A Música Sacra Dentro da Cosmovisão Adventista – Parte 3

por: Pr. Douglas Reis

Interpretando e Aplicando Conceitos de Ellen White

O reducionismo, tanto na abordagem histórica do contexto cultural no qual Ellen White estava inserida quando escreveu sobre a música, quanto na aplicação atual do que ela escreveu.

Para compreendemos melhor a questão da importância da Revelação na adoração, é necessário notarmos que, para os adventistas, o mundo é visto como caminhando para um fim irreversível; nestes últimos dias da História da Terra, Deus tem, então, preparado um povo, dando a ele um cabedal de verdades que devem ser anunciadas a todo mundo. A mensagem da obra de Cristo no Santuário, parte deste sistema e eixo integrador do corpo de verdades para o tempo do fim, deve atrair nossa consideração nesses últimos dias. Como afirma Ellen White:

“Encerrando-se o ministério de Jesus no lugar santo, e passando Ele para o lugar santíssimo e ficando de pé diante da arca, a qual contém a lei de Deus, enviou um outro anjo poderoso com uma terceira mensagem ao mundo. Um pergaminho foi posto na mão do anjo e descendo ele à Terra com poder e majestade, proclamou uma terrível mensagem de advertência com a mais terrível ameaça que já foi feita ao homem.Esta mensagem estava destinada a pôr os filhos de Deus de sobreaviso, mostrando-lhes a hora de tentação e angústia que diante deles estava.Disse o anjo: ‘Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Deus e tem a fé de Jesus’ Apocalipse 14:12. Ao dizer estas palavras, aponta para o santuário celestial. As mentes de todos os que abraçam esta mensagem são dirigidas ao lugar santíssimo, onde Jesus está em pé diante da arca fazendo intercessão final por todos aqueles por quem a misericórdia ainda espera, e pelos que ignorantemente terão violado a lei de Deus.”[1]

Perceba que a doutrina da purificação do santuário, justamente por ser tanto crucial para a integração da verdade (juntamente com as três mensagens angélicas, também referidas no texto), quanto por servir de advertência de que “a hora da tentação e angústia” está se aproximando, deve ocupar a consideração das “mentes de todos os que abraçam esta verdade.” O processo de aquilatar a grande Verdade da obra de Cristo no Santuário Celestial acontece na mente.

Diante da importância do papel da mente para a compreensão da verdade, surge uma série de admoestações inspiradas para cuidarmos da mente: principal, mas não unicamente, Ellen White trata dos cuidados que os adventistas têm que ter com a alimentação. Hábitos errôneos, compreendendo o comer em demasia, não seguir um regime apropriado, são responsáveis pelo “entorpecimento” e “embotamento” da mente, impedindo-a de apreciar as grandes verdades para os presentes dias.[2] Propriamente dentro deste contexto, surge a afirmação “Com a mente servimos ao Senhor”[3]

Contudo, como relacionar o cuidado que devemos manifestar no que toca à mente com o curso que a música vem tomando no moderno adventismo?

Anteriormente, mencionamos o movimento da “Carne Santa”, uma heresia que surgiu no meio do adventismo. Aquela experiência serve não apenas como um exemplo histórico da maneira pela qual tendências pentecostais se insurgiram na denominação adventista, mas fornece um síloge do futuro paradigma na adoração adventista. Notemos o que Ellen White comenta:

“As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo. […]

“Não entrarei em toda a triste história; é demasiado. Mas em janeiro último o Senhor mostrou-me que seriam introduzidos em nossas reuniões campais teorias e métodos errôneos, e que a história do passado se repetiria. Senti-me grandemente aflita. Fui instruída a dizer que, nessas demonstrações, acham-se presentes demônios em forma de homens, trabalhando com todo o engenho que Satanás pode empregar para tornar a verdade desagradável às pessoas sensatas; que o inimigo estava procurando arranjar as coisas de maneira que as reuniões campais, que têm sido o meio de levar a verdade da terceira mensagem angélica perante as multidões, venha a perder sua força e influência.”[4]

No contexto dos últimos dias, Ellen White afirma que manifestações como a ocorrida em Indiana serão a regra, não a exceção. De alguma forma, “gritos”, “tambores”, música” e “dança” acompanharão o repertório de nossa música. Obviamente, a autora relaciona essa mudança de valores musicais como um estratagema de Satanás, para confundir “os sentidos dos seres racionais”. Essa aproximação satânica com a maneira pagã de adorar seria considerada “operação do Espírito Santo”.

