A Opressão de Ser “Livre Para Adorar”

A Forma da Adoração — 12 de setembro de 2014 9:02 pm

por: Andrew McAlister

Creio que o diabo tem grande interesse em monopolizar três elementos: barulho, pressa e multidões… Satanás está bem ciente do poder do silêncio. – Jim Elliot

Há alguns anos, surgiu no cenário gospel uma música que dizia: “In the secret, in the quiet place… in the stillness you are there…” (algo tipo: “No lugar secreto, no lugar silencioso… na tranquilidade Tu estás…”). A música foi traduzida e cantada em milhões de cultos ao redor do Brasil (Eu te busco, te procuro, ó, Deus… no silêncio Tu estás). Na tradução, essa primeira frase acabou sendo modificada. Até curti e toquei bastante essa música, mas como todo sucesso do mercado gospel que acha seu espaço nas nossas igrejas, logo veio um novo sucesso que tomou o seu lugar e essa foi descartada. Mas tinha sempre uma coisa que eu achava cômico, no mínimo. Era justamente a frase “no silêncio Tu estás…”.

A música afirma que Deus está no silêncio. No refrão, logo depois, ela diz “quero ouvir tua voz…”. Ok, isso seria coerente, não fosse um pequeno detalhe. Quando o verso acaba, a música cresce e explode no refrão, um pop rock BEM acelerado. Não foram poucas vezes em que estive num período de louvor em que bem antes de entrar o refrão, o dirigente gritava umas cinco frases em cinco segundos do tipo: “Agora-levante-e-cante-bem-alto-para-o-Senhor-com-toda-a sua-força-e-tire-o-pé-do-chão-Aleluiaaaaaaaaaa!!!!!”

Mas… não era no silêncio que Ele estava?

Não foram poucas as vezes em que passei por um constrangimento em cultos jovens. Na hora de começar o louvor, o ministério puxa dois ou três versículos picotados de dois ou três Salmos diferentes. Em seguida ele faz uma pequena pregação temática sobre a alegria e a importância de não se calar na adoração. Depois disso ele pede logo que a congregação dê um “glória a Deus” em alto e bom som. Afinal, Deus o merece. Logo após, pede uma salva de palmas. Quando ela é fraca, faz uma chantagem emocional com a gente com algo tipo “nosso Deus não merece mais que isso?”, e então todos, constrangidos, batem palmas mais alto enquanto o dirigente vomita umas frases feitas do tipo “Você é livre do poder do pecado, do poder das trevas, você é livre! Então pule, grite e cante na presença do Pai! Aleluiaaaaaaa!!!!” Baterista dá a contagem, guitarra começa um riff com a distorção pesada e, em alguns casos, as luzes são apagadas para dar clima. Aí começa o pula-pula e corre-corre e gritaria. Se for em retiro então, piora tudo. As cadeiras voam e alguém puxa logo um trenzinho que dá voltas no salão. Afinal, somos livres!

Nessa hora eu estou no canto de pé agarrando o encosto da cadeira ou banco da frente. Geralmente fico bem tenso nesse tipo de ambiente. O volume é alto e eu não gosto. Depois de um tempo já tem gente olhando esquisito para mim como se eu fosse um E.T.. Aí, para piorar, o dirigente manda algo do tipo: “Você aí que está parado, calado e triste, não deixe esse sentimento tomar conta do seu coração e lhe roubar a chance de louvar! Então pule e seja feliz!”

Bem… a essa altura do campeonato, não preciso me preocupar com isso, pois o dirigente bem intencionado já me roubou tanto a liberdade de ficar quieto quanto a chance de louvar de maneira mais modesta. Abaixo a cabeça e fecho os olhos para não ter que encarar ninguém até que a música finalmente pare.

Basicamente, somos orientados e praticamente obrigados a exercer a nossa liberdade de louvor. É uma expressão de liberdade tirânica, pois ela não permite uma outra expressão, senão aquela, somente. Ironicamente, criamos toda uma categoria de músicas mais calmas a serem cantadas em dia de ceia, afinal, a ceia é um momento mais sério, né?

Não quero, com esse texto, dizer que o louvor mais exaltado e animado seja pecaminoso. Nada disso. Como baterista, conheço bem as dinâmicas de um período de louvor e sei que há momentos em que há uma genuína expressão de alegria por parte do povo que deve ser acompanhada de uma música mais alegre e festiva. Tente imaginar um culto de domingo de páscoa que não seja carregado de alegria. Eu pelo menos não consigo fazê-lo. Há quem prefira um culto extremamente formal. Se você assim o preferir, então glória a Deus!

