A Batalha Cósmica pela Forma e a “Dupla Restauração”

por: Pr. Douglas Reis

Quando era criança (há mais de vinte anos), eu passeava com minha mãe em uma praça e lhe perguntei: “Mãe, o que Deus acha de o nome dEle ser usado em músicas?” Na ocasião, minha mente infantil pensava nas músicas populares que se referem a Deus (de fato, letristas da MPB citam “Deus”, “Jesus” e demais elementos cristãos efusivamente).

A indagação que fiz na época lida, de certa forma, com uma questão cara ao Cristianismo contemporâneo: Como adoraremos a Deus? Todas as expressões musicais podem ser empregadas ou apenas determinadas formas estão autorizadas? Se a última pressuposição for correta, então que elementos abalizam um determinado gênero musical cristão?

Abordaremos esses questionamentos nos restringindo à percepção adventista de que se processa uma batalha entre o bem e o mal. Esse conceito fundamental não é de todo exclusivo dos adventistas, mas se encontra de tal modo desenvolvido, dentro de certas peculiaridades, que constitui a doutrina distintiva do Grande Conflito. A intenção deste artigo é oferecer alguns lampejos que se somem às discussões a respeito da adoração no cenário adventista do século 21.

A reivindicação de uma criatura à adoração iniciou o pecado no Céu. Surgia uma batalha que se delongaria por muitos séculos. De um lado, Deus e Seus anjos fiéis; do outro, Satanás e os seres celestes que aderiram a sua rebelião. Essa luta, com todos os seus desdobramentos e consequências para a criação em geral, e para a raça humana, de forma específica, é o que os adventistas compreendem como o Grande Conflito.

O cerne do pecado gravita, portanto, em torno da questão: A quem adoraremos? Para os cristãos, a resposta a essa pergunta parece elementar: somente Deus merece adoração. Emprego o termo “parece” porque a escolha quanto a quem adoraremos envolve a forma – ou seja, como adoraremos. Justamente nesta área, começam a surgir divergências no que toca ao entendimento entre cristãos. Enquanto os protestantes empregam hinos europeus dos séculos 16 ao 19, os pentecostais calcam suas músicas nos gêneros musicais contemporâneos. Igrejas tradicionais dão pouca dimensão para expressões gestuais. Cristãos de igrejas “renovadas” pulam, levantam as mãos, gritam e vibram.

Como distinguir o que está correto, sendo múltiplas as formas de adoração, as quais extrapolam o mensurável? Temos que ver além: ainda estamos vivendo sob o influxo da disputa pela adoração iniciada no Céu. Em seu esforço por desviar a adoração do Deus verdadeiro, Satanás lança mão de uma estratégia geralmente bem-sucedida, a contrafação, que consiste em acrescentar à verdade elementos não-verídicos, enganosos. Em todo caso em que a contrafação obtém êxito, a adoração deixa de focar a Deus e, em Seu lugar, Satanás é adorado.

A única segurança para o homem se acha em receber a instrução divina e de todo o coração executá-la pela fé. Qualquer conceito humano a respeito da adoração se apresenta contaminado por predisposições sociais, geográficas, étnicas, morais e psicológicas. E quando a prática religiosa se vê moldada apenas por esses denominadores, quem adora não tem meios para se certificar de que Deus foi realmente adorado. O discernimento espiritual nos aduzirá à compreensão de que os motivos para a diversidade na adoração não se restringem à cultura (embora ela não deixe de exercer influência sobre a forma da adoração). O contrário equivaleria a relativizar a adoração e nivelar os conceitos divergentes a meras tentativas humanas, confusas e contraditórias. Só é possível verificar a eficácia da adoração por intermédio do cumprimento daquilo que o mesmo Deus estabeleceu. É a Revelação que legitima as formas de adoração.

Na história bíblica, a Revelação era comunicada pelo Senhor ao povo através profetas (Amós 3:7) e conservada pelos sacerdotes. Estes últimos mantinham os rituais sagrados e instruíam o povo no que tange às práticas corretas em diversos âmbitos – jurídico, familiar, médico, social, militar, devocional. Particularmente, no que concerne à adoração, havia especificações claras, compondo um plano congregacional, no qual os sacerdotes eram a peça-chave. Eles liam as palavras dos profetas em público, compunham e/ou ensinavam os hinos cúlticos à congregação, além de realizar as cerimônias no santuário, tipificando o grande plano da salvação elaborado pelo Redentor.

O movimento adventista entende que sua missão envolve um convite mundial à verdadeira adoração (Apocalipse 14:7). Sugiro que o descarrilamento da música religiosa adventista esteja ligado a dois fatores: (1) o abandono da verdade bíblica do ministro da música, sacerdotes assalariados que oficializavam o louvor no santuário, e (2) o abandono do ministro de seu papel como construtor da base conceitual para a adoração adequada. No contexto atual, o ministério adventista carece de atuar no sentido de inserir e fortalecer a visão correta para os adoradores nos últimos tempos.

Disto não se infere que o pastor deva substituir o músico ou controlar arbitrariamente a produção musical; mas deve ele formar a base filosófica, por assim dizer, a fim de que o músico, com o conhecimento técnico, componha, traduza, cante, produza, toque, reja, enfim, apresente música aceitável a Deus. Entretanto, o ideal seria o restabelecimento gradativo do ministro da música (sacerdotes-músicos), abrindo-se espaço para aqueles que possuem conhecimento teológico e musical atuarem. Se ministros se posicionarem e ministros-músicos surgirem, haverá uma dupla restauração. Assim, mudanças positivas no que se refere à forma de culto se realizarão em cada nível organizacional.


Fonte: Publicado originalmente no blog Outra Leitura