Já consideramos nos tópicos anteriores os fatores que têm permitido, paulatinamente, a ocorrência desse fenômeno de mudança paradigmática entre os adventistas. Somente a Revelação poderia reorientar nossa concepção musical dentro da perspectiva de nossa singularidade como movimento profético. Entrementes, a Revelação tem sido desconsiderada, mesmo no meio denominacional.

Faz-se necessário nos determos em um exemplo recente da história do Adventismo para percebermos o desenvolvimento de alguns conceitos responsáveis pelo desprestígio da Revelação. Uma das maiores crises que a Igreja Adventista enfrentou foi desencadeada quando Desmond Ford, um proeminente teólogo adventista, questionou a doutrina do santuário. Ele apresentou suas dúvidas de forma pública inicialmente em 27 de Outubro de 1979, em uma palestra sobre Hebreus 9 e suas implicações para a doutrina adventista, no Pacific Union College.[5] Diante da repercussão do fato, foram concedidas seis meses a Ford pela Associação Geral, a fim de que desenvolvesse e apresentasse suas idéias. O trabalho de Ford rendeu um texto de quase 1000 páginas que foi debatido entre teólogos adventistas, sendo possível encontrar muitas publicações sobre o ocorrido, bem como refutações à posição de Ford.[6]

O curioso é que, para sustentar sua nova compreensão sobre o santuário, Ford teve de reinterpretar os escritos de Ellen White, que para ele passaram a ser vistos como incorporando muitos dos erros de contemporâneos adventistas da autora, mais preocupados em prover uma explicação para o desapontamento do que em buscar uma perspectiva bíblica. Ellen White teria, para Ford, somente a finalidade de aconselhar de forma pastoral, sem autoridade doutrinária.[7]

Ford, certamente, não foi quem primeiro duvidou da autoridade profética de Ellen White, contudo, ele trouxe uma nova e perigosa abordagem restritiva da Revelação, limitando sua funcionalidade ao patamar “pastoral” (admoestativo). Mesmo em congregações brasileiras, nas quais geralmente o criticismo histórico raramente é encontrado, muitos dos livros de Ellen White são tratados como meros “conselhos”, como se a obediência voluntária àqueles aspectos da Revelação encontrados em tais livros não fosse relevante para a salvação ou desenvolvimento da vida cristã, mas meramente “opcional”.

O que ocorreu no caso de Ford ilustra a racionalização que tendemos a fazer quando nossa compreensão não se conforma com o que a Revelação apresenta sobre determinado assunto. Em uma esfera menor e, geralmente, de forma inconsciente, passamos a atribuir um valor reduzido ao que o profeta pronunciou ou acomodar sua mensagem às nossas preferências, sendo seletivos em relação ao que ele comunicou.

Infelizmente, no campo da adoração, que constitui um “tabu” entre os adventistas, os conselhos de Ellen White ainda são pouco explorados, e, lentamente, uma concepção popular, de influência marcadamente mais evangélica, vem substituindo os princípios especificamente adventistas. Quando estudamos os conselhos da mensageira do Senhor, reagimos inconscientemente a eles, no sentido de “enquadrá-los” em nossas preferências.

Como já vimos, entre os evangélicos é comum aceitar a fusão entre música secular e letra religiosa, embora este não seja um princípio coerente com nossa filosofia de culto. Nos aproximamos ainda mais da posição evangélica, quando negamos os relatos divinamente inspirados de Ellen G. White. Quando a profetiza do Senhor usa termos como "harmonia", "dissonância", "acordes perfeitos", está ela sim nos indicando modos de operar a música no contexto da adoração de um Deus Santo! Nunca, é verdade, atingiremos a perfeição que ela viu e ouviu na sua experiência com Deus, mas, certamente, é esse o alvo que devemos buscar em nossa execução e técnica musicais.

