Pecado Original

por: Marco Aurelio Brasil Lima

Assim como para a ciência que expulsou Deus é um mistério a questão do surgimento da primeira partícula de matéria, para nós que cremos na existência de um Deus eterno, Todo Poderoso e cujo caráter é a quintessência do amor, é um mistério imaginar como surgiu a corrupção no universo perfeito que Ele criou. Nossa realidade é corrupta por natureza e por isso temos dificuldades para imaginar algo criado perfeito, sem vazio existencial, sem a dor da separação do Criador, sem desejos tão fortes quanto indefiníveis e sem problemas de comunicação e de relacionamento pode ter gestado a rebelião. A encarnação do mal, o autor do primeiro pecado – o verdadeiro pecado original – é uma das personagens mais controversas que existem.

Recentemente o professor emérito da Universidade da  California Henry Ansgar Kelly publicou um livro defendendo a idéia de que Satanás na verdade é um agente secreto do próprio Deus, incumbido de nos testar. É uma teoria bem ao gosto pós-moderno, onde ninguém é totalmente bom nem totalmente mau (ele não é tão mau, já que está a serviço de Deus, e Deus não é tão bom, já que resolve ficar botando a gente à prova o tempo todo…). Falar em um grande conflito entre bem e mal hoje em dia soa simplório. Entretanto, a Bíblia é clara em afirmá-lo e, entre os sabores da inteligência dos homens e o que ela diz, fico com as Escrituras fácil.

A Bíblia fala pouco de Satanás. Ela prefere se demorar no Salvador e é uma pena que algumas igrejas de hoje não façam o mesmo, demonstrando ter idéia fixa no Inimigo. A Bíblia, na realidade, trata quase que exclusivamente do problema da raça humana com o pecado e de como Deus resolveu, resolve e resolverá definitivamente esse problema, mas de quando em quando ela dá umas furtivas e ligeiras abridelas de cortina para que a gente possa ver algo que está além dessa realidade. Numa delas, o profeta Isaías proclama um oráculo contra o rei da Babilônia. Entretanto, o contexto nos permite ver que está-se falando é de outra pessoa: “Como você caiu do céu, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! Você, que dizia no seu coração: `subirei aos Céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus… Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo” (Isaías 14:12-14).

Através dessa pequena frincha aberta para a realidade espiritual e para o que aconteceu antes da criação deste mundo, podemos extrair algumas conclusões importantes. A primeira delas é que, diferentemente do que alguns pensam, Satanás não quis usurpar o trono de Deus nem ser maior que Ele. Seu intento era ser “semelhante ao Altíssimo” (conforme a versão Almeida). Isso está mais adequado a um ser inteligente como ele era. Estar em pé de igualdade com Deus significava ser adorado. Quando Satanás desenvolveu uma idéia exacerbada de sua própria grandeza e alimentou a idéia de que merecia e poderia ter mais do que Deus lhe havia designado ter, começou a acalentar o desejo de ser adorado pelas outras criaturas. Por aí inferimos o grande argumento de sua rebelião: como poderiam as criaturas ser livres se só tinham uma única opção de adoração? Ele se colocou perante os anjos como a alternativa natural para essa situação.

Mas Deus exigia adoração não por edonismo, mas porque Ele merecia ser adorado. Ainda hoje, só Ele merece adoração. No seio do pecado original está essa importante questão: a quem você adora? De que lado desse conflito entre o bem e o mal você se posiciona? Se não adora a Deus em espírito e em entendimento, quem ganhou você foi o Inimigo.