maiores do que todos os tesouros do Egito. Desejamos o espírito de Abraão em nós, e o teremos quando tivermos a fé de Abraão.

Abraão sentiu que isto seria renunciar à Promessa do Concerto. Vede como ele coloca a questão – “O Senhor Deus dos céus, que me tomou da casa de meu pai me jurou, dizendo: À tua descendência darei esta terra.” Deverão, portanto, deixar a terra e voltar ao lugar de onde o Senhor os chamou? Irmãos, somos também herdeiros da Promessa, de coisa ainda não vistas. Por isto caminhamos pela fé e desta forma somos separados daqueles que estão à nossa volta. Habitamos entre os homens como Abraão habitou entre os cananitas – mas somos uma raça distinta – somos nascidos com um novo nascimento, vivemos sob leis diferentes e agimos por motivos diferentes.

Se voltarmos aos caminhos dos mundanos e formos contados com eles, temos renunciado o Concerto de Deus, a Promessa não é mais nossa e a herança eterna está em outras mãos. Não sabeis vós disto? No momento em que a igreja diz, “Serei como o mundo”, condena a si mesma juntamente com o mundo. Quando os filhos de Deus viram as filhas dos homens, como elas eram belas, e tomaram como esposas todas aquelas que escolheram, então veio o Dilúvio e os varreu a todos [Gênesis 6:1-7]. Assim ocorrerá novamente, caso o mundo tome a igreja em seus braços – então virá o juízo tremendo e, talvez, uma tempestade de fogo devorador.

A Promessa do Concerto e a herança do Concerto não são mais nossas se descemos ao mundo e abandonamos nosso jornadear com o Senhor. Além disso, caros amigos, nenhum bem pode advir de tentarmos nos conformar com o mundo. Suponhamos que a sugestão do servo houvesse sido acatada e Isaque houvesse descido à casa de Naor, qual teria sido o motivo? Poupar Rebeca da dor de separar-se de seus amigos e do incômodo da viagem. Se essas coisas fossem o bastante para evitar que ela viesse, que valor teria ela para Isaque? O teste da separação era completo e não deveria ser omitido, fossem quais fossem os meios. Ela seria uma esposa inferior, se não pudesse fazer uma jornada para chegar até seu esposo.

E todos os conversos que a igreja poderá fazer através do rebaixamentos dos padrões de sua doutrina e tornando-se mundana não valerão um vintém furado. Quando os recebermos, a próxima pergunta será, “Como nos livraremos deles?” Não serão de utilidade para nós aqui na terra. O número dos Israelitas que saíram do Egito foi inflado por um grande número de Egípcios das classes inferiores que saíram com eles. Sim, mas esta multidão mista tornou-se a praga de Israel no deserto e lemos que “a multidão mista caiu em luxúria”. Os Israelitas eram maus o bastante, mas era a multidão mista quem sempre liderava a murmuração.

Por que há uma tal morte espiritual hoje? Por que a falsa doutrina é tão disseminada as nossas igrejas? É porque temos pessoas não santificadas na igreja e no ministério. A ânsia por números e especialmente a ânsia por arrolar pessoas respeitáveis tem adulterado muitas igrejas e tem-nas tornado frouxas na doutrina e prática e amantes de entretenimentos tolos. Há pessoas que desprezam as Reuniões de Oração mas se apressam para ver “esculturas de cera vivas” em seus salões de escola. Deus nos salve de conversos que são feitos através do rebaixamento de padrões e da adulteração da glória da Igreja! Não, não! Se Isaque deve ter para si uma esposa, esta sairá do Líbano e de seu descanso e não se importará com uma viagem em lombo de camelo. Os verdadeiros conversos não são intimidados pela Verdade ou pela santidade – de fato, são essas coisas que os atraem.