Quais seriam os objetivos de Ellen White ao fornecer conselhos sobre música se eles não servissem para nortear a música de forma precisa? Evidentemente, esse mesmo tipo de raciocínio poderia ser estendido às outras áreas em que ela escreveu: como poderíamos aprender de seus conselhos na área pedagógica, se eles não se expressam em termos precisos (e/ou técnicos)? Se, enfim, estendêssemos este tipo de interpretação a tudo quanto entendemos ser a Revelação de Deus através de Ellen White, chegaríamos inevitavelmente à conclusão de que a mesma Revelação é despropositada, uma vez que seu caráter é impreciso e, portanto, indigno de confiança.

A quem diz que os conselhos de Ellen G. White não são aplicáveis nos dias de hoje, deveríamos perguntar o que deveria ser proposto como forma de interpretar o legado profético de Ellen White. Deveríamos usar um modelo hermenêutico, no qual todo o texto deve ser infinitamente contextualizado em sua originalidade, invalidando assim os princípios ali contidos para o nosso ensinamento e salvação? Creio que essa saída não passe de "drible". Não é isso que Deus espera de nós.

É-nos muito conhecida a abordagem de que uma contextualização excessiva dos textos de Ellen White tira a relevância do que a autora escreveu para a nossa época, enquanto a não-contextualização é igualmente “perigosa”. Uma conseqüência desta interpretação no mínimo ambígua é a proposta de um “equilíbrio” entre as duas práticas. De início, a idéia soa um tanto estranha: como seria possível um equilíbrio entre a excessiva contextualização e a não-contextualização? Teríamos, então, de objetivar uma “meia-contextualização”? Não vejo alternativa aqui: ou compreendemos o contexto dos textos de Ellen G. White e, após essa compreensão, destacamos a validade de suas idéias como proféticas; ou caminharemos por uma trilha de negação de seus relatos como verdades a serem recebidas como princípios divinos. É exatamente isso que continuaremos a fazer a seguir.

Para resgatarmos o contexto em que Ellen White escreveu, temos necessidade de buscar entender que o século XIX constituiu-se de uma era de despertamentos religiosos em solo americano. Ainda em 1800, Francis-Asbury, considerado o primeiro pregador itinerante, iniciava as reuniões campais de reavivamentos, chamadas de “Camp meetings”.[11] Visando alcançar o povo individualista e isolado que vivia na fronteira, os evangélicos daquela época mudaram sua abordagem, focalizando na “experiência de conversão profunda” para promover novas conversões. Na dinamicidade do processo, a religião passou a ser redefinida “em termos de emoção, no mesmo tempo que contribuía para negligenciar a teologia, a doutrina e o elemento cognitivo da crença.” Notoriamente, essa mudança no paradigma religioso levou a uma reestruturação do sistema de culto, que passou a incorporar “linguagem simples do povo e músicas populares”. [12] Note esta descrição de tais reuniões:

“‘Tenho visto presbiterianos, metodistas, quacres, batistas, anglicanos e independentes, todos tomados de sacudidelas; cavalheiros e damas, negros e brancos, velhos e moços, ricos e pobres sem exceção. […]

“Era a noite que o frenesi reavivamentista alcançava a intensidade máxima. Ao clarão das fogueiras que rodeavam o campo, os pregadores iam por entre a turba exortando aos pecadores a arrependerem-se para escapar do fogo do inferno. O canto se avolumava, transformando-se em portentoso rugido, os brados abalavam a terra, homens e mulheres sacudiam-se, saltavam ou rolavam pelo chão até que desmaiavam e tinham de ser carregados. Entre soluços, gemidos e gritos homens e mulheres apertavam as mãos uns dos outros e davam vazão a todas as suas frustrações e emoções em grandes transportes vocais que culminavam no ‘êxtase do canto’.”[13]

A influência da música cantada nos camp meetings atravessou o movimento milerita e demorou até ser sistematicamente rejeitada pelos primeiros hinários adventistas[14]. Reapareceu, contudo, durante o episódio da Carne Santa, que, à luz da História do evangelicalismo americano se torna ainda mais verossímil.

