Música Ensurdecedora

A Forma da Adoração, Sobre Corpo e a Mente Humanas, Sonorização — 11 de novembro de 2016 3:00 am

por: Rolando de Nassau

A perda da audição pode começar num templo. Às vezes, os cultos religiosos são fontes de poluição sonora.

Em 1992, repórteres mediram o barulho dentro de certa igreja evangélica no Rio de Janeiro: era de 80 decibéis; o limite legal fora estabelecido em 55 decibéis (ver: jornal O GLOBO, 11 abril 1992).

Nem dentro (atualmente o limite é de 50 decibéis), nem fora dos templos, os praticantes de um determinado credo religioso podem prejudicar a audição alheia, abusando de instrumentos musicais ou aparelhos sonoros. Também não podem afetar o sossego das pessoas vizinhas aos templos, ou que estiverem nas proximidades das práticas religiosas.

O acúfeno decorre de uma perda de audição provocada por ruído.

Já no início dos anos 60 (quando surgiu o “Rock”), milhares de norte-americanos sofriam de acúfenos; a maioria havia perdido a capacidade de ouvir altas frequências.

O otologista britânico D.R.Hanson recomendou uma intensidade sonora de 99 decibéis em tempo de exposição máxima de uma hora. Ele reuniu dados sobre perdas de audição devidas ao ruído, em jovens que assistiram a “shows” de música popular, frequentaram discotecas ou utilizaram “walkman”.

O estímulo excessivo pode levar a esgotamento nervoso e falta de atenção.

Na década de 80, o musicólogo Nils Lennart Wallin e o fisiologista Rainer Sinz alertaram que a exposição precoce à música barulhenta levaria à prática de ignorar a intensidade do ruído, e reduziria o tratamento emocional diferenciado das nuanças musicais (ver: Fiorillo, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2013).

Com referência à ação da música sobre o organismo humano, a médica Maria Célia Del Valle chegou às seguintes conclusões: 1) com sons secos e metálicos, a pressão arterial é aumentada; com músicas melodiosas, a pressão se normaliza, ou se mantém baixa; 2) a frequência cardíaca tende a acompanhar o ritmo da música tocada; dispara com músicas rápidas, e diminui com músicas lentas; abaixo de 60 batimentos por minuto, nossos mecanismos de regulação são acionados (Observação: se isto não ocorrer, na pessoa deverá ser implantado um “pacemaker”; automaticamente, um aparelho de pressão sanguínea deverá registrar os batimentos cardíacos); 3) o som das notas graves contrai o laringe, e o das notas agudas, o abre; a música coral exercita o laringe; os baixos contraem o laringe, e os sopranos o relaxam; 4) o compasso ternário é estimulante da circulação, e o binário, suavizante (ver: Maria Célia Del Valle, jornal “Brasil Presbiteriano”, novembro de 1987).

A pulsação da música popular contemporânea não coincide com a do homem. A frequência da audição de ruídos é ameaça à saúde física e psicológica do ser humano. A poluição auditiva é um problema para cada cultuante nos templos, pois muitos deles, sem saber a origem do problema, ficam estressados após cada culto. Algumas pessoas preferem ficar em casa e assistir o culto por meio da internet, onde podem ouvir os pregadores e cantores num nível aceitável de decibéis.

A Organização Mundial de Saúde, na década de 90, fixou limites de tolerância: 70 decibéis nas zonas centrais das cidades, para que os seus habitantes possam atingir mais de 70 anos de idade tendo a audição preservada; atualmente, aquele limite foi baixado para 65 decibéis. O efeito (problemas auditivos) dependerá do nível de ruído e do tempo de exposição.

A poluição sonora é disciplinada pela lei federal no. 6.938.

No Congresso Batista, realizado no Rio de Janeiro, em 1993, houve muitas queixas contra o volume sonoro: dor de ouvido, zumbidos, vertigens, dor de cabeça, náuseas, pressão arterial elevada, distonia neuro-vegetativa etc. (ver: OJB, 14 de março 1993). Os responsáveis pela sonorização não tomaram a menor providência. Em 2013, em Brasília, a estridência dos instrumentos prejudicou o concerto da OCBRASS na Igreja Memorial (ver: OJB, 02 de março 2014); outra equipe recebeu as queixas com a mesma indiferença.

Há uma espécie de idolatria, inclusive dentro dos templos, que não tem sido combatida pelos dirigentes e ministros de música: a idolatria do barulho, na qual guitarristas, bateristas e percussionistas têm papel importante, incentivados pelos jovens. Que todos saibam: um jovem que ouvir, ou tocar, “música” a 100 decibéis, duas horas por dia, em 10 anos terá perdido 30 por cento de sua capacidade auditiva. À medida que a audição é prejudicada, o jovem tende a aumentar mais o volume da música. No “Rock-in-Rio”, em 1991, os índices chegaram a 150 decibéis. Nos “shows” em certas igrejas, podem acusar 110 decibéis!

Em certos templos, o ambiente é pequeno, mas os instrumentos são acoplados a potentes amplificadores. Em geral, os templos não são construídos com isolamento acústico, por isso contribuem para a poluição ambiental. Quando são multados com base nas posturas municipais, os crentes alegam que estão sendo prejudicados em sua liberdade de culto. A poluição ambiental é um problema de saúde pública.

Nos templos, a indisciplina começa com o excesso deliberado de volume sonoro. Aproveitam os debates da assembleia da igreja para gritar e apupar os outros oradores. Nos cultos, os solistas, coristas, instrumentistas e pregadores – todos querem que suas vozes sejam ampliadas a mais de 90 decibéis.

Cada um está utilizando um canal – para fazer mais barulho. Imagino que ninguém queira assumir a responsabilidade pela danificação dos cérebros e tímpanos, ou pelo desequilíbrio mental e físico dos cultuantes. Seria o caso de disciplinar essas pessoas.

O ministro de música que permite o aumento desmedido do volume sonoro durante o culto (ele é ministro de adoração?), desmerece o canto, desonra o culto, desfigura o texto cantado, desprestigia os cantores, despreza todo o trabalho de instrução e educação musical da igreja.

Alguns coros pretendem lavar os cérebros dos visitantes, mas não se preocupam com o expurgo dos decibéis.

Para a comunicação com a Divindade, alguns regentes e músicos validam os altos volumes de som usados nas casas de espetáculos mundanos. Isto nos faz lembrar do episódio bíblico a respeito do confronto entre o profeta de Israel e os profetas de Baal. Elias zombava deles, dizendo: “Clamai em altas vozes; talvez o vosso deus esteja dormindo” (I Reis 18:27).

Há quem considere Deus um surdo, e pede: “Clamai, para que Ele ouça!”.


Os editores do Música Sacra e Adoração agradecem ao autor a disponibilização deste material.


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