Além disso, Abraão sentiu que não haveria razão para fazer com que Isaque descesse, pois o Senhor lhe havia assegurado uma esposa. Abraão disse “Ele enviará Seu anjo diante de ti, e tomarás de lá uma esposa para meu filho.” Tendes medo de que a pregação do Evangelho não conquiste almas? Estás desanimado com relação ao sucesso em fazer as coisas à maneira de Deus? É por isso que vos entristeceis, almejando uma melhor oratória? É por isso que precisais ter música, e arquitetura, e flores, e adornos? Afinal, é pelo poder e força, e não pelo Espírito de Deus? Realmente é assim na opinião de muitos.

Amados irmãos, há muitas coisas que posso permitir a outros adoradores, as quais tenho negado a mim mesmo na liderança da adoração desta congregação. Por longo tempo tenho desempenhado diante dos vossos próprios olhos o experimento da atratividade do Evangelho de Jesus, sem a necessidade de auxílios. Nosso culto é severamente simples. Nenhum homem vem até aqui para gratificar os olhos com arte ou seus ouvidos com música. Tenho colocado diante de vós, através de todos esses anos, nada além de Cristo crucificado e a simplicidade do Evangelho. E ainda assim, onde poderíeis achar tal multidão como a que se encontra aqui nesta manhã? Onde poderíeis encontrar uma multidão tal qual a que aqui se congrega, sábado após sábado, por trinta e cinco anos?[2]

Tenho vos mostrado nada além da Cruz, a Cruz sem as flores do oratório. A Cruz sem as luzes azuis da superstição ou da excitação. A Cruz sem os diamantes da hierarquia eclesiástica. A Cruz sem as escoras da ciência arrogante. A Cruz é suficientemente abundante para atrair homens, primeiro a si própria e depois, para a vida eterna! Nesta casa, temos provado, ao longo destes muitos anos, esta grande Verdade de Deus – o Evangelho pregado em simplicidade conquistará uma audiência, converterá pecadores e edificará e susterá uma Igreja. Imploramos ao povo de Deus para que notem que não existe qualquer necessidade de tentarmos experiências duvidosas e métodos questionáveis. Deus ainda salvará através do Evangelho – apenas permitais que seja o Evangelho em sua pureza.

Esta grande e velha espada cortará a espinha dorsal do homem e repartirá uma rocha em duas. Por que, então, realiza tão pouco de sua antiga obra de conquista? Eu vos direi. Vêem esta bela bainha, obra de artistas, tão maravilhosamente elaborada? Muitos mantêm a espada nesta bainha e, desta forma, seu fio nunca alcança o objeto de sua obra. Desembainhai-a. Lançai esta preciosa bainha no Hades e vereis como, nas mãos do Senhor, esta gloriosa espada de dois gumes ceifará os campos de homens, assim como os ceifeiros cortam a erva com suas foices. Não há necessidade de ir ao Egito em busca de auxílio. Convidar o diabo para ajudar a Cristo é vergonhoso. Pela graça de Deus, ainda vereis prosperidade, quando a Igreja de Deus decidir nunca agir, a não ser da maneira do próprio Deus.

V. E agora, finalmente, observai sua justa absolvição de seu servo. “Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho.”

Quando estivermos em nosso leito de morte, se houvermos pregado fielmente o evangelho, a nossa consciência não nos acusará de havermos nos mantido fiéis a ele – não lamentaremos o fato de não havermos desempenhado o papel de tolo ou político, de forma a aumentar a nossa congregação. Oh, não! Nosso Mestre nos dará completa absolvição, mesmo se poucos tenham se congregado, desde que tenhamos sido fiéis a Ele. “Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho.” Não tenteis estratagemas que serão uma desonra para religião. Mantende a simplicidade do Evangelho. E, se as pessoas não forem convertidas por ele, estareis livres.