Na área secular, a influência da agitação religiosa também ajudava a criar um novo gênero, que marcaria a musicalidade norte-americana: o jazz. O homem negro, trazido da África como escravo, foi inserido no contexto musical americano, misturando a sua musicalidade primitiva àquela que encontrou no continente novo. Nos campos do Sul dos Estados Unidos, os escravos se comunicavam através dos “hollers”, gritos que funcionavam como uma espécie de sonar, e do qual várias canções se desenvolveram. Dentro desse cenário musical, a figura do “griot” desempenha importante papel: nas tribos da costa ocidental da África, eles ocupavam uma função social e religiosa de destaque.[15] A adesão da tradição musical africana no movimento reavivamentista desenvolveu um novo tipo de música profana:

A Black Music nasceu dos antigos Negro-spirituals, canções folclóricas de fundo religioso, cantadas pelos escravos africanos nos Estados Unidos. Os spirituals não apenas deram origem ao gospel, mas a uma gama de estilos negros.

A afinidade entre a música africana e a dos movimentos cristãos norte-americanos ultrapassou o período dos reavivamentos e se perpetuou nos movimentos pentecostais. Dorneles observa:

“O pentecostalismo, possuído pela ênfase na experiência tangível da salvação, encontrou nos elementos culturais africanos uma forma adequada de expressão. Essa forma incorporada ao culto abre espaço para uma liturgia emocional e corporal”[16]

A música profana da época recebeu direta influência da música negra, como também de várias outras culturas, que foram se imiscuindo, para criar as condições necessárias ao surgimento do Jazz. Com efeito:

“A ópera francesa, a canção popular, a música napolitana, os tambores africanos […], o ritmo haitiano, a melodia cubana, os refrões satíricos dos crioulos, os spirituals e os blues americanos, o ragtime, a música popular da época – tudo isso se fazia ouvir lado a lado nas ruas [de New Orleans].”[17]

É digno de nota a relação, tanto devido à proximidade geográfica, quanto à afinidade de ritmos entre o jazz e a música latino-americana (“o ritmo haitiano” e “a melodia cubana”). A História das Américas revela que os negros estiveram lado a lado com os conquistadores espanhóis, sendo que em “alguns casos, até os próprios líderes coloniais eram negros, como Estebanico” e “Juan Valiente”, que fizeram expedições às terras que hoje pertencem, respectivamente, ao México e ao Chile. “Entre 1502 e 1518, centenas de negros emigraram” para as Américas; os colonos negros, que moravam antes na Península Ibérica, já haviam “substituído a cultura africana original pela cultura moura (árabe)”, isto porque os árabes dominaram a Espanha desde o século VIII, e o ano em que Colombo partiu (1492) também havia marcado a queda do último “bastião dos mouros”. Quando a Espanha chegou a primazia no tráfico de escravos, estes provinham da África ocidental, “países com distintos padrões de cultura árabe”. Na Espanha, a tolerância aos costumes dos escravos era maior, por haverem influências árabes tanto na cultura espanhola como na de seus escravos africanos. A presença de elementos árabes nas culturas africanas e latino-americanas contribuiu para a formação de gêneros tipicamente norte-americanos, como o blues e o jazz. E o processo de “incrementação” da música negra nos Estados Unidos se deu ainda no século XIX.[18]

Tais informações históricas tornam-se úteis para entendermos as origens da música em desenvolvimento no período no qual foram dadas as advertências inspiradas, como a que consta no seguinte texto de Ellen G. White:

“Foi-me mostrado que a juventude necessita assumir posição mais alta e fazer da Palavra de Deus sua conselheira e guia. Solenes responsabilidades repousam sobre os jovens, as quais eles levianamente consideram. A introdução de música em seus lares, em vez de incitá-los à santidade e espiritualidade, tem sido um meio de desviar-lhes a mente da verdade. Canções frívolas e peças de música popular do dia parecem compatíveis com seus gostos. Os instrumentos de música têm tomado o tempo que devia ter sido dedicado à oração. A música, quando não abusiva, é uma grande bênção; mas quando usada erroneamente, é uma terrível maldição. Ela estimula, mas não comunica a força e a coragem que o cristão só pode encontrar no trono da graça enquanto humildemente faz conhecidas suas necessidades e, com fortes clamores e lágrimas, suplica força celestial para se fortificar contra as poderosas tentações do maligno. Satanás está levando cativa a juventude. Oh, que posso eu dizer para levá-los a quebrar seu poder de sedução! Ele é um hábil sedutor para levá-los à perdição.”[19]

Quando Ellen White comenta os efeitos danosos que a “música popular” de seus dias causava sobre os jovens, desviando-lhes “a mente da verdade”, temos de entender sua orientação dentro de uma “época em que o ‘jazz’ começava a se generalizar.”[20] Mais uma vez, a preocupação é com a mente e com suas condições de receber, entender e aceitar o conjunto de verdades que Deus tem para o tempo do fim.

