Dirigidos pelo Espírito ou Orientados por Propósitos? – Parte 06

por: Berit Kjos

Esquecendo-se do Temor de Deus

Muito antes de Davi escrever seus preciosos salmos ou de Salomão escrever seus provérbios, Jó sabia o segredo da sabedoria e da amizade com Deus. No meio da mais profunda dor e perda, ele disse:

Eis que o temor do SENHOR é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência.” [Jó 28:28]

O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria.” ecoaram os homens sábios que escreveram o Salmo 111:10 e Provérbios 9:10.

Séculos atrás, o povo rebelde e presunçoso de Deus pensou que poderia seguir suas próprias inclinações sensuais, participar nos rituais de seus vizinhos idólatras e sacrificar suas crianças para ganhar favores pessoais – sem perder o favor e a proteção de Deus. Até mesmo os sacerdotes pensavam que estavam seguindo Seus caminhos. Eles estavam errados. Nosso santo Deus, que é o mesmo ontem, hoje e eternamente, advertiu Seu tolo e presunçoso povo:

Também vos destinareis à espada, e todos vos encurvareis à matança; porquanto chamei, e não respondestes; falei, e não ouvistes; mas fizestes o que era mau aos meus olhos, e escolhestes aquilo em que não tinha prazer.” [Isaías 65:12; ênfase adicionada]

O pastor Warren tem pouco a dizer sobre esse temor a Deus – o fruto abençoado de uma consciência profunda de que Deus é nosso juiz e vingador, assim como também é nosso Pai e é amor. A raiva e ira de Deus não se encaixam no ambiente positivo e agradável aos buscadores da igreja de hoje.

Já que a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, assim como a versão de J. B. Philips, podem ser consideradas traduções ao invés de paráfrases, as diferenças abaixo podem ser menos nítidas. Mesmo assim, elas ilustram uma relutância que muitos líderes cristãos têm em usar a palavra “temor”, quando se referem a Deus. Embora certamente devamos (por meio de Seu espírito) reverenciar nosso santo e todo-poderoso Deus, essa palavra mais “positiva” remove qualquer lembrança sutil (ou desconcertante) de que nosso Pai amável é também um Deus “zeloso” – um juiz inflexível que tem pouca tolerância por nossa “obediência” morna e nosso “louvor” agradável a nós mesmos.

Almeida Corrigida Fiel
Almeida Revista e Corrigida
Nova Versão Internacional
A Bíblia Viva
O segredo do SENHOR é com aqueles que o temem; e ele lhes mostrará a sua aliança.” [Salmos 25:14] O segredo do Senhor é para os que o temem; e ele lhe fará saber o seu concerto.” [Salmos 25:14] O Senhor confia os seus segredos aos que o temem, e os leva a conhecer a sua aliança.” [Salmos 25:14]  “O Senhor é amigo chegado de quem o respeita e lhe obedece.” [Salmos 25:14a]

 

Almeida Corrigida Fiel
Almeida Revista e Corrigida
Nova Versão Internacional
Bíblia na Linguagem de Hoje (versão em Inglês)
O SENHOR se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia.” [Salmos 147:11] O Senhor agrada-se dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia.” [Salmos 147:11] O Senhor se agrada dos que o temem, dos que colocam sua esperança no seu amor leal.” [Salmos 147:11] Ele tem prazer naqueles que o honram; naqueles que confiam em seu constante amor.” [Salmos 147:11(tradução livre)]

Em outras palavras, “temor” choca-se com a atual tentativa de mercadejar Deus para as massas pós-modernas. Em menor grau, também as palavras “justo” e “misericordioso”. Ambas, lembram-nos de nossos pecados e inadequação. Elas nos trazem a desconfortante sugestão de que Deus é de fato “mais santo do que tu” – uma noção muito desagradável para aqueles que preferem acreditar que Deus é e pensa como eles mesmos.