Meus caros ouvintes, quanto eu gostaria de vê-los salvos! Mas eu não trairia o meu Senhor, mesmo se fosse para ganhar as vossas almas, se elas pudessem ser ganhas desta forma. O verdadeiro Servo de Deus é responsável pela diligência e fidelidade; mas não é responsável pelo sucesso ou insucesso. Os resultados estão nas mãos de Deus. Se aquela querida criança em vossa classe não se converter, apesar de haverdes apresentado diante dela o Evangelho de Jesus Cristo com diligência amorosa, em oração, não ficareis sem recompensa. Se prego, do íntimo de minha alma, a grande Verdade de Deus, de que a fé no Senhor Jesus Cristo salvará meus ouvintes – e se os persuado e insisto com eles a crerem em Jesus, de forma a terem a vida eterna – se não fizerem isto, seu sangue cairá sobre as suas próprias cabeças.

Quando voltar para junto de meu Mestre, se houver pregado fielmente a Sua mensagem da Graça sem preço e do amor que O levou à morte, estarei limpo. Tenho orado freqüentemente para que possa ser capaz de dizer pelo menos o que George Fox pôde dizer de forma tão verdadeira – “Estou limpo, estou limpo!” É a minha mais alta ambição estar limpo do sangue de todos os homens. Tenho pregado a Verdade de Deus até onde a conheço e não tenho sido envergonhado por suas peculiaridades. Para que não obscureça meu testemunho, tenho me mentido afastado daqueles que erram em relação à fé e até mesmo daqueles que se associam a eles. O que mais posso fazer para ser honesto convosco? Se, depois de tudo, os homens não aceitarem a Cristo e Seu Evangelho e Seu domínio, isso é com eles próprios.

Se Rebeca não houvesse vindo a Isaque, teria perdido seu lugar na santa linhagem. Meu amado ouvinte, vais aceitar a Jesus Cristo ou não? Ele veio ao mundo para salvar pecadores e a ninguém rejeita. Vais aceitá-Lo? Confiarás nEle? “Todo aquele que crer e for batizado, será salvo” [Marcos 16:16]. Crerás nEle? Serás batizado em Seu nome? Se sim, a salvação é tua. Mas, se não, Ele mesmo disse, “Aquele que não crer, será condenado.” [Idem].

Oh, não vos exponhais a esta condenação! Ou, se esta vier sobre vós – quando o Grande Trono Branco for visto nos céus e o Dia da Ira chegar – fazei justiça a mim e reconhecendo que implorei a vós para que fugissem para Jesus e que não vos diverti com teorias inovadoras. Não vos trouxe nem flauta, harpa, trombone, saltério, dulcimer, nem qualquer outro tipo de música para agradar a vossos ouvidos. Coloquei diante de vós a Cristo, e insisti para que cressem e vivessem.

Se vos recusais a aceitar a substituição de Cristo, tendes recusado Sua própria misericórdia. Livrem-me naquele dia de toda cumplicidade com invenções e novidades de homens desiludidos. Quanto ao meu Senhor, oro para que me conceda a graça de ser fiel até o fim, tanto à Sua verdade quando às vossas almas. Amém.


Porção das Escrituras lida antes do sermão – Gênesis 24

Hinos cantados do “Our Own Hymn Book” – 166, 928, 884.

Adaptado de The C.H. Spurgeon Collection, Versão 1.0, Ages Software, 1.800.297.4307


Notas:

[1] Os termos deste texto escritos entre [colchetes] são adições dos editores do espaço virtual Música Sacra e Adoração, e não constam do texto original. Os textos bíblicos constam do original, mas, para dar maior embasamento ao artigo, os editores do referido espaço virtual adicionaram as citações, que também estão entre [colchetes].

[2] O leitor atento percebeu que em alguns trechos o autor faz menção dos cultos aos domingos e, neste parágrafo em particular, faz uso do referência de encontros semanais aos sábados. Esclarecemos que o autor, C.H. Spurgeon, era membro da Igreja Presbiteriana, que, como a maioria das religiões protestantes, tem o domingo semanal (o primeiro dia da semana) como dia de guarda e de culto. Neste parágrafo, todavia, foi traduzido como “sábado” o termo original “shabbat”.


Fonte: http://www.spurgeongems.org

Traduzido por Levi de Paula Tavares em Junho/2006


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