Merece a nossa atenção o fato de no século XIX, a cultura musical, tanto a religiosa quanto a secular, sofreram inúmeras influências, rompendo antigos padrões. É claro que o surgimento de uma atitude descompromissada se comparada às convenções estabelecidas dentro do protestantismo histórico em detrimento do sincretismo entre culturas influenciadas pelo emocionalismo cúltico, também foi um fenômeno perfeitamente explicado pelo surgimento do Romantismo, que se insurgia contra a autoridade, quer no âmbito particular ou público. “Este espírito foi incentivado pela Revolução Francesa”, responsável por muitos dos princípios da modernidade. Agora, a “partir de uma perspectiva protestante, a música se tornou carregada de emocionalismo”, perdendo de vista qualquer senso de responsabilidade.[21]

Assim, tornava-se ainda mais imperativo que Deus fornecesse informações concretas para o povo adventista, vivendo instantes antes do advento, a fim de não lhes deixar a mercê de critérios subjetivos, uma vez que tais critérios os levariam a cultivar uma qualidade de música tão emocional como os evangélicos contemporâneos deles. No entanto, é justo perguntarmos: O que de prático podemos mensurar dos conselhos de Ellen White a respeito da música? Teria sido ela clara o suficiente ao abordar o assunto, ou deu orientações que pudessem ser interpretadas de formas diversas, até mutuamente excludentes?

É certo que não há de se esperar uma linguagem musical técnica nos escritos de Ellen White, tendo em vista que a autora não tinha formação musical, e não escreve pensando apenas naqueles que são músicos profissionais; contudo, o cunho de seus escritos reflete uma filosofia musical que (caso aceitemos o fato de ela ser a “mensageira do Senhor”) expressa a vontade de Deus para o Seu povo. Samuel Krähenbühl argumenta:

"Algumas pessoas podem afirmar em tom irônico que Ellen não nos deixou partituras. Mas reflitamos: seus conselhos foram em sua maioria de cunho filosófico. Entretanto, a Música Filosófica está intimamente relacionada com a Música Notação."[22]

Inferimos, portanto, que a Revelação de Deus a Ellen White abrange princípios, que o músico cristão se preocupará em seguir. Emily Akuno, professora adventista de música, cuja influência é reconhecida no Quênia, seu país de origem, afirma:

“[…] Como adventista, quero usar a música para transmitir valores corretos. Para atingir esse objetivo, uso os dons que Deus me concedeu para ensinar meus alunos de tal modo que possam fazer decisões sábias na utilização de seus talentos musicais. Minha fé também me orienta e ajuda na escolha das músicas que utilizo. Isso não significa que trabalho apenas com música sacra, mas deixo meus valores cristãos influenciarem minha perspectiva de música, tanto a sacra como a secular, clássica ou contemporânea.”[23]

A despeito de não utilizar linguagem musical técnica, os princípios encontrados na Revelação de Deus à Ellen White abrangem a todos, inclusive os músicos profissionais, que devem se pautar pelos mesmos princípios, ao compor, interpretar, tocar ou reger a música durante o culto. Entre os seus escritos, encontramos um testemunho de Ellen White a um regente, que, embora fosse possuidor de “conhecimento musical”, possuía uma “formação em música do tipo a adequar-se mais ao palco do que ao solene culto de Deus”. Ela lhe advertiu que “qualquer excentricidade ou peculiaridade cultivadas [no canto] atrai a atenção do povo e destrói a impressão séria e solene que deveriam ser o resultado da música sagrada. Qualquer coisa excêntrica e estranha no canto deprecia a seriedade e caráter sagrado do serviço religioso.” Especificamente, Ellen White se refere à sua “voz alta e estridente”, ao seu excessivo “movimento corporal durante o canto” e ao fato de que o referido “irmão” “tem se tornado desencorajado e não quer fazer nada” quando se vê questionado.[24] Por esse exemplo, fica notório o fato de a Revelação situa-se acima da autoridade meramente acadêmica, o que vale para qualquer área em geral e, em nosso caso específico, para a área musical.

