A Voz na Música Sacra

por: Joêzer Mendonça

Há um tipo de voz conhecido como “voz pequena” que define tanto a incapacidade de cantar em alto volume quanto a atitude consciente de cantar com economia de recursos vocais. Vou tratar aqui do segundo quesito.

(…) Os cantores evangélicos não inventaram nenhum modo de cantar. Ao mesmo tempo em que suas interpretações estão fundamentadas em sua própria concepção do que seria a voz ideal para determinado estilo musical, essas interpretações também estão calcadas quase inevitavelmente nas performances dos cantores seculares.

No Brasil, quais são os modos de performance que influenciam os cantores evangélicos?

Desde os anos 90, a forte penetração da música pop no meio evangélico diversificou tanto os gêneros musicais quanto os estilos de performance. (…) Fique entendido também que os cantores que apresentam forte contraste de performance vocal entre si não são superiores uns aos outros, embora possamos ter preferência pessoal por este ou aquele. A personalidade de cada cantor, a percepção das exigências de cada canção e gênero musical, os registros de extensão de cada voz (se soprano, mezzo ou contralto, se tenor ou barítono), tudo isso faz parte da diversidade natural dos grupos religiosos.

Por outro lado, é difícil negar que há momentos (nos cultos, por exemplo) que demandam uma forma mais contida de cantar e que o canto excessivamente teatral sobrecarrega a canção, a qual, geralmente, já apresenta elementos dramáticos na letra e na melodia. A atenção da congregação acaba sendo dirigida ao gestual, às expressões faciais exageradas, ao maneirismo vocal. Há cantores que precisam aprender que, também na adoração, menos é mais.

Uma referência de muitos admiradores da voz são as cantoras norte-americanas. Não as cantoras do jazz, mas as estrelas do pop radiofônico. As musas do momento são (…) os rouxinóis inspiradores da filosofia American Idol: grito, logo existo. As divas do american brega motivam os e as concorrentes dos programas televisivos de cantoria de anônimos.

Por mais divertidos que possam ser tais programas, e até mesmo reveladores de talentos genuínos, a insistência na fórmula agudo-melismático-meloso gera clones que satisfazem a audiência, mas produzem o mal do novo século: o maneirismo melodramático. As novas gerações de espectadores acostumaram-se a tal ponto com esse modo de cantar que chegam a renegar os cantores que apresentam uma forma contida de interpretar.

Como já ressaltei, não quero dizer que só exista uma forma de cantar. No entanto, quando os fãs de música gospel assoviam e entram em histeria coletiva na hora em que seus cantores prediletos dão seus gritinhos apaixonados-por-Jesus, não seria hora de repensar o quanto a interpretação excessivamente teatralizada tem contribuído para estimular um comportamento cada vez mais semelhante ao das plateias de espetáculos pop? Ou estariam as novas congregações criando expectativas de performance sacra com base em sua escuta de ídolos da música pop?


Fonte: Nota na Pauta