Ao invés disso, o pastor Warren nos apresenta um Deus mais agradável – um Pai sorridente, semelhante aos pais permissivos atuais, em vez do justo e misericordioso Deus da Bíblia. Se você faz parte da família de Deus ou não, Warren fala confusas meias-verdades que nos asseguram que:

  • “No instante em que você nasceu neste mundo, Deus estava lá como testemunha invisível, sorrindo ao assistir seu nascimento. Ele quis que você vivesse e sua chegada lhe deu enorme prazer.” [1, p. 57]
  • “Você é um filho de Deus e proporciona prazer ao coração dele como nada mais que ele já tenha criado. A Bíblia diz: “Deus já havia resolvido que nos tornaria seus filhos, por meio de Jesus Cristo, pois este era o seu prazer e a sua vontade.” [1, p. 57]
  • “Na verdade, Deus gosta de atentar para cada detalhe de sua vida, esteja você trabalhando, brincando, descansando ou comendo.” [1 p. 66]

Você já está se sentindo bem consigo mesmo? Você se sente confortável diante de seu santo Deus? Talvez estejamos nos sentindo confortáveis demais. Pode ser que nosso santo Deus não “goste de atentar para cada detalhe” de nossas vidas. Embora Sua Palavra nos assegure de que Ele se regozija em nós quando confiamos Nele e O seguimos, ela também nos mostra que Ele se entristece com nossas escolhas tolas. E se realmente somos “nascidos de novo” de Seu Espírito, nos entristeceríamos com Ele cada vez que obedecermos nossas próprias concupiscências em vez de Sua Palavra! Nós nos arrependeríamos – voltaríamos e correríamos de volta aos Seus braços!

Sim, Ele espera por nós. Sim, nosso paciente e misericordioso Senhor continua a nos amar profunda e eternamente. Sim, em Cristo, todos os nossos pecados foram cravados na cruz. Mas Ele não minimiza nossa rebelião natural, como fazemos. Em vez disso, Ele nos diz: “Operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” [Filipenses 2:12-13]

O Novo Testamento traz algumas sóbrias advertências sobre um lado de Deus que freqüentemente preferimos esquecer. Lembre-se da história de Ananias e Safira. Eles faziam parte da comunidade na igreja primitiva, onde as pessoas dividiam seus pertences umas com as outras. Você provavelmente se lembra da história:

Mas um certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade, e reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos. Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? … Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos

E, passando um espaço quase de três horas, entrou também sua mulher, não sabendo o que havia acontecido. E disse-lhe Pedro: Dize-me, vendestes por tanto aquela herdade? E ela disse: Sim, por tanto. Então Pedro lhe disse: Por que é que entre vós vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e também te levarão a ti. E logo caiu aos seus pés, e expirou. E, entrando os moços, acharam-na morta, e a sepultaram junto de seu marido. E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas.

E muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo … Dos outros, porém, ninguém ousava ajuntar-se a eles; mas o povo tinha-os em grande estima. E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia cada vez mais.” [Atos 5:1-4; ênfase adicionada]

Deus não hesitou em julgar um pecado que facilmente teríamos tolerado. Afinal de contas, Ananias fez uma contribuição generosa para a igreja, não fez?

Mas o padrão de Deus para a santidade entre Seu povo é muito mais elevado do que o que somos levados a acreditar em nossas igrejas. Ele quer um corpo purificado, uma noiva santa – lavada e limpa pelo Seu sangue derramado. Cultos para buscadores que trazem o mundo para Seus locais sagrados flexibilizam Seus propósitos revelados. Assim como as amizades baseadas no consenso entre crentes e incrédulos, entre Sua pureza e a vulgaridade do mundo.

Na igreja primitiva, o juízo de Deus (acima) espalhou “grande temor”. A comunidade ao redor mostrou dois tipos de respostas típicas. Enquanto o “povo tinha-os em grande estima”, apenas aqueles a quem Deus estava trazendo a Si foram acrescentados à igreja. “Dos outros, porém, ninguém ousava ajuntar-se a eles.” Isso não se assemelha em nada com as atuais estratégias de marketing, não é?

O problema não é que o pastor Warren tenha deixado de lado “o temor de Deus”. Ele não poderia ensinar todas as instruções de Deus em um único livro. O problema é a falta de equilíbrio. Enfatizando a alegria de Deus “para cada detalhe de sua vida” durante todo o livro, ao mesmo tempo em que raramente menciona a ira de Deus, Seu santo padrão ou julgamento, ele virtualmente nega a parte menos confortante da natureza de Deus. [2]

Embora o amor de Deus seja incondicional, Suas promessas não são. A maioria está ligada – freqüentemente na mesma passagem em que aparecem – a especificações e condições para seu cumprimento. Mas essas condições e instruções são geralmente deixadas de fora. Da forma que são apresentadas no livro, muitas promessas de Deus para aqueles que – por Sua graça e Espírito – O seguem, se tornam, ao invés disto, universais e incondicionais afirmativas para todos os que lêem o livro. Não há necessidade de se entristecer pelos nossos pecados, de tremer diante de Sua Palavra, ou de arrepender-se de nossa dependência ao emocionalismo contemporâneo, pois todos estão bem diante daquele que ama a todos “apaixonadamente” da maneira como somos.