Das orientações de Ellen White, estudiosos adventistas têm extraído diversas características da música cristã, que, embora não sejam exaustivas, nos ajudam a ter critérios mais concretos. Enquanto um ou outro autor entende que o “grande princípio que permeia as palavras da irmã White”, no que diz respeito à música, seja que toda “música cantada deve focar em primeiro lugar a clareza da mensagem”, outros tantos autores, têm destacado, quer de forma literal, quer por dedução e aplicação indireta, entre outros diversos fatores, os seguintes: cantar de forma harmoniosa e dominada, fazer uso da expressão correta (sem “chiados”, voz “rouquenha” ou de forma gritada, comuns aos músicos populares), não usar dissonâncias não resolvidas (como na música popular ou erudita contemporânea), empregar música solene, evitar todo tipo de estridência vocal, não fazer da música um ato de exibição teatral (como nas óperas), preparar-se adequadamente para dirigir ou apresentar a música na igreja (sem restringi-la a alguns poucos), não utilizar música muito ritmada (cujo ritmo seja facilmente identificado com algum gênero popular), cantar com espírito e entendimento.[25]

Alguns autores podem ainda insistir que é “complicado classificar música, especialmente música sacra.” Nossa preocupação é se este tipo de afirmação poderia estar refletindo uma abordagem “liberalista” da música, sob a alegação de “ser difícil” definir o que é sacro ou não, razão pela qual deveríamos buscar santidade apenas em termos pessoais, não musicais.[26] Esta abordagem, ainda que seja muito cômoda, não nos parece convincente ou mesmo mostrar coerência, em face aos conceitos de Ellen White e a maneira pela qual têm sido interpretados pelos adventistas ao longo da história denominacional. Cabe essa consideração:

"A capacidade de discernir entre o que é reto e o que não o é, podemos possuí-la unicamente pela confiança individual em Deus. Cada um deve aprender por si, com auxílio dEle, mediante a Sua Palavra. A nossa capacidade de raciocinar foi-nos dada para que a usássemos, e Deus quer que seja exercitada."[27]

O primeiro documento oficial dos adventistas do sétimo dia sobre a música afirma, a certa altura, que o cristão:

"Considerará músicas como "blues", "jazz", o estilo "rock" e formas similares como inimigas do desenvolvimento do caráter cristão, porque abrem a mente a pensamentos impuros a levam ao comportamento não santificado. Tais tipos de música têm uma direta relação com o ‘comportamento permissivo’ da sociedade contemporânea. A distorção do ritmo, da melodia, e da harmonia como empregados nestes gêneros de música e sua excessiva amplificação, embotam a sensibilidade e finalmente destroem a apreciação por aquilo que é bom e santo."[28]

Se este documento se apóia em princípios da Revelação, porque hoje assistimos a apresentações musicais com os ritmos mencionados (“blues”, “jazz”, “rock” e “formas similares”) realizadas por cantores adventistas? No decurso de trinta anos, o tipo de música que antes destruía “a apreciação por aquilo que é bom e santo” passou a ser ele mesmo bom e santo? Esta mudança não indicaria uma rejeição sistemática, embora não-voluntária ou consciente, dos princípios revelados? Os líderes da Igreja Adventista na América do Sul coadunam com o pensamento de que não podemos nivelar nossa concepção musical pelos gêneros populares. Tanto que aprovaram um documento em anexo às orientações mundiais para orientar a música no território sul-americano. No que tange à música propriamente dita, os princípios são assim colocados:

“II. A Música

1 – Glorifica a Deus e ajuda os ouvintes a adorá-Lo de maneira aceitável.

2 – Deve ser compatível com a mensagem, mantendo o equilíbrio entre ritmo, melodia e harmonia (I Crônicas 25:1, 6 e 7).

3 – Deve harmonizar letra e melodia, sem combinar o sagrado com o profano.

4 – Não segue tendências que abram a mente para pensamentos impuros, que levem a comportamentos pecaminosos ou que destruam a apreciação pelo que é santo e puro."A música profana ou a que seja de natureza duvidosa ou questionável, nunca dever ser introduzida em nossos cultos". – Manual da Igreja, pág. 72.

