A Quem Estamos Servindo?

por: Pr. Rui Luis Rodrigues

Atos 13:2“E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.”

Desde princípios da década de 1980, a Igreja brasileira, em praticamente todos os seus segmentos, começou a experimentar uma mudança intensa na área que se convencionou chamar de “adoração”. Por influência de alguns fortes moveres do Espírito Santo, passamos a redescobrir o significado da adoração e o papel da reunião congregacional como um momento importante para expressarmos o nosso amor por Deus. Através de alguns homens e mulheres de Deus com habilidades musicais, que se aventuraram ousadamente no meio fonográfico, essa influência alastrou-se por quase todas as congregações em nosso país.

Infelizmente, essa influência terminou antes que pudesse ser concluída uma obra de reforma na visão da Igreja brasileira como um todo. A prova mais forte disso é que, em termos práticos, adoração ainda permanece como um conceito fortemente vinculado à música. Entre em qualquer loja de CD?s e você encontrará a expressão “louvor e adoração” designando um estilo musical. Para a maioria das pessoas, seria um absurdo falar em adoração num contexto onde faltassem músicos, cantores, instrumentos, etc.

No texto que citamos acima, a palavra servindo (grego leiturgeo, de onde procede a palavra liturgia) poderia ser traduzida como “adorando”. É assim que a Nova Versão Internacional, uma das melhores versões modernas do Novo Testamento, a traduz. No entanto, não encontramos no texto qualquer referência específica à música. Além disso, se a palavra leiturgeo pode ser traduzida tanto como “servir”, “ministrar” (como diz outra versão) quanto adorar, será que não existe nisso um ensino sobre o significado da adoração que está passando desapercebido aos cristãos da musical Igreja brasileira de fins do século XX?

Num dos seus aspectos centrais, adorar significa servir. Você já deve ter experimentado receber alguém querido em sua casa, a quem você passou a servir. Nesse contexto, qual foi seu comportamento? Não foi o de instalar confortavelmente o convidado, procurando oferecer a ele o que você tinha de melhor, perguntando pelos seus gostos e necessidades? Você não ofereceu a ele um banho, não perguntou se ele tinha sede, não providenciou uma refeição? Ao saber que o time dele estava jogando uma partida decisiva, você pediu ao seu filho que parasse de brincar com o videogame, para que o hóspede pudesse assistir ao jogo, apesar de não ser o seu time.

Aquele a quem servimos ocupa o centro das nossas atenções. Nossa preocupação é com o seu bem-estar, com seu conforto, com aquilo que o agrada. Pois bem, este parece ser o elemento mais ausente naquilo que convencionamos chamar de adoração!

Nesse texto de Atos, vemos um grupo de homens ocupados em servir ao Senhor. Estavam diante dEle, preocupados com Ele, perguntando pelas Suas necessidades; nesse contexto, é de se espantar que o Senhor fale? Claro que não! Ele falou porque tinha gente ali com o coração nEle, prestando atenção!

Precisamos sondar nossos corações. Quanto da nossa “adoração” tem enfocado não o Senhor e suas necessidades, mas nossos gostos e preferências? Pensando em termos de reunião congregacional, quantas vezes aquilo que chamamos de um “tremendo período de adoração” não passou de um momento em que nossa alma foi “massageada” pelos cânticos de que mais gostamos? Cheque sua atitude: e quando os cânticos não são os que você gosta?

Antigamente, quando nosso entendimento sobre adoração era ainda muito limitado, nós cantávamos para os pecadores. Eles eram o centro de nosso culto. Paramos com isso, mudamos letras e melodias, mas será que o homem não continua ocupando o centro de nossos cultos? Não cantamos mais para os pecadores, mas cantamos para nós mesmos.

Quanto do entusiasmo que você demonstra na adoração é despertado pela visão do Senhor que está inundando o seu espírito? Ou será que é a performance do músico que desperta seus gritos de júbilo? Precisamos aprender a diferenciar essas coisas, porque o Senhor nos destinou para um relacionamento exclusivo com Ele, e Ele não está disposto a dividir com outras coisas a atenção que deveria receber de nós! A música é um importante veículo para nos conduzir à adoração.

A música nasceu em Deus e, como a imagem de Deus está reproduzida em nós, somos criaturas musicais. Mas precisamos parar de confundir os fins com os meios. Atualmente, perdemos de vista o fim principal porque nos encantamos demais com os meios.

Se vamos passar a considerar a música como aquilo que ela realmente é, um meio para uma finalidade muito mais superior e gloriosa, então alguns critérios têm que ser mudados. Para o que diz respeito a nós, ao uso que fazemos, como Igreja, da música, o bom músico não é o que chama atenção para si, mas o que passa desapercebido. Como exemplo, veja o telefone. Ele é um meio de comunicação, não uma finalidade em si mesmo. Quando você consegue fazer uma boa ligação, bem audível, é quase certo que você desligará o telefone sem sequer pensar: “Que perfeita ligação! Como o som estava claro!” O telefone apenas cumpriu seu papel, você falou com quem queria, e ponto final.

Não precisamos de artistas no meio da Igreja. Precisamos de pessoas que cumpram seu papel e que, uma vez feito isso, desapareçam do cenário para que o Senhor receba toda a glória. Será que não podemos voltar a uma visão da adoração que nos leve a enfocar prioritariamente o Senhor e aquilo que diz respeito a Ele?

Será que tanto as nossas reuniões como os nossos momentos individuais com o Senhor não podem ser novamente marcados por aquele derramar de coração que caracteriza a adoração verdadeira? Estar diante do Senhor, esquecidos do resto, aninhados nos braços dEle, perguntando o que Ele precisa, qual a Sua vontade, servindo a Ele ? talvez seja para este nível de adoração que o Senhor esteja nos chamando neste tempo.

Deixe-me terminar com um fato verídico que me foi contado recentemente e que, literalmente, adoçou meu coração. Cerca de dez anos atrás, na época em que começavam a surgir os “megaeventos gospel”, uma grande multidão estava reunida no Rio de Janeiro para um desses acontecimentos. Uma “banda” estava se apresentando, acompanhada de toda a parafernália técnica disponível na época, mas, nas palavras da minha testemunha ocular, “nada estava acontecendo”. Apenas um “show”. Aliás, essa palavra vem do inglês ?to show?, que significa “mostrar”, e aí está o galardão de quem faz “show”: é visto, e pronto.

Pois bem, nada aconteceu no “show” da “banda”; depois que ela saiu do palco, contudo, apareceu ali em cima um sujeito com um violão de seis cordas. Deu duas dedilhadas no violão, e o Espírito Santo caiu sobre o auditório. Gente quebrantada, chorando, entoando cânticos espirituais, profetizando. Os olhos daquela audiência foram tirados do homem e suas habilidades, e focalizados no Senhor e Sua glória. Precisamos de um “cântico novo” no meio da Igreja. Não se trata de música, mas de atitude.

Estamos tornando a cometer erros que já foram cometidos anteriormente, sob outras formas, e precisamos nos arrepender disso. Talvez o “cântico novo” só chegue depois que aprendermos a chorar lágrimas de arrependimento.

Joel 2:17“Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor [este somos todos nós], entre o pórtico e o altar [o lugar espiritual da adoração], e orem: Poupa o teu povo, ó Senhor, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que hão de dizer entre os povos: Onde está o seu Deus?”.