Mas Deus nos chama a conhecer e seguir Seus caminhos, não os nossos – a negar-nos a nós mesmos e mortificar a natureza carnal. Em nossa fraqueza, Ele nos capacitará! Nosso objetivo deve ser Seu objetivo: sermos santos como Ele é santo. O pastor Warren afirma essa verdade, mas suavizando a revelação de Deus sobre Si mesmo e sobre Seus caminhos, ele distorce nosso entendimento sobre a santidade. Trivializando a autoridade da Palavra de Deus, ele desvia nossa compreensão do elevado padrão de Deus para nossas vidas Nele. Finalmente, quando cita (de várias formas diferentes) as promessas de Deus, ao mesmo tempo em que ignora Suas advertências, ele cria presunção e não uma fé obediente e genuína. Muitos leitores provavelmente nem irão saber o que obedecer!

Eles não encontrarão respostas quando se voltarem para as questões para discussão no fim do livro. Essas questões foram criadas para se encaixarem ao processo do consenso da atualidade. Esse processo para conformar os indivíduos às visões do grupo, envolve instruções como:

  • Não ofenda ninguém tomando uma posição inflexível para com a verdade ou fatos.
  • Não use expressões como “eu sei” ou “eu creio”. Ao invés disso, use expressões como “eu acho” ou “eu sinto” ,que mostram sua prontidão em flexibilizar e desviar suas visões para correspondam ao consenso do grupo. [Veja Twisting Truth by Group Consensus]
  • Demonstre respeito e apreço por todas as posições, mesmo por aquelas que entram em contradição com a Bíblia.

A maioria das questões se encaixa nesse padrão. Subjetivas e abertas, elas evocam opiniões baseadas em sentimentos, não nas verdades bíblicas. Algumas das questões implicam respostas que se encaixam mais nos ideais comunitários da atualidade do que na verdade.

Como esperado, as duas primeiras perguntas começam com “Na sua opinião…” e “O que você sente…” Nenhuma delas coloca a Bíblia como ponto de referência. Nenhuma delas encoraja o leitor a buscar respostas que venham da Palavra de Deus.

O resultado natural desse diálogo confortável e baseado em relacionamentos é uma síntese grupal de várias opiniões. No fim, todos se sentem bem consigo mesmos, uns com os outros e com Deus – não importando a maneira como Ele pode ser representado. Nenhum preço a pagar, nenhuma negação de si mesmo, nenhuma separação, nenhuma ofensa! O cristianismo pós-moderno se encaixa perfeitamente no sistema mundial em transformação. (Esse processo baseado em relacionamentos será discutido em mais profundidade nas partes seguintes deste estudo.)

Lembre-se, os caminhos de Deus não são os nossos caminhos! Ele é o soberano rei do universo! Para conhecê-Lo e seguí-Lo, precisamos encher nossas mentes com Sua verdadeira Palavra, não com interpretações populares ou afirmações grupais de pensamento positivo.

Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. … Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras…” [João 14:21-24]


Notas

1. Rick Warren, Uma Vida com Propósito, Editora Vida.

2. O pastor Warren menciona a ira de Deus na página 201, mas sem uma explicação prévia sobre o que poderia ser considerado “pecaminoso”. Ao contrário, a referência à “ira” encaixa-se no contexto relacional sobre o “serviço” e “servir aos outros” – um mandamento bíblico que está agora sendo ajustado ao conceito global de serviço comunitário e “aprendizado comunitário”. Esse tipo de “serviço” organizado concentra-se nas necessidades sentidas e no diálogo, e freqüentemente exclui as necessidades verdadeiramente espirituais e a verdade bíblica. Isso será explicado mais detalhadamente na Parte 2.


Fonte: A Espada do Espírito

Tradução: Maria Stella Tupynambá


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