5 – Não se deixa guiar apenas pelo gosto e experiência pessoal. Os hábitos e a cultura não são guias suficientes na escolha da música. "Tenho ouvido em algumas de nossas igrejas solos que eram de todo inadequados ao culto da casa do Senhor. As notas longamente puxadas e os sons peculiares, comuns no canto de óperas, não agradam aos anjos. Eles se deleitam em ouvir os simples cantos de louvor entoados em tom natural." – Ellen White, Manuscrito 91.

6 – Não deve ser rebaixada a fim de obter conversões, mas deve elevar o pecador a Deus. (Ver Evangelismo, pág. 137.) Ellen White diz que "haveriam de ter lugar imediatamente antes da terminação da graça… gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo. O Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal balbúrdia de ruído. Isto é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificante verdade para este tempo." – Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 36.

7 – Provoca uma reação positiva e saudável naqueles que a ouvem.”[29]

Com esses dados, somos levados a crer que a Igreja Adventista do Sétimo Dia possui uma filosofia musical distinta, a qual não é oriunda tão somente de sua tradição religiosa, todavia provém do mesmo Deus que convocou os adventistas como povo remanescente, para transmitir a última e solene advertência, dentro da qual se inclui o convite à verdadeira adoração e a rejeição à adoração falsa. Relativizar a música, que se enquadra na adoração, é, no mínimo, desconsiderar o aspecto da Revelação que incluí o referencial sobre o assunto, ou, na pior das hipóteses, rejeitar o que Deus revelou por ser contrário ao nosso gosto, formação ou opinião. Em tudo quanto envolve a vida cristã, é necessário todo o cuidado e submissão à vontade do Senhor, porque o verdadeiro cristão é aquele que vive de “toda a palavra que procede da boca Deus” (Mat. 4:4, NVI).


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Notas:

[1]Primeiros Escritos, p. 254, ênfase suprida. Tive a atenção chamada para este texto pelo Pr. Sidionil Biasi, durante suas palestras no Concílio pastoral da Associação Catarinense do segundo semestre de 2007.

[2]Há uma imensa quantidade de textos que tratam da alimentação dentro das preocupações mencionadas. Seria impossível, dentro desse espaço, fazer alusão a todos, mas, em especial, mencionamos Conselho sobre saúde, p. 577 e Carta 27, 1972, citada em Mente Caráter e personalidade, vol 2, p. 392.

[3]Temperança, p. 14.

[4]Mensagens Escolhidas, vol. II, p. 36 e 37.

[5]A palestra está disponível em http://www.goodnewsunlimited.org/library/1979forum/part1.cfme http://www.goodnewsunlimited.org/library/1979forum/part2.cfm.

[6]Em especial, consultei um trabalho de conclusão de curso, da autoria de Glauber S. de Araújo, intitulado “Desmond Ford e a doutrina do santuário: análise comparativa de duas fases distintas”, publicado em Revista Kerygma – Ano 3 – Número 1 – 1º Semestre de 2007

[7]Idem, pp. 53-55.

[10]Admitimos que a ópera fazia parte do contexto muiscal de Ellen White; mas não era o único tipo de música disponível. “A ópera e o Lieder alcançavam seu apogeu, bem como as sinfonias e os concertos. Tais atrações eram apresentadas nos melhores teatros. Era o que chamamos de ‘música popular’ da época.” Samuel Krähenbühl, “Ellen G. White: Autoridade em Música?” Revista Adventista, março 1999, p. 11; também disponível em https://musicaeadoracao.com.br/20608/ellen-g-white-autoridade-em-musica/. Acesso: 3 de Setembro de 2007. Krähenbühl chega a relacionar, adiante, o movimento da “Carne Santa” ao surgimento do jazz.

[11]Dario Pires de Araújo, “Música Adventismo e Eternidade”, p. 14.

[12]Nancy Pearcey, “Verdade Absoluta”, p. 296.

[13]Gilbert Chase, “Do Salmo ao Jazz” (America’s music), p. 193, citado por Dario Pires de Araújo, idem.