A minha crítica, a minha birra, se refere à opressão dessa suposta “liberdade de louvor”, que de livre não tem nada. Por meio dela, milhares de jovens são doutrinados a fazerem o máximo de barulho possível. Quer fazer barulho? Ótimo! Ele só não pode vir a custo do pensamento, da meditação e do silêncio. Nesses cultos raramente há espaço para o silêncio. Pior, quem escolhe se silenciar geralmente é mal visto. Há muitos anos, participei de um período de louvor em que o dirigente pediu que todos os jovens levantassem uma mão bem alto e que a abrissem e fechassem repetidamente, simbolizando a chuva de bênçãos que o Senhor estaria derramando sobre cada um naquela noite, enquanto o grupo de louvor cantava alguma música que falava de chuva. Eu não o fiz, nem uma boa parte do grupo jovem da minha igreja. Ao final da “chuvinha profética”, o dirigente deu uma palavra sobre aqueles que não “invocaram a bênção” e que estavam impedindo que Deus os abençoasse. No momento do intervalo, uma menina mais nova do nosso grupo chegou para mim com certo desespero e me perguntou: “Andrew, naquela hora de levantar a mão, eu não senti paz de fazer aquilo, então não fiz. Será que eu estou trazendo maldição para a minha vida?”

O que me entristece em relação à histeria coletiva cultivada nos cultos (particularmente os de jovens) é a demonização do silêncio e da solitude, como se esses fossem um sinal de afronta a Deus. Muito pelo contrário, o silêncio, a contrição e a solitude talvez sejam o meio em que mais nos aproximemos de Deus. No livro A grande omissão, Dallas Willard diz o seguinte, justamente num capítulo chamado “Convite à solitude e ao silêncio”:

A solitude e o silêncio são as disciplinas mais radicais da vida espiritual, pois atacam mais diretamente as fontes da infelicidade e do mal humano. Estar sozinho é escolher fazer nada – por longos períodos. É abrir mão de todas as realizações, pois o mundo só deixará de ter domínio sobre nós quando entrarmos na quietude que inclui não ouvir nem falar. Quando buscamos a solitude e o silêncio, paramos até de fazer exigências para Deus. É suficiente saber que Deus é Deus e que nós somos dele. Aprendemos que temos uma alma, que Deus está aqui e que este mundo lhe pertence.

Quando praticamos a solitude e o silêncio adequadamente, aos poucos, esse conhecimento de Deus toma o lugar da hiperatividade frenética e presunção que impelem a maioria dos seres humanos, incluindo os religiosos. Não obstante quem somos, esse conhecimento vai tomando conta de nós.

Ou seja, o que Willard está dizendo é que somente quando nos aquietamos perante Deus é que nos aproximamos dele e nos permitimos ouvi-lo, de fato. Inversamente, ao cultivarmos barulho e hiperatividade, estamos sabotando a nossa percepção de Deus. Fazemos tanto barulho que nem Deus consegue mais falar com a gente.

Na Bíblia, temos inúmeros exemplos disso. Para citar apenas um deles, lembre-se do que Jesus fazia nos momentos mais tensos do seu ministério. Ele se retirava, se aquietava. Ele saía de perto da multidão para poder se silenciar e ouvir melhor a voz de Deus.

E nós não fazemos isso também? Quando queremos conversar com alguém e tem música tocando ou televisão ligada, não abaixamos o volume do rádio ou desligamos a TV para dar mais atenção a ela? Então por que que seria diferente com Deus?

Expressões de alegria, um derramamento de sentimentos do nosso coração são errados perante Deus? De maneira alguma. Há algo de errado em se alegrar na presença do Pai? Claro que não, contanto que essa nossa alegria não atrapalhe a voz Dele. Nosso coração, porém, nos engana. Em contraposição à noção mundana de “paz interior”, não existe em nós silêncio e tranquilidade. Dentro de nós há apenas desejos pecaminosos e uma natureza carnal que milita contra Deus. Logo, eu preciso me silenciar para que Ele fale mais alto. O fato de que hoje em dia só permitido ao jovem “ser livre” enquanto ele está “fora do chão” me assusta muito. O padrão de “louvor bom” hoje em dia não só atrapalha o agir de Deus como agride qualquer um que se opõe a Ele.

Eu quero muito ser livre para adorar a Deus. Quero me ver livre do meu pecado, do barulho que habita em mim. Quero que Deus me livre do grito da carne que insiste em me levar para longe dele. Quero ser livre para me aquietar perante o Pai e dizer: “Agora é o Senhor que vai falar e eu que vou ouvir, somente.”


Fonte: O Blog do Andrew


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