[14]Em 1843, no auge do Milerismo, Joshua Himes, importante colaborador e responsável pela “arrancada” evangelística de William Miler, publicou “The Millenial Harp”, uma coletânea com mais de cânticos, moldados pela tradição reavivamentista. Entre o grupo que posteriormente se chamaria “Adventistas do Sétimo Dia”, a herança reavivamentista foi sendo depurada; na segunda coletânea adventista, organinada por James (Tiago) White, “Hymns and Spirituals Songs for Camp- Meetings and Other Religious Gatherings”, ao invés do que o nome possa sugerir, o paradigma musical das antigas reuniões de reavivamento deixou marcas insignificantes. Cf.: Dario Pires de Araújo, idem, p. 20-22.

[15]Roberto Muggiati, “Blues: da lama à fama” (São Paulo, SP: Editora 34, 1995), 1ª reimpressão, p. 10 e 11.

[16]Dorneles, p. 88

[17]François Billard, “A vida cotidiana no mundo do Jazz” (São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2001), p. 17. No mesmo contexto, o autor liga o surgimento do jazz ao carnaval de rua de New Orleans.

[18]Gunnar Lindgren, “Las raíces árabes del Jazz y los Blues”, disponível em: http://www.imc-cim.org/mmap/pdf/prod-lindgren-s.pdf, acesso: 13 de Julho de 2009 (Atualizado pelos editores do Música Sacra e Adoração).

[19]Ellen G. White, Testimonies, vol. 1, págs. 496 e 497, grifos supridos.

[20]Dario Pires de Araújo, idem, p. 45.

[21]Adrian Ebens “A Música na Adoração: Fontes para um modelo cristão de música na adoração”, publicado em https://musicaeadoracao.com.br/28263/musica-na-adoracao-indice, acesso: 10 de Agosto de 2007.

[22]Samuel Krähenbühl Fonte, “Ellen G. White: Autoridade em Música?”.

[23]Emily Akuno, “Diálogo com uma professora adventista no Quênia”; entrevista cedida a Hudson E. Kibuuka (Silver Spring, MD: CAUPA, 2006), vol. 18, n° 3, p. 18.

[24]“Ellen White, Manuscript Releases Volume 5, Manuscript nr. 306 – Music, p. 194 – 197 (“Testimony Concerning Brother Stockings,” circa 1874.) disponível em https://musicaeadoracao.com.br/20640/testemunho-a-um-sensivel-regente-de-coro/, sob o título ” Testemunho a um Sensível Regente de Coro”.

[25]Muitas compilações, resumos e estudos foram feitos; os interessados podem encontrar um catálogo de materiais sobre o assunto em https://musicaeadoracao.com.br/musica-sacra-e-adoracao/ellen-g-white/; para uma síntese geral, poderá ser consultado Horne P. Silva, “Adoração Aceitável”, Ministério, ano 73, n° 3, Mai./Jun. 2002, disponível em sob o título “Música Aceitável”, em http://questaodeconfianca.blogspot.com/2007/07/msica-aceitvel.html.

[26]“A música é um elemento mas os artistas e compositores não são neutros. Ou você é de Deus ou do inimigo.”, Flávio Santos, “Músicos Cristãos: Ministros ou Artistas?”, em Flavio Santos. Se a música é um elemento, podemos concluir que ela não é importante em si mesma,ou que, desde que a letra seja “religiosa”, o tipo de música não mereça consideração alguma; mas o uso que dela fizermos dependerá de nossa integridade enquanto cristãos. Obviamente, rejeitamos esta concepção, considerando os tópicos anteriores deste artigo.

[27]E. G. White, Educação, p. 231.

[28]“Filosofia Adventista de Música”(Diretrizes Relativas a uma Filosofia de Música da Igreja Adventista do Sétimo Dia), Assocação Geral – IASD, Concílio Outonal – 1972, disponível em https://musicaeadoracao.com.br/28999/filosofia-adventista-de-musica/.

[29]“Filosofia Adventista do Sétimo Dia com Relação à Música” (Documento Oficial da Associação Geral, votado no Concílio Anual em 13 de outubro de 2004, com o acréscimo de um adendo elaborado pela Divisão Sul Americana da IASD, com diretrizes específicas para as Igrejas da América do Sul)”, disponível em https://musicaeadoracao.com.br/29000/filosofia-adventista-do-setimo-dia-com-relacao-a-musica/.


O Pr. Douglas Reis mantém o blog Questão de Confiança.